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domingo, 22 de abril de 2012

Volodia


           

       Volodia, para bons entendedores de russo é o diminutivo carinhoso de Vladimir.

       Vladmir por sua vez tem por sua vez origem epistemologica em duas palavras de origem eslava há muito conhecidas: Vlad e mir.

        Vlad:  Literalmente é uma palavra que designa líder, condutor, guia.

        Enquanto Mir, do russo, pode tanto designar Paz como o Mundo.


        Vladmir logo pode ser traduzido por dois significados: "Condutor da Paz", "Guia do Mundo".


         Deve ter sido por isso que Ilya Nikolaievich deu esse nome para o seu fillho que estava destinado a mudar de alguma maneira o Mundo: Vladimir Ilyich.


          Talvez ele não soubesse o que estava destinado quanto ao futuro do próprio filho e talvez pudesse até mesmo ficar horrizado com o fato de se tornar um revolucionário capaz e ativo que iria pôr fim ao Império que ele próprio desejava renovar com suas propostas liberais. Em todo caso, esse tópico irá tratar de um individuo em específico, um líder das massas: Lênin

        Já fiz postagens em demasia sobra figura de Lênin, minha proposta agora é mostrar algumas fotos (conhecidas ou não) da vida da "Águia das Montanhas" (como Stálin se referia ao seu antecessor).

Os Ulianov, em foto de família

          Para começar, nada mais conveniente, do que mostrar a família Ulianov...  Como podem ver, a família em si era muito extensa, e Vladimir nasceu numa família de seis irmãos, sendo ele o irmão do meio,  apesar disso, a família vivia em uma condição razoavelmente abastada, e Ilya Ulianov, o homem com um calvanhaque vistoso e careca das quais Lênin iria herdar, era rigoroso com o estudo dos filhos.

         A mãe, Maria Alexandrovna, era uma típica dona de casa luterana religiosa, que com a morte de seu marido fazia de tudo para sobreviver com a renda dos aluguéis de sua família, e num momento posterior, quando Lênin ingressa na clandestinidade, ela apoia o seu filho, enviando lhe dinheiro no exílio.

          Para os curiosos, Lênin é o menino em traje de marinheiro, sentado à direita, perto ao seu pai.



        Essa foto ao lado foi retirada por volta da virada do século XIX,  antes que Lênin tenha ingressado nas rodas marxistas... Nessa época, Vladimir Ilyich era um estudante de advocacia que foi expulso da Universidade de Kazan, por causa das ligações do seu irmão, Aleksandr, com o atentado ao Czar Alexandre III.


      Nesse meio tempo, Lênin servia muitas vezes como advogado em pequenas causas no Baixo Volga, recebendo honorários em muito diferentes aos que um advogado pode estar acostumado, como galinhas e ovos. Mesmo assim ele prestava tais serviços a pequenos proprietários de terra locais.










         Essa foto, retirada em 1898, pelo que me lembro, é a foto de passaporte de Vladimir Ulyanov, agora um reconhecido revolucionário, membro do Partido Social-Democrata dos Operários Russos, nessa época, Lênin vivencia um dos seus mais simbólicos exilíos, junto ao rio Lena, onde ele iria retirar o seu pseudonimo mais famoso: LENIN ("Homem do Lena").



Krupskaia





     É nessa época também que Lenin já havia tomado contato com uma das ativistas mais fervorosas do Partido, com quem futuramente ele iria desenvolver uma relação amorosa meio complicada, mas verdadeiramente honesta ... Nadezhda Krupskaia.












Lênin em tempos posteriores

          Depois de constantes divergências entre o cenário político do Partido Social Democrata, enfim, Lênin assiste tal partido se dividir entre duas facções: Mencheviques e Bolcheviques durante um dos inúmeros congressos partidários que ocorrem no exílio ( O Congresso em Londres 1907 foi sem dúvida o mais marcante). Lênin então conduz o seu ramo político, os bolcheviques do exílio, assistindo de longe (e ainda assim de perto) os acontecimentos na Rússia.

           No exílio ele encontra em uma de suas viagens, Maximo Gorky, o grande escritor russo, de vertente moderada socialista, com que ele tem uma amizade com alguns atritos...

Lênin (de chapéu coco, sentado) jogando xadrex com Gorky, o barbudo pensativo

           Nessa foto por exemplo, Lênin se encontra com Gorky em Capri, Itália, no retiro do escritor no exílio, e se dispõe a jogar xadrex com ele.




         O peregrino Ulianov, assim poderiamos encarar esse período para Vladimir Ulianov, que distribuiu o solado de seu sapato por cada grão de terra da Europa... Paris, Londres, Petersburgo, Viena, Helsinque, Polônia, Suíça.


         Lenin mais e mais no exílio parecia desenvolver suas teorias políticas, como se  o exílio tivesse iluminado sua cabeça para as suas ideias... Nessa foto ao lado, Lênin contempla-se com o ar das montanhas durante sua estada na Galícia (parte austríaca da Polônia).








Em 1917, depois uma atribulada viagem e um arriscado empreendimento, Lênin retorna à Rússia em meio ao caldeirão explosivo que se formava antes da dita Revolução Russa: O Czar havia abdicado e um governo de proposta liberal havia se formado.


        O momento mais emblemático disso talvez tenha sido a recepção calorosa que Lênin obteve ao desembarcar na Estação Finlândia, quando os trabalhadores, munidos de bandeiras vermelhas e rosas cantavam a plenos pulmões a Internacional.

        Algumas semanas depois, Lênin estava expondo suas Teses de Abril numa sessão do Soviete de Petrogrado...

Lênin expondo as Teses de Abril



     Lenin, logo após a isso, depois de uma tentativa frustrada de golpe iniciada pelos marinheiros de  Krondstadl, teve que se esconder, sob o perigo de ser execultado pelo Governo Kerensky.

     Nisso Stálin toma para si a missão de esconder Lênin, levando-o para a Finlândia, onde ele o disfarçou como um simples camponês, tirando-lhe a barba, tão característica e ajeitando uma peruca que ficara maior na cabeça de Lênin.


Ficheiro:Lenin-last-underground, 1917.jpg


     Vai me dizer que Lênin não ficou irreconhecível?




        Enfim, a Revolução de Outubro, que aconteceu em 7 de novembro, demonstrou-se vitoriosa e por fim, Lênin e o Partido Bolchevique começam a dirigir a Rússia, e Lênin começa a pensar no que seria base da União Soviética.



         Essa fotografia  logo ao lado é do Primeiro Aniversário da Revolução Russa, em 7 de novembro de 1918,  na qual Lênin, toma parte de um discurso sobre os feitos dos trabalhadores russos nesse primeiro ano pós-Revolução.




        Alguns dias depois Lênin sofreria um atentado deflagrado por uma terrorista anarquista chamada Dora Kaplan quando visitava a Fabrica de Automóveis de Petrogrado.









         Vladimir Ilyich começa a ter a sua saúde debilitada a partir do momento em que sofreu o atentado (alguns acreditam que o atentado tenha sido relacionado à fragilidade da saúde do líder soviético), e Lênin mais e mais se afasta do Partido para se tratar em Gorky (Nijni Novgorod), na verdade, mais e mais ele se ve afastado do Partido por causa das manipulações políticas de Stálin, que agora se despontava como Secretário-Geral.


Lênin e seu gatinho

       
          Lenin criticara esse centralismo político em torno de Stálin e tivera discussões acaloradas com o seu "discipulo" (se podemos usar esse termo).
  
         Nessa fotografia, ele passeia com o seu gatinho, pelos jardins da clinica em que era tratado em Gorky, mostrando um lado diferente de Lênin, distante do líder enérgico e decidido. Um Lênin que gostava de ouvir Beethoven, ler Pushkin e brincar com o seu gatinho.

Lênin lendo os jornais em Gorky

       Lenin passava a maior parte do tempo no Hospital lendo os jornais, previamente manipulados, por ordens de Stálin,  e tentando se renovar para tomar de novo o seu lugar no jogo político.

        A saúde de Lênin mais e mais vinha se deteriorando, e aos poucos sua fala ia se calando e ele começava a perder o controle dos fonemas e tendo dificuldades para falar.

         Eis que Krupskaia, sua namorada (mais para noiva, sejamos francos), dedicou-se inteiramente a cuidar de Vladimir, sendo tão carinhosa para com ele como uma mãe... Lênin precisava de Krupskaia.


Lênin e Krupkaia
          É claro que Krupskaia deixara de ser aquela beleza que fora tempos atrás, agora, dois anos mais velha que Lênin, ela era uma senhora de idade gorducha com cara de pão de queijo, sem muito de sensual nela.




          Isso talvez tenha motivado Lênin a ter tido outros relacionamentos fora deste, enquanto estava em plena atividade, mas Krupskaia sempre fora muito amavel com ele.










           Lênin, já numa fase bastante debilitada de sua saúde, agora passado horas a fio em uma cadeira de rodas; Depois de ter sofrido inúmeros colapsos e tendo agora dificuldades expressivas para falar, Lênin era uma sombra do homem enérgico, que trabalhava por doze horas a fio no seu escritório no Kremlin.



           Lênin, que sempre levara uma vida simples (embora fosse nobre de nascimento), agora passava os seus últimos dias assim, um pouco excluído de todos, respondendo apenas a alguns companheiros que se dignavam a visitá-lo e a Nadezhda Krupskaia.

          Passou o Natal observando as criancinhas abrirem os presentes, enquanto sofria forçosamente àqueles que o visitavam naquela ocasião... Lênin estava sofrendo.

          Separado do comando da Revolução que a tanto trabalhara, assistira ele a ascensão do poder de Stálin... Lênin se sentia traído.

         Numa noite, Lênin pediu que Krupskaia lesse para ele um conto de um capitão que fizera um contrato com um comerciante, uma daquelas história típicamente petit-bourguoise, como Krupskaia classificou, Lênin ouvia atentamente Krupskaia ler o enredo da história, onde o capitão sofria rios e fundos, e no final se dirigia ao comerciante com que tinha travado negócio:

        " Por que se dignou a tanto?", perguntou o comerciante.

         O capitão tinha dito algo sobe honra, alguma coisa assim... Lênin sorriu, como se a história em si fosse tão patética que parecia risonha, e dispensou Krupskaia.

        No dia seguinte, Lenin estava morto.


Lenin!







terça-feira, 20 de setembro de 2011

Réquiem a um velho revolucionário

Réquiem a um velho revolucionário

"24 de Dezembro de 1922

Pela estabilidade do Comitê Central, da qual falava mais acima, entendo as medidas contra a ruptura ao passo em que tais medidas possam, em geral, adotar-se. Porque, naturalmente, teria razão o guarda branco de Rússkaya Mysl (creio que era S. F. Oldenbourg) quando, o primeiro, no jogo dessas gentes contra a Rússia Soviética colocava suas esperanças na cisão de nosso Partido e quando, o segundo, as esperanças de que iria a provocar esta divisão as cifrava em gravíssimas discrepâncias no seio do Partido.

Nosso Partido se apóia em duas classes[2N], e por isso é possível sua instabilidade e seria inevitável sua queda se estas duas classes não pudessem chegar a um acordo. Seria inútil adotar umas ou outras medidas com vistas a esta eventualidade e, em geral, fazer considerações acerca da estabilidade de nosso CC. Nenhuma medida seria capaz, neste caso, de evitar a divisão. Mas eu confio que isto se refere a um futuro longínquo e é um acontecimento improvável demais para falar do mesmo.

Me refiro à estabilidade como garantia contra a ruptura em um futuro próximo, e tenho a proposta de colocar aqui várias considerações de índole puramente pessoal. Creio que o fundamental no problema da estabilidade, desde este ponto de vista, são tais membros do CC como Stálin e Trotsky. As relações entre eles, a meu modo de ver, encerram mais da metade do perigo desta divisão que se poderia evitar, e a cujo objetivo deveria servir entre outras coisas, segundo meu critério, a ampliação do CC a 50 ou até 100 membros.
O camarada Stálin, tendo chegado ao Secretariado Geral, tem concentrado em suas mãos um poder enorme, e não estou seguro que sempre irá utilizá-lo com suficiente prudência. Por outro lado, o camarada Trotsky, segundo demonstra sua luta contra o CC em razão do problema do Comissariado do Povo de Vias de Comunicação, não se distingue apenas por sua grande capacidade. Pessoalmente, embora seja o homem mais capaz do atual CC, está demasiado ensoberbecido e atraído pelo aspecto puramente administrativo dos assuntos.
Estas características de dois destacados dirigentes do atual CC podem levar sem querer-lo à ruptura, e se nosso Partido não toma medidas para impedir-lo, a divisão pode vir sem que se espere. Não seguirei caracterizando aos demais membros do CC por suas características pessoais. Recordarei apenas que o episódio de Zinoviev e Kamenev em Outubro[3N] não é, naturalmente, uma casualidade, e que se disto não se pode culpar pessoalmente, tão pouco a Trotsky pelo seu não bolchevismo[4N].

Quanto aos jovens membros do CC, direi algumas palavras sobre Bukharin e Piatakov. São, a meu juízo os que mais se destacam (entre os mais jovens), e neles deveria se levar em conta o seguinte: Bukharin não é só um valiosíssimo e notabilíssimo teórico do Partido, senão que, ademais, se lhe considera legitimamente o favorito de todo o Partido; porém suas concepções teóricas muito dificilmente podem qualificar-se de inteiramente marxistas, pois há nele algo escolástico (jamais estudou e creio que jamais compreendeu por completo a dialética).

25.XII. Depois vemos Piatakov, homem sem dúvida de grande vontade e grande capacidade, porém a quem atrai demais a administração e o aspecto administrativo dos assuntos para que se possa confiar nele um problema político sério.

Naturalmente, uma ou outra observação são válidas apenas para o presente, supondo que estes dois destacados e fiéis militantes não consigam completar seus conhecimentos e corrigir sua formação unilateral.
Lenin
25.12.22
Taquigrafado por M. V.
Suplemento à Carta de 24 de Dezembro de 1922
Stálin é brusco demais, e este defeito, plenamente tolerável em nosso meio e entre nós, os comunistas, se coloca intolerável no cargo de Secretário Geral. Por isso proponho aos camaradas que pensem a forma de passar Stálin a outro posto e nomear a este cargo outro homem que se diferencie do camarada Stálin em todos os demais aspectos apenas por uma vantagem a saber: que seja mais tolerante, mais leal, mais correto e mais atento com os camaradas, menos caprichoso, etc. Esta circunstância pode parecer fútil tolice. Porém eu creio que, desde o ponto de vista de prevenir a divisão e desde o ponto de vista do que escrevi anteriormente sobre as relações entre Stálin e Trotsky, não é uma tolice, ou se trata de uma tolice que pode adquirir importância decisiva.
Lenin
04.01.23
Taquigrafado por L. F."
Requiem a Lenin


Esse era o trecho do que viria ser tratado como o "Testamento Político de Lênin", uma série de apontamentos do próprio líder soviético a cerca de seus prováveis herdeiros.

Como viram, ele não ataca somente Stálin, como também Trotsky. Ele mostra com atenção que mesmo Stálin sendo "muito rude", Trotsky também se via consumido pela soberba (o que se revelou verdade até a picareta).

Por incrível que pareça, Lenin acabou acertando: Stálin acumulou muito poder, e com suas feições rudes, acabou proporcionando um dos maiores banhos de sangue da História. Trotsky, como sempre, continuou arrogante e presunçoso, o que acabou resultado na cisão do Partido (em stalinistas e trotskystas), Bukharin, Zinoviev e Kamenev foram absorvidos pela pura e simples esquisofrênia estalinista e acabaram sendo fuzilados.

Por muito tempo esse discurso permaneceu esquecido, mesmo tendo sido propagado aos montes em tipografias clandestinas em Leningrado, esses papelotes desapareceram da URSS (junto com os tipografos) por um longo tempo.

Muitos hoje dizem, após cuspir no Mausoléu, que Lênin foi um assassino, um maníaco homicida que tanto fez mal ao mundo (russos, inclusive!). Eu não vejo assim, Lenin podia não ser perfeito (afinal ele era humano), mas muitos dos crimes que lhe inculpam (como o assassinato dos Romanov, o Terror Vermelho), sequer tem provas que o liguem a isso.

Alguns aproveitando a derrocada comunista, tentam incessantemente angariar apoio à causa petit-bougoise de que apenas num estado democratico pode se existir uma sociedade justa . Verdade. Mas qual é o seu tipo de democracia? Democracia grega, a qual tanto se escondem na barra da túnica de Péricles os liberais, que admitia a escravidão e outras coisas mais. Democracia liberal, de cunho pequeno-burguês, que apenas fala em liberdae, liberdade, dando liberdades a poucos, e deveres a muitos? Ou a democracia socialista (que eu realmente acredito que seja diferente de social-democrata) na qual os homens elegem entre si, com liberdade de escolha, de expressão e de pensamento, mas que tem direitos sociais formalizados em lei, sob o jugo do Estado, observante, para com a opressão capitalista.

Lênin podia ser falho, mas não era culpa dele. Se ele fez o modelo da Ditadura do Proletariado, não foi porque ele deu na doida e quis fazer isso, mas foi porque ele quis tornar o seu sonho em realidade.

A única chance, que ele via na época, enquanto lia o Manifesto de Marx, em cima de um fogão à lenha (era muito comum para se esquentar do frio), era a Ditadura do Proletariado. Que mesmo que não soubesse como faria, ele ainda tinha na imaginação o que deveria fazer.

Sabiam vocês que Lênin já fora advogado? E que volta e meia tentava através da lei auxiliar os pequenos agricultores empobrecidos a quem cobrava apenas algo para se comer (como galinhas), mas mais raramente, também dinheiro!

Lênin era um pioneiro, fora o primeiro a liderar uma revolução socialista com sucesso, mas eu aposto, que se ele pudesse fazer uma Revolução sem pingar uma gota de sangue, ele faria.


Mas não parecia ser possível na autocracia assassina dos Romanov. Ele mesmo perdera um irmão assim.

Culpem Lenin por outros erros, erros teóricos talvez, mas não embebam seus discursos apenas em fontes pequeno-burguesas e trotskysta que tão debilmente querem compenetrar no imaginário popular ao tentar mostrar Lenin como um assassino e não um revolucionário.
Adeus, Lenin!

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A águia das montanhas

          Às margens do vasto rio divisor de continentes, o gigante rio Volga, em uma pequena casa de campo de madeira encrostada nas colinas de uma atual cidade industrial sem grande importância do interior da Rússia, uma família lutava dia a dia pela sobrevivência.

Rio Volga!


       O pai, um homem de caráter elevado e grande capacidade, conseguira com um  enorme esforço um emprego governamental como conselheiro de Estado, valendo a si um título de nobre; esse era Ilya Nikolaievich, chefe da ascendente família que se estabelecera na cidade de Simbirsk. 

        Seu pai, morrera  prematuramente, sem deixar nada ao patriarca daquela família, fazendo com que Ilya Nikolaievich fosse obrigado a trabalhar para custear os estudos de seu irmão, até entrar na Universidade de Kazan, onde licenciou matemática e física.

         Em melhor condição financeira, Ilya Nikolaevich ascendeu e arrebatou o coração de um jovem moça alemã, Maria Aleksandrovna Blank, filha de cirurgião judeu que se converteu ao luteranismo ao comprar suas terras naquela parte do globo. Os Blank eram definitivamente mais culto que o jovem Ilya, sua  jovem namorada sabia ler alemão, cantar e tocar alemão, mas isso não impediu que os dois se casassem em 1863.

         Em 1869, Ilya Nikolaievich é nomeado inspetor de escolas primárias de Simbirsk, sendo logo promovido a diretor por seu magnífico trabalho. Em meio às medidas liberalizantes dos czares Alexandre I e II, Ilya via-se imbuído de caráter liberal em suas atitudes e apoiava o regime que a tão pouco tempo abolira a servidão, sendo conhecido por “o liberal”.
File:I N Ulyanov.jpg
O "liberal" Ilya Nikolaievich.

“A cidade, construída sobre um alto e íngreme penhasco, eleva-se diretamente da margem rio; dela se descortina uma vista magnífica do Volga, que se estende, largo, pela planície. De lá se pode ver, por uma distância enorme que nada é em comparação com a imensidão do rio, para onde ele vai e de onde ele vem, fluindo lento e plácido pelos campos da Rússia. A cidadezinha, a 900 quilômetros de Moscou e 1500 de São Petersburgo, e que hoje em dia parece um tanto decadente, com seus prédio de tijolos caiados e suas velhas casas ornadas com arabescos de madeira trabalhada[...}” 
       Foi dentre esses prédios decadentes que nasceria uma criança que mudaria o mundo sem se autoproclamar “Messias”.

File:Volga Ulyanovsk-oliv.jpg
Paisagem em Simbirsk

         Volódia nasceu em meio ao local onde “as encostas são cobertas por pomares, com macieiras que dão maçãzinhas verdes e flores que, durante semanas na primavera, tornam Simbirsk, segundo se diz, uma das mais belas cidadezinhas russas[...]”. Volódia  nasceu na primeira primavera em Simbirsk em 22 de abril de 1870 no meio de uma crescente família de três irmãos.


Parte dos fundos da casa da família
        A criança cresceu em uma casa de madeira baixa e amarelada, numa rua provinciana larga, sem meio-fio, meio orientalizada, com um interior tão limpo e tão despido de enfeites e barroquismos quanto possível. A mobília sempre em mogno, da espécie de móvel que você encontra na casa da sua avó.  Na sala, há um piano de cauda antigo, com uma partitura de I puritanni em cima do teclado. Candelabros a óleo, fogareiros russos ladrilhados, pinturas e garboriantes espelhos traziam comodidade àquele lar encrostado entre bétulas e choupos, onde podia-se facilmente desfrutar de uma leitura de Zola, Daudet, Victor Hugo, Goethe, Heine e outros e admirar-se com o tabuleiro de xadrez esplendoroso e os mapas da Rússia em dois hemisférios. No fundo, via-se uma varanda onde fica o pomar, cheio de macieiras, uma das coisas mais agradáveis daquela casa na rua Moskovskaia.


File:Lenin Age 4.jpg
Volódia quando bebê.
      Volódia cresceu, se tornou uma criança barulhenta, enérgica e por vezes violenta. Tinha cabelos ruivos, malares proeminentes  e os olhos oblíquos dos seus antepassados tártaros, era sarcástisco, por vezes, irônico, mas parecia ser um garoto adorável. Lia e relia romances como uma criança esperando por aventuras: na escola se dava bem, embora fosse travesso, gostava de história e línguas clássicas, ensinando latim  para uma de suas irmãs.




        Estava para entrar na Universidade de Direito de Kazan quando Ilya Nikolaievich subitamente morreu de derrame quando Volótia tinha dezesseis anos, vinha sendo perseguido pela censura da época e seu trabalho se tornara cada vez mais difícil; sem o pai, Volódia deixou de ser a criança alegre que sempre fora e passou a ser mais racional.


        Aleksandr Ilyich, filho de Ilya e consequentemente irmão de Volódia, ingressou para a Universidade de Moscou para ser biólogo, lá era custeado por sua mãe viúva com o dinheiro  que vinha das propriedades da família (Ainda que tenham perdido o chefe da família, eles continuavam a ser aristocratas!), e foi lá também que o garoto começou a se envolver em política.

File:Aleksandr Ulyanov.jpg
Aleksandr Ilych
         A Rússia efervecia em fervor revolucionário já naquela época, o czar Alexandre III era visto com péssimos olhos pelos intelectuais e pelos liberais, que o viam um tirano, e Aleksandr Ilyich acabou ingressando no grupo “A Vontade do Povo” que era totalmente contrário ao czarismo, onde teve grande participação no plano de morte do Czar.


        O plano deu errado, o czar não morreu, mas trouxe graves consequências: Volódia foi expulso da Universidade de Direito de Kazan e seu irmão foi enforcado.





          Volódia deixou de ser Volódia, desistiu de ascender como advogado naquela ordem vingente e mudou de pensamento ao começar a ler Marx e Engels; Volódia passou a ser Vladimir, Vladimir Ilyich Ulianov!

Vladimir Ulianov em foto de passaporte.


          Ulianov estava convicto de que algo precisava mudar, começou a se envolver com política, ingressou num jornal socialista, entrou para o Partido Social Democrata dos Operários Russos e ainda sim conseguia ainda ser humilde e marxista convicto.

       Que grande mudança! O filho de um aristocrata liberal tornou-se um revolucionário que passou a viver na clandestinidade, que passou a ser perseguido, a ser exilado, a ter sua voz sufocada, mas que acabaria mudando o mundo para sempre. Vladimir passou a ser Lênin, o homem que trouxe um sonho para a realidade e acreditou mesmo que poderia vencer.

3a Ленина!


         Essa é a história de Vladimir Ilyich, essa é a história de Lênin, com seus altos e baixos, essa é história que mudou o mundo liderando uma revolução com apenas um pensamento: “Igualdade!”

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...