segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O pequeno homem brasileiro

     Fernando Sampaio morava em Brasília, tinha 45 anos, casado, era branco e tinha cursado a universidade de administração. Ele era um funcionário público tal como muitos outros, trabalhava no Ministério do Planejamento e todos os dias saía de seu apartamento de três quartos na 406 norte.

        O seu carro era um Jeep Renegade branco, de setenta mil reais financiado em 30 meses, um orgulho para todo bairro ao exibir um SUV que ostentosamente andava devagar à cada curva ou semáforo. Não era simplesmente um carro, era um abre-alas de escola de samba, mostrar que um funcionário público também podia se fingir de rico. 

        Todos os dias pela manhã, Fernando saía atrasado para o trabalho, seus filhos pegavam a van para o colégio mais caro de Brasília, mas o próprio pai tinha preguiça de levá-los até a porta da escola e pagava a van. Quando chegava no serviço, sempre que podia, ele manipulava a presença e colocava o horário de entrada uma antes do previsto. Esperto, assim poderia sair mais cedo.

          Maria namorava Fernando desde os seus vinte e poucos anos, quando ele ainda estava casado com Ana Paula, a  mãe dos dois meninos, Ricardo e Miguel. Foi um escândalo? Pelo contrário, Fernando sabia que todos na sua família não iam com a cara de Ana, "uma comunistinha de merda" que ele se engraçou na universidade.

           Lá estava Fernando, ganhando seus 15 mil reais ao mês, pagando trinta prestações de um carro que não podia ter, pagando uma escola que não poderia pagar e economizando na pensão dos dois filhos. Por sinal, eles só foram morar com ele porque ele tomou a guarda "porque a mãe estava pegando o dinheiro para sair com os machos".

         Sampaio era um funcionário medíocre que veio transferido do Paraná, ele não gostava de petistas e achava que todos os políticos eram corruptos. Bem, ele foi nomeado para um cargo comissionado por seu amigo deputado. O Ministério do Planejamento era um suntuoso prédio na Esplanada dos Ministérios, não muito longe do Palácio do Planalto. Vez por outra, entediado, Sampaio jogava aviões de papel em seus colegas de mesa ou, pior ainda, ficava na fila do banheiro esperando ver os rabos de saia que saíam do banheiro feminino.

           — Que coxas deliciosas, Sandra. Anda malhando muito?

           — Cala a boca, Sampaio.

           — Só calo a boca quando eu tomar o chá dessa xo...

           O chefe apareceu e Sampaio fechou o bico, tomou o café e fingiu ter esquecido algo. "Cadê aquela papelada?"

          "Era o projeto de uma barragem no Alto Solimões, será que tinha índio ali? Quantos megawatts? 50? Só cinquenta? Vamos aumentar isso, cadê o menino da Oderbrecht?"

                Ele não sabia nada de engenharia, ele nunca soube o que significava amperagem ou aterramento, e como se gira as turbinas? Turbinas só de avião, afinal ele ia pra praia no próximo feriado prolongado, é um inferno ficar em Brasília...


              Cadê o menino da empreiteira?


              O projeto passava pela reserva xavante, a Funai chiou e falou que não pode matar índio.

              "Índio não é gente, Sampaio. Índio quer ar condicionado, televisão e wi-fi igual todo mundo. Tem que fazer a porra da hidrelétrica".


            —  O Ministério do Meio-Ambiente mandou um relatório pelo Gilberto, a obra vai causar um impacto irreversível no Alto Solimões e nos afluentes.

             — Cala a boca, Sampaio, desde quando você ouve aqueles maconheiros do Greenpeace?

             — Mas Carlos...

             —  A usina vai sair, ordem de cima, do ministro. O menino da Odebrecht já trouxe o projeto, tá todo mundo feliz com isso, inclusive o presidente.

             Sampaio odiava o presidente, ele era um capeta igual todo mundo, um bandido. Mas bem, ele não aguentava a Dilma, uma mulher no poder? Que loucura! "A velha não sabe governar, onde já se viu? Gasolina há quatro reais"

            — O lugar do Lula é na cadeia — disse na roda do café.

            "Cadeia"

             O menino da Oderbrecht depositou os cem mil como ele pediu? Não sabia, ele verificou o saldo do banco e nada. Como vai ser sem esse dinheiro?


            Sampaio estava estressado, foi direto pro banheiro e tirou da carteira o malote com 10 gramas de cocaína. Tinha que espairecer um pouco. Quem sabe o que o Ministério Público poderia fazer se soubesse disso?

          Não ia dar nada, se nem o presidente caiu, imagina se o Janot iria  se importar com cem mil reais? Mas o Janot saiu também. Foi então que riu.



           Alto e chapado, ele voltou como se não tivesse acontecido nada, mesmo que estivesse o pó branco bem debaixo do nariz. Quem disse que precisava ser discreto, se até o chefe dava um tapa na pantera de vez em quando?

              —  Fernando?

              — Oi?
              
              — A sua mulher tá no telefone.

               — Merda!

               Fernando foi para a sua sala e fechou as persianas.

              —  Que foi Maria Eduarda?

              —   Miguel caiu do parquinho, a menina da escola me ligou agora... O que eu faço, Fernando?

               — Estou ocupado, tem um projeto aqui no ministério, não posso responder agora. Resolva isso, sim?

               — Tudo bem, Fernando, é que...

               —  Faz isso, sim? Depois a gente pode sair, quem sabe?

              — Tá bom, Fernando. Eu vou lá. Eu te amo.

              — Eu também te amo.


             "Vaca"

              Desligou o telefone.


              Então Fernando fechou a porta.


              O projeto iria passar, mas agora era hora dele ver sacanagem no horário de trabalho. Com as mãos debaixo da calça ele abriu o Xvideos e procurou um vídeo para se distrair. Pornô no meio do trabalho, ninguém podia falar nada, era a coisa mais comum, isso quando o chefe não pegava as estagiárias.

              Era cinco da tarde, nada tinha sido resolvido. Mas o dinheiro caiu no banco. Fernando foi pra farra. Fechou a sala mais cedo e saiu sem falar nada, o escritório já estava vazio.

             Ele mandou mensagem para Maria, os garotos estavam bem e voltaram pra casa. Cansaço. 

            "Vou tomar aquela cervejinha e meter numa daquelas putas da W3"


              Foi para o Beirute, bebeu umas cinco ou seis long necks  sozinho e às sete e meia foi para a W3 Norte. Na altura da 709 norte, desfilou com o seu Jeep Renegade, dando em cima em qualquer criatura viva que passava. Não tinha pudores, a cidade se transformava em um imenso inferninho na calada da noite.

              Olhou as mulheres sem entusiasmo, ele queria mesmo era sair com as travestis. Cheirou de novo o pó que levava na carteira e bateu no ponto das meninas:

             —  "Quanto pra fazermos um sexo bem gostoso?"

             Ele pechinchou os valores e no final saiu pouco entusiasmado, voltou para casa, bateu na mulher, quebrou os pratos numa discussão e completamente transtornado saiu de novo na noite. O pequeno homem brasileiro no alto de sua arrogância típica da classe média, saiu na calada da noite e virou todas no Fausto e Manuel da 209 norte.  Bêbado, pegou o carro e saiu correndo pela L2 Norte. Estava a 120 por hora quando... VRUM! O carro derrapou numa curva e bateu numa bicicleta e numa árvore. O rastro dos pneus queimados se arrastaram pela pista.
           
             Josias tinha acabado de fazer 18 anos e tinha entrado no vestibular da UnB. Ele tinha sido prensado pelo para-choque do carro, e quando a lanterna começou a se apagar, ele faleceu. Uma morte estúpida, no meio do meio fio e do jardim central. Começou a chover na capital.

             Os bombeiros demoraram para chegar no local, eram três e meia da madrugada. Fernando estava preso nas ferragens, Maria Eduarda foi acordada e com o rosto ainda machucado pelo soco na boca, ela foi até o hospital. Fernando entrou em coma;


               Não havia céu e inferno para Fernando, mesmo ele sendo fiel da Igreja Universal, o dízimo dele não pagou a cirurgia para recolocar as vértebras. Uma pessoa tão ruim em vida, agora era refém do péssimo atendimento do hospital público, ele ficou por três dias no Hospital de Base até que foi transferido para o Hospital Brasília no Lago Sul. O ciclista não teve essa sorte, a família com muita dificuldade conseguiu enterrá-lo numa cova rasa no Campo da Esperança, ele era um menino que tinha vindo do Nordeste em busca de sonhos e Brasília lhe tirou a vida.

               Foram oito meses em coma, Fernando só foi recobrar a consciência no Natal. A essa altura tinha entrado um novo governo e os cortes começaram a mexer com a sua família. O cidadão que dizia que Dilma deveria ser deposta, agora não tinha dinheiro para pagar o tratamento da fisioterapia, teve que conseguir uma vaga na Rede Sarah. Sem o dinheiro da pensão e com o remanejamento do pessoal, Fernando foi afastado do Ministério do Planejamento quando descobriram uma falha na licitação. Sem dinheiro, sem saúde e sem segurança, ele estava desempregado e aleijado, agora andava de cadeira de rodas e era obrigado ainda a pagar as prestações do carro que ele tinha destruído.

              Maria Eduarda o abandonou e voltou para Curitiba, as crianças foram com ela. E sozinho e amargurado, na sua cadeira de rodas, o pequeno cidadão brasileiro olhou para aquele fim.

             — Eu só quero minha família de volta — disse com dificuldade.

             E sem querer, ele culpou a todos pelo seu destino. "A culpa é da Dilma, do PT, e desses comunistas de merda... Levaram tudo o que eu tinha". Mas o verdadeiro fracasso foi ele não ter conseguido cuidar da sua própria família.

               Ele foi para a Igreja, procurou ajuda com os pastores, prometeram-lhe a cura, cirurgias espirituais e tudo que é sorte de tratamento. Nada adiantou, o apartamento na Asa Norte foi tomado pelo banco. Sem ter para onde ir, ele tentou voltar com Maria Eduarda, não deu certo.  Ela estava agora com outro. Foi quando decidiu que iria pedir ajuda para a primeira esposa, Ana Paula, mãe dos meninos.
                  — Sinto muito, Fernando, não posso ajudar. Você já fez muito mal à minha vida, eu não quero que crie problemas à minha família.

               Queria dizer que Fernando não se abateu, e 2018 estava perto. Foi então que ele aproveitou a oportunidade, sendo ele cadeirante, agora poderia usar isso ao seu favor, vagas de deficiente, preferência de atendimento, cargos políticos. Foi então que ele se candidatou a Deputado Distrital e foi eleito pelo PMDB. Reviravoltas à parte,  o nosso pequeno homem brasileiro se tornou um político da bancada da bala, anti-aborto e a favor das Igrejas.


              Bem, até que... Madrugada de 31 de dezembro  de 2018, um navio comemorava o réveillon no Rio Negro, no Amazonas,  um grupo de empresários paulistas e brasilienses se reuniu com alguns políticos  na Amazônia. No cardápio, tucupi, tacacá, robalo assado e açai. Drogas  e mais drogas, além das bebidas, foram trazidas á embarcação 12 menores de idade, entre meninos e meninas da população ribeirinha. As menores tinham sido aliciadas em Manaus por uma cafetina e iriam receber um valor por duas noites.

                Na pororoca do rio, a embarcação virou e o nosso pequeno homem brasileiro virou com a sua cadeira de rodas no Rio Negro, mas foi resgatado pela tripulação do navio. Ao ser identificado, ficou claro que ele estava fazendo turismo sexual com menores de idade, ele manteve relações com duas meninas e um garoto, mas ao invés de ser detido, usou sua imunidade parlamentar. Não deu em nada.

             O pequeno homem brasileiro é hipócrita, corrupto e ganancioso, comete crimes, abusa e pratica o mal, mas ciente que terminará impune, advoga que sempre estará certo porque ele defende os valores da fé contra a doutrinação marxista e homossexual nas escolas. Fernando Sampaio é um personagem fictício, mas não foge da realidade da metade dos municípios brasileiros. O que parece ficção, parafraseando Garcia Marquez, corresponde a um realismo mágico.

A frivolidade do frio

O frio nos consome
O frio nos rouba
Todo o calor de nossa chama
Todo o tormento da noite

O frio é desprezo

O frio...


É a morte;

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Cem anos da Revolução Russa

          Pensei muito antes de escrever sobre o centenário da Revolução Russa, mas depois de algum tempo olhando para a tela branca do meu computador e eu não ter conseguido avançar no meu novo livro, me fizeram vir aqui escrever sobre o evento mais importante do século XX.Sim, acredito sim que tenha sido o evento mais importante e darei meus motivos.


         A despeito da própria Rússia não fazer questão de uma comemoração do evento, a Revolução de Outubro surgiu nos porões dos navios russos na Batalha de Tsushima, no levante do Encouraçado Potemkin e no levante em Odessa liderado por Afanasy Matyushenko e Grigori Vakuliuchuk, dois ucranianos que a historiografia esquece que foram os primeiros a fazerem um motim inspirados por ideias socialistas.



          Em 1905, a classe laboral petersbuguense saiu nos portões do Palácio de Inverno liderados pelo padre Gapon, que depois revelou-se agente da Okrana, e foi massacrada pelos cossacos. A Rússia é uma matriushka cheia de camadas e nessa sua diacronia histórica entre o passado e o futuro, os russos conviviam ao mesmo tempo com automóveis e arados de madeira.



       No dia 6 de novembro, Lenin e Trotsky faziam discursos no Congresso Pan-Russo, caminhavam pelo Smolny completamente preocupados, fazia exatamente quatro meses que Kornilov tinha tentado derrubar o governo Kerensky e a Guarda Vermelha salvou o governo provisório.



          Kerensky já não governava a Rússia, e a sua política de compromissos tinha dinamitado a popularidade do governo provisório. Além de ter instituído a lei marcial, os militares do front oriental literalmente deixaram Petrogrado desprotegida para os alemães atacarem a cidade e sufocarem os conselhos de trabalhadores.



           Antonov-Oeevsenko em uma pequena sala no Instituto Smolny coordenava as ações para a tomada do Palácio de Inverno enquanto o governo provisório fugia, Kerensky fugiu da cidade escondido numa viatura da embaixada americana e nunca mais voltou à Rússia. Os marinheiros de Krostandt que se amotinaram meses antes tinham sido libertos na calada da noite da Fortaleza de Pedro e Paulo e estavam a caminho da cidade.




           Os regimentos de junkers das escolas militares e do Batalhão da Morte, composto por mulheres, defendiam o Palácio de Inverno e no alto do segundo andar tinha uma metralhadora apontada para o Arco Vermelho, a entrada para o complexo do Hermitage.



        Trotsky fazia discursos fervorosos argumentando com os socialistas-revolucionários e mencheviques a necessidade de depor o governo provisório e passar o poder para os sovietes. Os soldados do Front faziam os seus relatos e os delegados das mais diferentes partes da Rússia ouviam entusiasmados os discursos de Lênin para a expropriação das terras, a paz incondicional e a abolição do regime provisório.



                 E foi durante a noite que Antonov-Oevsenko partiu com os seus homens, que tinham atacado o arsenal da cidade, e formou os pelotões da Guarda Vermelha. Os operários saíram do bairro operário de Vyrborg, do outro lado do rio Neva, e desceram a Nevsky Prospekt até se aglutinarem na frente do Instituto Smolny. Ali registravam-se e recebiam suas armas e bandeiras vermelhas, os fatídicos fusis Mosin Nagant e os revólveres Nagant ficavam nas mãos dos comissários.



          Os caminhões Mercedes-Benz e Fiat saíam lentamente cheios de homens que distribuíam panfletos ao mesmo turno que se juntavam aos blindados leves que decidiram aderir à Revolução.



          Os bondes da cidade estavam parados, os hotéis e cafés ainda funcionavam, as vitrines das lojas e dos cinemas continuavam acesas ao longo da Avenida Nevsky, os teatros apresentavam as suas peças normalmente embora a capital russa estivesse agitada.



          Os blindados seguiam lentamente e os caminhões cheios de milicianos vermelhos com baionetas fixas em seus rifles seguiam ao Palácio de Inverno. Zinoviev gritava : "Neste dia pagamos a nossa dívida para com o proletariado internacional".



               O Aurora estava a postos, os soldados soviéticos tinham cercado o Palácio de inverno mas os seus portões estavam escuros e o Palácio permanecia iluminado. Ali os soldados e marinheiros esperavam enquanto as peças de artilharia se montavam por trás de placas de madeira. Fazia frio e ventava, decidiram fazer uma fogueira enquanto os soldados esperavam.



              Antonov Oeveensko apareceu com o seu chapeu fedora e um revolver nas mãos, tinha os pulsos sujos de tinta, e pontualmente às 22 horas da noite o Encouraçado Aurora ancorado num dos canais da cidade disparou balas de festim. Era o sinal para o ataque. Aquela multidão de entre 200 e 300 homens atacou os portões do palácio sob o disparo dos cadetes junkers e das moças do Batalhão da Morte. O Palácio não precisou ser bombardeado, muitos dos defensores já tinham desertaram e os outros acabaram se entregando com o tempo.


           Com um documento nas mãos, Antonov subiu as escadarias do Palácio e procurou os membros do Tsik, o gabinete do governo provisório, e encontrou os ministros do governo Kerensky bêbados e atônitos, foi quando ele declarou por Ordem do Soviete de Petrogrado e do Congresso Pan-Russo, que o Governo Provisório estava destituído de suas funções.



             Esse foi o passo a passo do dia 7 de novembro de 1917, mas qual foi a importância da Revolução de Outubro para o resto do mundo? Primeiro foi de experimento político, a Rússia soviética foi o primeiro país a nacionalizar todos os meios de produção, abolir a grande propriedade e instituir um regime econômico planificado quando nenhum outro país ousou fazer isso nós pós-Primeira Guerra Mundial, depois, instituiu uma democratização do acesso à educação e à saude, eliminando o analfabetismo com uma campanha de leitura durante toda a década de 20. A psicologia do desenvolvimento infantil e do aprendizado surgiu na União Soviética nas mãos de Lev Vigotsky.


















          A Rússia entrou em Guerra Civil por quase cinco anos, teve que assinar uma paz desonrosa, vivenciou períodos de extrema dificuldade econômica, seca, fome, e ainda a intervenção de quase nove exércitos diferentes. Tudo isso alimentou o ressentimento dos bolcheviques e as desconfianças com as potências ocidentais e o isolamento dos bolcheviques alimentou a sua própria paranoia. Os bolcheviques acabaram tendo problemas com os anarquistas e socialistas-revolucionários, no final das contas consolidaram-se como partido único e instituíram o modelo da ditadura do proletariado.


          Isso não impediu, na verdade alimentou ao florescimento do cinema soviético nas mãos Sergei Eisenstein e Dziga Vertov, que praticamente demonstraram ao mundo que a Academia de Cinema Soviética podia produzir obras magníficas tanto quanto Hollywood.




          Seja como for, a Revolução Russa abriu a discussão sobre os direitos trabalhistas nos países democráticos, levantou o temor de que pudessem ter novas revoluções, combateu o analfabetismo na Rússia, universalizou o ensino e a saúde ao mesmo tempo que instituiu um novo regime econômico diferente do que havia sido tentado na época. Deu direitos isonômicos às mulheres, legalizou o aborto e eliminou as classes sociais. Também pecou pelo excesso, seja na brutalidade estalinista alimentada pela paranoia constante de uma guerra permanente com o Ocidente, seja pela concepção que havia inimigos internos, reais ou imagináveis.

           A jornada laboral na União Soviética chegou a seis horas por dia, sendo cinco para especialistas, tendo férias de três meses dependendo dos casos, licença-maternidade de quase um ano e paternidade de um mês, não havia desemprego na União Soviética e a despeito do déficit habitacional, os soviéticos produziram mais de cinco vezes habitações do que as que foram construídas no período final do czarismo. Os soviéticos mandaram o primeiro homem ao Espaço, o primeiro satélite e a primeira estação espacial.


         Seja como for, na medicina, os soviéticos foram pioneiros na neurociências e em cirurgias de alta complexidade, como as coronárias. 

          No ramo musical e artístico, os soviéticos além de financiarem artistas de renome como Prokofiev e Shostakovich, democratizaram o acesso dos jovens soviéticos aos conservatórios de música, incentivaram a leitura, sendo o povo russo até hoje um dos que mais leem livros no mundo, e grandes escritores como Madestam, Pasternak, Isaac Babel, e o serafim dos poetas, Maiakovsky, floresceram no período soviético.


          A equalização dos direitos dos homens com as mulheres no ocidente foi acelerada pelos soviéticos, que além de darem o mesmo salário e os mesmos direitos laborais e políticos para as mulheres, permitiu o divórcio antes do Reino Unido e os Estados Unidos, o aborto e outras medidas que ainda estão em discussão hoje. 

            Pode-se discordar da ideologia comunista, pode-se falar dos crimes de Stálin ou mesmo que o regime soviético teve inúmeros erros, e teve, mas foi o primeiro regime que realmente pensou de forma diferente desde o início, primeiro na concepção da economia, depois na concepção intelectual e educacional, na concepção social e na concepção de valores. Muitas coisas que temos hoje são fruto da Guerra Fria, são fruto das lutas por direitos sociais iniciadas na Revolução Russa e o regime soviético foi responsável pela derrocada do nazi-fascismo e pela existência de regimes democráticos no ocidente.

            Se hoje podemos falar em direitos humanos foi porque a União Soviética foi membro-fundador da ONU e incrivelmente assinou a Carta-magna, defendeu por muito tempo a abolição do trabalho escravo depois da queda de Stalin e auxiliou na guerra pela descolonização na África e na Ásia. Sim, os soviéticos também erraram, não eram perfeitos e muitas vezes  foram coniventes, seja com as ditaduras na América Latina, seja com alguns movimentos que terminaram piorando a situação de alguns povos na África e no Camboja.

            Mas antes de cuspir nas estátuas de Lenin, destilar o seu ódio contra a foice e o martelo e julgar os comunistas, lembre-se, a existência do seu sinal de Tv e  internet dependeu do satélite lançado em 1957 pelos soviéticos, assim como você ter assegurado o direito de ter saúde pública, educação e direitos a férias e a abono salarial.


Aos que se dedicam a ler, recomendo a leitura dos Dez dias que abalaram o mundo de John Reed, que conta o dia a dia na Rússia nos últimos dez dias que antecederam a Revolução Russa. Assim como recomendo Rumo à Estação Finlândia de Edmond Wilson que dá o início do panorama intelectual da esquerda até a ascensão de Lenin e dos bolcheviques na Rússia.  Assim como recomendo sem dúvida o Ano I da Revolução Russa de Victor Serge e as duas biografias feitas por Simon Montefiore sobre Stálin: Jovem Stálin e a Corte do Czar Vermelho.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Desemprego: dilema do século XXI

Eu acho que vai ter uma época que vamos ter que aceitar que o desemprego como fato consolidado. Não teremos mais espaço para realocar milhares de pessoas no mercado de trabalho e nisso fica a pergunta: O que faremos?
A proposta revolucionária visivelmente não encontra mais respaldo como tinha no século passado, o mundo está se deteriorando rapidamente por consequência do modelo de reprodução do capital que ao mesmo tempo que não distribui riquezas, inibe as novas gerações em terem posições garantidas no mercado de trabalho. O aquecimento global e a deterioração do nosso meio-ambiente são fatos consolidados. Vamos admitir que as pessoas realmente não tenham mais oportunidade, mesmo com vários diplomas e especializações, porque cada vez mais os robôs entrarão em cena, ou vamos usar a tecnologia para criar um sistema de isonomia social em que todos os membros da nossa sociedade terão direito a três refeições ao dia, educação de qualidade, habitação e aos recursos básicos de subsistência? Já é possível fazer algo assim, temos safras recordes todos os anos, temos superávit na construção civil, crescimento na produção industrial a partir da automatização. Mas se aceitarmos isso, temos que ver que o neoliberalismo e a acumulação de riquezas com alta concentração de capitais necessariamente vai ter que parar. Se o sistema capitalista quer ainda sobreviver por mais outro século, então, é hora de se reinventar. A questão é: como? Pois bem, tendo em vista que nos próximos anos, entre dez a vinte anos, a participação de robôs e computadores será significativa, inclusive substituindo profissões consolidadas, como advogados, psicólogos, operários da construção civil, médicos, taxistas, comerciantes. Tudo isso será substituído por consultórias jurídicas feitas por softwares de inteligencia artificial, que irão ser capazes de interpretar o sistema de leis, inteligências artificiais que passarão a fazer consultória e aconselhamento psicológico, robôs que irão fazer construções baseados em projetos feitos sobre o computador, montando tijolos e placas de concreto assim como se monta automóveis.


Nem para plantar precisasse mais de mão humana


         Robôs cirurgiões que irão fazer incisões com nanotecnologia e muitas vezes com raios laser em células cancerosas ou mesmo realizando partos. Automóveis autônomos, identificadores de tendência e softwares formadores de opinião que passarão a exercer o trabalho de comerciantes e catapultaram o comércio eletrônico. Todas essas são tendências e o que será  feito dessas profissões?


Não será mais necessário um motorista do Uber pra te levar pra casa, o carro te leva sozinho

Balconistas realmente serão substituídos por funcionários autômatos, assim como faxineiras, garis ou mesmo policiais. As guerras serão cibernéticas, envolvendo bolsas de valores, mortes virtuais e aparelhos eletrônicos sendo destruídos. A verdade é que nesse novo panorama até a nossa moeda se tornou virtual, podemos fazer transações de crédito em segundos e todo o lastro que temos hoje com o dólar poderá ser agora indexado numa nova moeda, o bitcoin.




Escrevo isso em 2017 numa economia estagnada e com problemas sérios de concentração econômica, os bolsões de pobreza estão ressurgindo e as gerações mais jovens não estão conseguindo se reinserir no mercado de trabalho, ao contrário das gerações anteriores que tinham mais oportunidades de acumular capital através da especialização, ter um futuro profissional e uma carreira, o que constatamos no século XXI é que nenhum diploma realmente garante um emprego exatamente pelo caráter fluído da especialização, cada vez mais as pessoas são obrigadas a fazer cursos específicos em áreas cada vez mais complexas e sendo menos remuneradas do que antes. A única exceção é a indústria tecnológica. Teremos que admitir uma hora que não haverá mais emprego como antes, repartições públicas poderão ficar obtusas, assim como a prestação de serviços, a indústria e o setor primário. Esses dois já substituíram boa parte dos seus empregados por máquinas, inclusive hoje já existem colheitadeiras autônomas que não precisam sequer de condutor para colher as safras recordes. O mesmo para as indústrias, sobretudo a automobilística que usa agora robôs para montar componentes, indexar os blocos dos motores, soldar chapas de aço e montar até mesmo pára-brisas.


Construção civil a partir de robôs já  é realidade


Assim como o robô cirurgião


A impressora 3D vai acabar com o trabalho manual dentro de dez anos, isso é um fato, não será mais necessário você sair para comprar uma panela ou mesmo um prato para a sua casa, basta ter o software, ter o modelo de uma panela ou um prato e mandar a impressora produzir. Simples assim. É nisso que entra tudo isso.


Uma das impressoras 3D fez o molde de um motor de combustão interna

       O maior capital do século XXI não será o dinheiro e sim o conhecimento. 

          Isso já é uma tendência do século XX, quem tinha conhecimento sempre tinha maiores oportunidades para acumular dinheiro e também conseguir postos de trabalho avançados, mas agora, eis a diferença. O dinheiro virtualmente não irá existir na sua forma de valor de trabalho-braçal, ou mais leigo, tempo de trabalho desempenhado por um trabalhador para fazer um produto, tudo agora dependerá apenas do conhecimento para fazer o produto.


            Se formos ao pé da letra, o software necessita de um desenvolvimento, um cálculo matemático preciso, horas de trabalho, desenvolvimento de tecnologia de informação e tudo mais. Para você produzir a panela na sua casa, você vai precisar do software na sua impressora 3D. Assim como nos apps do seu celular, você é obrigado a pagar por um determinado produto para usufrui-lo (exemplo, você paga para jogar Angry Birds), e assim a empresa ganha dinheiro, se mantem e gera lucro.


              Como será feito quando não tivermos empregos suficientes para todos? Quando não tivermos mais médicos, policiais, dentistas, garis ou taxistas?


Policiais robô já são realidade

   Temos duas opções: 


         Primeira, aumentar os bolsões de pobreza com a maior parte da humanidade recebendo ajuda do Estado enquanto toda a cadeia de produção e reprodução das riquezas alimenta uma casta cada vez mais diminuta de pessoas, que terão acesso a todos os serviços, todos os bens e à ponta da tecnologia, usufruindo de alimentação saudável de ponta e água potável. (Cenário perverso e mais provável).


        Segunda, iniciar uma sociedade onde todas as funções de trabalho serão feitas por máquinas,  ou uma "escravidão" dos robôs, em favor do bem-estar da humanidade, em que todos os materiais e compostos serão feitos por robôs, desde a colheita dos alimentos, a extração dos recursos naturais, produção de produtos de consumo, construção de casas e automóveis. Isso seria a democratização plena dos meios de produção, todo mundo teria em tese acesso a uma educação de qualidade, alimentação digna, habitação, teria acesso a meios tecnológicos com variações de niveis sociais. Ou seja, uma sociedade ancorada na tecnologia. Mas qual seria a  moeda dessa sociedade? 


         Nos dois casos fica a pergunta: Qual a moeda desse sistema?

         No primeiro caso, senão houver emprego para todos a moeda será restrita, apenas  a elite terá acesso ao dinheiro tendo em vista que as necessidades básicas da população não serão supridas e não haverá consumo. Ou seja, crise, fome e revoltas sociais (a não ser que tenha um controle sistemático das mídias sociais, que já existe, e se caia no terreno do paternalismo, com o Estado dando pensões para todos sobreviverem em condições mínimas enquanto a elite sobrevive sendo beneficiada por toda a cadeia produtiva).


            Segundo caso, o capital será intelectual. Explico: Únicas limitações de uma economia alicerçada por robôs, embora exista a Inteligência Artificial, é necessária ainda a presença de um ser humano para pensar, realizar os cálculos, inventar. Nisso temos uma coisa séria, precisa-se do trabalho intelectual humano para se desenvolver softwares e máquinas.



                 Não só isso, robôs não produzem cultura. Cultura é uma coisa que só existe em seres humanos.



               Eis as duas únicas coisas que robôs não podem fazer e que é exclusivo a seres humanos: Um robô precisa do exemplo de um ser humano para exercer um trabalho manual, seja uma tela, uma música ou mesmo uma partida de xadrez: exemplifico Bob Fischer contra um computador (Bob Fischer perdeu a segunda partida, mas o computador só pode vencer porque alguém colocou na programação as regras de uma partida de xadrez).
Bob Fisher contra um computador
  Nós conferimos valor à nossa própria inteligencia e a nossa própria cultura e numa economia onde as pessoas não exercem um trabalho mais braçal, elas serão obrigadas a exercer um trabalho intelectual. O maior capital da nossa nova sociedade é a inteligencia.

             De toda forma, no primeiro caso, a elite também será a elite intelectual e não exclusivamente financeira, e eis o problema: Essa elite investe maciçamente na pauperização da educação regular, corta os incentivos da educação pública, segrega e fecha os espaços para que as pessoas possam se especializar ao mesmo tempo em que cria distrações para as massas com mídias sociais, Instagram, tabloides e exploração da imagem de celebridades. Eis o que acontece, os ricos não apenas estão ficando mais ricos, os pobres estão ficando mais burros justamente porque não percebem que está se criando um fosso intelectual.

            

            É apocalíptico o que irei falar, mas é possível que as diferenças sociais possam se  tornar diferenças biológicas. Não no sentido racial, mas no sentido biológico. Os ricos poderão ter acesso à medicina de ponta, com a nanotecnologia ao seu favor, uso da biomedicina para impedir doenças congênitas, usar inclusive a medicina para promover a melhoria da sua capacidade neurológica e ficarem ainda mais inteligentes. Sem contar que pessoas que ingerem alimentos saudáveis, sem agrotóxicos, costumam ser mais saudáveis e mais inteligentes ao mesmo tempo.
Nanotecnologia usada para o tratamento do câncer


Se o cenário apocalíptico se concretizar, os pobres além de não conseguirem ter acesso ao melhor tratamento, morrerão mais cedo, terão a capacidade neurológica prejudicada primeiramente porque não terão uma educação de qualidade, segundo porque a sua alimentação deficiente, e munida de agrotóxicos poderá levar a um retardo mental que poderá se alastrar para outras gerações. Então nesses dois casos, o que é inevitável? O Estado. Eis a questão, o Estado desaparecerá ou não? Eu acredito que não, o Estado é mais que necessário para manter as disparidades sociais, ele é um regulador de tensões. Mas eis que numa sociedade do primeiro caso, o Estado será obrigado a distribuir alimentos de baixa qualidade, instituir uma ajuda financeira maciça para impedir que os bolsões de riqueza façam com que leve à extinção na forma do genocídio programado em uma parte que não terá acesso a alimentos, nem a dinheiro, moradia ou saúde de qualidade. Segundo caso, se o Estado existir, ele será o garantidor de educação de qualidade e saúde para todos os seus cidadãos. Eu não estou falando que no segundo caso não existirá classes sociais, de fato existirão, mas o Estado iria eliminar boa parte da desigualdade social garantindo educação de qualidade e saúde, alimentação dignas e moradia para que todos os seus cidadãos possam investir em suas próprias concepções, seja serem desenvolvedores de tecnologia ou desenvolvedores de cultura. Na sociedade do século XXI a tecnologia e a cultura estarão diretamente interligadas e eis que fica dois apontamentos: O conservadorismo sempre gerará fracasso. Explico, um modelo que favorecer a plataforma conservadora que acredita que todos podem ter emprego nos moldes clássicos e que a tecnologia não irá impedir isso, é simplesmente acreditar que a máquina a vapor não substituiu o trabalho manual na era vitoriana. O conservadorismo se aplicado só irá favorecer o primeiro modelo de brutal estratificação social, um modelo em que toda a cadeia produtiva será feita por robôs, grande parte da sociedade estará à margem em completo desemprego, enquanto a elite terá acesso ao melhor da alimentação, da saúde e da educação, tornando diferenças sociais em biológicas. O segundo apontamento é que o capital não existirá mais como antes. Então as Bolsas de Valores, os bancos, e todas as estruturas de capital artificial uma hora inevitavelmente irão acabar e serão substituídas por algo muito simples: Capital intelectual. Duas coisas podem acontecer e que podem mudar o modelo: Primeiro: Corrida Espacial, nesse caso, imigração. Os bolsões de pobreza terão inevitavelmente que procurar outros caminhos para a sobrevivência, nesse caso, a população da Terra, mais pobre, terá que procurar outros planetas para sobreviver, nisso plantar, desenvolver outras sociedades e culturas a partir disso tudo. É plausível, eu diria que a Corrida Espacial sempre foi a nossa aposta mais confiável nesse panorama geral.

Dez maneiras dos humanos colonizarem o Espaço

Segundo: Genocídio. Esse o lado mais triste de tudo. O lado em que os bolsões de pobreza irão se somar e as elites intelectuais irão usar a tecnologia para promover a morte de populações inteiras, seja pela fome, seja pelo desemprego, seja pela ausência de apoio médico de qualidade, ou pior ainda, usar a tecnologia a seu favor para matar seres humanos. Nesse caso, usar máquinas para o extermínio sistemático ou a propagação de doenças. É o panorama mais triste de todos e que mostraria o lado perverso que o ser humano sempre teve desde o seu nascimento como espécie. O desemprego é algo inevitável nos próximos 10, 20 anos. A corrida espacial pelo curso pode ocorrer entre 2040-2050 se realmente tiver a proposta de colonização. Mas se não, se nós não aceitarmos que é realmente necessário usarmos a tecnologia a favor de toda a espécie humana e promover a isonomia das classes sociais, dando o mínimo para que esse bolsão de pessoas possa se desenvolver, o único apontamento que teremos é que no final do século teremos um futuro perverso tal como o descrito por Black Mirror e outras distopias futuristas; O tempo-trabalho não será mais o nosso motor e agente econômico das nossas interações sociais, ao invés disso, a humanidade precisará reinventar o seu sistema produtivo ao mesmo tempo que produz em larga escala coisas como alimentos e produtos, terá que se adaptar à distribuição disso numa sociedade que conviverá com o desemprego como um fato consolidado. As soluções podem mudar, o panorama também, mas seja como for, podemos aproveitar a tecnologia ao nosso favor ou simplesmente usá-la para reforçar ainda mais a desigualdade social. Desde o neolítico até hoje, duvido que tenhamos passado por um desafio tão grande para a nossa sociedade como agora.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Sobre a minha depressão

      Esse tema é recorrente a muitas pessoas, mas infelizmente é uma doença crônica que me acompanha desde os meus 16 anos.  A depressão começou em estágios, primeiro foi através do bulling de forma surda, depois foi com o sistemático silêncio que havia da minha família sobre esse tema e foi se agravando com o passar dos anos.

      Não convém culpar alguém por isso, mas nos últimos meses eu venho tendo uma depressão muito intensa intercalada com estresse pós-traumático. Recorrentemente eu tenho ideias suicidas e isso volta e meia vem a tona como nas minhas três tentativas anteriores. A primeira foi com 16 anos, sobrecarregado pelo estresse e a ansiedade, eu convivi muito tempo em silêncio enquanto me sentia humilhado pelos meus colegas, eu tentei me jogar do alto de uma escadaria. Felizmente não deu certo.

       Essa tentativa de suicídio fracassada me deu a chance de viver novos sete outros anos, conhecer novos amigos, ter novos  amores, fazer um curso universitário que eu gostava, ter um carro e pensar em ter um futuro. Infelizmente no meio desse caminho, a solidão veio me acompanhando e eu não conseguia me expressar por vergonha ou inibição própria. A relação com meus pais tornou-se cada vez mais complicada, dentre cobranças e atritos. Meu primeiro namoro foi completamente inviabilizado por causa disso.

        O resultado foi a minha segunda tentativa de suicídio, agora com antidepressivos. 

    
        Desde então a minha base de apoio se tornou meus amigos e sempre busquei viver alheio à minha família. A morte do meu avô pelo câncer me impactou de forma muito profunda e com essa marca eu cheguei a pensar na minha própria existência, esses temas nunca puderam ser discutidos com meu pai infelizmente, que nunca entendeu, ou nunca se esforçou em compreender porque eu queria me matar. O quadro de profunda infelicidade foi se aprofundando com os anos e a medida que eu envelhecia eu deixava de ter a ambição de seguir os meus próprios sonhos.

       Quando eu desejei ir para Rússia, diziam que eu não era capaz, que eu não devia ficar longe da família e muitas vezes fizeram chantagem emocional comigo. Eu desisti de ser historiador no momento que eu vi que eu não tinha mais ânimo para estudar, sobrecarregado pela universidade, pressionado de todos os lados, eu me senti cada vez mais solitário e desisti dos meus sonhos.

       A minha inserção no mercado de trabalho se deu porque eu não queria passar fome, comecei a trabalhar como representante comercial e sim, recebi um bom dinheiro, tive momentos ruins, tive momentos bons, mas realmente não me sentia realizado e diante das cobranças do dia a dia eu costumava duvidar se eu tinha capacidade para levar aquilo à frente.

       Os erros foram aparecendo e cada vez eu me sentia mais inibido de procurar outras ocupações, quando eu terminei a universidade, eu não sabia o que seria da minha vida dali para frente. Trabalhei e tentei seguir em frente, cogitei várias vezes fazer um mestrado, eu desisti, e toda nova desistência eu via colegas passarem à frente e seguirem o seu futuro. Abracei como pude minha ocupação, ela poderia me dar o dinheiro necessário para ser independente e sair da casa dos meus pais, onde não me sentia a vontade.

        Nesse meio tempo, eu conheci a pessoa que me fez mudar de opinião e acreditar que eu podia conquistar o mundo, o nome dela era Giovana, ela era uma transexual. Foi o primeiro namoro sério que eu tive com uma pessoa transgênero e devo dizer que foi um desafio gostoso, eu a amei até o último dos nossos dias e sinto por não ter sido suficiente para ela. Ela tentou entender minha depressão antes de me julgar e quando as coisas ficaram impraticáveis em casa, por conta do preconceito, ela me deu um teto e fomos morar juntos.

         Eu abandonei meu emprego e decidi que devia seguir em frente, às vezes me faltava coragem, outras a inércia me consumia. Minha família não me apoiou nas minhas escolhas e nos momentos mais difíceis, eu me vi sozinho com Giovana. Ela me amou e me respeitou, ela errou também, mas foi uma mulher exemplar e nisso serei eternamente grato.

         Quando passamos pelo estupro, bem foi uma época complicada, nosso relacionamento começou a ter problemas e eu mesmo não consegui lidar direito com toda essa carga pesada. Sofremos bastante, principalmente ela, e tivemos que fazer escolhas, a escolha que tinhamos concordado foi nos mudarmos de cidade e fomos para São Paulo.

         São Paulo foi um desastre, além de eu não ter conseguido emprego, meu sonho de prestar o mestrado na USP naufragou, ela não conseguiu se manter e eu sobrecarregando todo esse peso, bem as coisas não deram certo. Passamos fome, fomos humilhados, dormimos na rua. Eu sempre pensei se era justo com nós dois, duas pessoas apaixonadas, passarmos por tantas provações.

          Por um milagre voltamos a Brasília, e bem, as coisas não melhoraram quanto imaginamos. Nosso relacionamento tinha se desgastado e o amor que tínhamos um pelo outro aos poucos se apagava, eu sentia isso. Eu também fui culpado. Ela tinha entrado em depressão, eu também. Ficamos reféns do destino e isso foi um erro.

          Giovana sofreu um sequestro nos últimos meses em que estivemos juntos, eu fiquei em pânico, achei que ela estivesse morta, chorei como nunca enquanto procurava ter notícia através das amigas e de conhecidos. Ela foi maltratada, humilhada, foi drogada e tiraram toda dignidade que um ser humano poderia ter. Ela era uma pessoa boa.

          O fim foi realmente triste e isso me trouxe certa revolta, certo incompreendimento e certa tristeza. Duas pessoas que sonhavam e se amavam tiveram que se afastar, eu fui me sinto responsável em parte por isso porque não tive energia para lutar e procurar um emprego qualquer, mesmo que fosse o mais ínfimo que fosse. Eu sou o culpado por não ter conseguido protegê-la.

          Separados, eu fui obrigado a recomeçar na casa dos meus pais, nessa altura eu já tinha feito minha terceira tentativa de suicídio, cortei meus pulsos numa banheira (até hoje eu tenho as marcas). Minha família disse que eu podia ficar o tempo que precisasse para me recuperar e conseguir voltar a ficar saudável. Minhas dívidas foram quitadas e bem, eu tentei recomeçar.

          Volta e meia eu lembrava das coisas ruins que aconteceram e começava a ter crises de choro do nada. A depressão voltou com força no último mês e eu não senti mais vontade de sair da cama. Numa dessas, eu fui agredido. Fui chamado de vagabundo, imprestável, sanguessuga. Eu que me sentia incapaz, não reagi, estou com lábios inchados até hoje por causa dos socos contra o meu rosto.

          Eu sei que fiz o melhor que eu pude, eu sei que tentei protegê-la e tentei retribuir o amor que tinha por ela, uma coisa que poucas pessoas entendem. Nesses últimos dias eu fiquei preso na ideia de que o suícidio seria minha redenção, eu me isolei de todas pessoas ao meu redor, fiquei longe dos meus amigos e decidi que devia lidar com isso. Setembro Amarelo é só uma data comemorativa, poucas pessoas aparecem para te ajudar quando você realmente está mal. Uma dessas pessoas foi Gerson, um dos meus melhores amigos, que me fez repensar a minha vida de algumas formas, outra foi o Rômulo que me fez acreditar que eu tenho um futuro fazendo o que eu gosto.


         Desde então, tem três dias, três dias apenas, que eu voltei a escrever, coisa que não faço há um bom tempo e comecei a redigir um novo livro. Não sei se irá para frente, mas é mais uma tentativa. Não consigo digerir certas coisas, o estupro e o sequestro foram coisas realmente traumáticas das quais só o tempo me ajudará a esquecer, mas eu sei que eu tentei ser uma pessoa boa e tentei ajudar o próximo, mesmo que ninguém compreenda o que signifique mais isso. Muito menos pessoas que me criaram e que me agrediram. 

         A isso tudo eu prometo, eu seguirei em frente. Eu te amo Giovana, obrigado Gerson, obrigado a todos meus amigos e obrigado a minha mãe e à minha irmã por terem ficado comigo. O futuro é um enigma, mas todo dia será uma luta daqui em diante.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A batina e a fé

            O Brasil foi moldado a partir do catolicismo, mas como um país supostamente laico se tornou tão religioso nos últimos tempos?


            Historicamente, a colonização portuguesa associada com a doutrinação jesuítica formulou o catolicismo brasileiro, todo o sistema educacional escolástico é baseado nessa doutrina religiosa e até hoje temos reminiscências disso em nossa cultura. Eu não vou me dedicar à herança cultural do catolicismo nesse texto, mas vou falar da transformação de uma sociedade laica e predominantemente católica em uma sociedade neopentecostal à caminho de se tornar teocrática. Como isso começou?

         O protestantismo no Brasil é antigo, mas sempre foi uma doutrina marginal. Inicialmente o contato das populações locais com a fé protestante se deu durante as tentativas de invasão do território brasileiro no período colonial, sendo que o calvinismo huguenote apareceu pela primeira vez no Brasil em 1557 sob ordens do próprio João Calvino para a propagação da fé nos trópicos. Com a expulsão dos franceses por Mem de Sá, os protestantes do Rio de Janeiro acabaram sendo enforcados ou expulsos do Brasil.

          Contudo, o flerte com o protestantismo não se findou. Em 1630, os holandeses acabaram trazendo suas próprias igrejas protestantes para Recife, e embora existisse um coexistência pacífica das religiões por intermédio do governo de Maurício de Nassau, o final disso foi o mesmo das populações judaicas de Recife. Com a tomada de Recife e Olinda pelos portugueses, os judeus e protestantes foram obrigados a imigrar e acabaram caindo na América do Norte, fundando o assentamento de Nova Amsterdam (Hoje Nova Iorque).

           O protestantismo ficou na marginalidade até 1808, quando a corte imperial portuguesa aporta no Rio de Janeiro, nesse contexto, os britânicos, aliados dos portugueses, passaram a ter o direito de exercer a sua fé em terras brasileiras e construir suas próprias igrejas e cemitérios (separados das instituições católicas, evidentemente).


          Com o advento do Brasil Imperial e a explosão de vários grupos religiosos, as novas agremiações religiosas americanas acabaram chegando ao Brasil, seja os metodistas, presbitarianos e batistas. Os anglicanos já tinham a sua fé assegurada devido ao Tratado de Comércio e Navegação assinado por Dom João VI, e os luteranos tinham sua fé respeitada devido a crescente imigração alemã no Sul do Brasil.


         Com o advento do movimento missionário, os protestantes começaram a criar instituições educacionais no Brasil, sendo a mais famosa delas o Colégio e depois a Faculdade Mackenzie. As missões missionárias basicamente tinham por fim evangelizar os índios, fazer papel de assistência social às populações do interior do Brasil e tinha inclusive uma ideia de alfabetização bastante forte.


         Com a criação do estado laico na Primeira República, o monopólio do catolicismo na sociedade brasileira foi rompido. De fato, as uniões e os batismos realizados por outras religiões também passaram a ser reconhecidos pelo estado, embora ainda fosse necessário o registro civil.

         As ações missionárias intensificaram-se sobretudo na Amazônia e no Nordeste. Contudo, na década de 1950 é que realmente o pentecostalismo ganha força sobre as outras vertentes religiosas. Em vias de fato, o pentecostalismo e o neopentecostalismo são fenômenos recentes, e a sua proposta de teologia da prosperidade tem a ver sobretudo com a era dourada que os Estados Unidos assistiram depois da Segunda Guerra Mundial.


        Por essa doutrina, o sucesso material era uma prova não apenas do trabalho individual, mas principalmente da fé. Deus concederia aos mais fiéis objetos materiais, casas, empregos e automóveis para aqueles que realmente fizessem sacrifícios  pela religião e pela fé. Aqueles que não conseguiam ter sucesso financeiro ou profissional, então, por essa lógica, não estavam realmente no caminho divino e eram menos religiosos dos que conseguiram conquistar os seus sonhos.


       É uma doutrina essencialmente capitalista de que a fé é o motor do sucesso individual. No Brasil, esse movimento ganhou força sobretudo em 1964, quando as organizações religiosas protestantes norte-americanas textualmente apoiaram o golpe militar.


       O neopentecostalismo cresceu no Brasil na década de 70 e 80 nas comunidades mais pobres, em consonância com o aumento da desigualdade social e o advento  da fome sistemática no Nordeste. As pessoas da periferia, muitas delas ignoradas pelo regime militar  e pelos direitos básicos de saúde e educação, tinham na fé o elemento de soltura de suas insatisfações e seus receios. O neopentecostalismo prometia uma coisa diferente do catolicismo, e de sua vertente mais ativa, a Teologia da Libertação: aqueles que rezassem muito, fossem religiosos, pagassem o dízimo, poderiam ser salvos no "Reino de Deus", poderiam ser agraciados com um emprego, uma casa, ou automóvel. Poderiam curar as próprias doenças ou mesmo conseguirem ascender socialmente.


       Nessa crescente exploração da pobreza  e da fé, o neopentecostalismo saía na frente do catolicismo, tendo em vista que a doutrina católica sempre pregou o desapego material e o sofrimento como elementos de fé, inclusive o catolicismo pregava o compartilhamento das riquezas enquanto o neopentecostalismo prega justamente o contrário, a individualização da fé e das riquezas. Não existe caridade no neopentecostalismo, cada um reza por si, e doa para conseguir um lugar privilegiado na vontade divina.


      Com essa explosão religiosa, João Paulo II observava o número de fiéis católicos brasileiros diminuírem constantemente, e isso era um dos alvos de preocupação do Vaticano. A perda de terreno na América Latina ameaçaria o futuro da própria Igreja. Não a toa que o Papa visitou o Brasil três vezes e usou de todo o seu capital político e popularidade para cativar as multidões.


      Entretanto, o neopentecostalismo tinha uma ferramenta que a Igreja Católica não soube usar: a mídia. Exatamente isso que fez o neopentecostalismo crescer, o uso maciço da televisão e do rádio como ferramenta para a propagação  da fé. Os rituais teatrais do descarrego e as sessões de fogo sagrado passavam a conquistar os elementos mais impressionáveis com todo o simbolismo que provavelmente foi retirado das religiões de matriz africana.


       De fato, a organização de igrejas com capital político para comprarem um programa de TV, e depois um canal, como a Rede Record, fizeram explodir a popularidade da fé entre os mais pobres e a classe média em ascensão. O surto de crescimento econômico iniciado pelo Plano Real fez com que a qualidade do brasileiro palatinamente crescesse e a consolidação do Bolsa Família e da política de valorização do salário mínimo deram a impressão ao trabalhador normal que as coisas realmente estavam ficando melhores.

       Esse trabalhador muitas vezes associava o seu sucesso e o seu progresso financeiro à fé, e isso é um elemento relevante. Com o crescimento do número de fiéis, também cresceu o capital financeiro dessas organizações, (que não são taxadas,  inclusive não pagam impostos sobre lucros ou impostos sobre o terreno que ocupam). Com esse capital financeiro, era inevitável, houve o enriquecimento dos criadores que criaram verdadeiros impérios a la Rockefeller.


       Hoje, as igrejas são uma das modalidades de negócio com maior retorno financeiro existentes no Brasil. Não são taxadas e vivem a partir de doações. As  igrejas podem estar associadas a capitais de investimentos, manter sob seu controle empresas de comunicação, bancos e o mais importante disso tudo, Partidos Políticos.


        A laicidade brasileira nunca foi plena, mas a existência de um partido cristão com candidatos filiados às três maiores igrejas do país é um dos maiores obstáculos a um sistema democrático. Infelizmente, questões como o aborto, investimentos em pesquisa com células tronco, ou mesmo o direito ao casamento de LGBTs são travadas por uma bancada evangélica que é apoiada por uma parcela significativa da população.

      Notoriamente, membros da bancada evangélica são acusados em denúncias de corrupção, mas atrás de si possuem uma legião de fiéis que defendem suas atitudes, mesmo quixotescas, em nome da fé. É notório ainda observar que nesse panorama, as organizações religiosas foram ativas da deposição de uma presidente eleita democraticamente, e hoje fazem papel de polícia moral contra os grupos que discordam de sua doutrina proselitista.


      De toda forma, a fé tece um manto sobre a realidade e instaura hoje uma ditadura do pensamento que advoga que a única verdade está alicerçada no "amor a Cristo", evidentemente isso não é amor, quando pensamos no número de ataques contra templos de religiões africanas, no cerceamento do direito de escolha para as pessoas LGBT e na negação do aborto para casos de estupro. Sem falar, a violação de uma cláusula pétrea da Constituição, a laicidade do ensino. Agora será ofertado o ensino religioso nas escolas públicas.

      Ainda temos que destacar outros pontos absurdos, como a proposta que circulou no Congresso Nacional do perdão das dívidas para Igrejas e associações religiosas. A exploração da fé é um processo recente e que vem dando lucros imediatos, mas dilapida por completo a democracia brasileira. Nessa nova teocracia onde os tolos comandam os cegos, a batina e a fé serão as únicas bandeiras de um Brasil carcomido por sua própria história.

sábado, 26 de agosto de 2017

Sonâmbulos

          Faz  aproximadamente um ano que minha vida deu uma reviravolta inesperada, uma completa perversidade do destino combinada com a livre iniciativa de um espírito revolto. Nesse único ano de sonambulismo, estive muito preso à ideia dos meus próprios sonhos, mas a verdade que todos os meus dias se tornaram terríveis pesadelos.

        Em paralelo, acredito que toda a juventude pode ter passado por isso, pelo horizonte de expectativas de um futuro melhor, e pela triste realidade de descobrirmos que não somos realmente livres. O espírito do homem sempre foi o de buscar a liberdade e a independência, mas a verdade é que temos medo da liberdade.

       Estamos reféns filosoficamente do nosso passado, do outro  século que se prolongou entre a intolerância e o ódio, somos os filhos do fracasso, da incompreensão e da cobiça. Nossa geração é a única que foi realmente preparada para ser melhor que as anteriores, e sim, nós fracassamos. 

       É um fardo que iremos levar, um mundo cujas responsabilidades se somam e o futuro nos engana. Lidaremos com menos de trinta anos o desafio do aquecimento global, de uma economia hipertrófica onde as sucessivas secas irão ser rotineiras, que a subsistência da humanidade será refém do caráter cada vez mais escasso da água potável. Ficamos absortos a isso enquanto discutimos trivialidades no Twitter ou curtimos as fotos no Instagram, mas a verdade é que não temos soluções para os nossos próprios problemas.

        O desemprego se soma e traz consigo todas as mazelas possíveis de uma economia de mercado cada vez mais cruel e impessoal, ao mesmo tempo que a tecnologia nos poupa de trabalhos braçais desumanos, ela retira os postos de trabalho de uma população mundial que vem crescendo em exponencial. É inevitável uma catástrofe social dentro dos próximos dez anos quando a juventude será sufocada pelo mercado de trabalho.

      Na verdade, pela falta de trabalho. O ofício intelectual é ameaçado pela nova teocracia neoliberal que valoriza a composição dos números e dos índices da Bolsa de Valores, os bancos que causaram o maior pandemônio econômico dos últimos tempos e que foram socorridos pelo Estado, agora voltam ao seu papel de agiotagem e rasgam as esperanças de qualquer trabalhador obrigado a se ver na condição de devedor. Nossos novos tempos valorizam a riqueza, mas na verdade não a produzem, apenas a roubam.

        A internet nos uniu ao mesmo tempo que nos distanciou, temos agora a maior oportunidade de acesso à informação de toda história da humanidade, mas continuamos cegos. O pior de tudo, às vezes, conscientemente, e ficamos absortos quando políticos envelhecidos pelo tempo tomam a iniciativa que irá impactar completamente o nosso futuro. 

          Seja um Michel Temer rasgando a legislação trabalhista consolidada pela CLT, conseguida com muito custo, em nome "do mercado", seja um Donald Trump fechando os muros de seu país e criando uma nova Idade Média: O fato é que a crise de representatividade nunca foi mais séria do que agora.

          Nesse último ano, eu descobri o que é ser um desempregado, descobri o fantasma de ser um devedor e a humilhação de ser refém do capital artificial dos bancos, mas pior do que isso, descobri o quão grave é a sonambularia que cegou todo o nosso triste esquecimento. Não tenho mais moral nem física nem psicológica para acusar um governo reconhecidamente corrupto, associado a um sindicato do crime e referendado pela corte de juízes. É um escárnio falar sobre como nosso futuro foi roubado.

        Enquanto vocês leem essas palavras, (se é que a leem), continua o genocídio do povo sírio nos seis anos que se arrastam  a Guerra Civil. Enquanto vocês estão no Snapchat, a Ku Klux Klan está ressurgindo em Charlotteville  juntamente com os neonazistas pregando a intolerância e o ódio. As fronteiras do nosso mundo se fecham com o medo e somos prisioneiros do esquecimento.


          Não deveria mais tratar sobre isso, mas o último sonho que tive foi de uma sociedade justa em que todos os homens tivessem a oportunidade de seguir os seus sonhos, que tivessem o mínimo para sobreviver num mundo cada vez mais impessoal e hostil. A questão é que a natureza humana conduz ao exercício trágico de ruptura com tudo o que sonhamos e a liberdade é apenas uma franca piada.

          Desta pessoal que foi humilhada por pensar diferente, que passou fome por não ter tido forças para lutar e que não correspondeu as expectativas nesse mundo pouco carismático, eu digo de coração, meu amor por tudo que eu conheci se foi no momento que a fantasia se descortinou.



      Não tenho esperança de que o futuro seja melhor, não tenho esperança que o racismo irá acabar, que a homofobia irá desaparecer, o desemprego, nem a fome. Infelizmente a intolerância é praticada por gente comum em posições razoavelmente comuns, e enquanto minhas últimas palavras se findam, relembro que a insônia de nossos tempos é justamente resultado de nossa incapacidade de abrir justamente os nossos olhos para o que segue errado, quando justamente seremos a geração que irá pagar o fardo das outras anteriores.

       Não acredito que minhas palavras irão mudar o mundo, nem acredito que esteja sendo lido nesse exato momento. Estou apenas refletindo que no espelho nada aparece senão um semblante abatido de dor e sofrimento; Adeus admirável mundo novo.

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...