sábado, 10 de junho de 2017

O amor tem dessas coisas

Quando me encontrei em São Paulo depois de velho todas as boas recordações da minha infância haviam desaparecido. Encontrei uma cidade crua, fria e praticamente sem esperança. O cinza dos prédios e a cor dos automóveis monocromáticos prenunciavam um dos capítulos mais amargos da minha vida.

São Paulo anunciou o lado cosmopolita que eu sempre tinha junto comigo, imparcial, direto e ansioso. Conheci pessoas presas em arquétipos kafkanianos, velhos cada vez mais vazios em suas prisões individuais, seus corpos se consumindo pela aspereza e o sofrimento que levaram a si mesmo e os outros. Vi o quão falso pode ser o ser humano que no momento de extrema necessidade, conseguiu sucessivas vezes humilhar e virar as costas quando foi conveniente.

A Humanidade não existe quando se falta dinheiro, somos tratados como meros animais. Parte de uma multidão de estranhos que admira apenas a opulência dos ignorantes. Passei dias inteiros sem ter dinheiro para comer, fiquei no frio esperando ter um teto para poder dormir.

A pessoa que me amou nesses momentos foi torturada pelo caráter perverso de um povo estranho a si mesmo. Não tive paz, não tive segurança ou felicidade. Fui prisioneiro num pequeno quarto por dias, sem saber se iria ver a luz do dia ou se teria como resgatar meus sonhos obscurecidos. Tive apenas em seus braços, o consolo de não cair na tentação de fracassar.


Ela me amou quando eu deixei de me amar de novo, ela chorou quando viu que não poderíamos sobreviver juntos. No meu aniversário, ela gastou tudo o que tinha para celebrar a idade que eu ganhava. Nós envelhecemos bastante, nós entendíamos um pelo outro o sofrimento que tínhamos dentro de nós. Ela sofreu mais do que eu, tenho certeza disso.


Ela que foi humilhada, foi violentada por esse sistema corrupto, impessoal de que o cidadão mais comum pode ser o pior torturador, passou dias sem comer, sem tomar banho e sem se sentir acolhida. Fomos apenas sobreviventes. Eu sempre a amarei por ter lutado e eu sempre terei comigo o gosto amargo da poluição de São Paulo.


Conheci seus monumentos, seus arranha-céus, mas a única coisa realmente forte foi o calor dos nossos corpos sob a batida dos nossos corações enquanto chorávamos um abraçados ao outro num pequeno quarto sem esperança em São Paulo.



Foi ali que cogitei seriamente em cortar meus laços com a vida, e foi ali que ela me salvou sem esperar nada em troca de minha parte. O amor tem dessas coisas.

O progresso das mentiras



Ontem foi promulgado mais um novo capítulo da patifaria que se tornou o sistema institucional brasileiro; onde todas as instituições, sem quaisquer exceções, foram absolutamente compradas no novo acordo nacional. A plutocracia continua ceifando o futuro de um país que ficou refém de seu próprio passado.

O senhor Michel Temer, para alguns, arquimestre do impeachment, é apenas mais um personagem desse filme de terror que se tornou a política (ou politicagem). O balcão de negócios do Supremo Tribunal Federal é marcado pela venda de sentenças em nome de trocas de favores e aumentos salariais. Alguém tem duvidas de que num país com uma das mais graves crises de sua história, não era fortuito aumentar justamente os privilégios dos mais ricos?

Em São Paulo, na Avenida Paulista, onde antigamente ficavam as mansões dos barões do café, hoje cresce o número de mendigos, escondidos sobre as luzes do vão do MASP e dos arranha-céus do suntuoso Banco Safra e do Edifício Scarpa. Ali, na sede da Fiesp, perto do parque Trianon que o pato gigante do Scarf afogou a todos nesse mar de lodo que se tornou o Brasil.

Era mais do que evidente que um dia as mentiras se tornariam evidentes, que os contratos da Odebrecht e da JBS mostrariam um esquema de corrupção monumental que uniria tanto a “esquerda” quanto a direita. Tenho o direito de colocar aspas no termo “esquerda” inclusive porque conhecendo tão a fundo os movimentos de esquerda dentre suas vertentes, não posso deixar de me indignar que foi justamente o Partido dos Trabalhadores o vetor dessa corrupção institucionalizada por 13 anos com o seu pacto diabólico com o PMDB (ou sindicato do crime, como preferirem).

A esquerda não pode se deixar vender por meros trocados (ou milhões) de talões de cheque de empresários corruptos. O dinheiro em si já é um crime contra a ordem e o bem estar da própria classe trabalhadora. Os ricos não são ricos porque são mais competentes, trabalhadores ou inteligentes, pelo contrário, os ricos são ineptos, idiotas e obtusos. Eles não se reconhecem como nada além de seus objetos e de sua conta bancária, ser governado por oligarquia de ineptos é quase um soco no estomago de qualquer um.

Não sejamos estúpidos, a meritocracia é uma grande mentira. Não tem nada haver com o mito de Platão de homens de ouro, de prata ou de bronze. Não existem notáveis quando a base de toda a fortuna é apenas o nascimento e a reprodução de um sistema excludente e narcisista.  Os arranha-céus são uma mostra disso, eles não são senão obeliscos de poder, e consequentemente do dinheiro. O ser humano é apenas um refém do seu próprio desejo por dinheiro.


Não sejamos estúpidos, o ser humano não é naturalmente solidário, ele é naturalmente egoísta. Você, nesse contexto, só se preocupa com uma coisa: Terei dinheiro no final do mês? Se sim, o que sobrar, certamente comprará um celular novo. Um Iphone talvez? Você, cidadão médio, não se importa com a política, nunca se importou. Seja sincero consigo mesmo. Você é só mais um parasita que vive na corrente do oceano.


Roubaram 220 bilhões? Ora, se você estivesse com o seu emprego garantido e tivesse um aumento de salário, seja sincero, você ia se importar? Onde está sua honestidade quando você fura uma fila no banco ou estaciona numa vaga para deficientes? Você que nunca deseja pagar pelo valor de um serviço integralmente, que quando pode sempre chora um desconto, quando não gosta de comprar com nota ou simplesmente negligencia seu dever de cidadão, e se esconde no casulo: “são todos corruptos, vou votar no  menos pior”.


Você é pior que todos eles. Você é o criminoso que sequer teve o dever de reconhecer o seu crime. Sabe por que? Porque você se acovardou quando viu tudo era insustentável, você assistiu o seu jogo da Copa do Mundo enquanto bebia a sua cerveja no estádio sabendo que milhões foram jogado no ralo para um evento que ia durar apenas dois meses.


Bateu panela quando começou a faltar dinheiro? Sabe quantas pessoas agora não tem comida nessa panela hoje? 15 milhões! São apenas estatística? Quem é o tirano agora, você ou Iossif Stálin? Afinal, “a morte de uma pessoa é uma tragédia, a morte de milhões é apenas estatística”.

“Não tenho culpa, não votei no PT”. Deixe de ser idiota, pare de ser covarde e de se esconder atrás de frases prontas.  A culpa é sua. Você não saiu da sua casa quando viu o Michel Temer assumir a presidência. Você se iludiu com os jornais falando que a economia estava recuperando e que o dólar estava abaixando. Sabe o que aconteceu? Você foi apenas iludido.


Você consegue fechar o final do mês? Consegue comprar o que conseguia com cem reais no supermercado? Não. Com certeza não. E foda-se o PT ou a Dilma, ou caralho que seja. Você foi o idiota útil.

Provavelmente agora não sabe se continuará a ter emprego ou terá uma aposentadoria. Deixa eu te explicar uma coisa, a CLT não era perfeita, mas sabe férias, 13° salário e 40 horas semanais? Tudo isso era garantido pela porra daquela Consolidação das Leis do Trabalho. Podia ser modernizada, podia. Mas desse jeito? Você quer vender suas férias ou trabalhar 12 horas direto? Que idiota é você?

Você realmente acredita que você vai poder conversar com o seu patrão e falar: “Meu filho ficou doente, preciso tirar férias agora”. Já pensou que você pode ser simplesmente... Demitido?
E a aposentadoria? Bom, eles mentiram pra você. A previdência não está quebrando... De fato, está tendo superávit. Nem nos próximos dez anos ela estará.


O que está acontecendo que o seu governo (ou sindicato do crime) está retirando os recursos da sua previdência (e do seu FGTS) pra pagar os juros dos empréstimos da Copa do Mundo. Hahaha, seu idiota, como você não percebeu que estavam te roubando? Você trabalhou 35 anos da sua vida para vir um velho cadavérico e dizer que você não pode se aposentar senão tudo quebra?



Sabe que os presidentes têm aposentadoria integral enquanto você tem um limite de até três mil reais para  a sua aposentadoria? Bem vindo ao Brasil.


Custo-Brasil? Não seja tolo, o Brasil só tem custos altíssimos de produção porque sua indústria é obsoleta para a realidade do mercado internacional e o sistema de tributação é totalmente caótico. Não tem imposto unificado, cada município cobra o que quiser e Estado também.

Ah, as quinquilharias da China são baratas? Não sabia que você também era comunista pra gostar da China, mas deixa te falar uma coisa, lá não tem direitos trabalhistas.


3% é a popularidade desse governo. Você realmente quer continuar com isso, com esse governo impopular te cobrando impostos sem que você veja algum retorno? Você realmente acredita que vai melhorar? Ou você acredita no que os jornais dizem (jornalistas ou prostitutos intelectuais)? Economistas dirão mentiras porque apenas gráficos importam quando recebem a caixinha no final do mês.


Como está sua dívida do banco? Crescendo? O cheque especial estourou? Pois bem, o governo perdoou as dívidas dos bancos com o Tesouro! Hahahaha. Imagina só, você está pagando 465% no cheque especial ao ano e de repente toda a dívida que o seu banco tem de impostos foi perdoada. Sabe o que é isso? Um soco na sua cara. Seja sincero consigo mesmo, você está sendo feito de idiota.


Qual a maior indústria brasileira hoje? Automóveis? Não. Construção civil? Não. Agronegócio? Não.  BANCOS. Isso mesmo, eles movimentam mais de 55% do nosso PIB. Cobrando juros de você, fazendo absolutamente nada. Afinal, você sabe que eles pegam o dinheiro dos outros correntistas pra emprestar pra você, não sabia disso?


Isso porque são os bancos que financiam as campanhas eleitorais a cada quatro anos. Bradesco financiou a campanha da Dilma, Itaú financiou a da Marina Silva e os bancos internacionais financiaram o Aécio. Diga a verdade, você confia no seu banco se metendo com política?


Agora seja sincero. Não te revolta saber que estamos num total descaso público, com tudo indo de mal a pior? Não estou falando somente de hospitais com filas de pacientes morrendo nos corredores, ou escolas criando apenas idiotas úteis como você para o novo mercado de trabalho automatizado. Não, estou falando de termos todo um Congresso corrupto que achou legítimo tirar alguém eleito do cargo e colocar um reconhecido corrupto no lugar.


Estou falando dos bandidos de toga que fingem saber algo de direito constitucional, quando eles próprios vendem sentenças, seja quando é o escândalo do Eike Batista (com o juiz andando na Ferrari do Eike enquanto ele estava preso), até quem, digamos, o TSE salvando uma campanha eleitoral com notáveis evidências de CAIXA 2.


É só falar bonito que se consegue alguma coisa nesse país. Machado de Assis dizia isso em o Teorema do Medalhão. Você sustenta o judiciário mais caro e lento do mundo. Você sabia disso? É um teatro, ou um samba do criolo doido como preferir.
Todos já sabiam que Temer seria inocentado, e sabiam o placar: 4 a 3.

Então, seja você mesmo pelo menos uma vez. Seja egoísta! Pare de aceitar isso e vá pra rua!


Esqueça que existe um país, pense em si mesmo, você está sendo roubado todos os dias por esses bandidos e o que eles te dão em troca? Nada.



Deixe de pagar seus impostos, não vale a pena. Você só está alimentando essa máquina de sujeira que se tornou a União. E esqueça, Bolsonaro não é opção. Você é a melhor opção que você tem, mesmo sendo um idiota.  Acabe com essa merda antes que seja o fim de todo o seu próprio futuro.

PS: Se você espera que os militares te salvem com uma intervenção, então eu vou chamar a sua mãe para te bater com vara de bambu, sua criança mimada!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O mundo não é feito de rosas

           O mundo é feito de preconceitos. Feito de idiotas que acham serem úteis seus comentários carregados de preconceitos, seus olhares canibalizados de idiotas inúteis e que se acham inteligentes o suficiente para defenderem bandeiras fracassadas, tanto na direita quanto na esquerda. O mundo carregado de idiotice é uma coisa que independe de partidos políticos, crenças e mesmo de nacionalidade.

          Quando os sírios chegam à Europa pedindo um pedaço de comida e uma roupa de frio, são os húngaros que fecham as portas. São os gregos que deixam as crianças morrerem na praia e são os ingleses e franceses a primeiro torcerem o nariz à humanidade. Os mesmo ingleses e franceses que por anos dominaram a região como se fosse um parque de diversões.

          Hoje esses idiotas acham ter o direito de advogar uma identidade nacional num mundo globalizado como forma relevante de união nacional, quando na verdade, tudo o que eles fazem é baseado no ódio dos demais.


         Foi assim que os americanos elegeram Trump, no alto da sua estupidez, elegeram um representante do backside novaiorquino, investidor multimilionário que defende o setor empresarial, sonegador confesso de centenas de milhares de dólares em impostos, para fazer a "America great again". Como se fosse possível voltar à década de 50. Foram os racistas e xenofobicos do Sul, foram os trabalhadores desiludidos do cinturão da sucata do nordeste americano e os pais de família de classe média que elegeram o Trump.


       Não, não defendo a Clinton... Pelo contrário, ela representava apenas a continuidade causticante de um governo morno Obama, e seria apenas um estilo de governar de continuidade dos lobistas de Washington.


      Mas o mundo respirou fundo quando descobriu sua estupidez.


      Essas mesmas pessoas estúpidas acham que as redes sociais as tornaram mais inteligentes, que postar a sua vida pessoal no Snapchat ou no Twitter as fizeram mais amadas e que o Facebook se tornou um oráculo de discussões. Meus pensamentos são centrados em uma base muito simples, se você reproduz um conhecimento sem dissecá-lo, você é apenas um papagaio.

      De toda forma, o mundo não é feito de rosas. O mundo é feito de preconceitos, feitos de preconceitos entre os próprios irmãos de uma mesma comunidade, feito do ódio entre gêneros e nações. O ódio ao diferente e na aceitação do novo.

      Sobretudo agora, eu sei que o mundo que me prometeram desapareceu e apenas uma triste lembrança é o que sustenta a convicção de que tudo vai melhorar. No final, o mundo é um grande Black Mirror.

A plutocracia brasileira

      A plutocracia dominou por completo as esperanças de um futuro melhor após essa  época de adversidades, o golpe parlamentar orquestrado pelo Congresso Nacional convenceu a todos nós que a camarilha de políticos liderados pelo PMDB apenas deseja apropriar-se do Estado para seus fins mercantis-financeiros.

     O Estado foi vendido de propósito depois de uma série de irresponsabilidades e assassinatos legais contra a ordem institucional. Renego completamente a presença de um poder judiciário, considerando agora que a justiça é parcial e cega quando conveniente. O Supremo Tribunal esconde bandidos de toga, o Congresso Nacional, bandidos de terno e Temer representa o mundo carcomido do passado. É um governo sem governabilidade, um balcão de negócios de centenas de bandidos que ganham fortunas enquanto cortam a aposentadoria do trabalhador brasileiro.

      Congelaram as despesas do país ao mesmo tempo que aumentaram seus próprios salários, condenaram o futuro de milhares de jovens, homens e mulheres, aos interesses dessa geração envelhecida de ladrões. Hoje eu não tenho mais esperanças em qualquer fim democrático num sistema falido e corrupto, onde as instituições representam uma grande fazenda da qual nós somos a senzala. O Brasil não é um país do futuro, é um país que foi feito no presente. A questão é: Aceitaremos que roubem ainda mais dos nossos sonhos ou lutaremos contra isso?


      Meu desencantamento com o marxismo-leninismo passou no momento que eu vi que a última pessoa viva da Guerra Fria morreu, matando por final o século XX. A morte de Fidel Castro me foi didática de como as pessoas podem ser ao mesmo tempo controversas e amadas ao mesmo tempo. De toda forma, é mais legítimo um poder instituído pelas armas nos ideais revolucionários de justiça social do que um estado apropriado por uma corja de bandidos.

     Hoje me reafirmo como  socialista, e mais do que socialista, hoje renovo meu compromisso de lutar por uma sociedade justa e igualitária. Mesmo que seja somente eu a tomar essa bandeira, o meu grau de indignação não me permite que os algozes de nossa juventude sejam felizes em seu roubo perpétuo de nossas esperanças. Quem rouba merenda de crianças, a insulina dos hospitais merece realmente ser extirpado completamente da nossa sociedade.



    O Estado é o maior vilão porque ele não pensa e raciocina, ele apenas toma e serve aos interesses de grupos e agentes econômicos bastante definidos. Estou mais do que convencido de que a democracia é o câncer que instituiu a vontade de poucos sobre a maioria. Socialista ou não, escolha conscientemente, e esse país que queremos?


     FIM AO MICHEL TEMER! FIM AO GOVERNO ILEGÍTIMO DOS ASSASSINOS DE CRIANÇAS! ELEIÇÕES DIRETAS OU NADA! O Estado Brasileiro morreu no momento que as maldades começaram a massacrar o seu próprio povo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Uma estrada

       Sempre que ficar perdido, pegue a estrada. Jogue-se para longe e conheça um lugar distante, com sei lá, o Goiás. No Goiás que encontrei meu amor escondido sobre as árvores retorcidas do Cerrado, comi galinha caipira e senti o gosto do arroz com pequi.


      Estive em suas águas cristalinas, visitei seus bosques e deixei tudo para o alto quando estourei um cartão de crédito de brincadeira. Bebi cerveja quente, ouvi música ruim e amei intensamente todos os dias. Foi no Goiás que me perdi de novo


      Andei a 160 km numa BR, matutei, briguei, comi tilápia frita a despeito de odiar peixe e fui inconsequente... Até porque não valia a pena ser aristocrático com a pompa artificial de um bom brasiliense. E vivi até quando não pude, explorei o Itiquira, banhei-me em suas águas, e vi a cachoeira.


Encontrei o meu amor nesse caminho perdido e desejei estar perdido até onde pudesse. Mas não, não pude, pois a vida real sempre nos prende para longe da fantasia. E a fantasia é desejar partir de novo para onde não deveria ser encontrado. Te odeio Brasília, com seus pilotis de concreto, com suas pessoas toscas e mesquinhas, suas tesourinhas que cortam pessoas, seus eixos sem nexo e seus apartamentos minúsculos e sem graça.

Odeio você, tal como odeio os seus políticos, os seus funcionários públicos com os seus carros importados de prestações para serem pagas daqui vinte gerações, seus garotos de academia que fumam maconha no Pontão e prostituem meninas de cabeça vazia. Odeio você tal como odeio seus velhos necrófilos que roubam a juventude dos poucos que querem viver, dos seus concurseiros aos seus policiais ignorantes e de seus universitários que se enojam com mesquinharias.

Odeio pensar que toda essa gente que morreu construindo uma cidade no meio do nada teve a coragem de desistir e se acomodar numa cidade tão frívola e tão interiorana que não merecia ser chamada de capital. Odeio por completo seus jornalistas, prostitutos intelectuais, seus mestres e doutores de diplomas.


Odeio seu pastel queimado da Rodoviária feito com óleo diesel, os seus bares caros sem graça, seus pontos turísticos de concreto e a arquitetura mal-feita de Niemeyer. Odeio ademais pensar que nasci nesse inferno que faz o deserto de agosto quando não tem um pingo de água, quando temos um governador de merda que rouba cada vez mais a esperança de nossos sonhos e dos sensacionalistas que iludem os pobres coitados nas igrejas da periferia.

Odeio os que se fazem de coitados pedindo dinheiro na Rodoviária, odeio os pobres coitados que pedem garrafas de vinho nos restaurantes ou os ignorantes advogados que se acham senhores da razão quando são primeiros a corromper a constituição.


Pois que digam o que digam, odeio essa prisão chamada Planalto Central. E odeio nunca estar com forças para fugir disso, pois a chave da minha sela se perdeu no riacho do Itiquira.

Soneto às duas da tarde


O motor de um motor V8 tintila enquanto seus quatro cilindros debatem-se numa mecânica precisa de quatro tempos. A combustão da gasolina iniciada em cadeia pela vela conduz força que é transmitida pela diferencial de forma harmônica sobre as rodas através de um preciso sistema de distribuição.


A ventoinha ventila com a água do radiador todo o sistema em movimento enquanto o seu condutor aperta o acelerador ou pisa eufórico na embreagem, o câmbio e a caixa de marcha trabalham incansavelmente enquanto a bateria faz girar todo o sistema de som do automóvel e o sistema de ar condicionado acaba gotejando na pista um pouco de água, deixando um rasto surdo na pista.


O óleo do cárter deveria ser trocado depois de quase 15 000 quilometros rodados, mas pelo contrário, o dono sequer se importa com meros detalhes, e fura os sinais vermelhos para levar a pequena criança para a escola a tempo. Negligente, fala às vezes no celular, às vezes arruma o vidro e brinca com a criança. Detalhes...

O trânsito é lento, a criança se atrasa. Mesmo assim, esfria a cabeça, a menina o abraça e diz que o ama: "Entregue isso para ela"

Ela entrega um desenho e um anel. Sim, nada mais do que isso.  Mesmo estressado, ele se ajoelha diante daquela criatura e diz: "Isso é seu. Não devia fazer isso"

"Eu quero, entregue para ela. Ela te ama"


Ele a abraça e a beija na bochecha. A criança era mais sábia do que ele que tinha o triplo de sua idade. "Obrigado, você é a minha filhinha. Obrigado por tudo".

Às vezes os adultos sabem como funcionam mecanismos complicados como injeção eletrônica ou funcionamento de um motor de combustão, mas apenas as crianças têm a sensibilidade de nos lembrar que ainda devemos amar esse mundo.  As crianças são mais sábias que seus próprios pais.

Caixinha de música



Toda vez antes de dormir, ela sentava-se junto à cama, beijava a fumaça do cigarro e tirava o sutiã que a apertava. Ela olhava com olhos cansados para o vazio numa vista frívola de um apartamento no terceiro andar de um hotel. A mobília do seu quarto era antiga, de mogno pesado, sem muita graça e com um ar condicionado que fazia um tremendo barulho.

Uma orquídea cor-de-rosa namorava de maneira psicodélica uma garrafa de vinho francês pela metade. O computador carregava pela metade, ela se deitava na cama de lençóis brancos, finos como a seda, olhava para o teto com a lâmpada pendente e chorava.

Chorava porque dizia-se ser mais forte do que os outros e sempre se lembrava de ser melhor que os outros. Ela ignorava as várias ofensas que o mundo lhe impunha. Ela regojitava sua raiva ouvindo música e postando textos longos no Facebook, vez em quando ia num bar e se embriagava até não poder mais. Festas e mais festas, fumava sempre um cigarro para passar o tempo, até o que o empo passava mais rápido na intensidade de um soco.

Vez em quando dormia sem comer, vez em quando desistia de chorar, vez em quando guardava suas mágoas num cofre bem profundo. Não tinha mais o apoio da mãe, e o pai nunca foi grande coisa, amava a irmã e às vezes duvidava de si mesma.

Ela sofria calada, bebia sem se enganar e tentava deixar tudo o que sentia de lado. Sonhava morar na Toscana, sonhava viver e se apaixonar. Mas mais do que isso, sonhava em ser respeitada. Vez por outro ignorava um insulto ali ou aqui, vez por outra achava que tinha parcela de culpa. Mas não ignorava o fato como o grito surdo de um mundo cheio de barreiras fazia seu coração tremelicar.

Toda noite tinha medo de ser morta ou apedrejada como os israelitas faziam com os infiéis. Todo dia saía na rua e se tornava centro das atenções, não apenas por ser bonita com o seu cabelo louro de leão, mas porque um mundo feito de bonecos de plástico não aceitava pessoas de carne e osso.

Padrões de beleza e estética a moldavam, a torciam e a maltratavam, até que por fim, tudo o que tinha era uma garrafa de vinho barato e uma caixinha de música. Poderia ela ser uma bailarina, um violinista, física ou psicóloga, mas a vida não lhe resolveu essa sorte. Pelo contrário, vivia confinada naquele apartamento minúsculo sem qualquer expressão ou qualquer quadro que se destacasse e quanto menos tinha sossego, maior era a sua aflição.

Ela se sentia só, sentia seus ossos cansados, seu corpo cadente de carinho e um sorriso fraco no rosto, enganava-se muitas vezes. Perdia por vezes a vontade de ser feliz, até que num desses dias perdeu a chama de um cigarro.

Foi quando como um cometa que caía sobre a noite, cadente e pulsante ela encontrou-se no arrebatamento do que poderia ser chamado o amor. O que pode ser uma surpresa para uma menina com 24 anos corridos, mas às vezes tudo o que desejamos só acontece quando menos esperamos. Irritado, o coração se lacera e corrói o seu estomago, o seu fôlego se esvai.

Exasperada, ela corre de medo ao encontro do seu destino e decide viver só mais um pouco. O namorado era um zero a esquerda, com saldo negativo no banco, um carro mequetrefe, falava engraçado e não tinha qualquer tipo de expressão. Ela ainda assim o amou até onde pode, mesmo ele sendo um retardado que a machucava por completo. Por vezes eles discutiam, eles se machucavam e normalmente era culpa dele mesmo. Ela tinha paciência.

Paciência de tal forma que em todos os deslizes ela tinha decidido perdoar. Fosse porque tivesse algum afeto por ele, ou algum afeto por si; de toda forma, ela olhava para o celular, perdia tempo no Facebook e esperava ter um futuro.

Esse mundo não foi feito para sonhos, ela se lembrava disso; E por fim, numa das suas autosabotagens, seu namorado saiu com suas coisas: levou a orquídea consigo e um pouco do amor próprio. Ela ficou na varanda fumando em silêncio, não sei se chorou ou se ficou no marasmo da solidão.

Apenas foi para a cama e dormiu. Cigarro na boca e a caixinha de música com uma bailarina dançando no eixo da corda ao sol de Lago dos Cisnes. Ela ficou quieta e sonhou, teve pesadelos, sofreu com seu pai alcoólatra, com a sua mãe dependente de um casamento fracassado, de sua irmã que não via há um ano. E sofreu por não estar mais perto, e sorriu justamente por estar a frente.


O cigarro apagou, algo tinha se apagado também. Era a luz ou a chama que conduz tudo o que somos? Não sei o que dizer, só sei que eu sou o namorado canalha e ela é um anjo dentre nós reles mortais.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Perdi

Perdi a caneta
Uma pequena caneta
E com ela perdi o meu respeito
Por tudo que a despeito
Perdi sem muito jeito
O afeto que tinha por você


Perdi o confeito
Perdi o seu beijo
Perdi a chance
De ter ficado no convento


Devia ter ficado calado
Não devia ter apaixonado
Devia por namorado
Mas tudo isso é passado

Perdi o amor
Perdi a dor
Perdi a rima
Perdi e perdi


Perdi você
Perdi de novo você
Perdi a chance
De ter dito
Que te amava

Perdi o calor de seus olhos
Perdi o sabor de sua boca
Perdi o odor de sua nuca
Te perdi numa piscada
E logo perdi a esperança

Te perdi
Não quero te encontrar
Te perdi
E hoje vendi o que sentia
Para um mascate por metade de um terno
E meia fatia de queijo bolorento
Meu amor não vale mais do que o vento
E o meu poema não tem traço violento


Adeus... E adeus, Perdi a perca e a apaixonei a perdição.
Adeus, adeus, coração.

sábado, 7 de maio de 2016

Tique

          Acordei pontualmente às 7h32 da manhã de quarta. Engraxei os meus sapatos com a graxa Nugget, cor madeira. Passei o brilho e arrumei o cadarço do meu sapato de couro. Arrumei minha cama, fui ao banheiro escovar os meus dentes e tomei banho. Me arrumei e tomei café, estava perfumado e pronto para o mundo. 

          Saí e fui trabalhar, peguei um engarrafamento, cheguei atrasado. Pouco importa, fiz o que deveria ser feito, visitei os clientes e passei o dia todo conversando sem entusiasmo, mas ainda distribuindo sorrisos falsos. O sorriso é a máscara de um sofredor.  Meio-dia, almocei sozinho como de costume e escolho sushi... Odeio peixe, mas aprendi a gostar de sushi, quando pego o hashi, meu telefone toca. Quem poderia ser?

        Ninguém, era ninguém. A operadora de telefone me incomodando de novo. 12h12, você estava online. Desligo o telefone de raiva. Vou comer ainda mais mal-humorado do que de costume,  você ria quando eu ficava sem humor. Devia ser realmente engraçado.

       Decido que não vou pensar em mais nada e a tarde deve ser minha. Vou a biblioteca e leio um livro, o Medo à Liberdade, e me sinto feliz com as primeiras páginas, o telefone toca. Não é você... 16h16, vou para fora e converso com outra pessoa, quando percebo marco de sair. Ótimo. Melhor assim.


       Volto para casa, tomo um banho e saio. Tique. São 19h19, estou atrasado. Corro imediatamente as escadas e esqueço o perfume, subo novamente. Escovo os dentes apressados e ajeito meu cabelo bagunçado. Pressa, é um encontro.

       Aviso pelo Whatsapp que vou atrasar e pelo Waze procuro uma rota. Rápido, coloco na rádio Verde-Oliva, toca a Voz do Brasil. Inferno! Coloco um jazz para tocar, melhor assim, Miles Davis para animar.


        Corri e cheguei tarde, 20 horas. A pessoa com que marquei estava estressada, lia o Facebook e não deu a mínima importância. Comemos juntos um prato árabe, um falafel que não era falafel e uma esfirra que não era esfirra. Comida horrível! Não sei como as pessoas gostam disso. Conversamos e ela ficou animada, queria ir ao cinema e fomos assistir Sicário. 

        Sessão cheia, sem graça e motivação. Sicário é um excelente filme, mas a companhia não. Saio sem qualquer entusiasmo, mas me ofereço a levá-la em casa... Ela me beija e tique... 23h23.


         Taque. Quando chegamos em sua casa, ela me convida para subir em sua casa; Um apartamento apertado numa parte do centro, ficamos juntos mas ela não sai do whatsapp. Burocraticamente nos beijamos, mas ela estava sem saliva na boca. Ela se despe sem cerimônia e meio sem entusiasmo, se deita na cama de costas, me dispo calmamente e tiro meus sapatos engraxados.

        Dou-lhe uma massagem, beijo seu corpo, mordo seus ombros. Como você me ensinou, ela finge gemer, o celular continua na cama. Fito aquele aparelho com vergonha. Roço meu corpo com o dela, beijo-a de lado, ela continua parada. Seus olhos estão distantes, parece cansada. Beijos e beijos sem entusiasmo.

       Fizemos amor burocrático, daqueles que os casados costumam fazer, o celular continua a tocar Selena Gomes quando terminamos. Um sexo sem ser sexo, que não satisfez nenhum dos dois. Foi então que me ofereço a sair da casa, totalmente desconfortável.

         "Acho que seria melhor". Ela responde "Você que sabe"

        Constrangido, fecho meus olhos enquanto abotoo as minhas calças. Foi ali que pensei em você, o que estava fazendo ali. Coloco os meus sapatos, abotoo minha camisa, ela continua no Facebook.


        Me viro e fico pálido. O que foi aquilo? 

        Me levanto, ela se veste sem entusiasmo e me leva para a cozinha.

       "Não quer tomar banho?"

       "Não, vou pra casa. Me desculpe"


        00h00. Tique taque, minha cabeça bate como as teclas dessa máquina de escrever.

       

Insônia

       Não quero mais escrever sobre você, mas a minha memória insiste em te pintar sorrindo quando estou de olhos fechados. Acordo suado, abro a janela e penso em acender um cigarro, mas como parei com o fumo, olho para o lado e vejo o poste luz apagado;

      Não existem estrelas no céu, e ainda meio agoniado, puxo uma camiseta amarrotada do cesto de roupa suja, saio de casa para não te ver. Vou ao  Subway e só consigo pensar em você. Senti sua falta às 02h20 da madrugada e foi quando pensei em desistir de tudo. Comia um sanduíche de peito de peru e bebia um refrigerante quente. Estava sem sono.

      Peguei o meu carro e andei pela cidade, estava procurando por você; Você já tinha partido, meus olhos estavam alertas. Estava escuro e enxergava melhor que durante o dia. Pensei que havia desistido de te amar, mas meu coração agoniado, agora batia fraco. Sem querer, desviei o volante e subi no meio-fio, quando dei por mim quase acerto o poste.

      Não havia ninguém, felizmente, ainda assim, eu senti sua falta para julgar o meu erro. Antes ontem do que hoje, quero te esquecer mas não te encontro para me dizer aquelas infelicidades que me disse pelo Whatsapp. Você me deixou sem sonhos e hoje tenho que sepultar aquela pessoa que costumava ser.

     Que ódio de mim mesmo por ainda pensar por você, 03h03 da madrugada, o celular acaba a bateria. Você estava numa balada de sábado enquanto eu de pijamas chorava num estacionamento vazio perto do lago.

     Você provavelmente já saía com outro homem que iria dormir na sua cama, aquela cama que fizemos amor tantas vezes e onde eu disse que te amava. Satisfeita, você me mandou embora. Sangue frio.

      Dormi naquela noite no mesmo lugar que foi o nosso primeiro encontro como namorados. Aquele shopping, dormi no estacionamento olhando para o lado, dormi inquieto, passando frio e olhando para o nada. Desisti de você, você me deixou sozinho para desbravar esse mundo, saindo com outros homens e se machucando sem se conhecer.

       Hoje você está numa praia do Rio de Janeiro, aproveitando o sol e nadando de biquíni, sem se lembrar o quanto que eu gostava de você. Foram as piores semanas que eu já tive, as semanas que reaprendi a gostar de mim mesmo quando você partiu,  dando desculpas prontas e  dizendo que não me desejava. Seja franca, se eu  fosse rico tudo seria diferente. Você não se aventuraria por aí, não massacraria meu coração e não fingiria não gostar de mim, mas eu não sou.

      Quando cheguei em casa, a enxaqueca me toma, me barbeio e vou dormir.  Para que? Por quê? Minha cabeça  gira, acordo chorando ainda pior do que quando dormi. Foi tolice imaginar que seria especial, mais tolice ainda foi ter acreditado que você me amava.

      São 10h10 quando recebo  visitas sem entusiasmo e saio de casa de novo,  vou à padaria comprar pães e saio sem um único trocado. A cabeça fica baixa, um cachorro desvia de mim, o  ônibus passa por mim puxando todo o vento e sol aparece forte. Meu estado é deplorável.

     Tomo café, o pão amanhecido com manteiga  não desce. As visitas são intragáveis e acabo indo tomar banho... Nós tomamos banho  juntos, você se lembra? Olha a  minha vergonha não encontrar você me entregando a toalha. Pedi para te esquecer de novo e me arrumei.


      Saí no domingo e fui correr o kart, esse era o  meu único presente  de aniversário. Uma corrida em L com um kart de 40cvs, o que seria de nós  se tudo fosse diferente?

      Cheguei em sétimo, na última curva bati o carro.  Fui desclassificado.


      Amanhã seria segunda-feira, e por sinal, meu aniversário. Será  que você lembraria ao menos disso? Provavelmente não, deixei o capacete e fui com a bataclava até o meu carro. Você gostava de correr na chuva  igual o Senna e dirigia melhor do  que eu.  Liguei o rádio, era nossa música.


      Fui para casa sem falar uma só  palavra...  E assim fiquei. Hoje esqueça que eu existi, não fomos mais do  que estranhos. Eu te amo, mas não gosto mais de  você.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Fotografia

      Fotografia é a escrita feita diante da luz, é o traço compilado no feixe de uma câmara escuro que registra uma fração da realidade. A máquina de fotografia não é isenta de falhas ou de erros no obturador, assim como o seu ator não deixa de ser um artista. Todos representamos quando pousamos numa fotografia, seja tentando parecer mais belos ou mais imponentes. A fotografia é a marca de um artificialismo realista, que nos engana ao pensar ser concreto, mas quando na realidade é subjetivo.


    O registro de imagem é um elemento de sobreposição da realidade que passa do passado para a prosperidade como registro da própria história falada. Sem querer caímos no erro do realismo, e acreditamos que o que está registrado numa foto é realmente a comprovação da realidade. Aí que entra a montagem e enquadramento, dois elementos que podem ser feitos de maneira inocente ou não. Quando não é feito de maneira inocente é para reforçar ideologias ou ideias, na pseudocientificidade desta arte.

     Me admira o ofício do fotógrafo tanto quanto o do pintor ou do cineasta... Eles criam realidades a  partir do que observam empiricamente como o mundo. Uma alma delicada e uma percepção resoluta, concisa, torna a fotografia um ofício excepcional. Seja a fotografia que guardamos de nossos avós, seja a fotografia da timeline do Facebook ou de um antigo amor. O ofício da fotografia é também o ofício da recordação, recordar para viver. Por isso temos sempre que nos autoafirmar em fotografias.

    Em todo caso, somos infelizes os que amam a fotografia mas ela não nos aprecia na forma desejada. Ela é uma capa, um espelho e uma máscara. Ela nunca realmente compreende o ofício de nossas emoções, dos nossos pensamentos e dos nossos traços, ela apenas quer ressaltar uma forma sem conteúdo tornada hegemônica: Ver para crer, a episteme da autópsia.

      Como um médico ou um detetive procuram detalhes nos fatos, e nos indícios, quem analisa uma fotografia procura noções cognitivas de tentar compreender que aquilo é um fato concreto. Um paradigma do passado, seja uma fotografia de 1872 da Guerra do Paraguai, seja uma fotografia de criança na festa de 4 anos de idade, ou uma fotografia chamuscada e em preto e branco de uma pessoa desconhecida. Tentamos observar os fatos nos detalhes.

       Pessoalmente eu sou cético com a fotografia e apaixonado pela montagem, por isso que sinto o cinema como uma arte mais honesta que a fotografia.  O cinema tem proposta de entreter e divertir, mas também tem a proposta de ser uma arte, apesar de sua cientificidade e teoria (tão decomposta por Griffith  e Eisenstein), ela não se sujeita a tentar mostrar a realidade como ela é, mas como a realidade poderia ser.

       Apesar dessas considerações, o meio termo entre ciência e arte se encontra de forma ímpar na fotografia, assim como na arquitetura e na música:

      Essas três artes exploram de formas diferentes os campos das ciências aplicadas e da matemática, seja o ângulo de refração de uma lente que refrata uma luz, seja o cálculo de um seno utilizado para fazer uma abobada de Igreja ou uma equação matemática complicada sobre as ondas friccionadas da corda de um violão. 

     A ciência e a arte devem se unir sem se deformarem, a isso acredito que está a maior função do saber humano, congregar as forças do universo de forma pessoal e sutil para que as suas emoções não devam ser suprimidas pela realidade dos números. Por isso, fotografia deve ser respeitada como uma arte científica e uma ciência artística, na mesma proporção, feita com afeto e amor como tudo na vida deve ser feito.

    

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...