quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Conto de meia noite

          Numa dessas confluências da vida, quando a noite se prolonga mais do que o dia e a escuridão se adensa em nossos olhos a figura sinuosa de uma pessoa é um acalanto para uma mente carregada de preocupações. De fato nada pode ser considerado mais irresponsável do que se fechar para um mundo carregado de memórias e experiências

          As luzes fracas dos postes de cimento mal lavado carregavam a noite com uma luz artificial amarelo-magenta que faz com que cada reflexo no espelho de um asfalto récem molhado pela chuva tenha sido construído uma lâmina de prismas monocromáticos.   Prismas constituídos de flashes e trade-in, ou talvez só meros vazios nas lacunas da vida, mas o sentido epírico dessas palavras não pode ser traduzido apenas pela pena e pelo papel, mas pelo sentimento que corre em nossos corações e os pensamentos em nossas cabeças;

           Mas não tecerei versos carregados de fonemas carregados como Maiakovsky, essa história cotidiana e deveras suburbana é digna de ser colhida num único momento e piscar de olhos de você caro leitor. “Acaso devo carregar-me de poesia ou devo ler Guerra e Paz?”, deve estar se perguntando ao olhar o catatau de Tolstói.



         Seus olhos eram escuros e intensos, honestos e tão românticos que me preenchiam de pensamentos. Não, essa não era a meta, apenas tentar viver um dia de cada vez. Seus cabelos eram negros como a noite, e de seus lábios caíram palavras desencontradas cuja entonação não se ouvia diante os ventos frios, carregados do peso da noite:

Não ouvi no jardim mesmo os pássaros
Tudo aqui é parado até de manhã.
Se você soubesse como você é querida para mim
Nas noites frias de outono

O rio está em movimento e ainda parado,
A lua cor de prata.
Nos brinda com uma canção pode ser ouvida
e não pode ser cantada  
Nessas noites calmas.

Onde você está querida que me olha de soslaio?
Estará dormindo ou apenas enfeitiçada?
É difícil de expressar
Tudo o que está no meu coração.

Uma madrugada de verão
Olhei  para o jardim
E encontrei a lua
E me apaixonei por você

E o silêncio  é mais perceptível ...
Então, por favor, seja gentil,
Não esqueça daqueles dias de verão
Parados como você e eu.


Seus versos eram irresponsáveis, como os de um adolescente numa cântiga de verão e pior, ele tropeçava de soslaio, caía de maneira inesperada no chão e se contorcia num esforço inútil para levantar. Sua vida era mais do que simples álcool e poemas mal escritos mas a lembrança de um passado lhe soava meio incongruente.

“Como falarei com você? Como terei coragem em pegar o seu telefone e não falar contigo, de esquecer o seu rosto e mais do que isso ainda me martirizar por ser tão tolo a ponto de não querer me apaixonar?”, pensou como um bom mujique.

Bom, ele tentava se lembrar de como era não querer se apaixonar, de encarar as pessoas como meras marionetes no jogo de xadrez e manipulá-las a plena vontade; Ou melhor, pôker, porque ele gostava da sensação de ganhar e perder dinheiro com a mesma facilidade com que trocava de roupa.
Sabia como ninguém o que um par de rainhas representava.  Mas ela era mais do que simples cartas, ela era de carne e osso. Meiga e nem um pouco dada ao seu passado de boemia. Escutava-lhe o vento e um cachorro mal-tratado que mordiscava um hot-dog estragado.
O frio batia em sua capa. Um guarda de soturna expreitava os doentes, e a lua crescia celestialmente entre os prédios de tijolos vermelhos. Desenrolou um pedaço de papel no bolso


“Você é meu amor e destino!
O destino não é fácil. O amor é duro, mas é de verdade.
Pois estamos prontos a sacríficios
Nós todos experimentamos mais de uma vez,
O que é se apaixonar todos os dias
Nosso outubro, a todo velocidade!
Com a gente, a canção de corações vermelhos,

Apressam os nossos anos, mas a vida é jovem!
E canta como antes tubo.
Você meu amor, você está sempre em guarda!
Me esperando no coração


Hoje me sinto infantil para não ter escrito nada disso para você, apenas ter brincado de flertar com você que me escutava com tamanha atenção sem reclamar de nada a respeito. Onde você vier estarei contigo.

Tenho medo de trazer vários dos meus medos no papel, mas tenho o medo maior de deixar o tempo passar. Somos tão irresponsáveis para ignorar o dia?”

Caiu no chão com uma vontade narcisista de ser o imperador do mundo e por um momento sentiu-se Napoleão em pessoa, saltou em cima de uma moto parada e tomou um ímpeto dadaísta de  gritar “ Vive la France!” e sair pela cidade fazendo barbaridades.

Correndo sob tropeções começou a abraçar os passantes, correr atrás de carros inutilmente, ir mijar nos cantos mais abusrdos e casar-se com um poste de telefone. Correu do guarda, do cassetete e correu. Correu, correu, até gritar para todo mundo: Eu a amo.


No meio de uma dessas caiu de cara na mesa onde jogavam damas dois mendigos, que roubaram sua carteira, e bem mais que sua dignidade. Vomitado, passou maus bocados lá pelas três da manhã quando um cachorro mijou em suas pernas e lambeu seu rosto.




Os ônibus saiam vazios, e naquela noite de apuros, ele ainda se lembrou que foi correr atrás de briga com dois bombadões de academia. Quando acordou, não se lembrava de nada. Muito menos onde estavam suas calças, mas ele estava abraçado a um cachorro com o rosto plenamente vomitado e a roupa suja de vomito. A manhã de segunda feira foi meio complicada para o nosso jovem anti-herói que além de ter perdido sua dignidade, perdeu o papel com o telefone. Mas que inferno! Que ressaca!



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