Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O chão

            O chão é o plano perpendicular aos nossos pés e a nossas cabeças; às vezes é tão duro como um diamante, um oponente sagaz às nossas quedas quando somos crianças e implacável gigante de terra que sustenta alicerces das nossas casas, das árvores e da vida.

             O ar é livre e solto, ameaçador e sedutor. O homem ama à liberdade dos pássaros desde os desenhos primitivos do Renascimento Italiano quando Da Vinci desenvolvia uma arte ao estudar o movimento dos pássaros ou Santos Dumont se arriscava à sombra da Torre Eiffel à decolar em seu primeiro voo à eternidade. O tempo ainda nublado é um grande desafio à essas cotovias de metal que cortam os ares a despeito de meras adversidades.

                 Um fio de esperança percorre nossos corações quando num deleito de juventude olhamos para o céu querendo construir um futuro melhor, um idealismo jovem e acurado. Eduardo Campos era uma cotovia, um rouxinol do campo. Calmo e tranquilo, tinha uma fala mansa e uma evidente simpatia, socialista bem intencionado, pai de família e trabalhador incansável, não quis se manter pela imagem de seu avô. Pelo contrário quis tecer um ninho de esperança como é próprio das cotovias após uma atmosfera de desilusões e esquecimento.

                 O futuro prometia ser novo, repaginado e melhor. Os abutres de hoje se somam para se utilizar do cadáver de nossos sonhos sob a égide da perda de um sonhador. Antes o atacavam ou manchavam sua memória relatando falsas amizades políticas;

                A serpente incendiou o seu voo ao tecer um vil veneno fazendo com que a cotovia decaísse de maneira decrescente de  seu voo pela pátria que jurara entender e ouvir. Os falcões midiáticos o atacavam, riam de sua franca iniciativa e hoje matutam como gralhas falantes sobre o seu legado para a história. Os bandidos de terno e colarinho branco assaltam sua memória e a cotovia desaparece sob o nicho de aves de rapina de fraque.

                   Pai, marido, jovem, político. Pragmático e sonhador; amado por muitos, preterido por outros. Virou pessoa non grata de alguns por optar por um caminho diferente da ortodoxia, e num soneto político digno de uma valsa teceu passos importantes para o desenvolvimento do exercício democrático brasileiro. Desvencilhado do caudilhismo dos rincões do Brasil, tentou conter alianças intrapartidárias que descaracterizariam a cerne partidária, mas teve que ceder às tentações quando o grupo de Marina Silva não veio a formular um partido. Negociou nesse caso, mas de maneira concreta e pragmática.

                   Campos olhava a economia com olhar crítico, não era preso à cegueira do Ministério da Fazenda carregado de pensamento cepalino ou a inocência de neoliberais em impor a desregulamentação do mercado. Tentou fugir dos políticos carcomidos do circuito de São Paulo, que tentavam usar o seu nome para obter uma falsa popularidade. Campos nunca foi amigo desses políticos demagogos que hoje enaltecem seu nome.

                   Cotovia incansável que semeou esperança em alguns corações desiludidos por fugir da função dialética da política nacional e optar por uma terceira via, que tecia inconscientemente as bases para uma nova democracia.

                     Não é só porque ele fosse meu candidato e eu fosse apoiador de suas reformas no campo da economia e das reformas sociais, mas também posso dizer que sua humanidade é algo que não deve ser toda desconsiderada.

                  Sua morte provavelmente será esquecida pelo cotidiano banal e comum das pessoas que desistem facilmente de política  e a tornam filha ingrata da economia e dos acontecimentos cotidianos; Mas uma coisa é certa, Campos não será esquecido por uma legião de apoiadores e por mim mesmo, ainda que seja jovem e um tanto idealista.

                     A cotovia desce o seu último voo e inflamada pelo calor do fogo transforma-se em uma pomba branca que impele aos mais jovens ao espírito da esperança; O espírito de Campos continuará em quem realmente está disposto a tornar novo o que já estava carcomido, e quem estava disposto a retirar múmias políticas da nossa democracia em construção.

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