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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Ivan, o Terrível (crítica de Filme)


        Ivan, o Terrível, outro filme de Sergey Eisenstein, fala do passado do Grão-Príncipe de Moscou que unificou todos os principados russos no século XVI e decretou guerra contra os tártaros (que infernizavam sua vida no Volga), os livonianos e os poloneses.


       Ivan, Grozny (como também é chamado) é dividido em duas partes, na verdade, acredito eu, seriam três, mas Eisenstein morreu antes mesmo de ter a oportunidade de fazê-lo.

     Eisenstein iniciou esse trabalho para agradar Stálin, que era afixionado pela figura de Ivan, o Terrível, tanto que por vezes vagava no Kremlin (o mesmo Kremlin de Ivan, o Terrível), andando pelos cantos como um renegado (tal como Ivan, o Terrível de novo) e dizendo que Ivan era seu "professor", tanto que isso está anotado de lápis em um de seus livros na sua famosa biblioteca.

     A cena inicial começa quando Ivan é coroado Grão-Princípe de Moscou, levando a descontentamentos entre os boiardos, inclusive de sua tia, Eufrosinia, e mais ainda quando se proclama Czar de Todas as Rússias, o que os embaixadores aqui representados, da Polônia e Livônia prontamente recusam-se a aceitar isso.

A coroação de Ivan


    Percebe-se logo de início na trama, um clima de conspiração plantado pelos boiardos, que nada mais querem que desestabilizar seu governo e destroçar completamentamente a Rússia em Principados menores, tal como foi na época de Nevsky, e são ajudados pelos embaixadores estrangeiros.

    Tal qual clima de conspiração, o embaixador de Livônia incita o braço direito de Ivan, o Princípe de Vladimir, Kurbsky, que o trono russo não é senão direito dele e não de Ivan.

Os boiardos e embaixadores estrangeiros conspirando

     De início,  Kurbsky não dá-lhe ouvidos, afinal ele e Ivan são amigos desde a infância, mas depois quando Ivan casa-se com a princesa Anastacia, por intermédio de Eufrosinia, sua tia, ele sente-se ultrajado com aquilo, pois ele amava Anastacia, e começa a conspirar contra o Czar.

     Nisso, na cena alegoricamente rica, cheia de ornamentos, uma pintura do filme, o casamento de Ivan com a princesa Anastacia, os ricos ornamentos, bem como a riqueza dos detalhes dos talheres, das taças de metal, até mesmo da comida, com seus sultuosos gansos assados sendo levados em bandejas nos ombros dos empregados, tudo isso é lindo de se ver.

     Esse sem dúvida é um dos trabalhos mais ricos em detalhes e ornamentos de Eisenstein, mas não acho que seja o melhor.

     Eis que o povo invade a cena do casamento, e um líder de um movimento campesino, de revoltosos, clama para que o czar não confie nos boiardos que nada mais fazem do que oprimir o povo... Ivan inicialmente despreza o velho líder camponês, dizendo que ele não tem cérebro, fazendo rir assim os boiardos que se cercam a seu lado, e em seguida diz abertamente: "Todo o inimigo do czar deve ser punido e os inimigos do czar são os boiardos!".

     Ivan decretou guerra aos boiardos, um jogo perigoso por sinal, e acabou nomeando o líder do movimento camponês o chefe de sua guarda pessoal.

     Eis que chega um emissário de Kazan (dos tártaros) puto da vida, dizendo que Kazan e o Principado de Moscóvia agora estavam em estado de guerra, e oferece a Ivan, a pena de se suicidar-se para salvar seu reino da destruição da guerra.

    O emissário de Kazan entrega-lhe uma espada retorcida ensanguentada, mas eis que Ivan a pega e começa a fazer um discurso imensamente apaixonado, dizendo que ele não queria a guerra, mas que a guerra lhe era imposta.

   O emissário de Kazan, em certa ocasião solta:

    "Moscou pequena. Kazan Grande"

    Ivan Vassilevich, Grão-Princípe de Moscóvia, então declara guerra a Kazan e termina o seu discurso dizendo: На Казан! (Para Kazan!) e eis que por meia hora os boiardos e os camponeses começam a gritar feito doidos: Na Kazan! Na Kazan! Na Kazan! (На Казан! На Казан! На Казан!)

     O líder do levante camponês segue para o embaixador de Kazan e com um empurrão diz:

     "Kazan Pequena. Moscou Grande".


     O filme é um pouco omisso quanto ao papel da guerra em Kazan, mostrando que Ivan, o Terrível, era contrário que se cometessem atrocidades aos prisioneiros de guerra (o que não é verdade), mas mostra também com maestria o início da traição do braço direito de Ivan, Kurbsky, o gênio militar do próprio czar, que mandou colocar polvóra em uma larga e extensa cadeia de túneis construídos por sua ordem debaixo de Kazan, e a aliança que ele teria com membros da baixa nobreza que serviriam lealmente à sua morte.

Ivan totalmente doente, sendo tratado por sua esposa, Anastacia

     Quando retorna, vitorioso a Moscou, Ivan é acometido por uma doença, e prestes a morte, pede que os boiardos façam com que seu filho seja considerado herdeiro do trono... Ivan é traído.... Graças a sua tia Eufrosinia que quer colocar o seu filho paquiderme e estúpido no comando de Moscou.

     Ivan, no seu leito de morte, quase pra bater as botas, os amaldiçou e pede a unção dos enfermos... Quando tava prestes a cair, e os boiardos prestes a tomar o poder, Kubsky reconhece Dimitri, filho do czar, como herdeiro do trono. Mas isso não foi motivado pela nobreza dele, mas sim, porque ele já estava cortejando a princesa Anastacia e ficou sabendo que o Czar havia se recuperado.
Kubsky tentando ter certeza se o veio havia batido as botas


    Maliouta, o ex-líder camponês que virou chefe da guarda, ficou sabendo por meio de seus ouvidos longos os planos dos boiardos e não hesitou em comunicar o czar... Ivan, decretou agora guerra aos que conspiraram contra ele, entrou agora em guerra contra os boiardos, contra os poloneses e livonianos.
Maliouta e Ivan maquinando outro plano contra os boiardos


    Os boiardos se mostraram muito sem caso para com os anseios do Czar em unificar a Rússia, e fizeram sempre de tudo para atrapalhar o Czar, alguns fugiram, outros mudaram de lado, tal como o príncipe de Vladimir, outros pararam de financiar as guerras do czar (até essa época a guerra era financiada pelos recursos de todos os boiardos), levando Ivan a ter um ataque de fúria, e começar a expropriar para si as propriedades dos líderes boiardos que recusassem a ajudá-lo.

     O pior ato então foi deslanchado por Eufrosinia, a sua tia (que convenhamos, na altura do filme, a gente sente um ódio por ela, porque fica sempre fudendo com a vida de Ivan, e sentimos vontade de pular na tela e bater na cara da vadia que parece um homem), quando traiçoeiramente, ela envenenou a esposa do Czar, Anastacia, com um pouco de vinho.
 
       Ivan fica totalmente abalado com a morte de sua esposa, e percebendo que estava cercado de inimigos, o czar decide abdicar e se isolar em sua casa de campo na vila de Alexandrov.

     Sozinho, e totalmente solitário, o czar cercou-se de elementos de sua guarda, agora chamados de Oprichiniki, e ficou esperando... esperando, enquanto seus emissários discursavam em Moscou.

    Eis que um dos emissários discursa na Praça Vermelha, com a Catedral de São Basílio ao fundo:

      "O czar Ivan Vassilevich abdicou o trono em razão dos inúmeros empencilhos que os boiardos causam em seu governos, e convoca a todos, todos os verdadeiros cristãos de bem, que sigam o seu chamado e apareçam a Alexandrov"

     Era uma tática arriscada, o Czar abdicou para enfim voltar nos braços do seu povo e ter assim plenos poderes, o estúpido e insandecido Jânio Quadros tentou usar essa tática no Brasil, e bem, digamos que não deu muito certo, talvez porque isso diretamente contribuiu para ascensão do Regime Militar. Talvez, Janio se deu mal por não ser um Czar e não ser assim tão popular.

    Em todo caso, Ivan, esparançoso, por uma ajuda dos ingleses, que forneceriam armas, e equipamentos modernos, e com quem ansiava fazer negócios, principalmente com a Rainha Elisabeth I, espera, espera... espera até o seu voto, num coro de Deus Salve o Czar! aparecer na vila de Alexandrov e gritar:

    "Volte para nós! Volte para nós!"


    Eis que se faz a minha cena favorita do filme inteiro, quando Ivan se levanta, vai para a janela, e ouve tristonhamente, meio encurvado em seu cajado, o povo chamar-lhe de volta... E a orquestra de Prokofiev começa a tocar uma melodia tão linda, tão mórbida e ao mesmo tempo viva,  que Ivan pega a sua ushanka e vai em direção de volta à sua liderança.

Cena final do filme


    Era a cena final do filme.


    O trabalho de Eisenstein nesse filme, embora tenha sido excepcional, com rigores técnicos, riqueza de detalhes e ornamentos, foi extremamente censurado por sua representação dos líderes e do próprio Czar, que é mostrado volta e meia hesitante, meio esquisofrênico, mas decerto não foi tão censurada quanto a parte 2.

     Em todo caso, Eisenstein faz o roteiro do   filme sobre o tsar Ivan IV na primavera de 1941. A Mosfilm aceita o projeto um pouco antes da URSS entrar em guerra contra a Alemanha. A empresa vê aí um novo pretexto, depois do Alexander Nrvsky, para exaltar o sentimento nacional. A filmagem começa em 1 de fevereiro de 1943 no estúdio de Alma- Ata, com a guerra impedindo que se filmasse em Moscou.

    Assim que o filme foi lançado, em 1944, foi um  sucesso de bilheteria, e Eisenstein caiu nas graças do povo.



Parte 2

   A parte 2 de Ivan, o Terrível, intitulada de "A Conspiração Boiarda",  só saiu na Rússia e no mundo em 1958, devido aos corte que o filme levou, Stálin mesmo criticou o filme por achá-lo com "beijos demais" e mostra o Czar como vacilante e também, os dirigentes soviéticos viram neste Ivan, em seu amigo Maliouta e nos Opritchnicks uma metáfora mal velada de Stalin, de Beria e dos homens do NKVD.


     O filme em si, possui muita ausência do povo na condução da narrativa, dá importância primordial dada às intrigas da corte, e tem um pouco formalismo (o que era ruim, considerando que a conduta oficial dizia que formalismo era contrarrevolucionário).

        De fato:

     "É impossível negar que estas críticas concernem ao corpo essencial do filme, e se evidentemente temos de condenar a condenação, devemos assinalar que esta não é baseada – uma vez que isto não costuma acontecer- num mal –entendido.

       Nas duas partes da obra, Eisenstein deliberadamente sacrificou o histórico ao poético e ao trágico. Seu Ivan é um personagem shakespeariano, invadido pela dúvida e incerteza, às vezes mesmo roído pelo remorso, muito mais em luta consigo mesmo e contra seus próximos do que contra o inimigo estrangeiro.

      Seus adversários privilegiados são a nobreza, os boiardos, sua própria família e seus amigos; seu combate permanecerá individual, solitário, até mesmo confinado, mesmo se os temas em jogo são nacionais e imensos.

       Tirando a sequência do cerco de Kazan, o povo, as massas, e portanto a epopéia estão ausentes das duas partes do filme. O povo só intervém concretamente na procissão que encerra a primeira parte: sua única iniciativa consistirá em uma súplica com o objetivo de fazer com que Ivan volte para Moscou, exatamente como este havia previsto, ao se retirar provisoriamente em Alexandrov.

       Vistos por Eisenstein, a tragédia e o destino de Ivan são aqueles de um homem que não pôde se tornar o herói épico que desejava ser, constantemente impedido por seus próximos de se comunicar com o povo e de associá-lo às suas lutas.

        Em um outro nível, o destino de Eisenstein foi também o de não ter podido ser, por não ter nascido em uma boa época e meio, um poeta elizabetano, ou um grande cineasta hollywoodiano dos belos tempos ( uma espécie de poeta épico, à maneira de King Vidor por exemplo).

        As duas partes de Ivan, e mais especialmente a segunda, testemunham da ambição de Eisenstein de utilizar o cinema como arte total; mas a realização desta ambição se encontra limitada pelo caráter essencialmente teatral da intriga e do personagem central.

      Nenhuma dúvida de que a segunda parte é superior à primeira: podemos até mesmo dizer que ela não prolonga realmente a primeira, mas a refaz, a repete enriquecendo-a e lhe conferindo maior densidade. O caráter trágico e quase claustrofóbico do destino de Ivan torna-se mais e mais evidente, e a contribuição da cor dá uma dimensão extraordinária à concepção cara a Eisenstein do cinema como arte total.

     Ivan, o Terrível representa também o termo da evolução de Eisenstein em direção ao formalismo, ao mesmo tempo que seu máximo distanciamento das massas como o tema ideal de uma obra de ficção.

     Todavia, seria completamente errôneo dizer que Ivan constitui o triunfo do indivíduo no cinema de Eisenstein. Isto equivaleria e esquecer a total inaptidão do cineasta em representar o indivíduo em sua intimidade e verdade concreta. Os personagens dos dois filmes são, mais do que seres de carne e osso, marionetes alucinadas, ou máscaras, que tiram o essencial de sua força- que se pode julgar ultrajosamente artificial- de sua posição no interior de uma geometria plástica dos planos e do découpage.

       No plano visual, a metáfora do xadrez nos vem imediatamente ao espírito, os personagens e sobretudo os atores do filme não sendo nada além de peças manipuladas de cima pelo cineasta-demiurgo[...]"

      

        Esse é um trecho da crítica que crítico de cinema, Jacques Lourcelles, fez a Ivan, o Terrível, o que compartilho com esse crítico é que sim, o segundo filme é muito superior ao primeiro, mesmo tendo uma intercalação estética, que acho rídicula, de cenas em preto e branco e outras coloridas.

        O segundo filme é muito mais sentimental, mais bem desenvolvido em torno da ótica de conspiração, da volta e meia de martírio que o Czar possui por suas ações, pelas traições, o modo como o Czar manipula as pessoas.

Ivan manipulando o seu primo Vladimir

          O Segundo filme começa quando, numa sessão da Corte Polonesa,  em Cracóvia,  presidida pelo rei Sigismundo, Kurbsky se apresenta para ser subordinado ao rei polonês e é impossível não rir da cena.

         Sigismundo, todo enfeminado, na apresentação de Eisenstein, pega de leve o florete de Kurbsky e manuseia de leve com a mão a espada e a entrega de volta, Kurbsky, mais homossexual ainda, pega a espada e passa cheirando a lâmina enquanto olha para Sigismundo com outros olhos.

      Você para e pensa:

     "Que bando de viados! Até o Justin Bieber é mais macho que esses dois!"
Cena da Corte do rei Sigismundo
         E as cortesãs? As cortesãs então, tudo frescas, gordonas, uma coisa talvez tão risível quanto a viadagem dos dois. A cena da corte do rei Sigismundo sem dúvida é uma das mais divertidas dos dois filmes.

           É também no Segundo Filme que se mostra o Czar ainda criança, quando começa a ver as constantes brigas entre os boiardos e acaba formentando o seu ódio contra eles, mostrando na clássica cena de quando Ivan vê sua mãe ser envenenada.

Ivan quando criança

       A Conspiração Boiarda também mostra o plano de Eufrosinia de colocar o seu filho, um abobalhado com cara de mulherzinha, no comando do trono de Ivan, com a prerrogativa máxima, matar o Czar... O czar desarticula o plano, e bem, vocês tem que ver o que acontece.
Maliuta está de olho


        Mesmo a parte 2 sendo superior a parte 1, o primeiro filme também está num patamar superior, num patamar relevante aos filmes de Eisenstein, e muito, mas muito superior a certos filmes a mim contempôraneos, o filme querendo ou não, pode ser omisso em relação a algumas características de Ivan, mas as cenas em  que o povo aparece também não são de se descartar, tudo foi muito bem feito, incluindo a trilha sonora de Prokofiev, que volta e meia é sombria, tristonha, outras envolve o amor por Anastacia, outras se torna intesa, pulsante, com a ótica da conspiração e ainda tem momentos que faz você pulsar, querer se emergir no filme totalmente, é uma música tão esquizofrênica, tão bipolar, quanto o próprio Czar, mas ainda assim é bela.

       Eisenstein termina a montagem da segunda parte em fevereiro de 1946. A doença e as críticas oficiais suscitadas por esta segunda parte o impedirão de rodar a terceira parte, apesar de esta ter sido minuciosamente escrita e preparada.

        Na terceira parte ( intitulada: Os combates de Ivan), o Czar, agora aliado à Inglaterra, deveria enfrentar vitoriosamente as tropas livonianas.
         Kurbsky morreria em um castelo, cuja explosão teria sido voluntariamente provocada por um dos seus homens, a fim de evitar que este caísse nas mãos do inimigo. Maliouta morreria também nesta explosão.

      O filme deveria ter terminado com uma proclamação de Ivan, afirmando que de agora em diante a Rússia permaneceria no Báltico. Absolutamente falsa historicamente, pois essa filmagem beneficiava Ivan com as vitórias conquistadas mais tarde por Pedro, o Grande.

         Em setembro de 1946, o Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética condenou Eisenstein nestes termos:

 " O metteur em scéne Sergei Eisenstein, na segunda parte do filme Ivan o terrível, revelou sua ignorância dos fatos históricos ao mostrar a progressista guarda de Ivan o Terrível como um bando de degenerados, do gênero Ku Klux Klan, e o próprio Ivan o Terrível, que possuía vontade e caráter, como frágil e indeciso, um pouco à maneira de Hamlet".

          No entanto, o Conselho Artístico do Ministério da Cinematografia apreciou o filme, mas a última e definitiva condenação veio do Kremlin e a segunda parte só saiu na Rússia e no mundo em 1958.
Kurbsky sem vergonha, cortejando Anastacia






                          


Ivan tá podendo, tomando banho de moedas, assim as mina pira!





                          
                             









Segue a seguir as duas partes de Ivan, o Terrível. ( Com legendas em Inglês)


Parte 1





Parte 2

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Alexander Nevsky (crítica de filme)




        Sem dúvida, um dos meus passatempos preferidos é assistir filmes, mas não só filmes, filmes clássicos com conteúdo, e principalmente que me ensinem alguma coisa, que me façam rir, me façam chorar, me façam refletir, me façam pular... Esse é o meu estilo de filmes.

      Eu, pessoalmente, gosto muito dos filmes clássicos, pois além de terem prestígio (o que reduz as chances de eu assistir a um filme ruim, afinal coisas ruins não passam pelas décadas), eles me fazem refletir no imaginário do passado, o que é relevante para um Historiador como eu.

     Tal desses filmes, os que mais prefiro certamente são os de Sergey Eisenstein (que fiz uma penca de postagens em sua homenagem), mas também gosto de Chaplin, Orson Welles, Felinni, filmes europeus, como  Cinema Paradiso, A Espiã, entre afins, cinema soviético também eu gosto muito, cinema americano (que não seja muito comercial, porque de comercial só gosto do Indiana Jones e do Star Wars), e do brasileiro, só gosto de um, porque é quase filme europeu em temântica ( O dia que meus dias saíram de Férias).

     Mas talvez o filme que eu tenha mais gostado tenha sido Alexander Nevsky.





     Sim, Alexander Nevsky, o filme de 1938 de Eisenstein, que narra a história do príncipe russo que se levantou contra os alemães, os suecos e os tártaros no século XIII ( eu nunca aprendi tanto sobre Idade Média quanto nesse filme).

      Muitos falam que o Encouraçado Potemkin é sem dúvida o maior trabalho de Eisenstein, talvez até tenha sido, afinal o Encouraçado Potemkin era um filme bastante avançado para sua época, e até hoje, mas o meu filme preferido ainda é Alexander Nevsky.

      Isso pode ser visto como "anti-revolucionário" por alguns marxistas, mas eu pouco ligo, eu gosto desse filme e ponto.

     Mas por quê?

     Porque esse foi o primeiro filme falado de Eisenstein, esse foi o primeiro filme que Nikolai Cherkasov, o ator principal que tinha um vozeirão e uma atitude imponente, foi finalmente reconhecido, e esse foi o primeiro trabalho conjunto de Sergey Eisenstein e Prokofiev.


Cena de Nikolai Cherkasov no papel do Principe Nevsky
     Prokofiev, mesmo tendo uma qualidade razoável do áudio,  produziu uma trilha sonora tão pulsante, tão viva, que em certo momento você tem vontade de se levantar do sofá  e entrar na tela guerreando contra os alemães na Batalha do Gelo.


     Prokofiev conseguia trazer a noção de movimento à música quando os exércitos se moviam (Villa - Lobos fez algo semelhante no seu Tremzinho Caipira), reduzia o som quando era uma cena triste, tocava som de flautas e clarinetas quando eram festas, tocava som de orgãos e cornetas quando eram músicas sacras e de guerra (o tema sobre os teutônicos ficou impecável, tanto que acabou sendo copiado na trilha sonora de Conan, o Bárbaro) e ainda conseguia reunir um coro polifônico russo que cantava entre os momentos de silêncio da filmagem.

     A atuação de Cherkasov também foi impressionante, nunca vi um ator trabalhar tão bem um papel de um comandante militar medieval como ele, com a atitude imponente, o rosto sempre voltado para o alto, o corpo esguio, o vozeirão, as feições na montaria, nas ordens. Perfeito.

Nevsky em seu cavalo

     Eisenstein na direção das imagens também foi bastante rigoroso, cada cena, cada ação parece uma pintura extraída de um livro de história, as roupas, os uniformes, os aparatos militares dos atores, disponibilizavam um efeito visual impressionante.

    Eisenstein ainda foi bem rigoroso com os detalhes, com as roupas civis da época, com as túnica, com as bandeiras da República de Novgorod, com os equipamentos teutônicos, os capacetes quadrados, em forma de torre, dos cavaleiros que vestiam capas brancas com a cruz da ordem teutônica e os soldados usando uma espécie de um elmo medieval meio arrendondado semelhante ao capacete usado pelo Wermarcht na década de 30.

   E a cena de atuação, Eisenstein, embora tivesse que centrar na figura central, o príncipe Aleksandr Nevky, mostrava com  destaque cenas de traição, quando os boiardos de Novgorod tentavam dissuardir o povo a entrar em guerra contra os teutônicos, ou mesmo a cena da captura de Pskov, quando pessoas foram enforcadas e crianças jogadas a uma fogueira (os efeitos especiais foram muito bem usados nesse caso, tanto que nenhum ator se machucou), fazem você se revoltar com a truculência dos alemães.

Os cavaleiro da ordem teutônica, de capacete quadrado, e os soldados alemães agachados.


    O filme segue também os príncipios do Realismo Socialista, tanto que muitas vezes a questão das massas era enfatizada, tanto que algumas cenas algo inusitado acontecia... A decisão de Nevsky em convocar os camponeses para guerrear era uma coisa rara na Idade Média, e raramente acontecia.

     A revolta popular em Novgorod pressionando os governantes para uma guerra também não era algo comum, além de que o fato de ferreiros entregarem toda a sua produção em prol de uma causa única ("a defesa da Terra Mãe"), mulheres indo ao combate (Isso era mais raro ainda, na Rússia mesmo, mulher só vai lutar na Primeira Guerra Mundial).

Mulher lutando em exército Medieval, isso era muito raro.

      Mas mesmo assim, o filme é envolvente, com cenas de personagens realizando tramas secundárias em torno da História principal, o ferreiro tentando se afirmar como um bom soldado, leal a Nevsky, uma soldado que entra na guerra para vingar a morte de seu pai, e dois cavaleiros de Novgorod, Buslai e Gavrilo, que apaixonados por uma dama de Novgorod, fazem um pacto sobre a mão da moça, quem fosse o mais valente na batalha poderia se casar com ela.
Buslai e Gavrilo, dois cavaleiros de Novgorod


      O filme, como todos os filmes de Eisenstein, é um filme político. Ele mostra que desde o início os alemães eram uma ameaça, influenciado certamente por sua época de produção e lançamento (o filme é de 1938, quando os nazistas estavam ascendendo na Europa),  e explica alguns comportamentos do próprio governo soviético da época.

      Como por exemplo, o fato de que Nevsky não ter entrado em guerra contra os tártaros que estavam fazendo o Diabo na Rússia, porque além de serem mais fortes, os tártaros não representavam uma ameaça a cultura russa, afinal os próprios tártaros deixavam os povo dominados manter sua cultura, apenas demandavam pagamento de tributos, mas os alemães não, os alemães, como diz um bispo em um cena, não admitem "que haja alguém que não se submeta a só um Papa.", dessa maneira, os russos deviam ser "submetidos a Roma".
Nevsky se encontrando com o líder da Horda Tártara, Sartaq Khan.

      Nevsky fala em uma cena que os tártaros, apesar de terem feito um banho de sangue, não eram um problema imediato, e que os alemães eram, e quando os alemães fossem derrotados, aí poderiam voltar suas atenções aos tártaros.

     Assim, isso acaba fundamentando a aliança que Nevsky acabou fazendo com a Horda Dourada Mongol, fundamentando que isso era apenas um pacto temporário e que logo em seguida ele seguiria ao ataque contra os mongóis (tal era a visão do governo soviético da época).

     Em uma das cenas iniciais do filme, quando se discute a entrada de Novgorod na guerra, os governantes de Novgorod dizem que não vão entrar em guerra contra os alemães, pois eles assinaram um pacto, e que caso os alemães quisessem guerrear, eles entregariam mercadorias para que isso não acontecesse. Isso foi praticamente o que aconteceu logo após a Assinatura do Pacto Nazi-Soviético, e essa foi a postura do governo soviético diante a eminência de uma invasão alemã em seu território. Não a toa que o filme foi retirado de circulação nessa época.
Cena da Batalha no Gelo

    O filme  Alexander Nevsky, apesar de ser um filme político, me ensinou muito sobre o contexto das Cruzadas do Norte, deflagradas pela Ordem Teutônica no século XIII contra os principados Russos, me ensinou como era a relação de submissão ao poder dos mongóis, me ensinou como era o gênio militar de Aleksandr Nevsky (que com uma tática muito esperta, de fazer os alemães se agruparem num lago congelado, que estava prestes a despedaçar e assim matando os alemães afogados), mas além disso me ensinou como era o imaginário popular soviético anterior ao Pacto Nazi-Soviético.

O fim dos alemães


    É por isso que gosto muito desse filme.

    No final tem a clássica frase de Nevsky dizendo: "Quem pela espada vier a nós, pela espada será ferido! Assim é, e sempre será na Terra Russa".


Filme na íntegra


       O Youtube disponibilizou um canal do filme na íntegra (com legendas em inglês) que estou disponibilizando agora:



Curiosidades 


  •  Alexander Nevsky era popular na Rússia até a 24 de agosto de 1939 e, em seguida, por algum motivo, caiu rapidamente em desuso. Felizmente para Eisenstein, mas infelizmente para os alemães e os russos, o filme teve um revés muito bem sucedido em 22 de junho de 1941, quando os alemães invadiram a União Soviética. Se você tiver qualquer dúvida de que Alexander Nevsky era especificamente sobre a defesa da Rússia dos alemães, observe o quanto os capacetes dos soldados alemães lembram Stahlhelme usado pelo Wermarcht.    
Notem as semelhanças


  • A orquestração de Prokofiev foi gravado com o tipo de experimentação sónica . Um dos muitos exemplos: o som das cornetas de batalha foi criado se colocando os microfones muito perto. Mas é difícil dizer exatamente como Prokofiev e Eisenstein queriam que o som aparecesse no filme , porque há alguma evidência de que a trilha do filme foi lançado com uma faixa de áudio temporária. Uma versão inacabada foi apresentada a Stalin, que o aprovou para a liberação. Provavelmente, sabiamente, ninguém na Mosfilm deixaria Eisenstein alterar um único frame depois disso. 
  • Talvez seja uma coisa russo, mas como Tarkovsky em Andrei Rublev, Alexander Nevsky tem muitos tiros que parecem ser projetado em torno de geometria abstrata ao invés de composição mais convencional. Este, por exemplo:

Essa cena é muito abstrata

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...