segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O pequeno homem brasileiro

     Fernando Sampaio morava em Brasília, tinha 45 anos, casado, era branco e tinha cursado a universidade de administração. Ele era um funcionário público tal como muitos outros, trabalhava no Ministério do Planejamento e todos os dias saía de seu apartamento de três quartos na 406 norte.

        O seu carro era um Jeep Renegade branco, de setenta mil reais financiado em 30 meses, um orgulho para todo bairro ao exibir um SUV que ostentosamente andava devagar à cada curva ou semáforo. Não era simplesmente um carro, era um abre-alas de escola de samba, mostrar que um funcionário público também podia se fingir de rico. 

        Todos os dias pela manhã, Fernando saía atrasado para o trabalho, seus filhos pegavam a van para o colégio mais caro de Brasília, mas o próprio pai tinha preguiça de levá-los até a porta da escola e pagava a van. Quando chegava no serviço, sempre que podia, ele manipulava a presença e colocava o horário de entrada uma antes do previsto. Esperto, assim poderia sair mais cedo.

          Maria namorava Fernando desde os seus vinte e poucos anos, quando ele ainda estava casado com Ana Paula, a  mãe dos dois meninos, Ricardo e Miguel. Foi um escândalo? Pelo contrário, Fernando sabia que todos na sua família não iam com a cara de Ana, "uma comunistinha de merda" que ele se engraçou na universidade.

           Lá estava Fernando, ganhando seus 15 mil reais ao mês, pagando trinta prestações de um carro que não podia ter, pagando uma escola que não poderia pagar e economizando na pensão dos dois filhos. Por sinal, eles só foram morar com ele porque ele tomou a guarda "porque a mãe estava pegando o dinheiro para sair com os machos".

         Sampaio era um funcionário medíocre que veio transferido do Paraná, ele não gostava de petistas e achava que todos os políticos eram corruptos. Bem, ele foi nomeado para um cargo comissionado por seu amigo deputado. O Ministério do Planejamento era um suntuoso prédio na Esplanada dos Ministérios, não muito longe do Palácio do Planalto. Vez por outra, entediado, Sampaio jogava aviões de papel em seus colegas de mesa ou, pior ainda, ficava na fila do banheiro esperando ver os rabos de saia que saíam do banheiro feminino.

           — Que coxas deliciosas, Sandra. Anda malhando muito?

           — Cala a boca, Sampaio.

           — Só calo a boca quando eu tomar o chá dessa xo...

           O chefe apareceu e Sampaio fechou o bico, tomou o café e fingiu ter esquecido algo. "Cadê aquela papelada?"

          "Era o projeto de uma barragem no Alto Solimões, será que tinha índio ali? Quantos megawatts? 50? Só cinquenta? Vamos aumentar isso, cadê o menino da Oderbrecht?"

                Ele não sabia nada de engenharia, ele nunca soube o que significava amperagem ou aterramento, e como se gira as turbinas? Turbinas só de avião, afinal ele ia pra praia no próximo feriado prolongado, é um inferno ficar em Brasília...


              Cadê o menino da empreiteira?


              O projeto passava pela reserva xavante, a Funai chiou e falou que não pode matar índio.

              "Índio não é gente, Sampaio. Índio quer ar condicionado, televisão e wi-fi igual todo mundo. Tem que fazer a porra da hidrelétrica".


            —  O Ministério do Meio-Ambiente mandou um relatório pelo Gilberto, a obra vai causar um impacto irreversível no Alto Solimões e nos afluentes.

             — Cala a boca, Sampaio, desde quando você ouve aqueles maconheiros do Greenpeace?

             — Mas Carlos...

             —  A usina vai sair, ordem de cima, do ministro. O menino da Odebrecht já trouxe o projeto, tá todo mundo feliz com isso, inclusive o presidente.

             Sampaio odiava o presidente, ele era um capeta igual todo mundo, um bandido. Mas bem, ele não aguentava a Dilma, uma mulher no poder? Que loucura! "A velha não sabe governar, onde já se viu? Gasolina há quatro reais"

            — O lugar do Lula é na cadeia — disse na roda do café.

            "Cadeia"

             O menino da Oderbrecht depositou os cem mil como ele pediu? Não sabia, ele verificou o saldo do banco e nada. Como vai ser sem esse dinheiro?


            Sampaio estava estressado, foi direto pro banheiro e tirou da carteira o malote com 10 gramas de cocaína. Tinha que espairecer um pouco. Quem sabe o que o Ministério Público poderia fazer se soubesse disso?

          Não ia dar nada, se nem o presidente caiu, imagina se o Janot iria  se importar com cem mil reais? Mas o Janot saiu também. Foi então que riu.



           Alto e chapado, ele voltou como se não tivesse acontecido nada, mesmo que estivesse o pó branco bem debaixo do nariz. Quem disse que precisava ser discreto, se até o chefe dava um tapa na pantera de vez em quando?

              —  Fernando?

              — Oi?
              
              — A sua mulher tá no telefone.

               — Merda!

               Fernando foi para a sua sala e fechou as persianas.

              —  Que foi Maria Eduarda?

              —   Miguel caiu do parquinho, a menina da escola me ligou agora... O que eu faço, Fernando?

               — Estou ocupado, tem um projeto aqui no ministério, não posso responder agora. Resolva isso, sim?

               — Tudo bem, Fernando, é que...

               —  Faz isso, sim? Depois a gente pode sair, quem sabe?

              — Tá bom, Fernando. Eu vou lá. Eu te amo.

              — Eu também te amo.


             "Vaca"

              Desligou o telefone.


              Então Fernando fechou a porta.


              O projeto iria passar, mas agora era hora dele ver sacanagem no horário de trabalho. Com as mãos debaixo da calça ele abriu o Xvideos e procurou um vídeo para se distrair. Pornô no meio do trabalho, ninguém podia falar nada, era a coisa mais comum, isso quando o chefe não pegava as estagiárias.

              Era cinco da tarde, nada tinha sido resolvido. Mas o dinheiro caiu no banco. Fernando foi pra farra. Fechou a sala mais cedo e saiu sem falar nada, o escritório já estava vazio.

             Ele mandou mensagem para Maria, os garotos estavam bem e voltaram pra casa. Cansaço. 

            "Vou tomar aquela cervejinha e meter numa daquelas putas da W3"


              Foi para o Beirute, bebeu umas cinco ou seis long necks  sozinho e às sete e meia foi para a W3 Norte. Na altura da 709 norte, desfilou com o seu Jeep Renegade, dando em cima em qualquer criatura viva que passava. Não tinha pudores, a cidade se transformava em um imenso inferninho na calada da noite.

              Olhou as mulheres sem entusiasmo, ele queria mesmo era sair com as travestis. Cheirou de novo o pó que levava na carteira e bateu no ponto das meninas:

             —  "Quanto pra fazermos um sexo bem gostoso?"

             Ele pechinchou os valores e no final saiu pouco entusiasmado, voltou para casa, bateu na mulher, quebrou os pratos numa discussão e completamente transtornado saiu de novo na noite. O pequeno homem brasileiro no alto de sua arrogância típica da classe média, saiu na calada da noite e virou todas no Fausto e Manuel da 209 norte.  Bêbado, pegou o carro e saiu correndo pela L2 Norte. Estava a 120 por hora quando... VRUM! O carro derrapou numa curva e bateu numa bicicleta e numa árvore. O rastro dos pneus queimados se arrastaram pela pista.
           
             Josias tinha acabado de fazer 18 anos e tinha entrado no vestibular da UnB. Ele tinha sido prensado pelo para-choque do carro, e quando a lanterna começou a se apagar, ele faleceu. Uma morte estúpida, no meio do meio fio e do jardim central. Começou a chover na capital.

             Os bombeiros demoraram para chegar no local, eram três e meia da madrugada. Fernando estava preso nas ferragens, Maria Eduarda foi acordada e com o rosto ainda machucado pelo soco na boca, ela foi até o hospital. Fernando entrou em coma;


               Não havia céu e inferno para Fernando, mesmo ele sendo fiel da Igreja Universal, o dízimo dele não pagou a cirurgia para recolocar as vértebras. Uma pessoa tão ruim em vida, agora era refém do péssimo atendimento do hospital público, ele ficou por três dias no Hospital de Base até que foi transferido para o Hospital Brasília no Lago Sul. O ciclista não teve essa sorte, a família com muita dificuldade conseguiu enterrá-lo numa cova rasa no Campo da Esperança, ele era um menino que tinha vindo do Nordeste em busca de sonhos e Brasília lhe tirou a vida.

               Foram oito meses em coma, Fernando só foi recobrar a consciência no Natal. A essa altura tinha entrado um novo governo e os cortes começaram a mexer com a sua família. O cidadão que dizia que Dilma deveria ser deposta, agora não tinha dinheiro para pagar o tratamento da fisioterapia, teve que conseguir uma vaga na Rede Sarah. Sem o dinheiro da pensão e com o remanejamento do pessoal, Fernando foi afastado do Ministério do Planejamento quando descobriram uma falha na licitação. Sem dinheiro, sem saúde e sem segurança, ele estava desempregado e aleijado, agora andava de cadeira de rodas e era obrigado ainda a pagar as prestações do carro que ele tinha destruído.

              Maria Eduarda o abandonou e voltou para Curitiba, as crianças foram com ela. E sozinho e amargurado, na sua cadeira de rodas, o pequeno cidadão brasileiro olhou para aquele fim.

             — Eu só quero minha família de volta — disse com dificuldade.

             E sem querer, ele culpou a todos pelo seu destino. "A culpa é da Dilma, do PT, e desses comunistas de merda... Levaram tudo o que eu tinha". Mas o verdadeiro fracasso foi ele não ter conseguido cuidar da sua própria família.

               Ele foi para a Igreja, procurou ajuda com os pastores, prometeram-lhe a cura, cirurgias espirituais e tudo que é sorte de tratamento. Nada adiantou, o apartamento na Asa Norte foi tomado pelo banco. Sem ter para onde ir, ele tentou voltar com Maria Eduarda, não deu certo.  Ela estava agora com outro. Foi quando decidiu que iria pedir ajuda para a primeira esposa, Ana Paula, mãe dos meninos.
                  — Sinto muito, Fernando, não posso ajudar. Você já fez muito mal à minha vida, eu não quero que crie problemas à minha família.

               Queria dizer que Fernando não se abateu, e 2018 estava perto. Foi então que ele aproveitou a oportunidade, sendo ele cadeirante, agora poderia usar isso ao seu favor, vagas de deficiente, preferência de atendimento, cargos políticos. Foi então que ele se candidatou a Deputado Distrital e foi eleito pelo PMDB. Reviravoltas à parte,  o nosso pequeno homem brasileiro se tornou um político da bancada da bala, anti-aborto e a favor das Igrejas.


              Bem, até que... Madrugada de 31 de dezembro  de 2018, um navio comemorava o réveillon no Rio Negro, no Amazonas,  um grupo de empresários paulistas e brasilienses se reuniu com alguns políticos  na Amazônia. No cardápio, tucupi, tacacá, robalo assado e açai. Drogas  e mais drogas, além das bebidas, foram trazidas á embarcação 12 menores de idade, entre meninos e meninas da população ribeirinha. As menores tinham sido aliciadas em Manaus por uma cafetina e iriam receber um valor por duas noites.

                Na pororoca do rio, a embarcação virou e o nosso pequeno homem brasileiro virou com a sua cadeira de rodas no Rio Negro, mas foi resgatado pela tripulação do navio. Ao ser identificado, ficou claro que ele estava fazendo turismo sexual com menores de idade, ele manteve relações com duas meninas e um garoto, mas ao invés de ser detido, usou sua imunidade parlamentar. Não deu em nada.

             O pequeno homem brasileiro é hipócrita, corrupto e ganancioso, comete crimes, abusa e pratica o mal, mas ciente que terminará impune, advoga que sempre estará certo porque ele defende os valores da fé contra a doutrinação marxista e homossexual nas escolas. Fernando Sampaio é um personagem fictício, mas não foge da realidade da metade dos municípios brasileiros. O que parece ficção, parafraseando Garcia Marquez, corresponde a um realismo mágico.

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