domingo, 11 de junho de 2017

O verso

A noite estava fria
O motor aquecia o asfalto
Enquanto os pneus cortavam
As tesourinhas

O pardal assistia
Aquela insana corrida
De dois espíritos embargados

Um era o pai, preso ao volante
O outro era a mãe
Fechando o semblante

Corre, corre pistões!
Na compressão do motor
As emoções afogavam a gasolina

Aquela cena não foi insensível
Ao policial rodoviário atento
O patrulheiro cortou as sirenes
E correu estridente na estrada

"Meu Deus! Faça ele parar"
O grito corria o banco
O pai torcia o pescoço no retrovisor
Pisou com força o acelerador

O velocímetro dispara
Era uma noite no Eixo
A cento e vinte por hora

O pequeno Volkswagen
Seguia vermelho de vergonha
Esgoelava o seu motorzinho de criança

A polícia corria logo atrás.
A mulher gritava.
O pai suava.

Não tinha jeito
Tinha que parar;
a gasolina encerrou o seu ciclo
O motor e os pneus esfriavam.


Estava frio. Bastante frio...
Era agosto. Agosto da seca
Frio

O policial parou a viatura
Andou desengonçado de armadura
Tinha uma arma no coldre
E um rosto severo de autoridade

A mulher gemia de dor
Ela gritava
O motorista desceu assustado
Ele ia ser pai! Diabos!

O policial largou a caderneta.
Esqueceu a multa
Retirou o seu coldre e se curvou
À força da vida.

Eram duas e meia da manhã
Ali estavam três estranhos
Atrás de um Volkswagen.

Um suplicava pela vida.
Outro gritava de dor.
O terceiro esquecia de ser bruto.

O hospital estava fechado
Uma vergonha para uma capital
Foi então que no banco de trás
Nasceu uma pequena criatura
Que tocou o mundo.

Aquele pequeno pedaço de gente
Nasceu numa madrugada de agosto
No mês da seca, em meio ao frio:
Uma nova vida na capital.

Foi naquela tesourinha,
perto daquela entrequadra
Num canto esquecido do eixão
Nasceu Joaquina.
Uma nova vida em Brasília.

sábado, 10 de junho de 2017

Para além do nosso século

          Nós somos prisioneiros do passado. 


          Todos os nossos sonhos resplandem de um horizonte de expectativas já dado como obsoleto. Todos os sistemas econômicos e filosóficos que tomamos empréstimos foram liquidados com a guerra silenciosa entre a acumulação de riquezas e a acumulação de conhecimento. Hoje somos sobrecarregados de informações, mais do que nossos pais, e permanecemos inertes diante do movimento cíclico e revolucionário do mundo (no sentido astrônomico).

           Nós, homens e mulheres do novo século, somos reféns do passado. Somos presos ao século do sofrimento e dos preconceitos, o eterno século XX. Precisamos ser mais do que apenas agentes robotizados desses novos tempos, precisamos ser agentes de nossas próprias vidas. Nós não somos animais kafkanianos, nem engrenagens da roda da linha de produção dos Tempos Modernos, pelo contrário, temos uma capacidade mais ilustrada que a de nossos antecessores, de termos nas nossas mãos os agentes da mudança.


         A juventude é o real vetor, a verdadeira vanguarda  para mudar o mundo. Não, não estou falando em guerras, estou falando em impor nossa voz. Nós seguiremos esse século como a única geração que tem o fardo de segurar toda a herança e legado das demais: A destruição do nosso meio ambiente, do nosso bem estar, estão associadas a isso. Quem responderá pelo aquecimento global e pagará a dívida seremos nós.

         Não podemos ser reféns do Facebook ou do Instagram, temos que olhar para fora da nossa caixa. O nosso sistema econômico faliu, nenhum país pode se sustentar conforme apenas em gráficos e tabelas. Nosso crescimento será eternamente deficitário na medida que sempre precisaremos trabalhar a crédito, pegar empréstimos, e penhorar anos e anos de recursos humanos e naturais para pagar uma alegoria artificial como o mercado de ações e o sistema financeiro.


        Não apenas estamos acabando com o mundo como a nós mesmos. A corrida espacial é um fato consolidado, mas não pela busca de novos mundos para impor um novo imperialismo conforme o século XIX, explorando planetas em nome de superpotências (ou corporações nesse caso), e sim pela continuidade da cultura e da civilização mundial. Somos antes de mais nada, pessoas, antes de nações e corporações. Não queremos viver Black Mirror.

       As mulheres são mulheres porque se identificam como tal, o gênero é uma noção construída, tal como a ética, a filosofia e a educação. Seus corpos são invioláveis, suas mentes e suas ideias também. É um direito universal e humano que elas sejam tratadas como iguais.

       E mulher não pode ser um conceito restrito à biologia, ou ao axioma de um ser que carrega uma vida dentro de si e faz o papel de mãe. Pelo contrário, mulher é tudo aquilo que se identificar como mulher. Assim como não perguntamos o que é um homem, não podemos tipificar o que é uma mulher com toda a propriedade possível.

       Não devemos ser escravos de conjunturas impossíveis. Nosso sistema educacional não cria reflexão, ele reproduz um conhecimento estático, as escolas são prisões e cada vez mais terceirizamos o nosso ensino nas mãos de poucos e na Internet. Isso é um erro, se vamos coordenar uma sociedade baseada na produção automatizada e de robôs, os seres humanos devem ser os agentes filosóficos e intelectuais irrestritos. A educação é o caminho da real evolução da humanidade.


        Não podemos ser estúpidos, o único jeito de sanar os males da desigualdade é sim praticando um sistema de verdadeira distribuição dos recursos naturais. O egoísmo é a origem das guerras e da intolerância. Suplantamos a sua existência ou desaparecemos. O racismo e a xenofobia podiam ser aceitos em outros séculos, mas nesse novo século é proibitivo que mantenhamos os muros que dividam nossa espécie.

         A religião, a orientação sexual e a ideologia não podem ser limites para praticarmos o conceito de fraternidade. Somos irmãos, a igualdade e a liberdade era conceitos da Revolução francesa, mas apenas podemos consolidá-los no seio da fraternidade. Não podemos viver sem a sua consolidação na base do entendimento e respeito mútuos.


        Filosoficamente falando esse é o século mais pobre intelectualmente que os outros, e esse é o século com mais sobrecarga material de conteúdo e aprendizado dentre os demais. Temos a oportunidade de construir algo novo sem ter a necessidade de derramar sangue, basta nos recusarmos a seguir o legado dos nossos antepassados. É o século da juventude, nós comandamos nosso destino e devemos tomar as rédeas de quem penhorou o nosso futuro por tanto tempo.

Roberto

       Roberto é um dos personagens mais curiosos que eu cheguei a conhecer. Ele tinha um semblante sério, um rosto mais fechado que o habitual, escondia-se atrás de um terno preto mal-cortado. Sempre que podia, acenava para os moradores, habituado com seu serviço. Tinha os cabelos brancos há muito tempo, que lhe dava uma envelhecida exponencial, era um homem alto de olhos compridos. Branco de semblante roseado, vivia no seu canto escutando o rádio e fumando o seu cigarro (Winston branco).


        Roberto não era simpático, de fato, você teria medo dele à primeira vista. Ele sempre falava grosso, balançava a cabeça como cachorro de painel de automóvel. Era sem dúvida um enigma. Poucas vezes tinha contato com ele, e sempre me sentia confortável falando com essa figura fechada, assim como eu.


        37 anos e trabalhando como segurança. Uma vida inteira desperdiçada! Era isso o que ele pensava. 13 anos trabalhando na Good Job (que de bom trabalho não tinha nada), todas as noites ele ficava das 19 horas até as 7 horas do dia seguinte em pé na portaria do prédio. Ele fumava duas cartelas por dia e sempre ouvia o mesmo tipo de música, rock dos anos 80.


       Roberto e eu ficamos amigos a partir de nosso vizinho, seu Hélio, um senhor de 69 anos com câncer de próstata que fumava igual uma chaminé. Na verdade, em São Paulo, todo mundo fuma. Muitas vezes eu ficava na parte de fora do prédio escrevendo ou fazendo palavras cruzadas, eu estava tentando parar de fumar de uma vez por todas, quando Roberto aparecia e nós conversávamos.


       Eu, corintiano roxo, brincava com o Palmeiras dele e nós conversávamos sobre a vida. A diferença era gritante de idade, ele com seus 37 anos, eu com meus 23.  Era curioso ver como tínhamos ficado amigos.


        — Sabe, Alan, nós somos muito parecidos, Nós nos preocupamos muito com o presente e com o amanhã — iniciou a conversa.

        — É verdade, somos sempre preocupados com o dia de amanhã. Se haverá dinheiro, se conseguiremos nos sustentar ou sobreviver. Eu tenho muito disso, de prever o que pode acontecer.
        
        — Sim, mas eu estou com 37. Estou há treze anos nessa firma, sol a sol, senão tivesse caído nessa teria procurado outro emprego há tempos. Mas quem ia me empregar?

        — Sim, eu te entendo — eu estava desempregado, e volta e meia não tinha um trocado no bolso.

        — Minha mãe sempre dizia... Procura estudar, aprende inglês, estuda alemão... Mas sem cabeça né, acabei não estudando, agora tô aqui ralando feito um condenado.

        — É um desperdício, Robertão, você é um cara com muito potencial, querendo ou não isso não é para você.

        — Eu sei, eu sei — ele tira o cigarro da mão e acende outro — Mas fazer o quê? Estou sozinho no mundo. Eu ainda moro na casa dos meus pais, meu pai com a saúde que ele tem e a minha mãe também já tem idade. Se fosse filho único seria uma coisa, mas tenho mais dois irmãos, mas ninguém aparece.

         — É complicado.

        — E pensar que eu podia estar em outro lugar...

        Então Roberto contou-me a sua história de vida em detalhes. Ele sentou-se ao meu lado e tragava com cuidado os seus cigarros.

        A família de Roberto era da Áustria, a mãe dele veio ainda muito criança ao Brasil depois da guerra. Fui delicado em tocar nesse tema, mas a verdade é que o assunto era mais nebuloso do que eu imaginava. O avô de Roberto tinha se envolvido com os perpetradores e tinha denunciado muitos vizinhos para os nazistas, por isso a família fugiu da Áustria depois da guerra.

        O avô de Roberto era um alpinista amador que numa de suas escaladas teve um ataque do coração e morreu. Em detalhes, Roberto falou que o coração dele quando foram abri-lo tinha o tamanho de um coração de um boi por causa do clima da montanha; Com isso, a mãe de Roberto acabou vindo para o Brasil.

       Fato ou não, contando-me em detalhes, soltei que era um historiador e ele sorriu dizendo que a mãe dele queria publicar a história num livro:

       — Mas é muito caro, Alan. Ela precisaria de um editor, você sabe que não é fácil... E publicar por conta própria...

       — Sim, eu sei.

       O tio de Roberto tinha seis anos, tinha acabado de voltar da escola com os colegas. Ele era uma criança pequena, de cabelos loiros e olhos azuis, mal sabia falar alemão direito, quando os colegas o pegaram num episódio que ia marcar para sempre a família, Quatro crianças o pegaram contra a vontade e o amarraram nos trilhos da ferrovia que passava do lado da casa da família em Tirol.


        A despeito dos gritos da criança, o resultado foi inevitável. A locomotiva passou com tudo sobre as pernas do menino, foi um dos atos mais bárbaros e gratuitos que poderia-se imaginar. Depois disso, o garoto nunca mais teve a mesma vida, sendo amparado pelo governo austríaco, passou o resto da vida amargando o ônus de ter perdido as pernas quando criança.

         Chegando ao Brasil, a mãe de Roberto teve que trocar os documentos e acabou conhecendo um filho de italianos da Mooca. Foi assim que nasceu a família dele.


          — Só que meu pai, assim, ele era desligadão, quem salvou mesmo foi a minha mãe. Todas as contas que chegavam em casa, ela que cuidava. Ela foi bem rígida conosco inclusive.


           Foi  assim que ele contou sobre o irmão mais velho e da irmã; A irmã de Roberto e ele eram bem ligados, ela se formou na Belas Artes e estudou Artes Plásticas na USP. Embora fosse algo de louvor para a família de Roberto, ela não conseguia emprego de forma alguma até que se tornou professora de artes numa escola do Grande ABC.

          Segundo Roberto, embora ela gostasse muito de artes, e fizesse umas aquarelas sensacionais (inclusive me mostrou alguns desenhos em nanquim), ela nunca conseguiu fazer uma exposição que seja.

          Roberto trabalhou numa locadora por três anos, e encontrou uma menina que ele sempre lembraria para sua vida. Foi nesse tempo que ele teve contato com o cinema e conheceu todos os clássicos, do Laranja Mecânica ao Rambo. Conheceu o rock'n roll e foi realmente um jovem. Mas como todos sabem o VHS ficou com os tempos contados e ele se enfiou num emprego qualquer nos Correios.


         — Você ia ser carteiro?
         — Sim, eu fui no primeiro dia de terno. Acredita? — A essa altura, quinto cigarro — Cheguei lá na entrevista, eu era moleque igual você. O pessoal achou que era um figurão, lá de dentro. Quando viram que eu era igual eles, eles riram de mim. Brancão, bonito, o pessoal começou a marcar em cima.

           — Como assim?

         — No primeiro dia mesmo eu tive que carregar as sacolas cheias de cartas de terno. Acredita nisso, eu era franzino, magro pra caramba, levando 50 quilos de cartas nas costas. É duro.

         — Tem razão.

          — Toda vez  quando eu estava para quinze minutos de sair chegava um monte de envelopes e encomenda pra descarregar do caminhão. Fiquei um ano trabalhando nisso, dei laudo médico falando que não podia levar peso... Nada. Aí me estressei e saí.

          — Porra, Roberto. Você podia estar no serviço público até agora, cara.

          — Sim, mas não dava não. Eles até falaram pra ficar mais um tempinho que eu seria remanejado, mas não tinha como, Alan, era muita ralação.

          — E então?

          — Fiquei um tempo sem trabalhar até cair na Good Job.

           13 anos. Roberto não tinha finais de semana, não tinha Natal ou Ano Novo. Via a família apenas nos dias de folga. Não tinha vida social. Ganhava um salário comercial que apenas servia para interar as contas de casa. Pegava dois ônibus de Santo Amaro para chegar no nosso prédio todos os dias.


          — É não é fácil não.

          Não tinha patrimônio, nem segurança, Não tinha carro, não tinha casa, vivia num quarto na casa dos pais. Não reclamava, mas eu sentia que ele esperava mais.

         — O tempo é perverso, Roberto.

         — Sim e eu escolhi errado.

          Foi assim que viramos amigos, cada um limitado por seu próprio tempo. Volta e meia ele trazia algo de novo, percebi que eu era um foco de distração para ele durante o seu turno e querendo ou não ele se tornava um dos poucos amigos que tinha em São Paulo.

          — Assim, Alan, estou com um problema. Você entende alguma coisa de herança?

          — Alguma coisa aconteceu com seu pai?
        
         — Não, mas assim, eu ando preocupado. Ele anda meio mal de saúde e já tem idade e tem umas coisas acontecendo que me deixam assim...

          O irmão mais velho dele tinha se casado com uma mulher. Essa mulher passou a transformar a vida em família um completo martírio; A cunhada de Roberto não se entendia com a mãe dele e obrigou o irmão a se mudar para um condomínio.

          O caso que o casal ficou morando no prédio por dois anos e o irmão sempre repassava o dinheiro da taxa de condomínio para a esposa que gastava no shopping comprando roupas; Acabou que a despesa ficou alta demais para ser paga e o apartamento foi penhorado. Devido a isso, eles passaram a ter que morar de aluguel numa favela no Capão Redondo.

           Esse episódio deixou as coisas piores do que estavam, não só porque a cunhada ficou como oportunista como o irmão ficou em dificuldades com dois filhos pequenos para criar. Numa das visitas, a cunhada falou aos filhos sobre a casa dos pais de Roberto:

        "Um dia, tudo isso será de vocês, quando os seus avós se forem"

        "E o tio Roberto?"

        "A gente deixa um quartinho para ele. Roberto não se importa, para ele está tudo bom".

         Roberto poderia ficar sem um teto.

        Eu o aconselhei a ter cuidado, porque de fato corria o risco dele ser passado para trás, mas que o irmão dele tinha direitos... A não ser que a mãe dele passasse a casa para o nome dele.  Essa foi a sacada que tivemos.


        Foi uma conversa boa no final das contas.

       — Alan, eu sou o filho do meio, no fim, eu me preocupo muito com os meus pais. Estou lá o tempo todo, minha irmã mesmo abriu mão disso, agora não posso ficar sem um teto para morar assim. Eu sei que ganho pouco, mas dá para sustentar uma casa.

     — Sim, mas você vive muito sozinho, Roberto. Você precisa sair de vez em quando e ter uma vida social, ter filhos, cara.

     — Eu sei, mas não acho a pessoa certa.


     — Eu sei, a vida anda cada vez mais difícil. Mas não desespere, meu velho, tudo vai melhorar.


     Duas semanas depois tive que voltar para Brasília. Querendo ou não, perdia um bom amigo, mas sinceramente, basta apenas conversar casualmente com as pessoas que aparecem no seu caminho para que você se acostume a chamá-las de amigos.

Dois amantes

       Ela, uma travesti, que muitas vezes se olhava no espelho procurando se encontrar, escovava seus cabelos com preguiça. Eu a olhava esperando ter respostas. Havia uma sacola de papel rasgada no chão, nela uma garrafa de vinho quebrada, o secador que tinha se espatifado e um buquê de rosas mortas.


       O secador emprestado fazia muito barulho, a luz comprimia meus olhos. Ela estava nua, tentava apenas cobrir-se com uma toalha branca. Seus pequenos seios estavam à mostra. Tínhamos tido uma briga, como todos namorados costumam ter. Mas namoro a dois é um trilho que sempre acaba  em estações diferentes. Nossa sintonia era aquela, eu depressivo, olhando para seus olhos tentando ter respostas, ela se olhando no espelho tentando se encontrar.

        Ela por vezes tinha vergonha de seu corpo, de ter nascido com algo que ela não queria... Eu nunca tive vergonha dela. Sabe porquê? Quem ama não se envergonha de nada. Podia falar o que fosse. Afinal num país que se mata tantas transsexuais, ouvir insultos gratuitos e olhares desconfiados parece ser costume.

        Quando andávamos sozinhos na Pamplona, eu via os homens a encarando com luxúria. Esses mesmos homens que se orgulham de sua masculinidade, eles no fundo me invejavam. Distribuíam olhares carregados tanto de preconceito quanto de desejo. Ela era uma mulher bonita, mas no fundo eles não queriam reconhecê-la como mulher.

        Eu sei que muitos amigos meus não aceitaram quando falei que estava namorando uma mulher trans, alguns acharam isso exótico, outros simplesmente sexualizaram nossa relação. Alguns falaram coisas horríveis, outros viraram as costas. Está tudo bem, não foi muito diferente dentro de casa.

        Afinal, porque eu estava em São Paulo? Por que eu amava. Num mundo tão cruel, às vezes precisamos ficar com alguém que nos dê segurança.

       Nós brigávamos, sim, nós éramos como outro casal qualquer. Tínhamos ciúmes um do outro, tínhamos cumplicidade, às vezes escondíamos coisas um  do outro. Parece exótico? Mas é assim que as coisas funcionam, não há nada de especial.

      Tomávamos banho juntos, cada um limpava o corpo do outro com uma esponja. Por vezes não queríamos nos ver, outras nos machucávamos apenas porque queríamos ser ouvidos. Teve vezes que andei sozinho de madrugada na Paulista procurando respostas, outras, eu a encontrava na portaria do nosso prédio fazendo perguntas. Sempre nós dois juntos.

       Éramos felizes quando estávamos sós, mas nem sempre tínhamos essa oportunidade. Por vezes nossa privacidade era violada, sem querer, sentíamos presos. Seja por um vizinho fazendo perguntas, seja por algo que ocorria na rua. Sofremos muitas vezes, mas tínhamos um ao outro,

        Os hormônios sempre a deixavam mais irritada, eu sempre ficava de cabeça quente. Ambos estávamos sem dinheiro. Por vezes, apenas nos deitávamos e dormíamos. Sem nos preocupar com nossos corpos, sem nos preocupar com o amanhã.

        Fazíamos amor quando convinha, mas sempre dormíamos juntos, pelados para lembrar que cada um pertencia ao outro e vice versa. Eu a amei, sempre soube que seríamos algo mais que amigos. E hoje fico triste de estarmos afastados contra nossa vontade. Justo nós, que nos nossos momentos, assistíamos tudo juntos, como todo casal.

        O mundo é perverso e cheio de preconceitos, mas por um momento que seja eu queria compartilhar com vocês o que é amor.

O amor tem dessas coisas

Quando me encontrei em São Paulo depois de velho todas as boas recordações da minha infância haviam desaparecido. Encontrei uma cidade crua, fria e praticamente sem esperança. O cinza dos prédios e a cor dos automóveis monocromáticos prenunciavam um dos capítulos mais amargos da minha vida.

São Paulo anunciou o lado cosmopolita que eu sempre tinha junto comigo, imparcial, direto e ansioso. Conheci pessoas presas em arquétipos kafkanianos, velhos cada vez mais vazios em suas prisões individuais, seus corpos se consumindo pela aspereza e o sofrimento que levaram a si mesmo e os outros. Vi o quão falso pode ser o ser humano que no momento de extrema necessidade, conseguiu sucessivas vezes humilhar e virar as costas quando foi conveniente.

A Humanidade não existe quando se falta dinheiro, somos tratados como meros animais. Parte de uma multidão de estranhos que admira apenas a opulência dos ignorantes. Passei dias inteiros sem ter dinheiro para comer, fiquei no frio esperando ter um teto para poder dormir.

A pessoa que me amou nesses momentos foi torturada pelo caráter perverso de um povo estranho a si mesmo. Não tive paz, não tive segurança ou felicidade. Fui prisioneiro num pequeno quarto por dias, sem saber se iria ver a luz do dia ou se teria como resgatar meus sonhos obscurecidos. Tive apenas em seus braços, o consolo de não cair na tentação de fracassar.


Ela me amou quando eu deixei de me amar de novo, ela chorou quando viu que não poderíamos sobreviver juntos. No meu aniversário, ela gastou tudo o que tinha para celebrar a idade que eu ganhava. Nós envelhecemos bastante, nós entendíamos um pelo outro o sofrimento que tínhamos dentro de nós. Ela sofreu mais do que eu, tenho certeza disso.


Ela que foi humilhada, foi violentada por esse sistema corrupto, impessoal de que o cidadão mais comum pode ser o pior torturador, passou dias sem comer, sem tomar banho e sem se sentir acolhida. Fomos apenas sobreviventes. Eu sempre a amarei por ter lutado e eu sempre terei comigo o gosto amargo da poluição de São Paulo.


Conheci seus monumentos, seus arranha-céus, mas a única coisa realmente forte foi o calor dos nossos corpos sob a batida dos nossos corações enquanto chorávamos um abraçados ao outro num pequeno quarto sem esperança em São Paulo.



Foi ali que cogitei seriamente em cortar meus laços com a vida, e foi ali que ela me salvou sem esperar nada em troca de minha parte. O amor tem dessas coisas.

O progresso das mentiras



Ontem foi promulgado mais um novo capítulo da patifaria que se tornou o sistema institucional brasileiro; onde todas as instituições, sem quaisquer exceções, foram absolutamente compradas no novo acordo nacional. A plutocracia continua ceifando o futuro de um país que ficou refém de seu próprio passado.

O senhor Michel Temer, para alguns, arquimestre do impeachment, é apenas mais um personagem desse filme de terror que se tornou a política (ou politicagem). O balcão de negócios do Supremo Tribunal Federal é marcado pela venda de sentenças em nome de trocas de favores e aumentos salariais. Alguém tem duvidas de que num país com uma das mais graves crises de sua história, não era fortuito aumentar justamente os privilégios dos mais ricos?

Em São Paulo, na Avenida Paulista, onde antigamente ficavam as mansões dos barões do café, hoje cresce o número de mendigos, escondidos sobre as luzes do vão do MASP e dos arranha-céus do suntuoso Banco Safra e do Edifício Scarpa. Ali, na sede da Fiesp, perto do parque Trianon que o pato gigante do Scarf afogou a todos nesse mar de lodo que se tornou o Brasil.

Era mais do que evidente que um dia as mentiras se tornariam evidentes, que os contratos da Odebrecht e da JBS mostrariam um esquema de corrupção monumental que uniria tanto a “esquerda” quanto a direita. Tenho o direito de colocar aspas no termo “esquerda” inclusive porque conhecendo tão a fundo os movimentos de esquerda dentre suas vertentes, não posso deixar de me indignar que foi justamente o Partido dos Trabalhadores o vetor dessa corrupção institucionalizada por 13 anos com o seu pacto diabólico com o PMDB (ou sindicato do crime, como preferirem).

A esquerda não pode se deixar vender por meros trocados (ou milhões) de talões de cheque de empresários corruptos. O dinheiro em si já é um crime contra a ordem e o bem estar da própria classe trabalhadora. Os ricos não são ricos porque são mais competentes, trabalhadores ou inteligentes, pelo contrário, os ricos são ineptos, idiotas e obtusos. Eles não se reconhecem como nada além de seus objetos e de sua conta bancária, ser governado por oligarquia de ineptos é quase um soco no estomago de qualquer um.

Não sejamos estúpidos, a meritocracia é uma grande mentira. Não tem nada haver com o mito de Platão de homens de ouro, de prata ou de bronze. Não existem notáveis quando a base de toda a fortuna é apenas o nascimento e a reprodução de um sistema excludente e narcisista.  Os arranha-céus são uma mostra disso, eles não são senão obeliscos de poder, e consequentemente do dinheiro. O ser humano é apenas um refém do seu próprio desejo por dinheiro.


Não sejamos estúpidos, o ser humano não é naturalmente solidário, ele é naturalmente egoísta. Você, nesse contexto, só se preocupa com uma coisa: Terei dinheiro no final do mês? Se sim, o que sobrar, certamente comprará um celular novo. Um Iphone talvez? Você, cidadão médio, não se importa com a política, nunca se importou. Seja sincero consigo mesmo. Você é só mais um parasita que vive na corrente do oceano.


Roubaram 220 bilhões? Ora, se você estivesse com o seu emprego garantido e tivesse um aumento de salário, seja sincero, você ia se importar? Onde está sua honestidade quando você fura uma fila no banco ou estaciona numa vaga para deficientes? Você que nunca deseja pagar pelo valor de um serviço integralmente, que quando pode sempre chora um desconto, quando não gosta de comprar com nota ou simplesmente negligencia seu dever de cidadão, e se esconde no casulo: “são todos corruptos, vou votar no  menos pior”.


Você é pior que todos eles. Você é o criminoso que sequer teve o dever de reconhecer o seu crime. Sabe por que? Porque você se acovardou quando viu tudo era insustentável, você assistiu o seu jogo da Copa do Mundo enquanto bebia a sua cerveja no estádio sabendo que milhões foram jogado no ralo para um evento que ia durar apenas dois meses.


Bateu panela quando começou a faltar dinheiro? Sabe quantas pessoas agora não tem comida nessa panela hoje? 15 milhões! São apenas estatística? Quem é o tirano agora, você ou Iossif Stálin? Afinal, “a morte de uma pessoa é uma tragédia, a morte de milhões é apenas estatística”.

“Não tenho culpa, não votei no PT”. Deixe de ser idiota, pare de ser covarde e de se esconder atrás de frases prontas.  A culpa é sua. Você não saiu da sua casa quando viu o Michel Temer assumir a presidência. Você se iludiu com os jornais falando que a economia estava recuperando e que o dólar estava abaixando. Sabe o que aconteceu? Você foi apenas iludido.


Você consegue fechar o final do mês? Consegue comprar o que conseguia com cem reais no supermercado? Não. Com certeza não. E foda-se o PT ou a Dilma, ou caralho que seja. Você foi o idiota útil.

Provavelmente agora não sabe se continuará a ter emprego ou terá uma aposentadoria. Deixa eu te explicar uma coisa, a CLT não era perfeita, mas sabe férias, 13° salário e 40 horas semanais? Tudo isso era garantido pela porra daquela Consolidação das Leis do Trabalho. Podia ser modernizada, podia. Mas desse jeito? Você quer vender suas férias ou trabalhar 12 horas direto? Que idiota é você?

Você realmente acredita que você vai poder conversar com o seu patrão e falar: “Meu filho ficou doente, preciso tirar férias agora”. Já pensou que você pode ser simplesmente... Demitido?
E a aposentadoria? Bom, eles mentiram pra você. A previdência não está quebrando... De fato, está tendo superávit. Nem nos próximos dez anos ela estará.


O que está acontecendo que o seu governo (ou sindicato do crime) está retirando os recursos da sua previdência (e do seu FGTS) pra pagar os juros dos empréstimos da Copa do Mundo. Hahaha, seu idiota, como você não percebeu que estavam te roubando? Você trabalhou 35 anos da sua vida para vir um velho cadavérico e dizer que você não pode se aposentar senão tudo quebra?



Sabe que os presidentes têm aposentadoria integral enquanto você tem um limite de até três mil reais para  a sua aposentadoria? Bem vindo ao Brasil.


Custo-Brasil? Não seja tolo, o Brasil só tem custos altíssimos de produção porque sua indústria é obsoleta para a realidade do mercado internacional e o sistema de tributação é totalmente caótico. Não tem imposto unificado, cada município cobra o que quiser e Estado também.

Ah, as quinquilharias da China são baratas? Não sabia que você também era comunista pra gostar da China, mas deixa te falar uma coisa, lá não tem direitos trabalhistas.


3% é a popularidade desse governo. Você realmente quer continuar com isso, com esse governo impopular te cobrando impostos sem que você veja algum retorno? Você realmente acredita que vai melhorar? Ou você acredita no que os jornais dizem (jornalistas ou prostitutos intelectuais)? Economistas dirão mentiras porque apenas gráficos importam quando recebem a caixinha no final do mês.


Como está sua dívida do banco? Crescendo? O cheque especial estourou? Pois bem, o governo perdoou as dívidas dos bancos com o Tesouro! Hahahaha. Imagina só, você está pagando 465% no cheque especial ao ano e de repente toda a dívida que o seu banco tem de impostos foi perdoada. Sabe o que é isso? Um soco na sua cara. Seja sincero consigo mesmo, você está sendo feito de idiota.


Qual a maior indústria brasileira hoje? Automóveis? Não. Construção civil? Não. Agronegócio? Não.  BANCOS. Isso mesmo, eles movimentam mais de 55% do nosso PIB. Cobrando juros de você, fazendo absolutamente nada. Afinal, você sabe que eles pegam o dinheiro dos outros correntistas pra emprestar pra você, não sabia disso?


Isso porque são os bancos que financiam as campanhas eleitorais a cada quatro anos. Bradesco financiou a campanha da Dilma, Itaú financiou a da Marina Silva e os bancos internacionais financiaram o Aécio. Diga a verdade, você confia no seu banco se metendo com política?


Agora seja sincero. Não te revolta saber que estamos num total descaso público, com tudo indo de mal a pior? Não estou falando somente de hospitais com filas de pacientes morrendo nos corredores, ou escolas criando apenas idiotas úteis como você para o novo mercado de trabalho automatizado. Não, estou falando de termos todo um Congresso corrupto que achou legítimo tirar alguém eleito do cargo e colocar um reconhecido corrupto no lugar.


Estou falando dos bandidos de toga que fingem saber algo de direito constitucional, quando eles próprios vendem sentenças, seja quando é o escândalo do Eike Batista (com o juiz andando na Ferrari do Eike enquanto ele estava preso), até quem, digamos, o TSE salvando uma campanha eleitoral com notáveis evidências de CAIXA 2.


É só falar bonito que se consegue alguma coisa nesse país. Machado de Assis dizia isso em o Teorema do Medalhão. Você sustenta o judiciário mais caro e lento do mundo. Você sabia disso? É um teatro, ou um samba do criolo doido como preferir.
Todos já sabiam que Temer seria inocentado, e sabiam o placar: 4 a 3.

Então, seja você mesmo pelo menos uma vez. Seja egoísta! Pare de aceitar isso e vá pra rua!


Esqueça que existe um país, pense em si mesmo, você está sendo roubado todos os dias por esses bandidos e o que eles te dão em troca? Nada.



Deixe de pagar seus impostos, não vale a pena. Você só está alimentando essa máquina de sujeira que se tornou a União. E esqueça, Bolsonaro não é opção. Você é a melhor opção que você tem, mesmo sendo um idiota.  Acabe com essa merda antes que seja o fim de todo o seu próprio futuro.

PS: Se você espera que os militares te salvem com uma intervenção, então eu vou chamar a sua mãe para te bater com vara de bambu, sua criança mimada!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O mundo não é feito de rosas

           O mundo é feito de preconceitos. Feito de idiotas que acham serem úteis seus comentários carregados de preconceitos, seus olhares canibalizados de idiotas inúteis e que se acham inteligentes o suficiente para defenderem bandeiras fracassadas, tanto na direita quanto na esquerda. O mundo carregado de idiotice é uma coisa que independe de partidos políticos, crenças e mesmo de nacionalidade.

          Quando os sírios chegam à Europa pedindo um pedaço de comida e uma roupa de frio, são os húngaros que fecham as portas. São os gregos que deixam as crianças morrerem na praia e são os ingleses e franceses a primeiro torcerem o nariz à humanidade. Os mesmo ingleses e franceses que por anos dominaram a região como se fosse um parque de diversões.

          Hoje esses idiotas acham ter o direito de advogar uma identidade nacional num mundo globalizado como forma relevante de união nacional, quando na verdade, tudo o que eles fazem é baseado no ódio dos demais.


         Foi assim que os americanos elegeram Trump, no alto da sua estupidez, elegeram um representante do backside novaiorquino, investidor multimilionário que defende o setor empresarial, sonegador confesso de centenas de milhares de dólares em impostos, para fazer a "America great again". Como se fosse possível voltar à década de 50. Foram os racistas e xenofobicos do Sul, foram os trabalhadores desiludidos do cinturão da sucata do nordeste americano e os pais de família de classe média que elegeram o Trump.


       Não, não defendo a Clinton... Pelo contrário, ela representava apenas a continuidade causticante de um governo morno Obama, e seria apenas um estilo de governar de continuidade dos lobistas de Washington.


      Mas o mundo respirou fundo quando descobriu sua estupidez.


      Essas mesmas pessoas estúpidas acham que as redes sociais as tornaram mais inteligentes, que postar a sua vida pessoal no Snapchat ou no Twitter as fizeram mais amadas e que o Facebook se tornou um oráculo de discussões. Meus pensamentos são centrados em uma base muito simples, se você reproduz um conhecimento sem dissecá-lo, você é apenas um papagaio.

      De toda forma, o mundo não é feito de rosas. O mundo é feito de preconceitos, feitos de preconceitos entre os próprios irmãos de uma mesma comunidade, feito do ódio entre gêneros e nações. O ódio ao diferente e na aceitação do novo.

      Sobretudo agora, eu sei que o mundo que me prometeram desapareceu e apenas uma triste lembrança é o que sustenta a convicção de que tudo vai melhorar. No final, o mundo é um grande Black Mirror.

A plutocracia brasileira

      A plutocracia dominou por completo as esperanças de um futuro melhor após essa  época de adversidades, o golpe parlamentar orquestrado pelo Congresso Nacional convenceu a todos nós que a camarilha de políticos liderados pelo PMDB apenas deseja apropriar-se do Estado para seus fins mercantis-financeiros.

     O Estado foi vendido de propósito depois de uma série de irresponsabilidades e assassinatos legais contra a ordem institucional. Renego completamente a presença de um poder judiciário, considerando agora que a justiça é parcial e cega quando conveniente. O Supremo Tribunal esconde bandidos de toga, o Congresso Nacional, bandidos de terno e Temer representa o mundo carcomido do passado. É um governo sem governabilidade, um balcão de negócios de centenas de bandidos que ganham fortunas enquanto cortam a aposentadoria do trabalhador brasileiro.

      Congelaram as despesas do país ao mesmo tempo que aumentaram seus próprios salários, condenaram o futuro de milhares de jovens, homens e mulheres, aos interesses dessa geração envelhecida de ladrões. Hoje eu não tenho mais esperanças em qualquer fim democrático num sistema falido e corrupto, onde as instituições representam uma grande fazenda da qual nós somos a senzala. O Brasil não é um país do futuro, é um país que foi feito no presente. A questão é: Aceitaremos que roubem ainda mais dos nossos sonhos ou lutaremos contra isso?


      Meu desencantamento com o marxismo-leninismo passou no momento que eu vi que a última pessoa viva da Guerra Fria morreu, matando por final o século XX. A morte de Fidel Castro me foi didática de como as pessoas podem ser ao mesmo tempo controversas e amadas ao mesmo tempo. De toda forma, é mais legítimo um poder instituído pelas armas nos ideais revolucionários de justiça social do que um estado apropriado por uma corja de bandidos.

     Hoje me reafirmo como  socialista, e mais do que socialista, hoje renovo meu compromisso de lutar por uma sociedade justa e igualitária. Mesmo que seja somente eu a tomar essa bandeira, o meu grau de indignação não me permite que os algozes de nossa juventude sejam felizes em seu roubo perpétuo de nossas esperanças. Quem rouba merenda de crianças, a insulina dos hospitais merece realmente ser extirpado completamente da nossa sociedade.



    O Estado é o maior vilão porque ele não pensa e raciocina, ele apenas toma e serve aos interesses de grupos e agentes econômicos bastante definidos. Estou mais do que convencido de que a democracia é o câncer que instituiu a vontade de poucos sobre a maioria. Socialista ou não, escolha conscientemente, e esse país que queremos?


     FIM AO MICHEL TEMER! FIM AO GOVERNO ILEGÍTIMO DOS ASSASSINOS DE CRIANÇAS! ELEIÇÕES DIRETAS OU NADA! O Estado Brasileiro morreu no momento que as maldades começaram a massacrar o seu próprio povo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Uma estrada

       Sempre que ficar perdido, pegue a estrada. Jogue-se para longe e conheça um lugar distante, com sei lá, o Goiás. No Goiás que encontrei meu amor escondido sobre as árvores retorcidas do Cerrado, comi galinha caipira e senti o gosto do arroz com pequi.


      Estive em suas águas cristalinas, visitei seus bosques e deixei tudo para o alto quando estourei um cartão de crédito de brincadeira. Bebi cerveja quente, ouvi música ruim e amei intensamente todos os dias. Foi no Goiás que me perdi de novo


      Andei a 160 km numa BR, matutei, briguei, comi tilápia frita a despeito de odiar peixe e fui inconsequente... Até porque não valia a pena ser aristocrático com a pompa artificial de um bom brasiliense. E vivi até quando não pude, explorei o Itiquira, banhei-me em suas águas, e vi a cachoeira.


Encontrei o meu amor nesse caminho perdido e desejei estar perdido até onde pudesse. Mas não, não pude, pois a vida real sempre nos prende para longe da fantasia. E a fantasia é desejar partir de novo para onde não deveria ser encontrado. Te odeio Brasília, com seus pilotis de concreto, com suas pessoas toscas e mesquinhas, suas tesourinhas que cortam pessoas, seus eixos sem nexo e seus apartamentos minúsculos e sem graça.

Odeio você, tal como odeio os seus políticos, os seus funcionários públicos com os seus carros importados de prestações para serem pagas daqui vinte gerações, seus garotos de academia que fumam maconha no Pontão e prostituem meninas de cabeça vazia. Odeio você tal como odeio seus velhos necrófilos que roubam a juventude dos poucos que querem viver, dos seus concurseiros aos seus policiais ignorantes e de seus universitários que se enojam com mesquinharias.

Odeio pensar que toda essa gente que morreu construindo uma cidade no meio do nada teve a coragem de desistir e se acomodar numa cidade tão frívola e tão interiorana que não merecia ser chamada de capital. Odeio por completo seus jornalistas, prostitutos intelectuais, seus mestres e doutores de diplomas.


Odeio seu pastel queimado da Rodoviária feito com óleo diesel, os seus bares caros sem graça, seus pontos turísticos de concreto e a arquitetura mal-feita de Niemeyer. Odeio ademais pensar que nasci nesse inferno que faz o deserto de agosto quando não tem um pingo de água, quando temos um governador de merda que rouba cada vez mais a esperança de nossos sonhos e dos sensacionalistas que iludem os pobres coitados nas igrejas da periferia.

Odeio os que se fazem de coitados pedindo dinheiro na Rodoviária, odeio os pobres coitados que pedem garrafas de vinho nos restaurantes ou os ignorantes advogados que se acham senhores da razão quando são primeiros a corromper a constituição.


Pois que digam o que digam, odeio essa prisão chamada Planalto Central. E odeio nunca estar com forças para fugir disso, pois a chave da minha sela se perdeu no riacho do Itiquira.

Soneto às duas da tarde


O motor de um motor V8 tintila enquanto seus quatro cilindros debatem-se numa mecânica precisa de quatro tempos. A combustão da gasolina iniciada em cadeia pela vela conduz força que é transmitida pela diferencial de forma harmônica sobre as rodas através de um preciso sistema de distribuição.


A ventoinha ventila com a água do radiador todo o sistema em movimento enquanto o seu condutor aperta o acelerador ou pisa eufórico na embreagem, o câmbio e a caixa de marcha trabalham incansavelmente enquanto a bateria faz girar todo o sistema de som do automóvel e o sistema de ar condicionado acaba gotejando na pista um pouco de água, deixando um rasto surdo na pista.


O óleo do cárter deveria ser trocado depois de quase 15 000 quilometros rodados, mas pelo contrário, o dono sequer se importa com meros detalhes, e fura os sinais vermelhos para levar a pequena criança para a escola a tempo. Negligente, fala às vezes no celular, às vezes arruma o vidro e brinca com a criança. Detalhes...

O trânsito é lento, a criança se atrasa. Mesmo assim, esfria a cabeça, a menina o abraça e diz que o ama: "Entregue isso para ela"

Ela entrega um desenho e um anel. Sim, nada mais do que isso.  Mesmo estressado, ele se ajoelha diante daquela criatura e diz: "Isso é seu. Não devia fazer isso"

"Eu quero, entregue para ela. Ela te ama"


Ele a abraça e a beija na bochecha. A criança era mais sábia do que ele que tinha o triplo de sua idade. "Obrigado, você é a minha filhinha. Obrigado por tudo".

Às vezes os adultos sabem como funcionam mecanismos complicados como injeção eletrônica ou funcionamento de um motor de combustão, mas apenas as crianças têm a sensibilidade de nos lembrar que ainda devemos amar esse mundo.  As crianças são mais sábias que seus próprios pais.

Caixinha de música



Toda vez antes de dormir, ela sentava-se junto à cama, beijava a fumaça do cigarro e tirava o sutiã que a apertava. Ela olhava com olhos cansados para o vazio numa vista frívola de um apartamento no terceiro andar de um hotel. A mobília do seu quarto era antiga, de mogno pesado, sem muita graça e com um ar condicionado que fazia um tremendo barulho.

Uma orquídea cor-de-rosa namorava de maneira psicodélica uma garrafa de vinho francês pela metade. O computador carregava pela metade, ela se deitava na cama de lençóis brancos, finos como a seda, olhava para o teto com a lâmpada pendente e chorava.

Chorava porque dizia-se ser mais forte do que os outros e sempre se lembrava de ser melhor que os outros. Ela ignorava as várias ofensas que o mundo lhe impunha. Ela regojitava sua raiva ouvindo música e postando textos longos no Facebook, vez em quando ia num bar e se embriagava até não poder mais. Festas e mais festas, fumava sempre um cigarro para passar o tempo, até o que o empo passava mais rápido na intensidade de um soco.

Vez em quando dormia sem comer, vez em quando desistia de chorar, vez em quando guardava suas mágoas num cofre bem profundo. Não tinha mais o apoio da mãe, e o pai nunca foi grande coisa, amava a irmã e às vezes duvidava de si mesma.

Ela sofria calada, bebia sem se enganar e tentava deixar tudo o que sentia de lado. Sonhava morar na Toscana, sonhava viver e se apaixonar. Mas mais do que isso, sonhava em ser respeitada. Vez por outro ignorava um insulto ali ou aqui, vez por outra achava que tinha parcela de culpa. Mas não ignorava o fato como o grito surdo de um mundo cheio de barreiras fazia seu coração tremelicar.

Toda noite tinha medo de ser morta ou apedrejada como os israelitas faziam com os infiéis. Todo dia saía na rua e se tornava centro das atenções, não apenas por ser bonita com o seu cabelo louro de leão, mas porque um mundo feito de bonecos de plástico não aceitava pessoas de carne e osso.

Padrões de beleza e estética a moldavam, a torciam e a maltratavam, até que por fim, tudo o que tinha era uma garrafa de vinho barato e uma caixinha de música. Poderia ela ser uma bailarina, um violinista, física ou psicóloga, mas a vida não lhe resolveu essa sorte. Pelo contrário, vivia confinada naquele apartamento minúsculo sem qualquer expressão ou qualquer quadro que se destacasse e quanto menos tinha sossego, maior era a sua aflição.

Ela se sentia só, sentia seus ossos cansados, seu corpo cadente de carinho e um sorriso fraco no rosto, enganava-se muitas vezes. Perdia por vezes a vontade de ser feliz, até que num desses dias perdeu a chama de um cigarro.

Foi quando como um cometa que caía sobre a noite, cadente e pulsante ela encontrou-se no arrebatamento do que poderia ser chamado o amor. O que pode ser uma surpresa para uma menina com 24 anos corridos, mas às vezes tudo o que desejamos só acontece quando menos esperamos. Irritado, o coração se lacera e corrói o seu estomago, o seu fôlego se esvai.

Exasperada, ela corre de medo ao encontro do seu destino e decide viver só mais um pouco. O namorado era um zero a esquerda, com saldo negativo no banco, um carro mequetrefe, falava engraçado e não tinha qualquer tipo de expressão. Ela ainda assim o amou até onde pode, mesmo ele sendo um retardado que a machucava por completo. Por vezes eles discutiam, eles se machucavam e normalmente era culpa dele mesmo. Ela tinha paciência.

Paciência de tal forma que em todos os deslizes ela tinha decidido perdoar. Fosse porque tivesse algum afeto por ele, ou algum afeto por si; de toda forma, ela olhava para o celular, perdia tempo no Facebook e esperava ter um futuro.

Esse mundo não foi feito para sonhos, ela se lembrava disso; E por fim, numa das suas autosabotagens, seu namorado saiu com suas coisas: levou a orquídea consigo e um pouco do amor próprio. Ela ficou na varanda fumando em silêncio, não sei se chorou ou se ficou no marasmo da solidão.

Apenas foi para a cama e dormiu. Cigarro na boca e a caixinha de música com uma bailarina dançando no eixo da corda ao sol de Lago dos Cisnes. Ela ficou quieta e sonhou, teve pesadelos, sofreu com seu pai alcoólatra, com a sua mãe dependente de um casamento fracassado, de sua irmã que não via há um ano. E sofreu por não estar mais perto, e sorriu justamente por estar a frente.


O cigarro apagou, algo tinha se apagado também. Era a luz ou a chama que conduz tudo o que somos? Não sei o que dizer, só sei que eu sou o namorado canalha e ela é um anjo dentre nós reles mortais.

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...