quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O assassinato de Kirov


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         Serguei Kirov talvez tenha sido um dos entusiastas e políticos mais influentes do Partido Comunista, e se tornou a cerne de um dos maiores mistérios políticos em torno das muralhas de tijolos vermelhos da fortaleza do século XIV chamada Kremlin.


          Jovem, bem apessoado, esse homem de 48 anos de semblante atarracado era um líder popular, carismático e orador público de extrema eficácia. Seu rosto jovem e despojado de pretensões escondia um homem pacato e disponível às necessidades de todos e um vício incansável pelo trabalho. Era um homem do povo que saltava de seu carro para cumprimentar as pessoas na rua e que surgira do interior da Rússia.

           Serguei Mironovich Kostrikov nasceu na pequena cidadezinha de Urezhum em 1996, filhode um pequeno escriturário de pouca relevância. Apesar de suia condição de pobreza, levada pelo alcoolismo de seu pai, Kirov foi forçado a se tornar um homem voltado para os estudos. Quando perdeu sua mãe para a tuberculose, pouco podia fazer senão se arranjar na escola local e conseguir a sorte de ir estudar engenharia mecânica em Kazan. Onde se formou na virada para o novo século. Em 1904 mudou-se para a Sibéria gelada e aborrecida onde começou a militar pelo fervor revolucionário da Revolução de 1905, sendo logo um bolchevique.

             Preso,  dedicou-se à leitura e adorava escrever, isso o fez se tornar posteriormente jornalista de um jornal liberal de Vladikavkaz. Bolchevique, mas não amante do terror revolucionário. Era um apoiador da revolução por acreditar no progresso do socialismo. Envolveu-se com Stálin na guerra civil e essa amizade estranha o levou ser um estandarte da causa bolchevique.

           Popular e jovem, participou da campanha de coletivização do trigo em honra à construção de um novo país industrial e forte (que sem saber estava sob a matuta das botas de cano alto de um Stálin cada vez mais paranóico). Foi chefe do Partido no Azerbaijão e em 1926, após reconfigurações partidárias, se tornou braço direito de Stalin em Petrogrado.

            Kirov aceitou a função com destreza e a amizade com Stálin. Contudo com passar dos anos, já doente e cansado, Kirov desejava caçar e dormir nas barracas de lona no interior ao invés de passar todos os finais de semana nas reuniões intermináveis na datcha de Stalin. O jovem Kirov por vezes queria fugir: "Estou entendiado aqui. Em  nenhum momento posso ter férias tranquilas. Ao diabo com isso".
Kirov e Stalin nos anos 30

           Opositor do terror contra os trabalhadores em prol da realização das mirabolantes cotas dos Planos Quinquenais, Kirov se tornou uma "oposição surda", um foco de resistência ao NKVD. E suas memórias foram esquecidas quando passou a ter que tomar um papel mais proativo em Petrogrado.Após uma plenária do Partido Comunista realizada no dia 28 de novembro de 1934, Stálin acompanhou pessoalmente Kirov até o trem Flecha Vermelha com destino a Leningrado, abraçando-o antes de sua partida. No dia seguinte estava na antiga capital imperial

          Kirov passou a maior parte do dia 1° de dezembro de 1934 em casa preparando um discurso que faria à noite. Telefonou várias vezes para o comitê distrital e para alguns de seus adjuntos antes de telefonar às 16 horas para a garagem, no subsolo do seu apartamento, pedindo um motorista. Planejava passar no Smolny, bastião da Revolução de Outubro, para se preparar antes de seguir para o Palácio Taurida onde faria um discurso à 18 horas.

         Deixou a casa imediatamente e foi a pé até a ponte Troitski, onde o motorista, F. G. Erchov, o apanhou e o levou para o Smolny. Chegando ao Instituto Smolny, onde outrora Lenin, Trotsky, Kamenev, Zinoviev e e outros revolucionários 17 anos antes tinham orquestrado os pormenores da Revolução de Outubro, Kirov  subiu as escadarias do instituto e conversou com alguns colegas, sozinho, não percebeu que estava sendo seguido. Kirov levava uma pasta com documentos importante e um chapeu de pele na cabeça.

        O segurança tinha ficado nas escadarias, enquanto o dirigente comunista se encaminhava para a sua sala, Leonid Nikolaiev apareceu de surpresa, ele que tinha ido ao banheiro, ao ver Kirov no corredor, andou de maneira furtiva por trás do busto de Lenin, por trás da batente da porta, ele disparou o seu revolver Nagant na nuca de Kirov. Um crime sorrateiro, sem testemunhas e sem reação. Aquele crime iria mudar para sempre a URSS.

Kirov foi embalsamado para ficar em exposição por três dias antes de ser enterrado em Moscou.
         Stalin recebeu o telefonema de Leningrado, Kirov tinha sido assassinado. Foi o primeiro assassinato dos  Expurgos e esse crime seria a causa de toda a onda de terror contra lideranças, militares e artistas, mas principalmente, inocentes por toda a União Soviética. Kirov, a flor e a gênese da juventude comunista da URSS tinha sido brutalmente assassinado de forma traiçoeira.

         Stalin pegou o Flecha Vermelha no outro dia, colocou Molotov, Voroshilov e Yagoda dentro do trem e acompanhou pessoalmente as investigações, além de ser líder do Partido, Kirov era seu amigo, eles tinham passado as férias juntos na Geórgia não fazia muito tempo atrás. Aquela morte machucou o coração de Stalin, tanto quanto a morte de sua segunda esposa Nadja Alliluieva, que se suicidou alguns anos antes. Com botas pesadas de couro, o bigode e as marcas de varíola, Iossif Vissarionvich beijou a testa do amigo, enquanto via Leonid Nikolaiev ser interrogado pelo NKVD.

         Não sabia de nada a não ser que provavelmente Nikolaiev matou Kirov porque ele estava sendo traído pela esposa com o comissário. Nada parecia indicar um crime passional, mas Stalin, vendo as incongruências do processo logo ligou o crime a ninguém menos que Grigori Zinoviev, antigo líder do Partido em Leningrado, removido por fazer críticas ao próprio Stálin.

           Zinoviev, Kamenev e Stalin tinham formado uma troika, um governo de três, após a morte de Lenin, a questão é que eles achavam que Stalin poderia ser manobrado e foi justamente o contrário o que aconteceu, Stálin era a máquina partidária, em uma aliança com o líder proeminente Nikolai Bukharin, púpilo de Lenin, e "téorico do Partido" ele liquidou a oposição e se tornou o líder supremo.  A União Soviética se desenvolveria com as mãos de ferro de um novo líder. A NEP logo foi abolida e se iniciaram os planos quinquenais, os kulaks, camponeses  de classe média, ofereceram resistência à coletivização, a Ucrania quase entrou em guerra civil. Essa era a  nova União Soviética.

           Foi quando Kirov foi morto.


          Depois disso, as prisões, as delações e as conspirações começaram, As pessoas passaram a ter medo e a não poder criticar abertamente o Partido, deportações, julgamentos-espetáculo, e mortes. O NKVD passou a fazer prisões em massa e aquele país que era um sonho socialista passou a matar seus próprios construtores: Primeiro Zinoviev e Kamenev, depois foi Yagoda, ex-chefe do NKVD, e agora seria Bukharin. "Koba, por que precisa da  minha morte?", escreveu Bukharin em um bilhete para Stalin. 

        Por sete anos a URSS passou de uma republica de sonhos a um regime totalitário. As marcas desse crime nunca serão descobertas, mas de certa forma, esse crime em 1° de dezembro de 1934 acabou assassinando um país inteiro pelo medo; Stalin carregou o corpo do amigo pelas ruas de Moscou quando voltou de Leningrado, algo havia mudado, enquanto ele caminhava no Kremlin, até o cemitério dos revolucionário na muralha norte, ele sabia que a partir daquele dia a URSS não seri mais a mesma.


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