domingo, 14 de fevereiro de 2016

Entediado



Hoje é uma daquelas tardes preguiçosas de domingo, onde nunca desejo sair da minha própria cama. Pela janela fito a mangueira que cresce robusta no terreno do vizinho, que vagarosamente se arrasta ao passar do vento no céu azulado.

           Olho para o azul do meu quarto, fito a parede em frente à minha cama tentando reconhecer um rosto no meio do tom pálido dos tijolos pintados. Meus casacos pendurados no cabide estão de testemunha, além da bagunça despojada de roupas ao redor da cama. A televisão continua em stand by, esperando para que eu assista um filme, ou procure uma série na Netflix, mas não hoje.

Tentei jogar no videogame pela manhã, mas a agonia do coração me tomou de uma forma tão sujeita que tive que tomar um tempo para mim mesmo. Se eu amo, amo intensamente. Se detesto, detesto completamente. Nisso meu amor é napoleônico, deixo isso para mim mesmo. Mas megalomaníaco em coisas amorosas, tento procurar no espelho o seu reflexo e não encontro.

Onde está você, porque não te encontro? Na poesia de tantas formas eu encontro o seu corpo, lânguido e sinuoso a beijar meus lábios no calor de sua cama, com o seu sorriso sempre branco, e os olhos sempre tão coloridos. Sinto vontade de bagunçar o seu cabelo, ver a sua reclamação no pé do ouvido e morder-lhe a ponta dos seus lábios.

Brincar com o seu nariz me diverte assim como cheirar o seu pescoço perfumado. Suas roupas, bem, depende. Não sou fã dessa naftalina que coloca no armário, me faz sentir meio velho. Mas na nudez sutil de seus ombros imagino o olhar adolescente que sai dos meus olhos quando a vejo. Você sente medo que eu te devore, mas creio ser tão gentil, que você se diverte com o meu rosto.

Na noite você roubou a minha coberta, passei um pouco de frio, mas não reclamei. Estava abraçado junto ao seu corpo quente. Vislumbrei na sua estante um livro de cabeceira, desde então ele não sai da minha cabeça. Inferno... Era esse o nome, e imagino que o inferno deva ser assim, ficar longe da pessoa amada, olhando para uma parede na tarde preguiçosa de um domingo.

Eu não sou dado a detalhes, mas as vezes lembro de como você amarrava o cabelo, colocava o brinco, ou brincava de fechar meus olhos. E os seus gritinhos em meio aos sorrisos, no calor de um silêncio pausado, sinto que sou o que sou, mais contente e feliz contigo. Você me faz tornar a ser o que tinha perdido, uma inspiração antes de mais nada. Mas te desejo, não porque te ache bonita, mas te ache decidida, mesmo que esteja indecisa, que te ache segura mesmo no meio de sua insegurança, e completa mesmo no frio de sua solidão.
O seu quarto é quente, menor do que o meu. Mais pardo, e brando. Tem um espelho, o qual o olha como um tique, ou uma claquete, no seu estrelismo narcisista que se torna encantador para quem te conhece melhor. Sobre homens que te desejam, eu sinto que eu fui o mais franco, mas meus enigmas deixam-te confusa quando não consigo encontrar respostas às suas perguntas.

Preferia escrever em terceira pessoa, escrever um conto sobre uma jovem heroína que sem querer me tirou desse marasmo de esquecimento. Mas não consigo fazê-lo. Eu acho mais justo com meu próprio consciente escrever-te uma carta que nunca será lida nem enviada.

No frio da chuva, encolhidos nos bancos estofados, eu fitei o vidro  embaçar... Naquele vidro embaçado você escreveu uma pequena frase em francês com a mão... Je t’aime .

Estava frio, o limpador de para-brisas balançava. As árvores trelimicaram enquanto o lago ficava revolto. Se eu pudesse, teria feito amor contigo ali... Mas não, o desejo tem que ser controlado, pois o que temos não é luxurioso ou algo depravado, mas algo simples e porque não tão banal?

Nossa relação ainda está no começo, e tenho minhas dúvidas do que você realmente deseja. Não sei como me portar ou agir, se estou nervoso é porque é algo novo para mim.  Mas não quer dizer que eu seja um covarde, mas quer dizer que eu quero fazer tudo direito; Olho para o meu celular, sobre a cama ainda bagunçada... (Meu Deus, são 13:30) e espero ainda uma única mensagem sua no Whatsapp. Saber se você está bem ou só querer falar um pouco contigo, mas estou tão completo de dúvidas que desejo ficar quieto por mais um tempo. Mas o nervosismo me consome.

As horas passam na badalada de um minuto. Minha cabeça fica a mil, e não sei o que pensar nesse minuto. Será que você não me ama, ou será que tudo é uma ilusão. A grande ilusão. É tudo tão simples e ainda assim tão complicado, um mundo cheio de regras para as pessoas que não querem ser rotuladas.

Eu te amo intensamente no meio desses silêncios, pois traduzem o que sou em parte. Inquieto, e cheio de calafrios, mas ainda assim intenso. Posso ser tímido às vezes, ou muito teimoso, mas quero que saiba que não é por mal. Mas por te amar um pouco, escondo o que te junto a mim.


No fim, quero que saiba que isso são  só palavras. Tolas palavras de um homem que ainda tem uma paixão adolescente, e que sem querer deixou isso vazar, um seguro segredo. Não sei se é mais seguro o afastamento ou a indecisão, mas fico com a agonia de pensar que esse tédio vai ser arrastar por mais um segundo.

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