sábado, 23 de agosto de 2014

A tragédia da pólis


           Sofócles poderia escrever muito bem uma tragédia bastante conturbada de um povo com a sua própria democracia. De como os valores morais se corrompem de maneira tão incestuosa com a corrupção numa relação tão cega quanto o próprio complexo de Jocasta.

          Sim, é claro que muito do discurso pode ser levado como complexo de vira-lata. Mas vira-lata somos nós mesmos que não  conseguimos sequer sermos matutos para saber o que está em jogo. O que está em jogo é muito mais que mera política, é o nosso próprio futuro.

          O Brasil está passando por um período de inflexão de sua ordem político-institucional. E mais do que isso há uma crescente dúvida do eleitor com relação aos partidos políticos. Também, deveras, nós somos a Itália da América em muitas ocasiões no que se trata de política (ou a Itália é o Brasil europeu?)

          Nossa política é organizada de forma meramente institucional de fato a partir de acordos generalizados com vários setores da sociedade civil, nisso ficou clara a promulgação da Constituição de 1988. O problema é que a crescente articulação de blocos em torno do apoderamento da máquina estatal para promover uma dominação da sociedade é algo que acompanhou os períodos democráticos brasileiros nesses anos conturbados de República.

         Os coroneis estão interessados em se manter coronéis, assim como os tolos estão interessados em serem tolos. O sistema político atual é uma franca caricatura do que deveria ser uma democracia, não só porque há a profunda cara de pau de alguns políticos em se apresentar como salvadores da pátria, mesmo sendo reconhecidamente ineptos ou corruptos, como também a falta de sagacidade de eleitores em avaliar o cenário próximo.

        Iremos entrar em estagnação logo, digo logo mesmo, em questão de menos de um ano. A economia vem apresentando ritmo lento já tem dois anos, por opções erradas do governo e apostas equivocadas com relação à segurança e estabilidade de nossa economia. É fato que a inflação somada a estagnação pode levar uma estagflação que é o pior dos mundos. Mas nenhum governo agora vai estar em condições de resolver sem gerar arrocho na população, ninguém admite isso, mas é verdade.

        As grandes obras públicas prometidas geraram isso, seja o canal do Panamá que há pelo menos dez anos ninguém fala mais nada, ou a ferrovia Norte-Sul que nunca foi concluída, tampouco os estádios construídos do nada para uma World Cup Fifa Soccer. A economia brasileira assistiu seu melhor momento de expansão de 2002 a 2008, os seis anos de ouro do século XXI, isso qualquer economista tem que reconhecer, foi sapiência econômica do governo na época com movimento positivo do mercado para nós. Mas o declínio não demorou a acontecer a partir que o modelo se mostrou fraco a certas preocupações nacionais e internacionais.

          A Bolha estourou nos EUA e levou meia Europa pro chão. O Brasil resistiu por ser um gerador de commodites que não são dispensáveis pela regra da inelasticidade que todos os recém ingressados a economia aprendem. Mas não sustentamos a benguela por tanto tempo, em 2012 a fraqueza se traduziu pela desindustralização do Brasil e por pressões sólidas do lobby industrial de São Paulo por maiores incentivos, seja a manutenção do IPI ou redução dos impostos. A questão que o custo-brasil é algo que se formos ver ao pé da letra é uma balela, as montadoras estão certas em dizer que produzir é caro aqui, mas não quer dizer que não tenham lucros altos. Por que elas têm.

          As políticas sociais não são um advento tão recente, elas nasceram no seio do reformismo pesedebista no governo FHC. Sim, no início era algo muito restrito e particular, o que houve foi um alargamento dessas medidas. Não sou favorável a longo prazo ao assistencialismo social existente, mas em curto prazo ele fez injetar a roda econômica que andava frouxa. O problema que dez anos não é curto prazo em termos econômicos e os gastos do governo aumentam a uma proporção geométrica. 

         O Estado Brasileiro é um alcoólatra dentro de uma destilaria. E não se pode retirar o papel dele de interventor das regras sociais do trabalho, ou mesmo regulamentador das riquezas, mas os gastos excessivos e o mal uso das verbas acabam sendo as maiores causas de nosso momento delicado na Economia. 

       Deviamos pensar em abrir o mercado, sim, para enfrentar a inflação. Não podemos cair também no mito aristocrático de uma indústria nacional, sim, em parte ela existe, mas não toda ela. E o histórico inflacionário do Brasil nos diz muito: Nós não conseguiremos fugir da inflação se ela perdurar por mais algum tempo. Nossa economia é naturalmente inflacionária;

         O que é trágico é que não se percebe o seguinte problema. Nenhum dos partidos políticos que almeja chegar ao poder deseja construir algo novo. Nenhum. A esperança morreu com o Campos. O homem que realmente poderia fazer um país decolar morreu de formas duvidosas no voo de seu avião;

        A repetição é notável. Dilma quer manter o legado do PT, mesmo que seja inevitável sua queda de popularidade (afinal a economia anda em lençóis mal-vestidos e ela nunca foi realmente carismática). O PSDB é um bloco carcomido, o Aécio pode querer se parecer um espírito novo, mas todo mundo sabe que não é. E o PSB acabou no discurso vazio de Marina Silva, porque realmente é difícil ter esperanças de mudanças da sua plataforma política de 2010 para cá.

       Na verdade, tirando o Aécio, todos os candidatos de 2010 para cá se mantém. Ah, sim, tivemos uma perda grande nesse processo também. Plínio de Arruda Sampaio, que era incisivo em seus comentários carregados de sarcasmo e ironia. Os debates vão ser mais do mesmo.

       O Campos será apropriado por alguns, seja pelos pessedebistas, que o chamarão de "amigo" (sendo que ele não era), e os petistas que o usarão como manobra política também.  Essa é uma guerra de tronos onde dificilmente terão vencedores imediatos.

       Primeira coisa dispare é a construção do imaginário do "time do bem", como se o adversário fosse o "mal a ser vencido". Como se outros projetos não fossem relevantes, principalmente agora. Tá certo, eu não votaria no PSDB, não só pela motivação ideológica, mas porque não há tanta representatividade assim depois de tanto tempo nas cinzas, o PSDB não é uma fênix e tampouco santo-milagreiro.

      Mas não podemos esquecer que o "time do bem" não anda tão bem assim. Ele é questionado por seus paradoxos ideológicos (por construir uma ideia de defesa dos pobres, mas auxiliar o acumulo estratosférico das grandes fortunas. Seja os bancos de São Paulo, seja as montadoras, sejam os empreendimentos agroexportadores como a Friboi, ou as grandes empreiteiras como Oderbrecht. Sem falar no fiasco do Eike. Tudo isso com auxílio do BNDES que empresta dinheiro abaixo da inflação com verba do tesouro nacional). O governo trabalhista é acusado de ser corrupto, que se revelou verdade em alguma escala no esquema do mensalão, mas eis que se descobre que não  só houve um Mensalão, mas três e todos conjugados entre si.

         A tragédia disso tudo é que ninguém está realmente sendo representado de verdade nesse misto de caudilhismo com neopopulismo, esse esquema oligárquico que deforma as bases de uma democracia. O eleitor está preocupado com o imediatismo autoritário dos números, seja os números dos empregos, o valor da inflação, o valor do salário mínimo. O preço da gasolina. O número de bolsas pro Exterior, o número de financiados pelo FIES, PROUNI, e cotas. O número é mais importante que a qualidade do serviço.

         O número dos gastos não importa. Uma nota de cem perdida é uma tragédia, cem milhões é estatística (ou melhor, licitação). É como o dinheiro não importasse, mas o pessoal sim. O governo tem que me dar isso e aquilo, não importa o coletivo. E sim, é corrupto, mas se me dá uma bolsa, eu aceito, se dá uma casa, eu voto. Por que reclamar? É errado tirar a lógica disso, é a lógica do particularismo. Eu se passasse fome e não tivesse emprego votaria no cara que me oferecesse isso, por mais que fosse um advogado do Diabo.

         O problema que numa escala macro isso se gera um nicho eleitoral. O maior inimigo do nosso sistema democrático é nossa latente desigualdade social. E a desigualdade social é a base de apoio de todos os partidos políticos atuais, pois dela se beneficiam os votos. O clientelismo e a nova política dos governadores leva aos escalões de Brasília procurar apoio nas favelas e nos rincões do Brasil de corruptos, caudilhos, traficantes, milicianos e contrabandistas. Os políticos locais correm pra Brasília solicitando verbas ao governo eleitoral em troca de apoio político, que por sua vez correm desvios de verba para financiar os partidos... e assim cria-se uma roda da fortuna da corrupção.

          Caixa-dois é regra nesse jogo de cabeças. 

          A tragédia da pólis é que o povo não é ouvido, é massacrado. Massacrado pela política irresponsável de políticos que esqueceram que um dia foram gente comum, que andava de ônibus ou cuidava dos filhos. Que eles não eram diferentes de nós, nem nós eramos diferentes deles. E um fosso criou-se nesse caminho.

          E o pior que não posso dizer que só eles são corruptos, nós também somos. Ao nos vender por promessas fracassadas , ou por simples questões pessoais; Ao perdoar corruptos pela lenda do "rouba mas faz". Ou mesmo desconhecer a eventualidade com que a política pode moldar nosso dia-a-dia.

         Segurança pública, saúde, educação? Isso importa e importa muito, mas não só isso. Importa conhecer os candidatos, escolher ser representado e ter direito de protesto. O que ultimamente vem sendo meio suprimido (na Copa das Confederações isso foi claro). Lei de segurança Nacional, cavalaria metendo o cacete em manifestante, campanha midiática contra black blocks e pseudo-black-blocks. Brasil Grande, maior espetáculo da Terra. Nunca antes na história desse país... 


            Dá para escrever um caderninho de aforismos que marcaram 2014, e o pior é o vocábulo da desilusão. Porque nem eu, nem você caro eleitor, acreditamos no fundo do coração que apenas essa eleição vá salvar o Brasil. Por quê? Porque o sistema atual está tão deformado que há um fosso entre o cidadão e a política. E esse fosso é difícil de ser rompido. O fosso nasceu do nosso descaso e da profunda falta de respeito com que os políticos encaram seus eleitores.

          Dizer que só eles são culpados é fácil, mas o que observo na sociedade coxinha é também uma hipocrisia corrupta. Seja o suborno ao guarda para fugir do bafômetro, seja o uso de vaga de deficiente, a sonegação de impostos, esconder o Ipod da Alfandega. A vexatória tentativa de ganhar dinheiro no troco, ou mesmo furar a fila de banco. Se nós somos corruptos, o que esperaremos dos nossos políticos? Eles são uma reprodução da sociedade brasileira.

        Eles criaram um fosso entre eles e nós, porque nós temos um fosso entre nós mesmos. Entre pobres e ricos, brancos e negros. Cristãos e não-cristãos. Nossa sociedade é pautada por rótulos lugares-sociais e elitismo. Não só por parte da sociedade rica, branca, ultramontana do high society, mas também dos movimentos sociais que não fogem de lugares comuns e só enxergam branco e preto quando tudo são tons de cinza. 

        A maior tragédia da pólis brasileira é que o povo mesmo estando nas causas de sua não-representatividade (por não estar afiliado à política de gabinete) é que ele reproduz suas mazelas sociais, sua segregação e sua corrupção no modo como vota. E as vezes sua fraqueza de condição social é usada como soerguedor de políticos sujos que estraçalham as bases da República.

       A tragédia brasileira é sua desigualdade social que deforma sua democracia num sistema oligárquico e mais do que isso isola a sociedade da política. Apenas a construção de um modelo representativo direto e uma construção de sociedade sem classes pode por fim a esses problemas, pena que nem eu esteja preparado para ver isso acontecer, nem meus futuros netos no longínquo ano de 2064.

        Não há democracia sem sociedade. Não há democracia sem um pouco de socialismo.

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