Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Sobre a censura no MAM

Eu Fui No Itororó


Eu fui no Itororó
Beber água e não achei
Achei bela morena
Que no Itororó deixei.
Aproveita minha gente
Que uma noite não é nada
Quem não dormir agora
Dormirá de madrugada.
Ô, Dona Rosinha!
Ô, Dona Rosinha!
Entrarás na roda
ou ficarás sozinha.

Sozinha eu não fico
E nem hei de ficar
Porque tenho sempre alguém
Para ser meu par.

Tira tira teu pezinho
Põe aqui ao pé do meu
E depois não vá dizer 
Que você se arrependeu!

Eu passei por uma ponte
Um cachorro me mordeu
Não foi nada, não foi nada
Quem sentiu a dor fui eu.

          A Batalha de Itororó foi um dos eventos mais importantes e melancólicos da Guerra do Paraguai, foi a primeira batalha da Dezembrada, uma sucessão de lutas e conflitos que ocorreu em 1868 entre brasileiros e paraguaios depois da queda da Fortaleza de Humaitá. Os brasileiros já estavam desgastados e estavam a caminho de tomar a capital paraguaia, Assunção.
Batalha de Itororó


          O rio Itororó é muito fundo, tem uma corredeira muito forte e foi realmente um desafio pros brasileiros as emboscadas e escaramuças com os paraguaios nesse terreno pantanoso, os homens estavam morrendo de sede por causa da cólera e da beri-beri, a água estava contaminada, e por isso essa cantiga começa falando que: "Que fui no Itororó beber água e não achei". Água nessa situação era crucial, e como os soldados não conheciam o terreno muitas vezes se perdiam no caminho até o rio.

         "Achei bela morena, Que no Itororó deixei", esse é o trecho que é preciso ter um pouco de cautela. Durante a Guerra, mulheres e prostitutas acompanhavam os soldados no acampamento brasileiro, comerciantes e caixeiros viajantes eram responsáveis pelo abastecimento e pela diversão, mas as prostitutas eram plenamente aceitas e faziam parte do cotidiano fora dos combates, então, sabendo esse acontecimento, temos que ter um olhar mais refinado para a canção, ela não é tão inocente quanto se imagina:

        "Aproveita minha gente/ Que uma noite não é nada / Quem não dormir agora / Dormirá de madrugada", essa modinha meio roceira parece ser inocente, mas o trecho se você analisa com outros olhos tem uma conotação sexual, de incentivo dos soldados ao sexo, uma noite não é nada, quem não dormir agora, dormirá de madrugada, então, os soldados estavam prestes a sair de manhã para mais uma das escaramuças contra os paraguaios, e violeiro, incentivava a eles aproveitarem a noite o máximo possível antes de serem mortos em combate.



           "Ô, Dona Rosinha! Entrarás na roda ou ficarás sozinha". Sim, isso é realmente o que você pode estar pensando, que rodinha é essa? Rodinha de viola ou roda com outras conotações, mesmo uma mente não tão suja pode ficar com dúvidas sobre qual sentido dessa frase, mas se a dúvida não foi suficiente, leia então a outra parte:


              "Sozinha eu não fico/ e nem hei de ficar/ porque tenho sempre alguém/ para ser meu par." Isso eu estou falando em 1868, quando a sociedade de costumes essencialmente católica valorizava mais do que tudo o recato das mulheres, com o silêncio inclusive feminino sendo valorizado como forma de beleza. Sendo como for, a interpretação que eu tenho ao ler isso considerando a conjuntura histórica é que Rosinha era uma profissional do sexo e falou isso justamente porque não importasse quem ficasse com quem, ou quem morresse, ela sempre teria alguém. Esse trecho é profundamente marcado pelo machismo e a misoginia característica desse período.

           "Tira tira teu pezinho/ Põe aqui ao pé do meu/ E depois não vá dizer  / Que você se arrependeu", trecho de dança ou instruções para o meio do coito? Fica um duplo sentido subentendido, quem se arrependeu do quê? De dançar ou de ter feito sexo? Tirar o pezinho e por aqui ao pé do meu, pode ser como disse no sentido de uma dança, como no sentido de uma acomodação dos membros do parceiro numa cama, é complicado não ter uma visão  corrompida desse trecho.

              Seja como for, pode parecer que as pessoas do passado eram mais recatadas, mais moralistas e tinham o costume de ter vergonha do sexo, isso é uma meia verdade, o sexo continuava sendo um tabu sim, mas isso não impede de certa forma que a sexualidade fosse abordada de várias formas, inclusive nas menos imagináveis, uma cantiga popular. Gregório de Matos era chamado de Boca de Lixo por seus versos incendiários contra o governador da Bahia, mas principalmente por seus versos pornográficos, que ao mesmo tempo eram de cunho religioso, eram exaltando o sexo, assim como o Decamerão de Boccacio.

           E Olavo Bilac, patrono do Exército, era conhecido pelos amigos por seus versos carregados de erotismo, um dos amigos inclusive chegou a dizer: "Muito anos coma a terra, para quem comeu muitos an*s". Vocês entenderam o sentido da frase. Caso não tenha sido claro, um verso de Olavo de Bilac:


Delírio
Olavo Bilac

Nua, mas para o amor não cabe o pejo.
Na minha, a sua boca eu comprimia
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
‒ Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência brutal do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos, mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda, quase em grito:
‒ Mais abaixo, meu bem! ‒ num frenesi!

No seu ventre pousei a minha boca,
‒ Mais abaixo, meu bem! ‒ disse ela, louca.
             Então, o príncipe parnasiano e um dos maiores defensores do alistamento obrigatório, um dos baluartes do republicanismo da virada do século XIX para o XX teve um lado erótico bem claro, sendo dessa forma posto, Olavo Bilac, inclusive filho de um oficial da Guerra do Paraguai, não pode ser creditado como a pessoa mais moralista do mundo.
Moralistas ‒ perdoai! Obedeci...



            Esse é o ponto que quero chegar, nossos antepassados faziam sexo, falavam sobre sexo e mantinham-se presos a certos tabus, o problema é que a geração moralista de agora ao falar do sexo em si, acredita que seja algo pecaminoso, carregado de erotismo e que perverte sobretudo os adolescentes e as crianças, a questão não é isso, a questão é a cultura da pornografia, as crianças estão sendo constantemente bombardeadas por uma cultura erótica, seja em comerciais de cerveja com mulheres com seios de fora, seja em filmes e séries que objetificam as mulheres como apenas máquinas do sexo, sem que elas possam ter opinião, sem que elas pensem, e apenas sejam submissas. A mulher não é só uma parceira do homem, se enganam os religiosos, a mulher tem igual importância ao homem, ou não, a mulher é ligeiramente superior ao homem porque ela consegue transformar uma casa em um lar, e um grupo de pessoas em uma família. Seja como for, o machismo ataca diretamente a sacralidade ancestral que a mulher carrega de ser a entidade mais importante da sociedade.

             Não estou advogando para que esqueçamos o sexo, acorrentemos as mulheres, coloquemos véu. Não é isso, estou falando para deixarmos de ser hipócritas, nossa sociedade sempre objetificou a mulher e a sexualizou, mas se escandaliza quando conteúdos sexuais caem nos olhos e ouvidos de crianças, seja numa exposição do MASP, seja num desenho animado.

             A questão é, as crianças realmente não devem ser expostas a isso porque elas precisam ter um pouco de inocência para não atrapalhar o seu desenvolvimento cognitivo, mas nós adultos fazemos pouco nesse sentido, nós incentivamos a sexualização com filmes sobre o primeiro amor, a Lagoa Azul é o maior exemplo disso. Uma menina de 14 anos aparece na tela do cinema e muita gente acha isso incrível. É horroroso pensar que um clássico da literatura seja Lolita de Nabokov, um cara doente de meia idade que molesta uma menina de 12 anos e tenta explicar o motivo de ter feito isso.

             Essa canção também é um exemplo disso tudo e foi cantada por gerações de mães e babás para crianças dormirem, isso tem que parar de certa forma, temos que parar com a cultura do sexo e da pornografia e deixarmos de ser hipócritas, não adianta nada censurar uma exposição se você continua cantando Itororó deixei para os seus filhos, mesmo que seja dois pesos e duas medidas.

               Olavo  Bilac continua sendo tratado nas escolas por sua importância literária, mas ele era um cara absolutamente sexualizado, assim como Monteiro Lobato era racista, e ainda fazem filmagens e refilmagens de sítio do Picapau Amarelo. Eu não concordo com uma criança estar numa exposição de arte com nudez, eu não concordo, mas fechar o museu não é a solução, quando existe sempre a tentação da internet que está entulhada de pornografia, a criança corre risco de verdade de ser exposta a isso.

                Um exemplo disso é minha irmã de nove anos procurando jogo para o celular na internet e esses sites de download abrindo uma segunda janela com uma página de pornografia quando ela só queria jogar um jogo da Barbie. É isso que devemos combater, essa exploração canalha desses adultos de meia idade que acham natural colocar uma segunda janela numa página infantil com conteúdo erótico. Se não formos sensíveis a isso e deixarmos o problema se prolongar, é bem possível que o seu filho tenha acesso a conteúdos ainda mais pesados, como zoofilia ou sadomasoquismo. Então, parem, não digam que a exposição apenas deve ser fechada, não fiquem olhando o navegador do seu filho achando que isso resolve, lutem contra esses fornecedores de pornografia que são tão covardes a ponto de sexualizar crianças, de colocar páginas anonimas em pesquisas e cometem crimes cibernéticos.

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A internet é o maior desafio para a criação dessa nova geração super conectada

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