Sempre que ficar perdido, pegue a estrada. Jogue-se para longe e conheça um lugar distante, com sei lá, o Goiás. No Goiás que encontrei meu amor escondido sobre as árvores retorcidas do Cerrado, comi galinha caipira e senti o gosto do arroz com pequi.
Estive em suas águas cristalinas, visitei seus bosques e deixei tudo para o alto quando estourei um cartão de crédito de brincadeira. Bebi cerveja quente, ouvi música ruim e amei intensamente todos os dias. Foi no Goiás que me perdi de novo
Andei a 160 km numa BR, matutei, briguei, comi tilápia frita a despeito de odiar peixe e fui inconsequente... Até porque não valia a pena ser aristocrático com a pompa artificial de um bom brasiliense. E vivi até quando não pude, explorei o Itiquira, banhei-me em suas águas, e vi a cachoeira.
Encontrei o meu amor nesse caminho perdido e desejei estar perdido até onde pudesse. Mas não, não pude, pois a vida real sempre nos prende para longe da fantasia. E a fantasia é desejar partir de novo para onde não deveria ser encontrado. Te odeio Brasília, com seus pilotis de concreto, com suas pessoas toscas e mesquinhas, suas tesourinhas que cortam pessoas, seus eixos sem nexo e seus apartamentos minúsculos e sem graça.
Odeio você, tal como odeio os seus políticos, os seus funcionários públicos com os seus carros importados de prestações para serem pagas daqui vinte gerações, seus garotos de academia que fumam maconha no Pontão e prostituem meninas de cabeça vazia. Odeio você tal como odeio seus velhos necrófilos que roubam a juventude dos poucos que querem viver, dos seus concurseiros aos seus policiais ignorantes e de seus universitários que se enojam com mesquinharias.
Odeio pensar que toda essa gente que morreu construindo uma cidade no meio do nada teve a coragem de desistir e se acomodar numa cidade tão frívola e tão interiorana que não merecia ser chamada de capital. Odeio por completo seus jornalistas, prostitutos intelectuais, seus mestres e doutores de diplomas.
Odeio seu pastel queimado da Rodoviária feito com óleo diesel, os seus bares caros sem graça, seus pontos turísticos de concreto e a arquitetura mal-feita de Niemeyer. Odeio ademais pensar que nasci nesse inferno que faz o deserto de agosto quando não tem um pingo de água, quando temos um governador de merda que rouba cada vez mais a esperança de nossos sonhos e dos sensacionalistas que iludem os pobres coitados nas igrejas da periferia.
Odeio os que se fazem de coitados pedindo dinheiro na Rodoviária, odeio os pobres coitados que pedem garrafas de vinho nos restaurantes ou os ignorantes advogados que se acham senhores da razão quando são primeiros a corromper a constituição.
Pois que digam o que digam, odeio essa prisão chamada Planalto Central. E odeio nunca estar com forças para fugir disso, pois a chave da minha sela se perdeu no riacho do Itiquira.
quinta-feira, 3 de novembro de 2016
Soneto às duas da tarde
O motor de um motor V8 tintila enquanto seus quatro cilindros debatem-se numa mecânica precisa de quatro tempos. A combustão da gasolina iniciada em cadeia pela vela conduz força que é transmitida pela diferencial de forma harmônica sobre as rodas através de um preciso sistema de distribuição.
A ventoinha ventila com a água do radiador todo o sistema em movimento enquanto o seu condutor aperta o acelerador ou pisa eufórico na embreagem, o câmbio e a caixa de marcha trabalham incansavelmente enquanto a bateria faz girar todo o sistema de som do automóvel e o sistema de ar condicionado acaba gotejando na pista um pouco de água, deixando um rasto surdo na pista.
O óleo do cárter deveria ser trocado depois de quase 15 000 quilometros rodados, mas pelo contrário, o dono sequer se importa com meros detalhes, e fura os sinais vermelhos para levar a pequena criança para a escola a tempo. Negligente, fala às vezes no celular, às vezes arruma o vidro e brinca com a criança. Detalhes...
O trânsito é lento, a criança se atrasa. Mesmo assim, esfria a cabeça, a menina o abraça e diz que o ama: "Entregue isso para ela"
Ela entrega um desenho e um anel. Sim, nada mais do que isso. Mesmo estressado, ele se ajoelha diante daquela criatura e diz: "Isso é seu. Não devia fazer isso"
"Eu quero, entregue para ela. Ela te ama"
Ele a abraça e a beija na bochecha. A criança era mais sábia do que ele que tinha o triplo de sua idade. "Obrigado, você é a minha filhinha. Obrigado por tudo".
Às vezes os adultos sabem como funcionam mecanismos complicados como injeção eletrônica ou funcionamento de um motor de combustão, mas apenas as crianças têm a sensibilidade de nos lembrar que ainda devemos amar esse mundo. As crianças são mais sábias que seus próprios pais.
Caixinha de música
Toda vez antes de dormir,
ela sentava-se junto à cama, beijava a fumaça do cigarro e tirava o sutiã que a
apertava. Ela olhava com olhos cansados para o vazio numa vista frívola de um
apartamento no terceiro andar de um hotel. A mobília do seu quarto era antiga,
de mogno pesado, sem muita graça e com um ar condicionado que fazia um tremendo
barulho.
Uma orquídea cor-de-rosa
namorava de maneira psicodélica uma garrafa de vinho francês pela metade. O
computador carregava pela metade, ela se deitava na cama de lençóis brancos,
finos como a seda, olhava para o teto com a lâmpada pendente e chorava.
Chorava porque dizia-se
ser mais forte do que os outros e sempre se lembrava de ser melhor que os
outros. Ela ignorava as várias ofensas que o mundo lhe impunha. Ela regojitava
sua raiva ouvindo música e postando textos longos no Facebook, vez em quando ia
num bar e se embriagava até não poder mais. Festas e mais festas, fumava sempre
um cigarro para passar o tempo, até o que o empo passava mais rápido na
intensidade de um soco.
Vez em quando dormia sem
comer, vez em quando desistia de chorar, vez em quando guardava suas mágoas num
cofre bem profundo. Não tinha mais o apoio da mãe, e o pai nunca foi grande
coisa, amava a irmã e às vezes duvidava de si mesma.
Ela sofria calada, bebia
sem se enganar e tentava deixar tudo o que sentia de lado. Sonhava morar na
Toscana, sonhava viver e se apaixonar. Mas mais do que isso, sonhava em ser
respeitada. Vez por outro ignorava um insulto ali ou aqui, vez por outra achava
que tinha parcela de culpa. Mas não ignorava o fato como o grito surdo de um
mundo cheio de barreiras fazia seu coração tremelicar.
Toda noite tinha medo de
ser morta ou apedrejada como os israelitas faziam com os infiéis. Todo dia saía
na rua e se tornava centro das atenções, não apenas por ser bonita com o seu
cabelo louro de leão, mas porque um mundo feito de bonecos de plástico não
aceitava pessoas de carne e osso.
Padrões de beleza e
estética a moldavam, a torciam e a maltratavam, até que por fim, tudo o que
tinha era uma garrafa de vinho barato e uma caixinha de música. Poderia ela ser
uma bailarina, um violinista, física ou psicóloga, mas a vida não lhe resolveu
essa sorte. Pelo contrário, vivia confinada naquele apartamento minúsculo sem
qualquer expressão ou qualquer quadro que se destacasse e quanto menos tinha
sossego, maior era a sua aflição.
Ela se sentia só, sentia
seus ossos cansados, seu corpo cadente de carinho e um sorriso fraco no rosto,
enganava-se muitas vezes. Perdia por vezes a vontade de ser feliz, até que num
desses dias perdeu a chama de um cigarro.
Foi quando como um cometa
que caía sobre a noite, cadente e pulsante ela encontrou-se no arrebatamento do
que poderia ser chamado o amor. O que pode ser uma surpresa para uma menina com
24 anos corridos, mas às vezes tudo o que desejamos só acontece quando menos
esperamos. Irritado, o coração se lacera e corrói o seu estomago, o seu fôlego
se esvai.
Exasperada, ela corre de
medo ao encontro do seu destino e decide viver só mais um pouco. O namorado era
um zero a esquerda, com saldo negativo no banco, um carro mequetrefe, falava
engraçado e não tinha qualquer tipo de expressão. Ela ainda assim o amou até
onde pode, mesmo ele sendo um retardado que a machucava por completo. Por vezes
eles discutiam, eles se machucavam e normalmente era culpa dele mesmo. Ela
tinha paciência.
Paciência de tal forma
que em todos os deslizes ela tinha decidido perdoar. Fosse porque tivesse algum
afeto por ele, ou algum afeto por si; de toda forma, ela olhava para o celular,
perdia tempo no Facebook e esperava ter um futuro.
Esse mundo não foi feito
para sonhos, ela se lembrava disso; E por fim, numa das suas autosabotagens,
seu namorado saiu com suas coisas: levou a orquídea consigo e um pouco do amor
próprio. Ela ficou na varanda fumando em silêncio, não sei se chorou ou se
ficou no marasmo da solidão.
Apenas foi para a cama e
dormiu. Cigarro na boca e a caixinha de música com uma bailarina dançando no
eixo da corda ao sol de Lago dos Cisnes. Ela ficou quieta e sonhou, teve
pesadelos, sofreu com seu pai alcoólatra, com a sua mãe dependente de um
casamento fracassado, de sua irmã que não via há um ano. E sofreu por não estar
mais perto, e sorriu justamente por estar a frente.
O cigarro apagou, algo
tinha se apagado também. Era a luz ou a chama que conduz tudo o que somos? Não
sei o que dizer, só sei que eu sou o namorado canalha e ela é um anjo dentre
nós reles mortais.
quarta-feira, 11 de maio de 2016
Perdi
Perdi a caneta
Uma pequena caneta
E com ela perdi o meu respeito
Por tudo que a despeito
Perdi sem muito jeito
O afeto que tinha por você
Perdi o confeito
Perdi o seu beijo
Perdi a chance
De ter ficado no convento
Devia ter ficado calado
Não devia ter apaixonado
Devia por namorado
Mas tudo isso é passado
Perdi o amor
Perdi a dor
Perdi a rima
Perdi e perdi
Perdi você
Perdi de novo você
Perdi a chance
De ter dito
Que te amava
Perdi o calor de seus olhos
Perdi o sabor de sua boca
Perdi o odor de sua nuca
Te perdi numa piscada
E logo perdi a esperança
Te perdi
Não quero te encontrar
Te perdi
E hoje vendi o que sentia
Para um mascate por metade de um terno
E meia fatia de queijo bolorento
Meu amor não vale mais do que o vento
E o meu poema não tem traço violento
Adeus... E adeus, Perdi a perca e a apaixonei a perdição.
Adeus, adeus, coração.
Uma pequena caneta
E com ela perdi o meu respeito
Por tudo que a despeito
Perdi sem muito jeito
O afeto que tinha por você
Perdi o confeito
Perdi o seu beijo
Perdi a chance
De ter ficado no convento
Devia ter ficado calado
Não devia ter apaixonado
Devia por namorado
Mas tudo isso é passado
Perdi o amor
Perdi a dor
Perdi a rima
Perdi e perdi
Perdi você
Perdi de novo você
Perdi a chance
De ter dito
Que te amava
Perdi o calor de seus olhos
Perdi o sabor de sua boca
Perdi o odor de sua nuca
Te perdi numa piscada
E logo perdi a esperança
Te perdi
Não quero te encontrar
Te perdi
E hoje vendi o que sentia
Para um mascate por metade de um terno
E meia fatia de queijo bolorento
Meu amor não vale mais do que o vento
E o meu poema não tem traço violento
Adeus... E adeus, Perdi a perca e a apaixonei a perdição.
Adeus, adeus, coração.
sábado, 7 de maio de 2016
Tique
Acordei pontualmente às 7h32 da manhã de quarta. Engraxei os meus sapatos com a graxa Nugget, cor madeira. Passei o brilho e arrumei o cadarço do meu sapato de couro. Arrumei minha cama, fui ao banheiro escovar os meus dentes e tomei banho. Me arrumei e tomei café, estava perfumado e pronto para o mundo.
Saí e fui trabalhar, peguei um engarrafamento, cheguei atrasado. Pouco importa, fiz o que deveria ser feito, visitei os clientes e passei o dia todo conversando sem entusiasmo, mas ainda distribuindo sorrisos falsos. O sorriso é a máscara de um sofredor. Meio-dia, almocei sozinho como de costume e escolho sushi... Odeio peixe, mas aprendi a gostar de sushi, quando pego o hashi, meu telefone toca. Quem poderia ser?
Ninguém, era ninguém. A operadora de telefone me incomodando de novo. 12h12, você estava online. Desligo o telefone de raiva. Vou comer ainda mais mal-humorado do que de costume, você ria quando eu ficava sem humor. Devia ser realmente engraçado.
Decido que não vou pensar em mais nada e a tarde deve ser minha. Vou a biblioteca e leio um livro, o Medo à Liberdade, e me sinto feliz com as primeiras páginas, o telefone toca. Não é você... 16h16, vou para fora e converso com outra pessoa, quando percebo marco de sair. Ótimo. Melhor assim.
Volto para casa, tomo um banho e saio. Tique. São 19h19, estou atrasado. Corro imediatamente as escadas e esqueço o perfume, subo novamente. Escovo os dentes apressados e ajeito meu cabelo bagunçado. Pressa, é um encontro.
Aviso pelo Whatsapp que vou atrasar e pelo Waze procuro uma rota. Rápido, coloco na rádio Verde-Oliva, toca a Voz do Brasil. Inferno! Coloco um jazz para tocar, melhor assim, Miles Davis para animar.
Corri e cheguei tarde, 20 horas. A pessoa com que marquei estava estressada, lia o Facebook e não deu a mínima importância. Comemos juntos um prato árabe, um falafel que não era falafel e uma esfirra que não era esfirra. Comida horrível! Não sei como as pessoas gostam disso. Conversamos e ela ficou animada, queria ir ao cinema e fomos assistir Sicário.
Sessão cheia, sem graça e motivação. Sicário é um excelente filme, mas a companhia não. Saio sem qualquer entusiasmo, mas me ofereço a levá-la em casa... Ela me beija e tique... 23h23.
Taque. Quando chegamos em sua casa, ela me convida para subir em sua casa; Um apartamento apertado numa parte do centro, ficamos juntos mas ela não sai do whatsapp. Burocraticamente nos beijamos, mas ela estava sem saliva na boca. Ela se despe sem cerimônia e meio sem entusiasmo, se deita na cama de costas, me dispo calmamente e tiro meus sapatos engraxados.
Dou-lhe uma massagem, beijo seu corpo, mordo seus ombros. Como você me ensinou, ela finge gemer, o celular continua na cama. Fito aquele aparelho com vergonha. Roço meu corpo com o dela, beijo-a de lado, ela continua parada. Seus olhos estão distantes, parece cansada. Beijos e beijos sem entusiasmo.
Fizemos amor burocrático, daqueles que os casados costumam fazer, o celular continua a tocar Selena Gomes quando terminamos. Um sexo sem ser sexo, que não satisfez nenhum dos dois. Foi então que me ofereço a sair da casa, totalmente desconfortável.
"Acho que seria melhor". Ela responde "Você que sabe"
Constrangido, fecho meus olhos enquanto abotoo as minhas calças. Foi ali que pensei em você, o que estava fazendo ali. Coloco os meus sapatos, abotoo minha camisa, ela continua no Facebook.
Me viro e fico pálido. O que foi aquilo?
Me levanto, ela se veste sem entusiasmo e me leva para a cozinha.
"Não quer tomar banho?"
"Não, vou pra casa. Me desculpe"
00h00. Tique taque, minha cabeça bate como as teclas dessa máquina de escrever.
Insônia
Não quero mais escrever sobre você, mas a minha memória insiste em te pintar sorrindo quando estou de olhos fechados. Acordo suado, abro a janela e penso em acender um cigarro, mas como parei com o fumo, olho para o lado e vejo o poste luz apagado;
Não existem estrelas no céu, e ainda meio agoniado, puxo uma camiseta amarrotada do cesto de roupa suja, saio de casa para não te ver. Vou ao Subway e só consigo pensar em você. Senti sua falta às 02h20 da madrugada e foi quando pensei em desistir de tudo. Comia um sanduíche de peito de peru e bebia um refrigerante quente. Estava sem sono.
Peguei o meu carro e andei pela cidade, estava procurando por você; Você já tinha partido, meus olhos estavam alertas. Estava escuro e enxergava melhor que durante o dia. Pensei que havia desistido de te amar, mas meu coração agoniado, agora batia fraco. Sem querer, desviei o volante e subi no meio-fio, quando dei por mim quase acerto o poste.
Não havia ninguém, felizmente, ainda assim, eu senti sua falta para julgar o meu erro. Antes ontem do que hoje, quero te esquecer mas não te encontro para me dizer aquelas infelicidades que me disse pelo Whatsapp. Você me deixou sem sonhos e hoje tenho que sepultar aquela pessoa que costumava ser.
Que ódio de mim mesmo por ainda pensar por você, 03h03 da madrugada, o celular acaba a bateria. Você estava numa balada de sábado enquanto eu de pijamas chorava num estacionamento vazio perto do lago.
Que ódio de mim mesmo por ainda pensar por você, 03h03 da madrugada, o celular acaba a bateria. Você estava numa balada de sábado enquanto eu de pijamas chorava num estacionamento vazio perto do lago.
Você provavelmente já saía com outro homem que iria dormir na sua cama, aquela cama que fizemos amor tantas vezes e onde eu disse que te amava. Satisfeita, você me mandou embora. Sangue frio.
Dormi naquela noite no mesmo lugar que foi o nosso primeiro encontro como namorados. Aquele shopping, dormi no estacionamento olhando para o lado, dormi inquieto, passando frio e olhando para o nada. Desisti de você, você me deixou sozinho para desbravar esse mundo, saindo com outros homens e se machucando sem se conhecer.
Hoje você está numa praia do Rio de Janeiro, aproveitando o sol e nadando de biquíni, sem se lembrar o quanto que eu gostava de você. Foram as piores semanas que eu já tive, as semanas que reaprendi a gostar de mim mesmo quando você partiu, dando desculpas prontas e dizendo que não me desejava. Seja franca, se eu fosse rico tudo seria diferente. Você não se aventuraria por aí, não massacraria meu coração e não fingiria não gostar de mim, mas eu não sou.
Quando cheguei em casa, a enxaqueca me toma, me barbeio e vou dormir. Para que? Por quê? Minha cabeça gira, acordo chorando ainda pior do que quando dormi. Foi tolice imaginar que seria especial, mais tolice ainda foi ter acreditado que você me amava.
São 10h10 quando recebo visitas sem entusiasmo e saio de casa de novo, vou à padaria comprar pães e saio sem um único trocado. A cabeça fica baixa, um cachorro desvia de mim, o ônibus passa por mim puxando todo o vento e sol aparece forte. Meu estado é deplorável.
Tomo café, o pão amanhecido com manteiga não desce. As visitas são intragáveis e acabo indo tomar banho... Nós tomamos banho juntos, você se lembra? Olha a minha vergonha não encontrar você me entregando a toalha. Pedi para te esquecer de novo e me arrumei.
Saí no domingo e fui correr o kart, esse era o meu único presente de aniversário. Uma corrida em L com um kart de 40cvs, o que seria de nós se tudo fosse diferente?
Saí no domingo e fui correr o kart, esse era o meu único presente de aniversário. Uma corrida em L com um kart de 40cvs, o que seria de nós se tudo fosse diferente?
Cheguei em sétimo, na última curva bati o carro. Fui desclassificado.
Amanhã seria segunda-feira, e por sinal, meu aniversário. Será que você lembraria ao menos disso? Provavelmente não, deixei o capacete e fui com a bataclava até o meu carro. Você gostava de correr na chuva igual o Senna e dirigia melhor do que eu. Liguei o rádio, era nossa música.
Fui para casa sem falar uma só palavra... E assim fiquei. Hoje esqueça que eu existi, não fomos mais do que estranhos. Eu te amo, mas não gosto mais de você.
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Fotografia
Fotografia é a escrita feita diante da luz, é o traço compilado no feixe de uma câmara escuro que registra uma fração da realidade. A máquina de fotografia não é isenta de falhas ou de erros no obturador, assim como o seu ator não deixa de ser um artista. Todos representamos quando pousamos numa fotografia, seja tentando parecer mais belos ou mais imponentes. A fotografia é a marca de um artificialismo realista, que nos engana ao pensar ser concreto, mas quando na realidade é subjetivo.
O registro de imagem é um elemento de sobreposição da realidade que passa do passado para a prosperidade como registro da própria história falada. Sem querer caímos no erro do realismo, e acreditamos que o que está registrado numa foto é realmente a comprovação da realidade. Aí que entra a montagem e enquadramento, dois elementos que podem ser feitos de maneira inocente ou não. Quando não é feito de maneira inocente é para reforçar ideologias ou ideias, na pseudocientificidade desta arte.
Me admira o ofício do fotógrafo tanto quanto o do pintor ou do cineasta... Eles criam realidades a partir do que observam empiricamente como o mundo. Uma alma delicada e uma percepção resoluta, concisa, torna a fotografia um ofício excepcional. Seja a fotografia que guardamos de nossos avós, seja a fotografia da timeline do Facebook ou de um antigo amor. O ofício da fotografia é também o ofício da recordação, recordar para viver. Por isso temos sempre que nos autoafirmar em fotografias.
Em todo caso, somos infelizes os que amam a fotografia mas ela não nos aprecia na forma desejada. Ela é uma capa, um espelho e uma máscara. Ela nunca realmente compreende o ofício de nossas emoções, dos nossos pensamentos e dos nossos traços, ela apenas quer ressaltar uma forma sem conteúdo tornada hegemônica: Ver para crer, a episteme da autópsia.
Como um médico ou um detetive procuram detalhes nos fatos, e nos indícios, quem analisa uma fotografia procura noções cognitivas de tentar compreender que aquilo é um fato concreto. Um paradigma do passado, seja uma fotografia de 1872 da Guerra do Paraguai, seja uma fotografia de criança na festa de 4 anos de idade, ou uma fotografia chamuscada e em preto e branco de uma pessoa desconhecida. Tentamos observar os fatos nos detalhes.
Pessoalmente eu sou cético com a fotografia e apaixonado pela montagem, por isso que sinto o cinema como uma arte mais honesta que a fotografia. O cinema tem proposta de entreter e divertir, mas também tem a proposta de ser uma arte, apesar de sua cientificidade e teoria (tão decomposta por Griffith e Eisenstein), ela não se sujeita a tentar mostrar a realidade como ela é, mas como a realidade poderia ser.
Apesar dessas considerações, o meio termo entre ciência e arte se encontra de forma ímpar na fotografia, assim como na arquitetura e na música:
Essas três artes exploram de formas diferentes os campos das ciências aplicadas e da matemática, seja o ângulo de refração de uma lente que refrata uma luz, seja o cálculo de um seno utilizado para fazer uma abobada de Igreja ou uma equação matemática complicada sobre as ondas friccionadas da corda de um violão.
A ciência e a arte devem se unir sem se deformarem, a isso acredito que está a maior função do saber humano, congregar as forças do universo de forma pessoal e sutil para que as suas emoções não devam ser suprimidas pela realidade dos números. Por isso, fotografia deve ser respeitada como uma arte científica e uma ciência artística, na mesma proporção, feita com afeto e amor como tudo na vida deve ser feito.
quarta-feira, 27 de abril de 2016
Equador
Linha imaginária que divide o coração em dois
Que divide nossas vidas em duas palavras:
Vida e morte.
No ar frio da madrugada, olho o espelho embaçado
Cortar o meu rosto como se fosse navalha
Os poemas são vazios, o mundo que é belo
Elegante e esbelto, nunca fica ultrapassado
Boa sorte a esse triste coração que não sossega
As árvores são poemas que a terra escreve para o céu
Nós a derrubamos e as transformamos em papel
Para registrar todos os nosso vazios na manhã gelada.
Café, caneta e papel. Eu te desenho nas letras tortas
Em duas estrofes e quatro versos. Imagino o inverso
A melancolia me toma enquanto vejo o seu sorriso
E desisto...
Rasgo o papel e vejo a linha imaginária
Que nos separa décadas no futuro
E metros no presente.
Eu te amo, admirável mundo novo
Que tantas novidades nos trazes.
sábado, 23 de abril de 2016
Numismática
Não é segredo que nos últimos anos venho acumulado algumas antiguidades, seja máquinas de escrever, livros antigos, canetas e outros artefatos, mas gostaria de compartilhar uma paixão que surgiu repentinamente esses tempos e que vem sendo avassaladora.
Ultimamente tenho me dedicado à numismática, uma ciência antiga que determinava o estudo dos detalhes e do acabamento de moedas, um ramo análogo á arqueologia, o estudo das moedas determina a representação pictórica de uma sociedade e sua representação simbólica de construção identitária.
Foi a partir da numismática que aprendemos tanto sobre os fenícios, os povos do Oriente Médio na Antiguidade e sobre a Idade Média. Minha paixão em colecionar moedas é ainda primitiva, em todo caso, mas gostaria de compartilhar algumas moedas latino-americanas que adquiri nesses últimos tempos.
![]() |
| Moeda comemorativa a Bernardo D'Higgins, 1975. República do Chile |
Essa moeda curiosamente tem a fabricação no último ano de mandato de Salvador Allende, antes de ter sido deposto por Augusto Pinochet no dia 11 de setembro num golpe televisionado para todo o mundo. O resgate de Bernardo D'Higgins curiosamente reforçava uma lembrança da Guerra do Pacífico e do caráter nacional chileno que parecia estar sendo dinamitado naqueles tempos pela atividade golpista orquestrada (hoje sabemos) pela CIA.
![]() |
| República de Chile, 100 pesos, 1992 |
Essa moeda de 1992 é feita em comemoração ao descobrimento da América, e mostra a suntuosidade que os últimos anos do regime de Pinochet gostaria de demonstrar, mesmo com a desvalorização da economia chilena imposta a cabo com anuância do neoliberalismo da época. Essa moeda demonstra que a despeito de serem os últimos anos da ditadura, o regime de Pinochet desejava ainda manter o caráter simbólico de construção nacional.
![]() |
| Moeda de 1 peso da República Argentina, 1959 |
Perón foi derrubado em 1955, mas o seu legado nacionalista perdurou e se manteve na cunha das moedas, no governo da União Cívica Radical, com a estabilização eleitoral de Frondizi. Após um período conturbado após o golpe de Perón, a produção de moedas seguiu esse formato até 1962, quando novas séries de moedas passaram a ser produzidas em comemoração ao centenário da unificação argentina no projeto mitrista.
![]() |
| Moeda comemorativa ao General Artigas, República Oriental do Uruguai, 1965 |
Essa é a minha favorita, embora esteja mais deteriorada. A moeda sofre um processo de oxidação ocasionado pelo contato do níquel com o cobre e o estanho, levando a uma perda de sua coloração. A lasca demonstra a falta de cuidado que tinham por essas moedas na época, embora fosse uma moeda comemorativa do bicentenário de nascimento do General Artigas, herói e fundador da República Oriental do Uruguai.
O Uruguai em 1965 era um bastião da legalidade e da democracia na América Latina e um refúgio contra as ditaduras que nasciam no Cone Sul. Até hoje esse legado, a despeito da triste ditadura que se prolongou naquele país na década de 70, manteve o caráter progressista das constituições uruguaias até hoje, tal como o sonho de Artigas por liberdade.
A outra metade
A outra metade
Quando este corpo meu esfacelado
Baixar á leiva húmida da cova,
Hão de os jornais carpir a infausta nova,
Taxando-me de sábio consumado.
Estalará na imprensa enorme brado,
Pedindo a ressurgência d’um Canova
Que a morta face em mármore renova
Para insculpir meu busto laureado.
E algum dos imbecis necrologistas,
Com soluçantes vozes de saudade,
Dirá em ricas frases nunca vistas:
“Esse génio imortal, rei dos artistas,
No céu pede ao Senhor que a outra metade
Reparta por vocês, ó jornalistas!”
(Camilo Castelo Branco)
Trem Noturno para Lisboa (filme)
Nesses tempos difíceis, tenho passado muito tempo dentro de casa, sobretudo assistindo filmes e lendo notícias. Dei um tempo da literatura por tempo indeterminado e sobretudo da escrita, mas não foi algo proposital.
Nesses últimos dias acompanhei com aflição os lançamentos da Netflix e encontrei esse filme. Elegante, singelo e metafísico. Ando com preconceito com o cinema contemporâneo mas a ideia me convenceu do contrário. Trem Noturno para Lisboa é um filme que fala sobre o passado, o legado no presente e nos convence de que a vida tem questões intermináveis através dos anos.
Como toda adaptação de livro, o filme, baseado no romance de Pascal Mercier, possui uma introdução impactante:
Raymond Gregorius é um professor do segundo grau em Berna, na Suíça. Separado, vive uma vida solitária e melancólica até que tem a sua vida revirada quando encontra uma jovem que ameaça se jogar de uma ponte. O choque que Gregorius tem no momento em que vê a moça tentando o suícidio faz ele largar seus papéis e se meter numa aventura sobre o seu próprio conhecimento. Após salvá-la, ele acaba acidentalmente ficando com o seu casaco e procura entregá-lo, até que encontra um livro de um poeta português perseguido pelo regime salazarista.
Indelicado, mas curioso, Gregorius acaba lendo o livro e se simpatizando com o autor, até que decide de súbito entrar numa viagem para Lisboa para conhecer o mundo de Amadeu, seu passado no liceu católico, sua relação familiar, sua profissão como médico e sua militância contra o regime salazarista que colocam em cheque sua própria vida pessoal.
Nisso, Gregorius conhece os antigos companheiros de causa de Amadeu, a irmã e reconhece na sua procura pela verdade um pouco de autoconhecimento próprio. O livro através de sua história traz reflexões ao próprio leitor, que obstinado tenta compreender o desassossego daquele jovem poeta com aquele mundo de totalitarismo e injustiça.
Quando vi esse filme, senti-me bastante angustiado com a trajetória desses dois personagens e do seu deslocamento temporal e geográfico. Os dois marcados pelo sofrimento estão a procura de alguma forma de redenção mediante a busca da justiça. Existe um elemento de Benjamin, Baudelaire e sobretudo de Albert Camus, no Estrangeiro que torna a trama ainda mais especial e nos faz compreender que mesmo na dureza dos regimes mais funestos, ainda há margem para as inquietações cotidianas que todos enfrentamos em nossas vidas.
Desmistificado, devemos ser críticos, mas elegantes. Um filme desses não é alvo de grande bilheteria, mas merece o mérito de ser visto com os olhos sensíveis aos sentimentos e inquietações de nosso mundo moderno. Foi esse filme que me destravou desse lapso criativo e espero que tenham uma impressão positiva, semelhante a que tive com essa película.
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