Perdi a caneta
Uma pequena caneta
E com ela perdi o meu respeito
Por tudo que a despeito
Perdi sem muito jeito
O afeto que tinha por você
Perdi o confeito
Perdi o seu beijo
Perdi a chance
De ter ficado no convento
Devia ter ficado calado
Não devia ter apaixonado
Devia por namorado
Mas tudo isso é passado
Perdi o amor
Perdi a dor
Perdi a rima
Perdi e perdi
Perdi você
Perdi de novo você
Perdi a chance
De ter dito
Que te amava
Perdi o calor de seus olhos
Perdi o sabor de sua boca
Perdi o odor de sua nuca
Te perdi numa piscada
E logo perdi a esperança
Te perdi
Não quero te encontrar
Te perdi
E hoje vendi o que sentia
Para um mascate por metade de um terno
E meia fatia de queijo bolorento
Meu amor não vale mais do que o vento
E o meu poema não tem traço violento
Adeus... E adeus, Perdi a perca e a apaixonei a perdição.
Adeus, adeus, coração.
quarta-feira, 11 de maio de 2016
sábado, 7 de maio de 2016
Tique
Acordei pontualmente às 7h32 da manhã de quarta. Engraxei os meus sapatos com a graxa Nugget, cor madeira. Passei o brilho e arrumei o cadarço do meu sapato de couro. Arrumei minha cama, fui ao banheiro escovar os meus dentes e tomei banho. Me arrumei e tomei café, estava perfumado e pronto para o mundo.
Saí e fui trabalhar, peguei um engarrafamento, cheguei atrasado. Pouco importa, fiz o que deveria ser feito, visitei os clientes e passei o dia todo conversando sem entusiasmo, mas ainda distribuindo sorrisos falsos. O sorriso é a máscara de um sofredor. Meio-dia, almocei sozinho como de costume e escolho sushi... Odeio peixe, mas aprendi a gostar de sushi, quando pego o hashi, meu telefone toca. Quem poderia ser?
Ninguém, era ninguém. A operadora de telefone me incomodando de novo. 12h12, você estava online. Desligo o telefone de raiva. Vou comer ainda mais mal-humorado do que de costume, você ria quando eu ficava sem humor. Devia ser realmente engraçado.
Decido que não vou pensar em mais nada e a tarde deve ser minha. Vou a biblioteca e leio um livro, o Medo à Liberdade, e me sinto feliz com as primeiras páginas, o telefone toca. Não é você... 16h16, vou para fora e converso com outra pessoa, quando percebo marco de sair. Ótimo. Melhor assim.
Volto para casa, tomo um banho e saio. Tique. São 19h19, estou atrasado. Corro imediatamente as escadas e esqueço o perfume, subo novamente. Escovo os dentes apressados e ajeito meu cabelo bagunçado. Pressa, é um encontro.
Aviso pelo Whatsapp que vou atrasar e pelo Waze procuro uma rota. Rápido, coloco na rádio Verde-Oliva, toca a Voz do Brasil. Inferno! Coloco um jazz para tocar, melhor assim, Miles Davis para animar.
Corri e cheguei tarde, 20 horas. A pessoa com que marquei estava estressada, lia o Facebook e não deu a mínima importância. Comemos juntos um prato árabe, um falafel que não era falafel e uma esfirra que não era esfirra. Comida horrível! Não sei como as pessoas gostam disso. Conversamos e ela ficou animada, queria ir ao cinema e fomos assistir Sicário.
Sessão cheia, sem graça e motivação. Sicário é um excelente filme, mas a companhia não. Saio sem qualquer entusiasmo, mas me ofereço a levá-la em casa... Ela me beija e tique... 23h23.
Taque. Quando chegamos em sua casa, ela me convida para subir em sua casa; Um apartamento apertado numa parte do centro, ficamos juntos mas ela não sai do whatsapp. Burocraticamente nos beijamos, mas ela estava sem saliva na boca. Ela se despe sem cerimônia e meio sem entusiasmo, se deita na cama de costas, me dispo calmamente e tiro meus sapatos engraxados.
Dou-lhe uma massagem, beijo seu corpo, mordo seus ombros. Como você me ensinou, ela finge gemer, o celular continua na cama. Fito aquele aparelho com vergonha. Roço meu corpo com o dela, beijo-a de lado, ela continua parada. Seus olhos estão distantes, parece cansada. Beijos e beijos sem entusiasmo.
Fizemos amor burocrático, daqueles que os casados costumam fazer, o celular continua a tocar Selena Gomes quando terminamos. Um sexo sem ser sexo, que não satisfez nenhum dos dois. Foi então que me ofereço a sair da casa, totalmente desconfortável.
"Acho que seria melhor". Ela responde "Você que sabe"
Constrangido, fecho meus olhos enquanto abotoo as minhas calças. Foi ali que pensei em você, o que estava fazendo ali. Coloco os meus sapatos, abotoo minha camisa, ela continua no Facebook.
Me viro e fico pálido. O que foi aquilo?
Me levanto, ela se veste sem entusiasmo e me leva para a cozinha.
"Não quer tomar banho?"
"Não, vou pra casa. Me desculpe"
00h00. Tique taque, minha cabeça bate como as teclas dessa máquina de escrever.
Insônia
Não quero mais escrever sobre você, mas a minha memória insiste em te pintar sorrindo quando estou de olhos fechados. Acordo suado, abro a janela e penso em acender um cigarro, mas como parei com o fumo, olho para o lado e vejo o poste luz apagado;
Não existem estrelas no céu, e ainda meio agoniado, puxo uma camiseta amarrotada do cesto de roupa suja, saio de casa para não te ver. Vou ao Subway e só consigo pensar em você. Senti sua falta às 02h20 da madrugada e foi quando pensei em desistir de tudo. Comia um sanduíche de peito de peru e bebia um refrigerante quente. Estava sem sono.
Peguei o meu carro e andei pela cidade, estava procurando por você; Você já tinha partido, meus olhos estavam alertas. Estava escuro e enxergava melhor que durante o dia. Pensei que havia desistido de te amar, mas meu coração agoniado, agora batia fraco. Sem querer, desviei o volante e subi no meio-fio, quando dei por mim quase acerto o poste.
Não havia ninguém, felizmente, ainda assim, eu senti sua falta para julgar o meu erro. Antes ontem do que hoje, quero te esquecer mas não te encontro para me dizer aquelas infelicidades que me disse pelo Whatsapp. Você me deixou sem sonhos e hoje tenho que sepultar aquela pessoa que costumava ser.
Que ódio de mim mesmo por ainda pensar por você, 03h03 da madrugada, o celular acaba a bateria. Você estava numa balada de sábado enquanto eu de pijamas chorava num estacionamento vazio perto do lago.
Que ódio de mim mesmo por ainda pensar por você, 03h03 da madrugada, o celular acaba a bateria. Você estava numa balada de sábado enquanto eu de pijamas chorava num estacionamento vazio perto do lago.
Você provavelmente já saía com outro homem que iria dormir na sua cama, aquela cama que fizemos amor tantas vezes e onde eu disse que te amava. Satisfeita, você me mandou embora. Sangue frio.
Dormi naquela noite no mesmo lugar que foi o nosso primeiro encontro como namorados. Aquele shopping, dormi no estacionamento olhando para o lado, dormi inquieto, passando frio e olhando para o nada. Desisti de você, você me deixou sozinho para desbravar esse mundo, saindo com outros homens e se machucando sem se conhecer.
Hoje você está numa praia do Rio de Janeiro, aproveitando o sol e nadando de biquíni, sem se lembrar o quanto que eu gostava de você. Foram as piores semanas que eu já tive, as semanas que reaprendi a gostar de mim mesmo quando você partiu, dando desculpas prontas e dizendo que não me desejava. Seja franca, se eu fosse rico tudo seria diferente. Você não se aventuraria por aí, não massacraria meu coração e não fingiria não gostar de mim, mas eu não sou.
Quando cheguei em casa, a enxaqueca me toma, me barbeio e vou dormir. Para que? Por quê? Minha cabeça gira, acordo chorando ainda pior do que quando dormi. Foi tolice imaginar que seria especial, mais tolice ainda foi ter acreditado que você me amava.
São 10h10 quando recebo visitas sem entusiasmo e saio de casa de novo, vou à padaria comprar pães e saio sem um único trocado. A cabeça fica baixa, um cachorro desvia de mim, o ônibus passa por mim puxando todo o vento e sol aparece forte. Meu estado é deplorável.
Tomo café, o pão amanhecido com manteiga não desce. As visitas são intragáveis e acabo indo tomar banho... Nós tomamos banho juntos, você se lembra? Olha a minha vergonha não encontrar você me entregando a toalha. Pedi para te esquecer de novo e me arrumei.
Saí no domingo e fui correr o kart, esse era o meu único presente de aniversário. Uma corrida em L com um kart de 40cvs, o que seria de nós se tudo fosse diferente?
Saí no domingo e fui correr o kart, esse era o meu único presente de aniversário. Uma corrida em L com um kart de 40cvs, o que seria de nós se tudo fosse diferente?
Cheguei em sétimo, na última curva bati o carro. Fui desclassificado.
Amanhã seria segunda-feira, e por sinal, meu aniversário. Será que você lembraria ao menos disso? Provavelmente não, deixei o capacete e fui com a bataclava até o meu carro. Você gostava de correr na chuva igual o Senna e dirigia melhor do que eu. Liguei o rádio, era nossa música.
Fui para casa sem falar uma só palavra... E assim fiquei. Hoje esqueça que eu existi, não fomos mais do que estranhos. Eu te amo, mas não gosto mais de você.
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Fotografia
Fotografia é a escrita feita diante da luz, é o traço compilado no feixe de uma câmara escuro que registra uma fração da realidade. A máquina de fotografia não é isenta de falhas ou de erros no obturador, assim como o seu ator não deixa de ser um artista. Todos representamos quando pousamos numa fotografia, seja tentando parecer mais belos ou mais imponentes. A fotografia é a marca de um artificialismo realista, que nos engana ao pensar ser concreto, mas quando na realidade é subjetivo.
O registro de imagem é um elemento de sobreposição da realidade que passa do passado para a prosperidade como registro da própria história falada. Sem querer caímos no erro do realismo, e acreditamos que o que está registrado numa foto é realmente a comprovação da realidade. Aí que entra a montagem e enquadramento, dois elementos que podem ser feitos de maneira inocente ou não. Quando não é feito de maneira inocente é para reforçar ideologias ou ideias, na pseudocientificidade desta arte.
Me admira o ofício do fotógrafo tanto quanto o do pintor ou do cineasta... Eles criam realidades a partir do que observam empiricamente como o mundo. Uma alma delicada e uma percepção resoluta, concisa, torna a fotografia um ofício excepcional. Seja a fotografia que guardamos de nossos avós, seja a fotografia da timeline do Facebook ou de um antigo amor. O ofício da fotografia é também o ofício da recordação, recordar para viver. Por isso temos sempre que nos autoafirmar em fotografias.
Em todo caso, somos infelizes os que amam a fotografia mas ela não nos aprecia na forma desejada. Ela é uma capa, um espelho e uma máscara. Ela nunca realmente compreende o ofício de nossas emoções, dos nossos pensamentos e dos nossos traços, ela apenas quer ressaltar uma forma sem conteúdo tornada hegemônica: Ver para crer, a episteme da autópsia.
Como um médico ou um detetive procuram detalhes nos fatos, e nos indícios, quem analisa uma fotografia procura noções cognitivas de tentar compreender que aquilo é um fato concreto. Um paradigma do passado, seja uma fotografia de 1872 da Guerra do Paraguai, seja uma fotografia de criança na festa de 4 anos de idade, ou uma fotografia chamuscada e em preto e branco de uma pessoa desconhecida. Tentamos observar os fatos nos detalhes.
Pessoalmente eu sou cético com a fotografia e apaixonado pela montagem, por isso que sinto o cinema como uma arte mais honesta que a fotografia. O cinema tem proposta de entreter e divertir, mas também tem a proposta de ser uma arte, apesar de sua cientificidade e teoria (tão decomposta por Griffith e Eisenstein), ela não se sujeita a tentar mostrar a realidade como ela é, mas como a realidade poderia ser.
Apesar dessas considerações, o meio termo entre ciência e arte se encontra de forma ímpar na fotografia, assim como na arquitetura e na música:
Essas três artes exploram de formas diferentes os campos das ciências aplicadas e da matemática, seja o ângulo de refração de uma lente que refrata uma luz, seja o cálculo de um seno utilizado para fazer uma abobada de Igreja ou uma equação matemática complicada sobre as ondas friccionadas da corda de um violão.
A ciência e a arte devem se unir sem se deformarem, a isso acredito que está a maior função do saber humano, congregar as forças do universo de forma pessoal e sutil para que as suas emoções não devam ser suprimidas pela realidade dos números. Por isso, fotografia deve ser respeitada como uma arte científica e uma ciência artística, na mesma proporção, feita com afeto e amor como tudo na vida deve ser feito.
quarta-feira, 27 de abril de 2016
Equador
Linha imaginária que divide o coração em dois
Que divide nossas vidas em duas palavras:
Vida e morte.
No ar frio da madrugada, olho o espelho embaçado
Cortar o meu rosto como se fosse navalha
Os poemas são vazios, o mundo que é belo
Elegante e esbelto, nunca fica ultrapassado
Boa sorte a esse triste coração que não sossega
As árvores são poemas que a terra escreve para o céu
Nós a derrubamos e as transformamos em papel
Para registrar todos os nosso vazios na manhã gelada.
Café, caneta e papel. Eu te desenho nas letras tortas
Em duas estrofes e quatro versos. Imagino o inverso
A melancolia me toma enquanto vejo o seu sorriso
E desisto...
Rasgo o papel e vejo a linha imaginária
Que nos separa décadas no futuro
E metros no presente.
Eu te amo, admirável mundo novo
Que tantas novidades nos trazes.
sábado, 23 de abril de 2016
Numismática
Não é segredo que nos últimos anos venho acumulado algumas antiguidades, seja máquinas de escrever, livros antigos, canetas e outros artefatos, mas gostaria de compartilhar uma paixão que surgiu repentinamente esses tempos e que vem sendo avassaladora.
Ultimamente tenho me dedicado à numismática, uma ciência antiga que determinava o estudo dos detalhes e do acabamento de moedas, um ramo análogo á arqueologia, o estudo das moedas determina a representação pictórica de uma sociedade e sua representação simbólica de construção identitária.
Foi a partir da numismática que aprendemos tanto sobre os fenícios, os povos do Oriente Médio na Antiguidade e sobre a Idade Média. Minha paixão em colecionar moedas é ainda primitiva, em todo caso, mas gostaria de compartilhar algumas moedas latino-americanas que adquiri nesses últimos tempos.
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| Moeda comemorativa a Bernardo D'Higgins, 1975. República do Chile |
Essa moeda curiosamente tem a fabricação no último ano de mandato de Salvador Allende, antes de ter sido deposto por Augusto Pinochet no dia 11 de setembro num golpe televisionado para todo o mundo. O resgate de Bernardo D'Higgins curiosamente reforçava uma lembrança da Guerra do Pacífico e do caráter nacional chileno que parecia estar sendo dinamitado naqueles tempos pela atividade golpista orquestrada (hoje sabemos) pela CIA.
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| República de Chile, 100 pesos, 1992 |
Essa moeda de 1992 é feita em comemoração ao descobrimento da América, e mostra a suntuosidade que os últimos anos do regime de Pinochet gostaria de demonstrar, mesmo com a desvalorização da economia chilena imposta a cabo com anuância do neoliberalismo da época. Essa moeda demonstra que a despeito de serem os últimos anos da ditadura, o regime de Pinochet desejava ainda manter o caráter simbólico de construção nacional.
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| Moeda de 1 peso da República Argentina, 1959 |
Perón foi derrubado em 1955, mas o seu legado nacionalista perdurou e se manteve na cunha das moedas, no governo da União Cívica Radical, com a estabilização eleitoral de Frondizi. Após um período conturbado após o golpe de Perón, a produção de moedas seguiu esse formato até 1962, quando novas séries de moedas passaram a ser produzidas em comemoração ao centenário da unificação argentina no projeto mitrista.
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| Moeda comemorativa ao General Artigas, República Oriental do Uruguai, 1965 |
Essa é a minha favorita, embora esteja mais deteriorada. A moeda sofre um processo de oxidação ocasionado pelo contato do níquel com o cobre e o estanho, levando a uma perda de sua coloração. A lasca demonstra a falta de cuidado que tinham por essas moedas na época, embora fosse uma moeda comemorativa do bicentenário de nascimento do General Artigas, herói e fundador da República Oriental do Uruguai.
O Uruguai em 1965 era um bastião da legalidade e da democracia na América Latina e um refúgio contra as ditaduras que nasciam no Cone Sul. Até hoje esse legado, a despeito da triste ditadura que se prolongou naquele país na década de 70, manteve o caráter progressista das constituições uruguaias até hoje, tal como o sonho de Artigas por liberdade.
A outra metade
A outra metade
Quando este corpo meu esfacelado
Baixar á leiva húmida da cova,
Hão de os jornais carpir a infausta nova,
Taxando-me de sábio consumado.
Estalará na imprensa enorme brado,
Pedindo a ressurgência d’um Canova
Que a morta face em mármore renova
Para insculpir meu busto laureado.
E algum dos imbecis necrologistas,
Com soluçantes vozes de saudade,
Dirá em ricas frases nunca vistas:
“Esse génio imortal, rei dos artistas,
No céu pede ao Senhor que a outra metade
Reparta por vocês, ó jornalistas!”
(Camilo Castelo Branco)
Trem Noturno para Lisboa (filme)
Nesses tempos difíceis, tenho passado muito tempo dentro de casa, sobretudo assistindo filmes e lendo notícias. Dei um tempo da literatura por tempo indeterminado e sobretudo da escrita, mas não foi algo proposital.
Nesses últimos dias acompanhei com aflição os lançamentos da Netflix e encontrei esse filme. Elegante, singelo e metafísico. Ando com preconceito com o cinema contemporâneo mas a ideia me convenceu do contrário. Trem Noturno para Lisboa é um filme que fala sobre o passado, o legado no presente e nos convence de que a vida tem questões intermináveis através dos anos.
Como toda adaptação de livro, o filme, baseado no romance de Pascal Mercier, possui uma introdução impactante:
Raymond Gregorius é um professor do segundo grau em Berna, na Suíça. Separado, vive uma vida solitária e melancólica até que tem a sua vida revirada quando encontra uma jovem que ameaça se jogar de uma ponte. O choque que Gregorius tem no momento em que vê a moça tentando o suícidio faz ele largar seus papéis e se meter numa aventura sobre o seu próprio conhecimento. Após salvá-la, ele acaba acidentalmente ficando com o seu casaco e procura entregá-lo, até que encontra um livro de um poeta português perseguido pelo regime salazarista.
Indelicado, mas curioso, Gregorius acaba lendo o livro e se simpatizando com o autor, até que decide de súbito entrar numa viagem para Lisboa para conhecer o mundo de Amadeu, seu passado no liceu católico, sua relação familiar, sua profissão como médico e sua militância contra o regime salazarista que colocam em cheque sua própria vida pessoal.
Nisso, Gregorius conhece os antigos companheiros de causa de Amadeu, a irmã e reconhece na sua procura pela verdade um pouco de autoconhecimento próprio. O livro através de sua história traz reflexões ao próprio leitor, que obstinado tenta compreender o desassossego daquele jovem poeta com aquele mundo de totalitarismo e injustiça.
Quando vi esse filme, senti-me bastante angustiado com a trajetória desses dois personagens e do seu deslocamento temporal e geográfico. Os dois marcados pelo sofrimento estão a procura de alguma forma de redenção mediante a busca da justiça. Existe um elemento de Benjamin, Baudelaire e sobretudo de Albert Camus, no Estrangeiro que torna a trama ainda mais especial e nos faz compreender que mesmo na dureza dos regimes mais funestos, ainda há margem para as inquietações cotidianas que todos enfrentamos em nossas vidas.
Desmistificado, devemos ser críticos, mas elegantes. Um filme desses não é alvo de grande bilheteria, mas merece o mérito de ser visto com os olhos sensíveis aos sentimentos e inquietações de nosso mundo moderno. Foi esse filme que me destravou desse lapso criativo e espero que tenham uma impressão positiva, semelhante a que tive com essa película.
Vertigem
No dia 17 de abril de 2016, o país parou. A Esplanada dos Ministérios estava lotada, colocaram um muro no meio da avenida dividindo dois protesto. A cidade estava um caos. Nesse caos, estava eu, perdido, procurando respostas.
Faz dois anos que eu abandonei completamente a política. Dois anos que desisti de mudar o país pelo poder democrático e ajudar a construir um mundo novo. Fui em tantos protestos, fiz tanto piquete, ajudei tanto na militância que hoje me dói saber que o esforço foi em vão. Vi meus amigos subirem a rampa do Congresso Nacional, enquanto o povo enlouquecido se fartava nas águas sujas do espelho d'água em frente a esse edifício. Eu estava ali naquele espelho d'água.
A polícia militar tinha feito um cordão de contenção para que não chegássemos ao Palácio do Planalto, mas alguns dos manifestantes tinham quebrados os vidros do lindo e suntuoso Palácio do Itamaraty; Eram anos difíceis e rebeldes, todos estávamos zangados com um monte de promessas e baboseiras que nos prometeram por oito anos. Que teríamos um futuro e oportunidades.
Nós jovens, saímos as ruas, pedir por um mundo diferente do mundo dos velhos, queríamos que tivesse maior sensibilidade com os problemas diários que enfrentamos. A passagem de ônibus era realmente cara, a educação continua sendo uma merda e a saúde, só falta morrer no hospital. Queríamos reformas sérias para um novo país que se construía, seja na política, seja na economia, seja no campo social. Nos enganaram.
Em 2014, ano eleitoral prometeram muito e não fizeram nada.
2015 foi o pior ano que eu vivi. Foi nesse ano que vi que todos os nossos sonhos foram jogados na lata do lixo. Ali que eu percebi que havia perdido as esperanças. Estourou um escândalo de corrupção, o governo mentiu e impôs um arrocho amargo contra o país, e ficamos ainda mais acuados quando vimos que tudo o que lutamos só serviu para uma camarilha se manter no poder.
Nesse contexto, os velhos políticos começaram a fazer o que fizeram nesse mês. Passaram a não reconhecer o resultado das eleições e acusar esse governo mentiroso de corrupção. Correto, mas eles também não são flor que se cheirem. Em fato, são mais sujos que pau de galinheiro e agora ameaçam o futuro de novo do nosso país.
Eles roubaram a nossa voz de quando nos levantamos e fomos às ruas e começaram a organizar os seus próprios protestos contra a presidente. Eu não apoio mesmo o PT, mas foi uma falsidade ideológica invocar o que sonhamos em torno desse país carcomido que vão construir agora. A presidente vai ser deposta sem ter cometido crime algum, mas pelo crime dos outros. Percebem isso?
Eu fui nos dois protestos, a favor e contra o impeachment. No protesto a favor, vi famílias com Iphones, chapéus panamá, crianças e bandeiras verde-amarela. Todo mundo usava camisa da CBF e contei três carros de som tocando Olodum. Faziam marchinhas em favor do Moro, xingavam o Lula e ficavam eufóricos com cada voto de deputado no telão nos Ministérios.
Vi religiosos rezarem um terço, abençoarem a água e abençoar o impeachment. Mas o momento mais triste foi ver um helicóptero voar baixo, com um polícia munido com uma escopeta, ser saudado de pé e sob aplausos por aquela multidão e retribuir o gesto com uma saudação. Fiquei com medo daquilo ser um nascimento do partido fascista. Tive uma vertigem e comecei a passar mal, saí dali, estava sufocado, não sei se porque estava muito quente, se estava com muita gente ou se fiquei com náuseas. Mas perdi o amor por aquilo.
Fui embora. Mas tinha que ver o protesto contra o impeachment.
Minha glicose baixou, precisava de açúcar. Um vendedor de churros sorria enquanto faturava com a fila de gente faminta naquele momento de manifestação. Mas o vendedor era lento, e a válvula que injetava doce de leite entupiu. Esperei por dez minutos o homem reparar aquilo para que ele atendesse pessoas que literalmente furaram a fila. Brasileiro tem disso, ser contra a corrupção e furar fila. Desisti de comer.
O protesto a favor da presidente parecia mais vazio, mas ainda mais engajado, com discursos em carros de som, membros entusiastas do PT, CUT e MST, todos reunidos em torno da apuração dos votos. Encontrei funcionários públicos, professores, donas de casa, estudantes, domésticas, trabalhadores braçais e camponeses. Todos juntos com camisas vermelhas e ansiosos pela votação.
Ali eu encontrei o que esperava que fosse o povo brasileiro, mesmo que uma fatia muito pequena. Mas encontrei pessoas de diferentes classes sociais, nervosas e apreensivas, gritando em favor de alguém. Parecia uma torcida em favor de um time de futebol, mas era bem mais sério que isso. Fiquei com eles até anoitecer, acompanhando os votos, xingando os deputados hipócritas e me solidarizando com o sofrimento deles. Eles podiam ser petistas, mas eles realmente acreditavam naquilo. Eles sofriam a cada derrota e sabiam o que estava em jogo.
Todas as falhas de um governo não podem ser atribuídas aos seus eleitores, mas aos seus próprios equívocos.
Ali que eu percebi que mesmo tendo sido a favor do impeachment, o que estava ali em jogo era o retrocesso. De um lado havia quem defendia o regresso dos militares, do outro havia quem chorava por perder toda a esperança que foi depositada num governo prolongado. E os mesmos canalhas que apareciam no telão dizendo que votam em nome de Deus, do pai, da mulher e dos corretores de seguros.
Saí triste, fraco e abalado. Sem energia e com fome. Estava abalado, mas o Brasil tinha perdido. Não porque a presidente foi praticamente afastada (e traída), mas tinha perdido porque roubaram todos os nossos sonhos para um leilão de meia dúzia de corruptos no banquete de corvos no meio da casa legislativa. Foi então que percebi, é meu dever voltar a falar de política.
Silêncio
Olho para o vazio deste lago, olho para esse líquido espelhado que me separa, cuja a distância dessa ponte até o fundo é de vinte metros. Olho para o horizonte, ainda é cedo, poucos carros passam. Ninguém dará a mínima.
Puxo um cigarro como último pedido, meu cachecol se solta do meu pescoço e voa longe. Era um cachecol bonito, xadrez, azul e branco, ele que me aquecia a garganta quando ficava muito frio. Mas eu me despeço dele com um olhar perdido. Longe, eu vejo o Congresso Nacional de um lado e a Torre Digital de outro. As vigas dessa ponte são rígidas, de um aço laminado bem forte. Meio estaiada, a ponte se inclinava de forma peculiar, ligando a L4 Sul e o Lago Sul.
Meio perdido, olho para o meu carro estacionado perto dos restaurantes fechados na praça da Ponte JK. O que me separa de ir para casa e tentar viver de novo? Alguns metros. Mesmo assim olho intensamente para aquele azul-prateado convidativo. O lago é tão grande e ainda assim tão sublime, uma represa tão bela, tão bem construída que parece ter sido feito por mãos divinas. Eu espero me encontrar em seu manto cinzento nesses últimos momentos de martírio.
Termino meu último cigarro, eu que não fumo, jogo a bituca para longe. Meu sapato azul sobe sobre um dos apoios e vejo o que podem ser meus últimos momentos. Queria ter uma corda para me amarrar nesses últimos instantes, e enrolar no pescoço como uma gravata, mas tudo o que tenho é medo. Começa a ventar muito, meus cabelos se desgrenham e tenho medo que tudo acabe mal. E seu eu escorregar antes da hora?
Como será se afogar? Será tão doloroso assim? Mas e com o impacto? Será que não desmaio antes? São tantas perguntas, a gente até tem dor de cabeça de tanto pensar. Olho para o céu com olhos de menino, procurando por alguma luz ou uma pipa perdida. Coço minha barba que não aparo a dias, será que esse é o fim?
Tiro da carteira minha última foto. A última foto dela. Ela sorri, está linda, totalmente maquiada. Parece feliz. Rasguei a foto, mas deixei cair na operação a carteira no lago. Tudo bem, havia apenas cartões de crédito estourados e umas duas notas de cinco. Quando eu cair, isso nada será de útil. Mas e meu documento? Morrerei como indigente?
Eu sou indigente. Ninguém se importa se estou ali às 6h35 da manhã de um domingo olhando para o horizonte com os dois pés no cercado da Ponte JK. Está claro que não sairei vivo disso. Mas não, eu olho de novo para as minhas mãos, estou tremendo... Eu tenho medo do vento. Bastante medo, e desisto.
Desço do vão e saio da ponte. Fico zangado por ter deixado a carteira cair no lago, mas vejo que estranhamente ela flutua com o peso. Estranho... Mas consigo recuperá-la. Os documentos estavam todos encharcados, mas tudo bem. Agora o cachecol, esse se perdeu. Foram aqueles momentos mais tristes que eu percebi que estava errado e desisti de ser o que eu sou, um desafortunado.
Liguei o meu carro e fui para casa. E agora?
Eu não sei. Realmente não sei.
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Carta aos meus filhos
Meus filhos, hoje, se leem essa carta, saibam que eu os amo e espero que estejam felizes e contentes. No passado, poderia dizer que lutei muito para que o mundo fosse um lugar melhor para todos vocês; Desejei maiores oportunidades para vocês, as quais não degustei quando criança. Fui acossado, humilhado e injustiçado. Hoje, não sei o que falo para vocês.
Roubaram as minhas esperanças, os velhos políticos do passado roubaram meus sonhos. Corromperam minhas lembranças e ainda assim tornam um martírio a vida de meus semelhantes. Meus filhos, como desejei mudar o mundo, mas os velhos não o permitem. O assassinato de uma democracia e o assassinato de um país, tudo isso eu vi. Defendi um novo país, com novas ideias e eleições. O amor e o afeto que tive foram jogados na lata do lixo.
Meus amigos, morreram ou pereceram às veredas do ódio e da tirania. A maioria deles se venderam, conforme o oportunismo e o ódio. Amei e amarei sempre a vocês mesmo estando tão distante, mesmo que nunca nos encontremos. Meus filhos, intelectualmente estou tão triste por ter desistido tão fácil, por não ter lutado contra essa velha ordem e ainda assim ver todo o nosso esforço sendo jogado na lata do lixo.
Hoje eu ainda conservo minha juventude, mas não tenho as mesmas forças. Morri e pereci no calvário da política de gabinetes, eu como ex-militante estudantil, ex-presidente de centro acadêmico me enojo de ter visto o pior das pessoas em coisas tão banais. Saibam, meus filhos, que mesmo que não seja pai, vocês saberão que fui o melhor que pude. Tentei tanto e não consegui nada, me enojei de ser brasileiro, me enojei em ser jovem e me enojei de ser cidadão.
Sobre o fim desse país, vi o que não deveria ter visto. Vi a corrupção não somente nos deputados ou políticos, vi a corrupção a face de tudo. Na Academia, na Universidade, nos meus amigos, nos meus conhecidos. Vi no dia a dia, na catraca de um ônibus, num troco roubado, no comércio, e nos desvios das empresas. Estou enojado, sinto de vontade de vomitar.
Tentei esquecer a podridão do mundo no tabaco e na bebida, a bebida ficou cara e o cachimbo me faz mal. Estou envelhecendo sem ter visto meus sonhos se realizarem. Cognição e constrição, meu bolso vazio e meu rosto sem expressão, todo dia é um martírio ver meu rosto desgrenhado no espelho.
Insatisfação ter acreditado no salto falso de um novo país, vi tantos amigos irem embora, fugirem para o exterior, mas fiquei porque acreditei nisso aqui. Nesse sonho frustrado chamado Brasil. Se um dia vocês me conhecerem, e virem uma pessoa diferente, saibam que ela nasceu aqui. Vendo o desemprego, vendo o fim de sonhos, vendo o abuso com que as pessoas infligiram sobre toda a juventude.
Guerrilheiros ou políticos profissionais. Não quero sonhar em desistir, mas quero ver que o mundo é nojento e mais nojento ainda é acompanhar a violência com que infligiram ao nosso futuro. Os velhos penhoram nosso futuro, e seremos que pagaremos tudo. Desculpem, meus filhos, devia ter lutado mais para vocês fossem mais felizes do que eu.
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