quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A batina e a fé

            O Brasil foi moldado a partir do catolicismo, mas como um país supostamente laico se tornou tão religioso nos últimos tempos?


            Historicamente, a colonização portuguesa associada com a doutrinação jesuítica formulou o catolicismo brasileiro, todo o sistema educacional escolástico é baseado nessa doutrina religiosa e até hoje temos reminiscências disso em nossa cultura. Eu não vou me dedicar à herança cultural do catolicismo nesse texto, mas vou falar da transformação de uma sociedade laica e predominantemente católica em uma sociedade neopentecostal à caminho de se tornar teocrática. Como isso começou?

         O protestantismo no Brasil é antigo, mas sempre foi uma doutrina marginal. Inicialmente o contato das populações locais com a fé protestante se deu durante as tentativas de invasão do território brasileiro no período colonial, sendo que o calvinismo huguenote apareceu pela primeira vez no Brasil em 1557 sob ordens do próprio João Calvino para a propagação da fé nos trópicos. Com a expulsão dos franceses por Mem de Sá, os protestantes do Rio de Janeiro acabaram sendo enforcados ou expulsos do Brasil.

          Contudo, o flerte com o protestantismo não se findou. Em 1630, os holandeses acabaram trazendo suas próprias igrejas protestantes para Recife, e embora existisse um coexistência pacífica das religiões por intermédio do governo de Maurício de Nassau, o final disso foi o mesmo das populações judaicas de Recife. Com a tomada de Recife e Olinda pelos portugueses, os judeus e protestantes foram obrigados a imigrar e acabaram caindo na América do Norte, fundando o assentamento de Nova Amsterdam (Hoje Nova Iorque).

           O protestantismo ficou na marginalidade até 1808, quando a corte imperial portuguesa aporta no Rio de Janeiro, nesse contexto, os britânicos, aliados dos portugueses, passaram a ter o direito de exercer a sua fé em terras brasileiras e construir suas próprias igrejas e cemitérios (separados das instituições católicas, evidentemente).


          Com o advento do Brasil Imperial e a explosão de vários grupos religiosos, as novas agremiações religiosas americanas acabaram chegando ao Brasil, seja os metodistas, presbitarianos e batistas. Os anglicanos já tinham a sua fé assegurada devido ao Tratado de Comércio e Navegação assinado por Dom João VI, e os luteranos tinham sua fé respeitada devido a crescente imigração alemã no Sul do Brasil.


         Com o advento do movimento missionário, os protestantes começaram a criar instituições educacionais no Brasil, sendo a mais famosa delas o Colégio e depois a Faculdade Mackenzie. As missões missionárias basicamente tinham por fim evangelizar os índios, fazer papel de assistência social às populações do interior do Brasil e tinha inclusive uma ideia de alfabetização bastante forte.


         Com a criação do estado laico na Primeira República, o monopólio do catolicismo na sociedade brasileira foi rompido. De fato, as uniões e os batismos realizados por outras religiões também passaram a ser reconhecidos pelo estado, embora ainda fosse necessário o registro civil.

         As ações missionárias intensificaram-se sobretudo na Amazônia e no Nordeste. Contudo, na década de 1950 é que realmente o pentecostalismo ganha força sobre as outras vertentes religiosas. Em vias de fato, o pentecostalismo e o neopentecostalismo são fenômenos recentes, e a sua proposta de teologia da prosperidade tem a ver sobretudo com a era dourada que os Estados Unidos assistiram depois da Segunda Guerra Mundial.


        Por essa doutrina, o sucesso material era uma prova não apenas do trabalho individual, mas principalmente da fé. Deus concederia aos mais fiéis objetos materiais, casas, empregos e automóveis para aqueles que realmente fizessem sacrifícios  pela religião e pela fé. Aqueles que não conseguiam ter sucesso financeiro ou profissional, então, por essa lógica, não estavam realmente no caminho divino e eram menos religiosos dos que conseguiram conquistar os seus sonhos.


       É uma doutrina essencialmente capitalista de que a fé é o motor do sucesso individual. No Brasil, esse movimento ganhou força sobretudo em 1964, quando as organizações religiosas protestantes norte-americanas textualmente apoiaram o golpe militar.


       O neopentecostalismo cresceu no Brasil na década de 70 e 80 nas comunidades mais pobres, em consonância com o aumento da desigualdade social e o advento  da fome sistemática no Nordeste. As pessoas da periferia, muitas delas ignoradas pelo regime militar  e pelos direitos básicos de saúde e educação, tinham na fé o elemento de soltura de suas insatisfações e seus receios. O neopentecostalismo prometia uma coisa diferente do catolicismo, e de sua vertente mais ativa, a Teologia da Libertação: aqueles que rezassem muito, fossem religiosos, pagassem o dízimo, poderiam ser salvos no "Reino de Deus", poderiam ser agraciados com um emprego, uma casa, ou automóvel. Poderiam curar as próprias doenças ou mesmo conseguirem ascender socialmente.


       Nessa crescente exploração da pobreza  e da fé, o neopentecostalismo saía na frente do catolicismo, tendo em vista que a doutrina católica sempre pregou o desapego material e o sofrimento como elementos de fé, inclusive o catolicismo pregava o compartilhamento das riquezas enquanto o neopentecostalismo prega justamente o contrário, a individualização da fé e das riquezas. Não existe caridade no neopentecostalismo, cada um reza por si, e doa para conseguir um lugar privilegiado na vontade divina.


      Com essa explosão religiosa, João Paulo II observava o número de fiéis católicos brasileiros diminuírem constantemente, e isso era um dos alvos de preocupação do Vaticano. A perda de terreno na América Latina ameaçaria o futuro da própria Igreja. Não a toa que o Papa visitou o Brasil três vezes e usou de todo o seu capital político e popularidade para cativar as multidões.


      Entretanto, o neopentecostalismo tinha uma ferramenta que a Igreja Católica não soube usar: a mídia. Exatamente isso que fez o neopentecostalismo crescer, o uso maciço da televisão e do rádio como ferramenta para a propagação  da fé. Os rituais teatrais do descarrego e as sessões de fogo sagrado passavam a conquistar os elementos mais impressionáveis com todo o simbolismo que provavelmente foi retirado das religiões de matriz africana.


       De fato, a organização de igrejas com capital político para comprarem um programa de TV, e depois um canal, como a Rede Record, fizeram explodir a popularidade da fé entre os mais pobres e a classe média em ascensão. O surto de crescimento econômico iniciado pelo Plano Real fez com que a qualidade do brasileiro palatinamente crescesse e a consolidação do Bolsa Família e da política de valorização do salário mínimo deram a impressão ao trabalhador normal que as coisas realmente estavam ficando melhores.

       Esse trabalhador muitas vezes associava o seu sucesso e o seu progresso financeiro à fé, e isso é um elemento relevante. Com o crescimento do número de fiéis, também cresceu o capital financeiro dessas organizações, (que não são taxadas,  inclusive não pagam impostos sobre lucros ou impostos sobre o terreno que ocupam). Com esse capital financeiro, era inevitável, houve o enriquecimento dos criadores que criaram verdadeiros impérios a la Rockefeller.


       Hoje, as igrejas são uma das modalidades de negócio com maior retorno financeiro existentes no Brasil. Não são taxadas e vivem a partir de doações. As  igrejas podem estar associadas a capitais de investimentos, manter sob seu controle empresas de comunicação, bancos e o mais importante disso tudo, Partidos Políticos.


        A laicidade brasileira nunca foi plena, mas a existência de um partido cristão com candidatos filiados às três maiores igrejas do país é um dos maiores obstáculos a um sistema democrático. Infelizmente, questões como o aborto, investimentos em pesquisa com células tronco, ou mesmo o direito ao casamento de LGBTs são travadas por uma bancada evangélica que é apoiada por uma parcela significativa da população.

      Notoriamente, membros da bancada evangélica são acusados em denúncias de corrupção, mas atrás de si possuem uma legião de fiéis que defendem suas atitudes, mesmo quixotescas, em nome da fé. É notório ainda observar que nesse panorama, as organizações religiosas foram ativas da deposição de uma presidente eleita democraticamente, e hoje fazem papel de polícia moral contra os grupos que discordam de sua doutrina proselitista.


      De toda forma, a fé tece um manto sobre a realidade e instaura hoje uma ditadura do pensamento que advoga que a única verdade está alicerçada no "amor a Cristo", evidentemente isso não é amor, quando pensamos no número de ataques contra templos de religiões africanas, no cerceamento do direito de escolha para as pessoas LGBT e na negação do aborto para casos de estupro. Sem falar, a violação de uma cláusula pétrea da Constituição, a laicidade do ensino. Agora será ofertado o ensino religioso nas escolas públicas.

      Ainda temos que destacar outros pontos absurdos, como a proposta que circulou no Congresso Nacional do perdão das dívidas para Igrejas e associações religiosas. A exploração da fé é um processo recente e que vem dando lucros imediatos, mas dilapida por completo a democracia brasileira. Nessa nova teocracia onde os tolos comandam os cegos, a batina e a fé serão as únicas bandeiras de um Brasil carcomido por sua própria história.

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