quarta-feira, 6 de junho de 2012

Na taverna

       Certa vez, numa noite fria, mas nem por isso menos movimentada, uma roda de amigos, uns cinco ou seis, puseram a caminhar lado a lado, conversando e troçando-se um dos outros pela calçada, num caminho dentre as árvores até uma rua no centro e uma quadra.

       Eis que eles riam, contavam histórias, discutiam versões, mas mais que isso, eles iam ao bar conversar melhor...

       Quando chegam à quadra (eis que nós cosmopolitas da capital chamamos esses agrupamentos de casas dispersos de forma rigorosamente ordenada como por forma de tradição), eles encontram-se com o pequeno barzinho afastado, onde nada tem de atrativo, a não ser a pouco cerveja e a vodka vagabunda.

        Era uma pocilga ali, tinha poucos atrativos e com certeza higiene não era um deles, afinal de contas tinha barata no copo e vômito na mesa, briga ali havia com certeza, embora não fosse tão badalado para isso fosse uma regra incondicional.

       Era frio ali, não havia aquecimento, a unica coisa que os protegia do vento era um toldo que por vezes se via levado pela corrente de ar... Sentaram-se eles ali, numa duas ou três mesas, onde confortavelmente podia se embriagar.

       Correção: Não era confortável ali, as cadeiras eram de plástico barato e o serviço de péssima qualidade:

       — O que vão querer? — Questionou o garçom ranzinza com cara de fuinha.

        — Cerveja

         — Vodka, por favor — Pronunciou-se o rapaz mais silencioso e vazio dos seis.

          — Cinco cervejas e uma dose de vodka. Ok

          — Vodka? A vodka daqui é horrível e cara —Perguntou-lhe um amigo que havia estranhado aquele pedido, não por ele beber vodka, afinal era sua bebida favorita, mas por pedir vodka ali.

          — Sim, vodka, hoje é um dia daqueles.

           — Tá bem então.

            O rapaz que pedira a vodka era com certeza a figura mais alheia aos outros, ele não se comprazia com as brincadeiras, não ria das anedotas e sequer se interessava com o papo de futebol... Não que fosse tímido, ele com certeza não era, fazia discussões acaloradas sobre História, debatia política com ligeira facilidade, e era fluente em numerosos assuntos, consideravam alguns deles, um "gênio", embora na verdade ele não se visse como tanto.

            "Não, mas é que o Fred, isso... Ronaldinho aquilo", a discussão de futebol era acalorada, mas assim pouco interessada, até que um, um dos mais altivos  e nem por isso menos acompanhado na discussão disse:

           — O Ronaldinho é um mercenário!

            O jovem rapaz, vamos tratá-lo com um nome comum, talvez Alan, pois em verdade era o nome dele, entrou pela primeira vez na discussão apenas para ter o prazer de retrucar o amigo e pegá-lo com as calças curtas, era isso que o divertia.

           — Mas não fora você mesmo que há tempos atrás o tratava como R10, que R10 faria isso, faria aquilo, iria ganhar o título e tal?

            —Isso foi antes.
            — Ah, isso foi antes de ele começara a jogar mal. Me diga, conte-me mais como é legal qualificar como mercenário alguém se apenas o interessa quando faz gols?

            O amigo ficou encabulado com essa discussão, Alan era perito em levar essas discussões a um nível pessoal e os seus amigos ao mesmo tempo que riam, tinham certa repulsa por seu estilo de discurso. Ele mesmo tinha repulsa de si, mas era feliz assim.

           — Aqui estão as cinco cervejas e a sua vodka.
          Entregou a cada as suas bebidas, e em seguida recebeu um "obrigado" do jovem Alan, este sabia ser muito cordial com os outros, e essa podemos até cunhar-lhe como qualidade, uma das poucas por sinal.

           O atendente anotou os pedidos numa comanda e saiu rapidamente da mesa.

           — Enfim, Alan, ficou sabendo do que anda acontecendo com a Grécia? A situação tá preta lá — Puxou a conversa o seu amigo ao perceber que havia perdido a discussão.

          — A situação na Grécia é bastante preocupante, bastante difícil, ela é produto da política irresponsável do governo grego que por vários anos pegava empréstimos em somas absurdas e só conseguia pagá-los com dificuldade, afinal de contas a economia grega não tem muitos atrativos por sinal para uma industria nacional e tal... A Grécia é uma economia fraca desde que entrou na União Europeia, e só sobrevive basicamente do turismo, da pesca e da venda de azeite. Não tá fácil pra ela, além disso — Bebeu em um só gole o seu copo de vodka — Os demais países europeus não estão interessados em salvar a Grécia já que têm muito a se preocupara com a sua economia, caso da Alemanha.

           — Mas eu pensei, pelo menos fui ensinado que a União Europeia era uma irmandade em que todos se ajudavam e era felizes — Esse era até um discurso demasiado inocente.

           — Essa história de irmandade de todos se ajudarem é balela, foi propagado pelo neoliberalismo do início dos 2000 animado com a ideia do Euro, como você vê agora, ninguém quer ajudar a Grécia, ela é um peso morto, um fardo, um câncer para União Europeia, e tanto os alemães como os franceses estão mais preocupados com si do que com eles.

           Pensou ele que aquela ideia de multi-diversidade de uma união supranacional era minada rapidamente pela individualidade nacional, ele era bastante a par em discussões teóricas quanto a economia, política, cultura e afins, embora fosse totalmente marxista, não, não totalmente, afinal, ele vinha com um problema teórico com relação à uma atualização de Marx e a questão da ditadura do proletariado, mas não queria ser um novo Bernstein, líder social-democrata da virada do século XIX que achou que tudo devia ser renovado e devia-se partir das eleições, pensador esse bastante criticado por Lenin em 1905, com "O que fazer?".

          Percebe-se bem aí, nesse estudo do discurso, a complexidade desse personagem, uma complexidade tão real, quanto a realidade de sua vida, numa segunda discussão a parte ele foi chamado por seu ouvido meio falho para debater:

          — Greve de alunos? Que mané greve de alunos, aluno tem mais que estudar! — Declarou um segundo amigo, uma figura meio alheia a assuntos de política, se podemos qualificá-la assim, que tinha um estilo muito próprio de ser, usava ao mesmo tempo um boné virado para trás e um jaquetão de couro escuro de roqueiro.

             — Eu concordo, eu acho uma estupidez uma greve de alunos. Nós estamos indo lá para apoiar a dos professores.

            — E quanto a greve dos professores?

             — Eu acredito que tinham meios melhores de se fazer reivindicações, além do mais eu não enxergo nessa greve, senão outra coisa a não ser em busca de melhores salários. É direito deles entrar em greve, mas quando comparamos o salário de um professor universitário de um professor de ensino fundamental vemos um profundo abismo salarial. Se procura-se uma melhoria na educação, pois não seria melhor trabalhar a partir da base? Da educação primária — Pronunciou-se mais uma vez Alan.

              — Tem razão, mas essa greve não vai dar em nada — declarou meio que convencido o seu interlocutor.

               — Verdade seja dita, havia meios melhores para se fazer isso, desde passeatas na Esplanada (dos Ministérios), piquetes, panelaços em frente ao Palácio. Esse tipo de pressão é que dá realmente certo, devíamos copiar o Chile nesse aspecto.

                 —Então você sugere algo igual ao Henrique (um professor) falou na aula: Sair com paus e pedras em direção à Esplanada e dar o golpe na Dilma e instaurar uma Ditadura Comunista na América do Sul? — Entrou na conversa um terceiro amigo, que convenhamos tinha um discurso um tanto direitista.
                 — Não, não era bem isso, mas confesso  que não me sentiria mal se isso viesse a acontecer;
                 — Alan, você é um visionário! Isso nunca ia dar certo!
                 — Deu certo uma vez, pode dar certo de novo.

                Mas ele próprio não desejava uma ditadura, a palavra Ditadura lhe impregnava como um fardo nefasto nos ossos, ele não queria isso, ele desejava uma Democracia Socialista, que ele realmente ele acreditava ser diferente de social-democracia, onde o indivíduo era valorizado, tinha garantidas as suas liberdades, mas tinha garantida a sua justiça. Ele não queria uma União Soviética, a não ser talvez no período entre o fim da Guerra Civil até o fim do mandato de Lênin, onde havia ali com certeza uma liberdade nunca antes vista. Admirava ele Lênin, mas ele não queria repetir os erros da Revolução, queria algo mais livre que a Iugoslávia, e debatia-se ele os dias, como se fosse um líder um governante, um meio em que se houvesse liberdade, justiça, igualdade social, fim da corrupção, dos grandes monopólios, algo que resolvesse os problemas agrários de sua nação, até as grandes questões de âmbito mundial. Sim, ele era um visionário, mas um visionário que tinha agora crises de consciência.


               A discussão prosseguiu-se de maneira cada vez mais irredutível, regada a bebida, mais e mais tornava-se acalorada, até que num dado momento os dois concordaram que aquilo não ia dar em nada.

              Eis que discutiram-se cada vez menos sobre política, e sobre questões mais triviais sobre filmes, cinema, música, jogos, até que por fim alguém tocou num assunto bastante evitado: O feriado.

            O feriado seria Dia dos Namorados, e tal como esse dia costuma ser para os desafortunados, era com certeza um dos mais tristes do ano, havia apenas um ali que tinha conseguido uma namorada.

            — É dia dos namorados! Que belo dia seria — Declarou um com uma voz baixa, quase melancólica.

             — É seria um belo dia.

             Eis que Alan manteve-se silencioso quanto a esse assunto, aquilo não lhe cabia, tinha ele uma máscara de pessoa insensível e gostava de mantê-la em pé, preferia não pensar naquilo pois triste lembrança batia-lhe no coração.

              Ficou os seis parados, olhando cada um para si, quando de repente uma lágrima brotou do rosto do mais infeliz de todos, e como num assombro todos olharam atenciosamente para aquele indivíduo, sem acreditar:

             — Alan, você está chorando?
            — Não, não é nada.
            Julgaram alguns que fosse a bebida, mas forte era ele para saber-se que não era pela bebida, ele bebia quantidades por vezes absurdas e nem por isso aquilo ocorria, ele sabia que aquilo não era bebida, era outra coisa...

              — É a Bia, eu, eu a amo! Mas ela me odeia, eu desde o primeiro dia em que a vi me interessei por ela, acreditem em mim ou não, mas eu não acredito em amor a primeira vista.

               — A Bia, justo a Bia?

               — Eu também achei estranho isso, mas de uns tempos para cá venho pensando cada vez nela, um dia eu me peguei pensando nela, pensando em como seria... Aí eu percebi que estava apaixonado. Maldição! Eu não queria! Eu juro que não queria.

                Caíram-se mais lágrimas do rosto do jovem rapaz e logo ele entendia porque era assim, porque era daquele jeito. Ele se sentia vazio e tinha repulsa de si, ele era alheio a todos por desinteresse, mas ele próprio era desinteressante, ele era morto por dentro e nada havia ali, e de um jeito estranho tentava exprimir sua frieza com os outros, esse era o seu significado da sua vida, sofrer. Empalideceu-se, fechou-se por inteiro, enxugou as lágrimas e foi ao caixa pagar.

            "A Bia, justo a Bia?", essa era a pergunta geral dos que estavam na mesa. Eles estavam assombrados por dois motivos: 1) Alan tinha dado mostras de suas emoções, coisa que nunca fazia e até condenava se fizesse; 2) Ele tinha se apaixonado por uma pessoa que eles não imaginariam.

             Alan também tinha se pego nessa questão, embora os outros dissessem que não, achava a Bia bonita, embora vissem os outros com maus olhos a grosseria da menina, ele achava atraente aquele jeito de ser que, afinal de contas, era muito semelhante ao seu. Ele sentia-se feliz estando ao lado dela, começava a entender aos poucos aquelas músicas melosas que tocam nos bares, e tinha na sua vida mais lirismo que o costume.

             Com ela, aulas chatas eram divertidas, não havia algo que o deixasse sem humor, estando perto dela, era feliz do seu jeito de ser, mas ainda assim infeliz, infeliz porque tinha a impressão que ela lhe odiava, que ela sentia repulsa dele, e aos poucos se convencia de que era verdade.

             É nisso que a vida do personagem se mistura com a do narrador, e toma nota que essa prosa é apenas um afago para o semblante do jovem eu-lírico, retoma palavras garbosas para esconder enfim a verdade da situação, que ele ama e ainda tem um coração.

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