segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O banco

     6:30. O banco de madeira branca no meio da praça respingava as últimas gotas de orvalho naquele frio glacial que fazia em São Paulo. Nada naquele frio intenso que se estendia pela névoa úmida era mais mortal do que o semblante fechado de centenas de paulistanos que seguiam para o trabalho naquele dia morno de sexta-feira.

     A Avenida Paulista continuava silenciosa, a despeito da profusão cada vez mais constante dos ônibus e táxis que cruzavam toda sua extensão da Consolação à sede da Fiesp. O MASP continuava erguido na sua cúpula de pilotis, sobre o qual, o vão acolhia os mendigos na calada da noite.

      Nesse meio caótico de trânsito de pessoas, estendia-se de maneira bucólica o Parque Trianon, na mesma Avenida Paulista, defronte ao MASP e a dois quarteirões da FIESP. Era um parque encantador, com a arquitetura neoclássica e art noveau da São Paulo do início do século XX. Seus prolongamentos de postes de ferro fundido eram uma torção de atmosfera excentricamente britânica na paulicéia desvairada.

      Às 06:30, as correntes do parque se abriam e o segurança bocejava para mais um dia de expediente. O varredor de rua limpava as folhas das árvores que docilmente caíram na última madrugada, o feriado de 9 de julho estava próximo e a cidade deveria manter-se impecável.

       Às 7 h 00, o céu ainda cinzento não tinha deixado o sol nascer e a cidade cada vez mais movimentada olhava impaciente para o relógio do Edifício Safra. São Paulo por um momento se tornava de novo uma megalope, uma capital financeira, bancária e industrial. O seio das veias abertas  do capitalismo latino-americano, com seus mendigos dormindo debaixo das marquises, os seus executivos de ternos bem-cortados comprando café no Starbucks e os colegiais descendo para o metrô depois de tomarem café nas padarias da Augusta.


        Num piscar de olhos, as folhas que foram recolhidas e jogadas no cesto de lixo, deram passagem  aos alunos cada vez mais atrasados do colégio Dante Aligheri, o mais antigo e mais tradicional de São Paulo. Era Paulo, de dez anos, com moletom e gorro na cabeça, escutando Pink Floyd no Ipod que passava na frente do pequeno banquinho de madeira. Ele não tinha tempo  para admirar a vegetação escurra e densa da mata atlântica, tampouco visitava com os olhos a história daqueles postes de ferro fundido trazidos da Inglaterra.

       Paulo, um legítimo filho paulistano, que desceu na MASP-Trianon, corria para não chegar  atrasado no colégio enquanto os sinos badalavam. O trânsito que vinha da Avenida Nove de Julho corrompia-se no  entrocamento com o parque e o subúrbio paulistano acordava novamente para o horário de trabalho.

        Já eram 8h 00 quando Alberto passou com o seu cachorro Fila preto, que farejava o território dos outros cachorros, cada poste, cada lixeira era um lugar que poderia usar como mictório. E o cachorro festejou aquela atmosfera de odores e sabores como se fosse um ponto fora da curva, Alberto  teria um plantão no Hospital Albert Einstein dentro  de duas horas.

       8h30, o banco continuava firme e impassível à paisagem. Quantas pessoas passariam por ele naquele dia? Ele não tinha certeza nem segurança, mas já envelhecido pelo tempo, sua madeira começava a trincar em sulcos cada vez maiores. 

         9h00. Maria Antônia trouxe sua filha Paola, de seis anos para o parque. Maria lia a Dama do Cachorrinho, de Tchekhov, uma edição de bolso bastante delicada com ilustrações e folhas de revista.  Paola ilustrava o chão  com o seu lápis de cera, desenhando o céu e o arco-íris. As duas, mãe e filha, parecia felizes. 

         Às 9h30, Marcela aparecia para conversar com a amiga sobre os seus problemas de casamento e que iria se separar de Alberto, sim, o médico com o cachorro. Não havia nada naquela cena que parecesse triste, e enquanto a filha coloria a aquarela, Maria  Antônia dava seus últimos conselhos à amiga.

         Às 10h 00, o banco tinha deixado de ser divã e as três  mulheres  saíram, provavelmente para tomar sorvete na Soverteria do Chiquinho Scarpa.

          Às 10h30, o tempo ficou ainda mais nublado. Apareceu João, João Ninguém, às 11h com a Folha de São Paulo nas mãos, comprada na banca de jornal logo em frente. João foi logo aos classificados,ele estava procurando emprego.

           João leu, releu, estudou e com a sua caneta Bic desistiu de procurar vagas e fez as palavras cruzadas. Nada naquele jornal o agradava, ele era mais um dos 15 milhões de desempregados que recheavam as estatísticas. Fechou o chapéu na cabeça às 11h30 quando o primeiro pingo de chuva apareceu e foi para casa.

              Pobre  João que não achava trabalho!


          Às 11h30 começou a cair uma garoa fina que se prolongou pelo  horário do almoço. A aquarela de giz de cera foi apagada a cada badalada das águas nos ladrilhos de pedra batida da calçada. O banco ficou ensopado com aquela umidade fria que caiu na cidade.

              
           A chuva acabou às 12h 30, quando as pessoas saíam do almoço e iam descansar no parque. Alguns executivos com celulares na mão gritavam sobre a queda das ações na bolsa, as empregadas iam buscar as crianças no Dante Aligheri e os turistas chegavam para  visitar a coleção do MASP.

             Às 13h00, Joana de sessenta anos se sentava no banco depois de ter ido ao mercado, com três sacolas de compras. Ela estava cansada, Seus olhos negros olhavam para a paisagem com descaso, Alfredo, o seu marido, tinha morrido há quatro dias atrás depois de um enfarto fulminante.

             Às 13h30, chegaram os skatistas. Um deles caiu da prancha quando a roda enganchou em um dos ladrilhos. Ele virou o skate e resolveu consertá-lo na frente do banco. Os adolescentes sorriam e pisavam com os pés sujos de lama em cima do banco.

             Às 14 horas,  Pedro e Sandro jogavam xadrez no banco, Pedro tinha colocado o rei em xeque, Sandro estava prestes a tomar um bispo. A partida seguia indefinida sob o olhar de uma plateia inconsciente de um homem desconhecido; 

           A partida continuou enquanto os dois taxistas mantinham-se firmes ao jogo de tabuleiro, o desconhecido perdeu o interesse e foi embora, até que por volta das três da tarde o banco foi desocupado de novo. Paulo, aluno do Dante Aligheri passava de novo, ele seguia de volta pra casa.


          15h30, Bruno saía da sede do Banco do Brasil com um ramalhete de flores. Ele tinha comprado as rosas numa banca próximo da rua Peixoto Gomide e aguardava impacientemente no banco. O seu coração pulsava, martelava como uma bigorna e o relógio de seu pulso girava todas  as engrenagens de seu corpo de executivo. Ele suava frio debaixo do terno.


          Quatro da tarde, nada dela aparecer. Ele olhava o celular sem respostas, procurando uma mensagem que fosse de Luíza, sua cabeça ficou cada vez mais baixa e com imensa tristeza, Bruno esperou pelo amor de sua vida.

             Às 16h30, contra tudo e contra todos, apenas com o banco como companhia, Bruno jogou as rosas no cesto de lixo  e  foi embora  para o serviço. Os seus olhos não tinham mais lágrimas, estavam secos, igual o seu coração.


              17h00, Dona Amélia rigorosamente chegava nesse horário para alimentar os pombos. Essa velhinha, de rosto amável e lenço na cabeça, tinha apenas duas diversões na vida: Alimentar os pombos e jogar na Mega-sena. Católica e mãe de cinco filhos, ela vivia sozinha num pequeno apartamento na Bela Vista. 

           Sem filhos, nem marido, ela era sócia daquelas tardes no parque Trianon, enquanto alimentava os pombos como se fossem os seus sobrinhos.

            Às 17h30 o sol já se punha em relento, a cidade continuava se movendo, os bares da Augusta começavam a ficar cheios, o trânsito para Santo Amaro ficava cada vez mais sobrecarregado. O feriado estava próximo e o paulistano estava disposto a sair da cidade para curtir o litoral.

             Às seis, Gisele corria de moletom enquanto repassava os detalhes da reunião pelo fone de ouvido do celular. 

             18h30, quando começaram a cair as luzes, Miguel tirava uma foto de Anita para o ensaio do próximo número da revista. Ela sentada no banco com um longo vestido vermelho e um colar de esmeraldas falsas. Anita realmente estava disposta a ir para o São Paulo Fashion Week, depois disso iria  comer uma salada na Avenida Pamplona e sair com o seu sugar daddy no Itaim Bibi.

                19 horas, dois guardas passam. Nada a relatar.


               19h30, Mário  passeia com o seu cachorro, um Settler inglês chamado Puma, ele cheira o xixi do cachorro de Alberto. Alberto e Marcela devem ter tido uma briga feia, ele não voltou ainda para casa.

               20 horas. Começa o Jornal Nacional, um cachorro de rua urina na mesma lixeira que Puma fez as suas necessidades.

           20h30, Pisca, Manu e Zenas aparecem de moletom e boné com duas garrafas de Catuaba e começam a falar sobre a vida. Os três amigos acendem um baseado e riem dos últimos resultados do futebol.

          21 horas, Manu e Pisca brigam e um joga a lixeira no outro. Os três já estão caindo de bêbados quando a polícia aparece e leva os três para a delegacia.



           22 horas, eu me cansei de ver o banco e fui para casa. Imagino o quão tedioso é para o banco ficar parado num ponto fixo do parque quando a cidade inteira se move e as pessoas fazem com que todo esse ritmo intenso sobreviva.


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