segunda-feira, 11 de abril de 2016

Carta aos meus filhos

      Meus filhos, hoje, se leem essa carta, saibam que eu os amo e espero que estejam felizes e contentes. No passado, poderia dizer que lutei muito para que o mundo fosse um lugar melhor para todos vocês; Desejei maiores oportunidades para vocês, as quais não degustei quando criança. Fui acossado, humilhado e injustiçado. Hoje, não sei o que falo para vocês.

    Roubaram as minhas esperanças, os velhos políticos do passado roubaram meus sonhos. Corromperam minhas lembranças e ainda assim tornam um martírio a vida de meus semelhantes. Meus filhos, como desejei mudar o mundo, mas os velhos não o permitem. O assassinato de uma democracia e o assassinato de um país, tudo isso eu vi. Defendi um novo país, com novas ideias e eleições. O amor e o afeto que tive foram jogados na lata do lixo.

    Meus amigos, morreram ou pereceram às veredas do ódio e da tirania. A maioria deles se venderam, conforme o oportunismo e o ódio. Amei e amarei sempre a vocês mesmo estando tão distante, mesmo que nunca nos encontremos. Meus filhos, intelectualmente estou tão triste por ter desistido tão fácil, por não ter lutado contra essa velha ordem e ainda assim ver todo o nosso esforço sendo jogado na lata do lixo.

     Hoje eu ainda conservo minha juventude, mas não tenho as mesmas forças. Morri e pereci no calvário da política de gabinetes, eu como ex-militante estudantil, ex-presidente de centro acadêmico me enojo de ter visto o pior das pessoas em coisas tão banais. Saibam, meus filhos, que mesmo que não seja  pai,  vocês saberão que fui o melhor que pude. Tentei tanto e não consegui nada, me enojei de ser brasileiro, me enojei em ser jovem e me enojei de ser cidadão.

     Sobre o fim desse país, vi o que não deveria ter visto. Vi a corrupção não somente nos deputados ou políticos, vi a corrupção a face de tudo. Na Academia, na Universidade, nos meus amigos, nos meus conhecidos. Vi no dia a dia, na catraca de um ônibus, num troco roubado, no comércio, e nos desvios das empresas. Estou enojado, sinto de vontade de vomitar.

      Tentei esquecer a podridão do mundo no tabaco e na bebida, a bebida ficou cara e o cachimbo me faz  mal. Estou envelhecendo sem ter visto meus sonhos se realizarem. Cognição e constrição, meu bolso vazio e meu rosto sem expressão, todo dia é um martírio ver meu rosto desgrenhado no espelho.

       Insatisfação ter acreditado no salto falso de um novo país, vi tantos amigos irem embora, fugirem para o exterior, mas fiquei porque acreditei nisso aqui. Nesse sonho frustrado chamado Brasil. Se um dia vocês me conhecerem, e virem uma pessoa diferente, saibam que ela nasceu aqui. Vendo o desemprego, vendo o fim de sonhos, vendo o abuso com que as pessoas infligiram sobre toda a juventude. 

        Guerrilheiros ou políticos profissionais. Não quero sonhar em desistir, mas quero ver que o mundo é nojento e mais nojento ainda é acompanhar a violência com que infligiram ao nosso futuro. Os velhos penhoram nosso futuro, e seremos que pagaremos tudo. Desculpem, meus filhos, devia ter lutado mais para vocês fossem mais felizes do que eu.

sábado, 9 de abril de 2016

Por novas eleições

       Faz anos que não escrevo sobre política, desde 2014. Mesmo assim, me vejo obrigado a responder as minhas inquietações com esse texto: O Brasil naufragou sem mesmo zarpar do porto. Era  um desastre anunciado, desde 2013 a situação brasileira não correspondia mais aos anseios da sociedade.
       Culpabilizo o governo por ter ignorado o apelo popular por reformas em 2013, sobretudo na parte de combate à corrupção, ao aumento de incentivos na parte da saúde e educação. O resultado foi um total desrespeito do governo ao apelo popular por melhorias estruturais no sistema democrático.

      Em uma tentativa falha de minimizar os ânimos populares, o governo procurou promover um pão e circo às avessas, ao invés dos pobres, o governo tentou afagar os ricos com a Copa do Mundo, pacotes de incentivos e investimentos setorizados. 

       Reconheço que no campo social, houveram avanços importantes, sobretudo no plano da habitação e do combate à fome, mas não sejamos inocentes, todos os programas de incentivo dados pelo governo, seja redução  do Imposto de Produtos Industrializados, para incentivar o consumo, seja os semi-planos quinquenais (como PAC 1 e PAC 2), e crédito subsidiados, serviram apenas para alimentar ainda mais a ilusão de uma "burguesia nacional". 

      Digo ilusão porque na globalização, não existe mais esse conceito de burguesia nacional. Na verdade, nunca existiu, assim como os "proletários não tem nação", segundo o próprio Marx, o Kapital também não possui qualquer vínculo nacional, assim como a burguesia. É um erro acreditar que todo o dinheiro conseguido mediante a lucro tenda a ficar pulverizado em toda a sociedade.

     O ovo da serpente foi o governo ter virado as  costas para  todos, para o desemprego que crescia, para inflação que explodia, ignorado que havia problemas fiscais sérios e que a população estavam insatisfeita com os rumos da nação. Poderão dizer quem em 2013 ninguém sabia o que ia acontecer, eu desminto, Todo mundo sabia o que ia acontecer, estava anunciado. Não foi à toa que todo mundo foi para a rua. A classe política tem a tendência de desconstruir o papel proativo do povo, rotulá-lo como ignorante ou incapaz de consciencia política. Sou franco, o povo é imaturo, mas não ignorante.
Todo mundo tinha ideia que havia algo errado em 2013, inclusive o governo.

     Em 2014 tivemos aquele espetáculo de horrores que foi a eleição de 2014. Foram talvez as piores eleições do período pós-redemocratização. Como o voto no Brasil é obrigatório, observamos que havia três candidatos fortes no páreo:

       Dilma Rousseff tentando a reeleição com índice de rejeição altíssimo por causa das suspeitas de desvios na Copa, a economia dando sinais de desaceleração e falta de credibilidade política. Aécio Neves, candidato de segmento neoliberal, sem qualquer expressividade fora de Minas, com alta rejeição inclusive no próprio estado de origem, com um projeto de reformas que desagradava boa parte da população. E Eduardo Campos, que tinha uma visão diferenciada do processo, em que queria manter os progressos sociais do lulismo com as reformas necessárias no âmbito fiscal e político naquele momento.

       Eduardo Campos morreu num acidente aéreo pouco explicado. Marina Silva assumiu e praticamente dissolveu as propostas de Campos,  Aécio e Dilma acabaram vencendo o primeiro turno, e o espetáculo de horrores se anunciou. Quem votou na Dilma, prioritariamente votou contra o Aécio. Quem votou no Aécio, não queria a Dilma. Esse é o maior problema do voto obrigatório, as pessoas não tem a liberdade de se recusar a votar nos candidatos com alto índice de rejeição.

      Mesmo assim a quantidade votos nulos disparou, mas não foram contabilizados como votos válidos. Nisso chegamos ao aspecto acirrado, de uma eleição apertada de 51% dos votos para Dilma Rousseff contra 49 % para Aécio. Dilma pode ter ganho as eleições por 2 pontos percentuais, mas não saiu vencedora. 50% do país não queria a Dilma já em 2014.

     O maior problema de 2014 é que a economia já estava indo mal, mas o governo optou por segurar a situação financeira do país, emitindo títulos, segurando os juros, o preço das commodites básicas inflacionárias (como o combustível), e mantendo uma política de crédito já comprovadamente falida. Nada mais natural, o governo queria se manter. O problema que no segundo semestre de 2014 já havia relatórios econômicos mostrando o cansaço da economia brasileira, sobretudo porque o consumo não estava acompanhando o aumento da renda, a inflação começou a subir devido a problemas crônicos na produtividade brasileira e na sua questão logística. E em dezembro de 2014 foi o desastre fiscal, a bomba estourou.

    O governo fugiu da sua meta fiscal, era para ter crescido por volta 25 bilhões a 30 bilhões, ficou com deficit maior de 100 bilhões de reais. Foi o maior tombo da bicicleta em um único ano. De modo que não houve repasse de verbas para programas sociais, como o Bolsa Família, e os bancos estatais tiveram que custear esse encargo sozinhos. Deixando-os em situação financeira delicada, sobretudo a Caixa Economica Federal, o governo só conseguiu pagar as dívidas com os bancos públicos no final do ano passado. 

     A acusação que pesa sobre a presidente não é sobre corrupção, até porque não há acusações concretas contra Dilma (há contra gente do alto escalão do Governo, inclusive o caso do Lula é dramático, mas não me soa uma novidade), mas sobre o crime de responsabilidade fiscal e mais do que isso uma possível improbidade administrativa, porque se utilizou instrumentos financeiros do Estado para manter uma situação favorável para o governo nas eleições. Onerando o Tesouro Público e deixando em situação delicada empresas estatais.


     Empresas estatais, veja o Caso Petrobrás, a maior companhia petrolífera estatal do Mundo sob a acusação de desvios, superfaturamento de obras, esquemas de Caixa  2, cartel, dumping, e problemas sérios de gestão (sobretudo a questão da Refinaria de Abreu e Lima e Pasadena). No início de 2015 a justiça norte-americana levantou indícios de possível fraude na compra da refinaria de Pasadena pela Petrobrás, nisso a Operação Lava-Jato já estava atuando e descobriu novas irregularidades no mandato de Graça Foster no comando da Estatal. Graça Foster caiu, descobriu-se então outras irregularidades e esquemas de corrupção no mandato do ex-presidente da companhia Gabrielli, amigo pessoal de Lula.

     A toda semana foram se descobrindo novas evidências, algumas que se comprovaram ser falsas, outras que levaram a prisões, como a de Cerveró, Bumlai e Delcídio Amaral. O fato que se o governo já não estava com uma popularidade alta logo depois das eleições, com a descoberta de esquemas de corrupção na Petrobrás e a "pedalada fiscal" com os Bancos Públicos, o governo perdeu ainda mais popularidade.

     Nisso se soma as impopulares (e necessárias) medidas do ajuste fiscal, me desculpem os petistas, mas Dilma fez tudo o que prometeu não fazer, aumentou os impostos, mexeu nos planos de aposentadoria, aumentou os juros, mudou as regras do seguro-desemprego e retirou investimentos no Bolsa Família e do Minha Casa Minha Vida, Ciência sem Fronteiras entrou numa situação financeira delicada, e não obstante, a dívida publica do Brasil dobrou com a explosão do dólar que aconteceu nesse ano. O poder aquisitivo brasileiro caiu (embora ainda seja maior do que foi em 1998) e o desemprego voltou a crescer, a juventude perdeu seus sonhos e teve o ajuste fiscal do Levy.

     Levy, para o mal para o bem, estava fazendo tudo o que o mercado queria, a um ritmo lento devido às próprias questões políticas do governo com a base na Câmara e no Senado. Acabou que nenhuma das medidas surtiu efeito, não por despreparo do ministro, mas porque o Brasil não tinha credibilidade para levar a frente medidas tão impopulares com a presidente. Nesses momentos difíceis a arte do convencimento de um bom governante faz com que se superem as adversidades mais fácil, os estrangeiros não tem a percepção, mas Dilma não é popular, não tem carisma, e pior ainda, não tem jogo de cintura para esses problemas. O maior problema da Dilma é não ser o Lula.

     A inflação estourou a niveis catastróficos de quase 10%, a política de juros chegou a absurdos 13,75%, o maior índice de todas as vinte maiores economias do mundo, o poder aquisitivo brasileiro caiu para um 1/3, o câmbio em relação ao dólar que chegou a R$ 1,66, foi para R$ 4,15 em menos de um ano e meio.

     Economicamente falando foi um desastre, e a culpa foi a indecisão do governo de fazer o que era necessário. O necessário era renegociar a dívida pública que praticamente triplicou, manter uma folha fiscal estável e elevar impostos não sobre o consumo, mas sobre a renda. Nada disso foi feito.

     Não  há milagre nem New Deal que resolva isso. A oposição que tinha praticamente desaparecido na época do Lula (o PSDB quase desapareceu), ressurgiu mediante a insatisfação popular, e os antigos apoiadores do governo se desiludiram com as constantes denúncias de corrupção,as atitudes equivocadas uma atrás a outra da presidente e o próprio ajuste fiscal. 

    Brasil como bem se sabe, não é para amadores. A oposição é neoliberal, mas não é direita de verdade, e sim social-democrata. O  governo se diz de esquerda, mas suas atitudes tem mais a ver com a ideia de um capitalismo estatal cepalino do que qualquer projeto de esquerda. PT deixou de ser partido de esquerda em 2003, na minha opinião, e muitos ex-militantes pensam da mesma forma. Agora o partido corre o risco de ser esfacelado com a grande impopularidade da Dilma.

     A solução do impeachment mediada pelo PMDB francamente não resolverá nada, o PMDB foi o condutor do processo de redemocratização, participou de todos os governos de 1985 até agora, e esteve  entranhado no projeto do PT por 14 anos.  Está envolvido nos erros da política econômica, está envolvido nos esquemas de corrupção, e logicamente é tão impopular que não conseguiria eleger um presidente sozinho. Como maior partido do Brasil, ele é o mais heterogenero da República, e o mais confuso. Um governo do PMDB seria um desastre.

     Não acredito francamente que o impeachment seja um golpe, basta a leitura rápida de Locke, para perceber que quando um governante não tem mais o apresso do seu povo, é lícito que seja deposto, até mesmo pelas armas. Desejo profundamente que não se use as armas e sim os limites da justiça, mas impeachment é um processo natural previsto na Constituição e nascido em todos sistemas democráticos. Nós temos direito de retirar um governante quando não queremos mais, é errado termos que esperar mais dois anos para que se possa se fazer um reajuste político convincente.

     Se tiver que esperar mais dois anos, haverá uma guerra civil. Eu acredito realmente nisso, isso se não tiver golpe de verdade, com armas, tanques e mortes.  A única saída realmente sábia são novas eleições gerais, imediatas, mediante a um plebiscito com o povo. O poder emana do povo e deve-se manter com o povo, os representantes hoje estão tão dissociados da sociedade que não podem mais responder por ela.

    Antes que digam que goste da oposição ou do governo, convoco-lhes ao pensamento, só há realmente dois projetos antagônicos para esse país? Será que não estamos pensando pequeno demais ao esperar desses políticos caducos, com projetos políticos da Guerra Fria, possam ser extirpados sem que produzamos nada de novo. Acabou para mim a Quarta República brasileira no momento que se admite que o diálogo não pode produzir mais nada, e apenas o ódio mútuo ser aspecto reconhecido da política.

     Maldito seja o governo que deixa o seu povo sofrer com sua própria incompetência, e  maldito seja o povo que deixar se iludir por sua própria infragilidade. Não podemos mais esperar que o mundo resolva fazer algo por nós, a Democracia brasileira só será feita diretamente pelo povo, e não por políticos profissionais que há 20 anos espoliam o nosso país com falsas promessas.

     Novas Eleições imediatas! Plebiscito! E se necessário nova Constituição! Apenas isso salvará o que ainda resta de democracia nesse país.

Do ódio

      O ódio é a encarnação de todas as nossas corrupções e preconceitos sobrecarregados pelo medo ao diálogo. Quando odiamos uma pessoa, observamos que apenas o domínio psíquico da cognição reflete uma repulsa imediata da pessoa, elevando os níveis de estresse, aumentando o batimento cardíaco e dilatando as pupilas. Entramos em posição de batalha.

     Isso pode ter haver com os nossos ancestrais pré-históricos, que em disputas territorialistas e depois tribais, marcavam território com brigas e embates cada vez constantes. Hoje estamos numa postura similar, o que demonstra que o ódio é um resquício inato do ser humano. Ao contrário do amor, todos nós odiamos alguma coisa: Seja uma cor, uma comida, uma música ou uma pessoa. Há sempre alguém para odiar.

     Odiar é humano, antes de qualquer coisa. Não é uma geração emocional saudável, porque produz inimizades desnecessárias. Mas pensemos, o ódio não é produto de incompreensão? Quando penso em termos políticos, com certeza, mas em relações interpessoais também. O ódio surge quando a sua raiva ou a sua repulsa se torne tão cega que não há possibilidade de agir de forma educada ou cordial com alguma pessoa. Sejamos francos, nós sabemos ou não sabemos o que odiamos?

     Tendo a pensar que ignorância acaba criando o medo e a animosidade, depois disso surgem o preconceito e outras carestias. Entretanto, é possível odiar uma pessoa conhecendo-a muito bem, ou aja vista que ex-namorados não podem acabar se odiando? Ou irmãos e amigos?

     Confesso que tenho ódio de pessoas que no passado julguem por amigos, tanto por suas práticas questionáveis, quando por questões políticas. Especialmente agora que os ânimos estão sobrecarregados, amei e desamei muitas mulheres. Agora, pergunto, é possível superar o  ódio?

      Tendo a refletir que não. Que o ódio é uma característica inata aos seres humanos, e mais do que isso, um elemento de intolerância e cegueira do ser humano que é indiscriminadamente utilizado para formar sistemas de opinião, conceitos, e ideologias políticas. Ele é o maior aspecto de desvalorização do seu semelhante e de criação de animosidades.

      Não posso aqui vir fazer a apologia do  amor ou do pacifismo, pois não acredito em ambos. Mas pensando bem, é preciso ter ódio irracional? Desconhecer o seu próprio oponente é imaturo e complicado, sejamos francos, há motivos concretos e reais para exercer essa postura de animosidade?

      Raciocinar as nossas emoções não é fácil, mas devemos superar os pensamentos irracionais e impulsivos que estão nos movendo em tempos difíceis. Filosoficamente, estamos pouco maduros para compreender a imensidão do mundo e das pessoas quando deixamos de observar e ensaiar as discussões de forma saudável. Contra isso que deve ser combatido o ódio, apenas para retirar a ignorância de nossos olhos.

terça-feira, 29 de março de 2016

Número imaginário

Número imaginário

O quadrado da hipotenusa
Não descreve o calor do momento
Que foi ter você junto ao meu peito


O ponteiro do relógio
Perdido no devaneio
Desconhece o tempo do nosso beijo

Nem mesmo o botânico
Consegue identificar
Que flor é essa
Que rouba meu coração


O filósofo na verdade
Deixa de escrever a tese
Para ver de soslaio
Tudo o que vejo


Quando estou apaixonado
Fico tão lúcido quanto cego
Mas mais do que isso
Imagino nosso futuro longe de você


Quero somente tomar de novo o seu beijo
Beber um pouco do seu doce mel
E sentir o  seu corpo incandescido j

Matemática do amor




Num traçado de uma tangente
Um matemático meio demente
Descreve uma equação inconsequente


Dentre os pequenos cálculos
Puxa na saudade dos números
Encontrar a felicidade da cara-metade
Como se isso fosse uma tenra novidade

Calculou que a soma dos quadrado dos catetos
Era igual ao quadrado da hipotenusa
Mas por uma inocente maldade
Imaginou o coração como um triângulo

Um triângulo que batia em três lados
Um lado era da paixão, que saia no piscar de um olho
Outro lado era o da fé, que era cego como um porco
E o terceiro era do amor, perdido na poesia

Pois bem, descobriu o coração rachado
nos três lados. Beijou o quadro com o giz
Calculou o tempo de um piscar de um olho
Calculou o tempo de uma missa de fé
Mas e o amor?  Como se calcula?


Hipoteticamente, não há hipotenusa
O matemático sem esperanças
Rasgou os papéis e saiu da sala descontente
Até que quando se deu conta

Se apaixonou pela ideia de ser  matemático de novo

sexta-feira, 11 de março de 2016

O melhor do recomeço é a renovação da esperança

         Queria ter tido mais esperanças que fosse dar certo, queria ter me contido quando pude, e não ter me entregado de corpo e alma aos seus braços. Queria ter beijado ainda seus lábios, se soubesse que os perderia numa prosa de minuto. Queria ter te desejado menos do que te desejo nesse segundo.

        Estou sozinho e amargurado, e toda vez que olho sua foto, bate mais calado o meu coração. Estou tão abatido e sem felicidade, que nem fome mais tenho, nem mais desejo quero ter, nem batuque perdido quero ouvir. O vento que suja meu rosto de pó, esfarela meus lábios secos e deixa negro meu coração. Petrificado, puxo de lado um tabaco e penso em voltar a fumar. Mas não, a fumaça não me irá fazer esquecer do que sinto no momento,

       Não tenho esperanças nesse recomeço, nem quero que saiba que te amo, pois odeio a mim mesmo por ter começado a te amar. Estou sozinho novamente no mundo e isso me entristece, principalmente porque poderíamos ser felizes diante os desafios do mundo. A síndrome de patinho feio que hoje me corrompe, faz com que eu chute a lata de alumínio na calçada e xingue os transeuntes na calada da madrugada. O terno nas minhas costas todo amarrotado, e a barba por fazer.

       Eu te amava, moça. Mas a felicidade é um bem que não se compra, e se comprasse não seria um luxo que gostaria ter, você me mostrou o relâmpago de endorfina quando dormia ao seu lado, no frio da noite, e quando roncava. Sim, você roncava. Inquietude, me sinto tão inquieto por nunca mais poder te ver, que dói escrever o que eu escrevo. Acredito que você nunca acreditou no que disse, e se acreditou, ficou com medo... Poderia ter desejado me jogar desse abismo, onde nunca mais haveria de ser encontrado, mas ainda assim amargurado, desejo me encontrar longe de ti. Eu que amo e me despeço , hoje deprimido, me encontro longe, olhando para esse lago sujo de tanto clamor.

      Meu terno hoje puído, meu rosto sem rosto, meu amor sem coração. Você me disse para encontrar alguém, mas como encontrar alguém se estou tão perdido quanto você? E que recomeço mais torpe do que acrescentar que hoje vou emagrecendo e perdendo o fôlego com o passar dos dias. O desânimo que me consome, hoje me liquida nessa tarde, e sem qualquer afeto, respiro amargurado o ar quente da janela do meu quarto.

      Cacoetes à parte, acabou meu sigilo. Desejo manter sustenido o  que sinto o que sinto. Pois nesse agito, vejo o que vejo como gole grogue de absinto.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Proscrito

        Eu te perdi, como a gente perde uma chave. Como a gente perde a esperança, ou quando a gente perde uma amizade. Perdi por distração, perdi por ter  esquecido de ficar calado. Mas não te perdi completamente de uma vez, mas aos poucos, onde todas as noite fugia de meus medos e me acolhia no calor de seus braços. Deixei você agir como minha irmã, cuidar de mim como uma mãe, e me consolar como amiga, mas você só tinha que ser minha namorada... Era o que eu queria.

      Mas não podia. A verdade é que não sei se podemos pensar sobre isso, afinal não é uma opção válida. De todos os meus medos, de todos os meus martírios, desistir de você me deixa cada vez  mais triste, mas cada vez mais calmo. Taciturno, titubeio sem imaginar que o mais cego dos amores é o mais pleno dos desastres.

     Me apaixonei no desatino de um minuto, num passo de segundo. Apaixonei tão intensamente que foi como ser atropelado por um trem, e hoje esse vento, cada vez mais violento, me insulta com palavras injuriosas enquanto escondo minha lágrima no fundo do coração. É mais uma entre várias, de um coração partido que foi remendado às pressas e que não bombeia mais com a mesma força de antes.

       Desisti de ter resposta. Desisti de minhas perguntas... Fisiologismo meu pensar que te amo, afinal somos tão jovens e tão tolos. Não, você é mais madura do que eu, mais esperta e inteligente. Nunca vi alguém assim, e nunca mais encontrarei. Te perdi com mais dor por causa disso, mas tolice. Tolice minha, amei sem esperar.Amei com pressa de ser amado, amei amargurado.

      Silêncio. Adeus, soneto... Hoje é um dia triste para os meus olhos, mas é um dia que irei baixar a cabeça para elevá-la depois. Cabeça erguida, vai demorar para conseguir, mas desisti de correr atrás de algo que nunca vai acontecer. Soneto do abandono,,, Eu te amo no desassossego dos meus olhos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Chuva

       Beija os meu pés o mais gelado dos lábios, que é o chão molhado com os pés descalços. E longe de sentir-me incomodado, abraço a chuva que cai do céu e sem cerimônia enxarca meus cabelos de água límpida e transparente enquanto venta preguiçosamente as minhas roupas contra a direção do ar.

      Desejo me encolher nesse escuro que faz hoje a noite, e me sinto especial ao imaginar na sombra dessa escuridão o filete de felicidade sincera... Uma tromba d'água cai sobre meu corpo, e preenche minha alma, mas eu hoje não sei porquê. Me sentia antes tão perdido na chuva, que mordiscava o seu tempo com ódio mal-disfarçado, mas hoje me esforço a beijá-la e bebê-la com os lábios entreabertos, entardecidos de tamanho despojamento. 

     Minha capa está completamente ensopada, meus sapatos deixaram entrar água que agora foi direto para a minha meia. A roupa não irá secar no varal, meu carro vai ficar todo sujo, e sim, provavelmente estarei com sono daqui a pouco. Mas como gosto do barulho da chuva que bate na telha e tece sobre mim um doce cântico junto ao meu ouvido... Não é um cântico lamentoso, ou mesmo carregado de alegria, mas um monotono tintilar que me faz lembrar de quando era criança e gostava de dormir na chuva.

      O poste perto de casa se apagou, em meio à ventania os cabos de energia balançam, mas eu não temo absolutamente nada. Depois de um tempo, você se acostuma a olhar a chuva como algo redentor e, por quê não, salvador. Possuir a chuva é um desejo que nem chega a ser profano, nem divino, mas uma aventura colegial. Afinal, de suas águas nada tenho senão a que molha meu corpo e enxarca minha alma.


      Nessa chuva, é bom tomar um bom chocolate quente, ficar envolto nas cobertas e assistir um bom filme. Com uma companhia, bem, seria perfeito...Mas afinal, o que me falta na chuva, acho que só a sensação de vê-la caindo na terra, pulverizando longas distâncias e alimentando todas as árvores e folhas. Os rios e lagos cada vez mais cheios, a vida cada vez mais colorida, e o mundo cada vez menos inseguro.

       Chuva é uma obra desse pequeno planetinha que demonstra o real valor da vida, pois me lembra da agonia que a seca representa para todos os infelizes lobos do deserto. As estepes se prolongam, mas tardam a desaparecer quando a água começa a cair, e nisso, estou contente, em dizer que já esperava me perder nessa narrativa, mas quem disse que quero me encontrar senão no meio do temporal que cai lá fora?
     

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Retrato

           Olho para o seu retrato hoje sem saber o que fazer. A maquiagem que cobre o seu rosto bronzeado, ressalta os seus oblíquos olhos cor de mel tendendo ao esverdeado pelos quais eu me apaixonei. Foi ao olhar os seus olhos que encontrei a sorridente menina por quem me atraí perdidamente. 

           Quando você joga o seu cabelo para o lado, solto e livre, com as luzes nas pontas, torno-me a sentir o modo como você irradia por onde passa, tal como sol alimenta as sementes do campo, e dá vida às árvores. Há um tom delicado no seu modo de agir que me faz sentir negligente em não encontrar adjetivos mais rebuscados que combinem com o seu nome.

            Aqueles dentes graciosos, sorridentes e sempre tão esbranquiçados me dão uma série de nervosismos quando pronunciam o meu nome com voz delicada. Afinal, sua boca e eu  cada dia nos conhecemos mais, desde sua língua com gosto de mel, aos lábios molhados com o mais doce néctar das flores. 

          As bochechas, ligeiramente roseadas se prolongam até que encontram o seu pequeno pescoço, no qual me aventurei a explorar num dos nossos momentos mais despojados. E você que fechava os olhos e falava a meia  voz, me entretia com o seu soluço ligeiramente animado, onde nossos corpos se encontravam, como dois imãs se atraem diante a atração de seus pólos. Chega soltavam faíscas.

         Sinceramente, eu  sei que você deve pensar algo a respeito. Não é possível ser tudo o que falo obra da minha imaginação, nem tampouco o arrepio do seu corpo diante ao encontro de seu lóbulo com os meus dentes, nem muito menos as suas reações eufóricas quando redescubro novamente o seu corpo cada vez mais desconhecido.

        Sorrisos ardentes, abraços apertados. Mesmo diante a diferença de altura, você se esforça para me alcançar, enquanto me dobro para alcançar os seus lábios. Nós nos divertimos muito, é verdade. Temos uma energia tão forte que é capaz de iluminar uma cidade inteira.

          Não que eu não te ouça, ou que não te veja. Mas eu te sinto. Sinto como uma extensão minha, uma parte de mim feminina e completa, que sabe e decide o que quer, que me corrige quando eu estou errado, pois você sempre estará certa aos meus olhos. Ainda não brigamos, ainda não discutimos, por isso estamos às mil maravilhas.

          Afinal, quando os problemas chegarem, o que será de nós? Quando as pessoas começaram a atrapalhar o que sentimos um pelo outro, afinal, como agiremos? E se as minhas tolices atrapalharem tudo? Eu não sei, mas eu quero descobrir isso tudo com você se me permitir. Dividir suas experiências e inquietações, esperar que venham os dias bons e superar os dias ruins.

            Pessoalmente, às vezes sinto que poderia fugir contigo. Mas tenho os pés no chão a tempo suficiente para não ser precipitado. Afinal, o que temos nós que me sinta tão bem comigo mesmo? Será porque eu te ouço e entendo, ou será vice-versa? Será que eu me preocupo de tal forma que me torna cada vez mais insistente a vontade de ficar contigo? Ou será que minha agonia seja nunca querer soltar você por mais de um segundo?

               Decida o que decidir, eu estou perdidamente apaixonado por você. E perdidamente, com grifo. Não que eu não esteja ciente das coisas que podem acontecer, mas porque eu seja tão caduco nas desventuras da vida, que mereça decidir me apaixonar por quem eu quiser, sem julgamentos, imposições ou uma série de equívocos que mordiscam toda a vontade sincera de todos os relacionamentos. Eu te amo, mas amo sem te prender. Com moderação para não te sufocar, e espero que entenda isso num desses dias, ou noites quando estivermos juntos e não falarmos nada.

Entediado



Hoje é uma daquelas tardes preguiçosas de domingo, onde nunca desejo sair da minha própria cama. Pela janela fito a mangueira que cresce robusta no terreno do vizinho, que vagarosamente se arrasta ao passar do vento no céu azulado.

           Olho para o azul do meu quarto, fito a parede em frente à minha cama tentando reconhecer um rosto no meio do tom pálido dos tijolos pintados. Meus casacos pendurados no cabide estão de testemunha, além da bagunça despojada de roupas ao redor da cama. A televisão continua em stand by, esperando para que eu assista um filme, ou procure uma série na Netflix, mas não hoje.

Tentei jogar no videogame pela manhã, mas a agonia do coração me tomou de uma forma tão sujeita que tive que tomar um tempo para mim mesmo. Se eu amo, amo intensamente. Se detesto, detesto completamente. Nisso meu amor é napoleônico, deixo isso para mim mesmo. Mas megalomaníaco em coisas amorosas, tento procurar no espelho o seu reflexo e não encontro.

Onde está você, porque não te encontro? Na poesia de tantas formas eu encontro o seu corpo, lânguido e sinuoso a beijar meus lábios no calor de sua cama, com o seu sorriso sempre branco, e os olhos sempre tão coloridos. Sinto vontade de bagunçar o seu cabelo, ver a sua reclamação no pé do ouvido e morder-lhe a ponta dos seus lábios.

Brincar com o seu nariz me diverte assim como cheirar o seu pescoço perfumado. Suas roupas, bem, depende. Não sou fã dessa naftalina que coloca no armário, me faz sentir meio velho. Mas na nudez sutil de seus ombros imagino o olhar adolescente que sai dos meus olhos quando a vejo. Você sente medo que eu te devore, mas creio ser tão gentil, que você se diverte com o meu rosto.

Na noite você roubou a minha coberta, passei um pouco de frio, mas não reclamei. Estava abraçado junto ao seu corpo quente. Vislumbrei na sua estante um livro de cabeceira, desde então ele não sai da minha cabeça. Inferno... Era esse o nome, e imagino que o inferno deva ser assim, ficar longe da pessoa amada, olhando para uma parede na tarde preguiçosa de um domingo.

Eu não sou dado a detalhes, mas as vezes lembro de como você amarrava o cabelo, colocava o brinco, ou brincava de fechar meus olhos. E os seus gritinhos em meio aos sorrisos, no calor de um silêncio pausado, sinto que sou o que sou, mais contente e feliz contigo. Você me faz tornar a ser o que tinha perdido, uma inspiração antes de mais nada. Mas te desejo, não porque te ache bonita, mas te ache decidida, mesmo que esteja indecisa, que te ache segura mesmo no meio de sua insegurança, e completa mesmo no frio de sua solidão.
O seu quarto é quente, menor do que o meu. Mais pardo, e brando. Tem um espelho, o qual o olha como um tique, ou uma claquete, no seu estrelismo narcisista que se torna encantador para quem te conhece melhor. Sobre homens que te desejam, eu sinto que eu fui o mais franco, mas meus enigmas deixam-te confusa quando não consigo encontrar respostas às suas perguntas.

Preferia escrever em terceira pessoa, escrever um conto sobre uma jovem heroína que sem querer me tirou desse marasmo de esquecimento. Mas não consigo fazê-lo. Eu acho mais justo com meu próprio consciente escrever-te uma carta que nunca será lida nem enviada.

No frio da chuva, encolhidos nos bancos estofados, eu fitei o vidro  embaçar... Naquele vidro embaçado você escreveu uma pequena frase em francês com a mão... Je t’aime .

Estava frio, o limpador de para-brisas balançava. As árvores trelimicaram enquanto o lago ficava revolto. Se eu pudesse, teria feito amor contigo ali... Mas não, o desejo tem que ser controlado, pois o que temos não é luxurioso ou algo depravado, mas algo simples e porque não tão banal?

Nossa relação ainda está no começo, e tenho minhas dúvidas do que você realmente deseja. Não sei como me portar ou agir, se estou nervoso é porque é algo novo para mim.  Mas não quer dizer que eu seja um covarde, mas quer dizer que eu quero fazer tudo direito; Olho para o meu celular, sobre a cama ainda bagunçada... (Meu Deus, são 13:30) e espero ainda uma única mensagem sua no Whatsapp. Saber se você está bem ou só querer falar um pouco contigo, mas estou tão completo de dúvidas que desejo ficar quieto por mais um tempo. Mas o nervosismo me consome.

As horas passam na badalada de um minuto. Minha cabeça fica a mil, e não sei o que pensar nesse minuto. Será que você não me ama, ou será que tudo é uma ilusão. A grande ilusão. É tudo tão simples e ainda assim tão complicado, um mundo cheio de regras para as pessoas que não querem ser rotuladas.

Eu te amo intensamente no meio desses silêncios, pois traduzem o que sou em parte. Inquieto, e cheio de calafrios, mas ainda assim intenso. Posso ser tímido às vezes, ou muito teimoso, mas quero que saiba que não é por mal. Mas por te amar um pouco, escondo o que te junto a mim.


No fim, quero que saiba que isso são  só palavras. Tolas palavras de um homem que ainda tem uma paixão adolescente, e que sem querer deixou isso vazar, um seguro segredo. Não sei se é mais seguro o afastamento ou a indecisão, mas fico com a agonia de pensar que esse tédio vai ser arrastar por mais um segundo.

sábado, 6 de junho de 2015

Entre a cegueira e a mediunidade

        Pensar no papel ideológico irrefletido dos movimentos sociais atualmente é pensar o próprio futuro da esquerda no horizonte político logo à frente. Na esteira entre o colaboracionismo e a verdade, muitos dos hoje militantes, jovens entusiastas da causa socialista hoje são tomados pelo ligeiro sentimento impensado de simples ódio contra as estruturas sociais constitutivas da sociedade. Um ódio não racionalizado, ódio por ódio que muitas vezes chega a ser infantil.

     Infantil digo, não para desqualificar as naturezas do movimento estudantil, que muitas vezes é bem planejado e executado, mas infantil porque é tomado por um esquerdismo incoerente com a própria disciplina revolucionária. Lenin, em 1920, no capítulo 2 de seu pequeno ensaio, Esquerdismo: Doença infantil do Comunismo, destaca: 
"Hoje, sem dúvida, quase todo mundo já compreende que os bolcheviques; não se teriam mantido no poder, não digo dois anos e meio, mas nem sequer dois meses e meio, não fosse a disciplina rigorosíssima, verdadeiramente férrea, de nosso Partido, não fosse o total e incondicional apoio da massa da classe operária, isto é, tudo que ela tem de consciente, honrado, abnegado, influente e capaz de conduzir ou trazer consigo as camadas atrasadas. "

      A disciplina com o esforço revolucionário é um compromisso incondicional e consciente do papel da esquerda na sua luta para a transformação social, do qual não se devem eximir sacrifícios, um verdadeiro revolucionário deve estar consciente de seu papel como tal, deve estar pronto para a linha de choque e estar bem consciente dos riscos que a causa socialista impõe, de modo que a carreira política de um militante de esquerda não é fácil e não é um mar de rosas como alguns imaginam.

   Quando se toma para si a bandeira militante deve-se ter consciência de três eixos: Dedicação, inteligência e capacidade de adaptação. As situações na esfera social impõem que o individuo militante  deva se eximir de uma série de reclamações e complexos de coitadismos para optar a sua defesa ideológica de maneira coerente, deve ter a inteligência suficiente para compreender a dinâmica do processo e ter percepção sensorial para utilizar a série de insatisfações sociais que possam conduzir a um esforço coletivo justificado, e mais do que isso, ter jogo de cintura para saber lidar com os próprios problemas cotidianos no seio do movimento.

   Os estudantes devem antes de mais nada, ter uma visão ampla, e não uma visão limitada às universidades e rodas de discussão estudantis, que no fundo são inúteis, afinal de contas são pouco deliberativas e defendem questões, muitas vezes do plano prático. Se os estudantes querem manter sua essência revolucionária devem aprender a ouvir o povo, lidar com o povo,  e saber conversar com a classe trabalhadora. 

    Os estudantes são imbuídos de uma arrogância absurda frente aos trabalhadores em dois aspectos: O primeiro é em desconsiderar o conhecimento previamente estabelecido desses indivíduos no que considera a suas reivindicações principais, laborais e cotidianas; E a segunda, não menos importante, é se considerem completamente cientes do que está em jogo e se considerarem espertos o suficiente para conduzir uma luta cuja força está nos trabalhadores, e não numa dúzia de "corujas eruditas enrustidas de operários".

   A força de todo movimento está com os trabalhadores e é obrigatório a todo militante saber compreender seus dilemas diários, seus problemas e seus objetivos no que concerne aos seus próprios direitos laborais. Os trabalhadores sabem sim e tem plena consciência de seu papel na sociedade, devemos parar de ser tão cegos ao ponto de acreditar que depois de cem anos após a Revolução Russa que o estágio de alienação do trabalhador industrial continua o mesmo de 1917, as pautas do movimento operário hoje são bem diferentes das pautas daquela época porque os fins são outros.

   O que os erros estalinistas e maoístas ensinaram é que a esquerda deve ter a humildade de reconhecer seus próprios erros e fazer sua autocrítica de maneira eficiente, mas a autocrítica também não pode beirar ao assembleísmo irracional e inconsequente, porque a despeito de tudo, o socialismo deve ser pautado também por termos de eficiência e não por discussões metafísicas sobre o papel do proletariado e da vanguarda revolucionária na sociedade capitalista pós-moderna.



     Afinal de contas, a despeito do pós-modernismo ter alargado o espaço de discussões no movimento socialista internacional, sobretudo nas questões sexuais e étnicas, ele por vezes acaba retirando o foco do espaço de discussões do movimento socialista justamente pelo o excesso de críticas e questionamentos das "verdades absolutas do socialismo". Todo movimento político tem verdades absolutas. Isso é inegável, porque uma ideologia é um construto social baseado em grandes verdades previamente fixadas, se houver um excesso de questionamentos filosóficos, o movimento em si é desmoralizado.


     Com isso, eu não estou declarando que o militante deve ser um indivíduo acéfalo, pelo contrário, reafirmo, deve ser bem inteligente e capcioso, deve compreender qual é o seu papel no movimento e criticar a própria liderança quando for necessário. Nisso entro na discussão do que é cegueira política. Tal como George Orwell certa vez destacou na sua crítica ao stalinismo, e sobretudo no movimento stakhanovista, o excesso de fé na causa e na liderança é um desvio gravíssimo de qualquer maneira. Na vida, deve-se aprender a desconfiar até da própria sombra, nunca deve-se confiar, sobretudo em alguém que lhe dá ordens. As lideranças são as partes mais propensas aos erros, pois apesar de terem visão geral do todo, são cegas às particularidades.

      Siga sempre o seu bom senso antes de tudo, nunca se deixe tomar completamente pela tolice de seguir cegamente a liderança. É contraditório com o que os escritos marxistas estabelecem? Sim. Mas nunca é demais desconfiar do outro, a humanidade é falha por natureza.

      Cegueira. Um ensaio sobre a cegueira. Dos erros da militância: 1) Acreditar que mudará o mundo sem muito esforço. 2) Acreditar ser dotado de mais consciência de classe do que os seus pares. 3) Ignorar os anseios da classe trabalhadora. 4) Dotar-se de arrogância injustificada no seio do movimento. 4) Exercer desmedidamente a autocrítica de forma exagerada. 5) Ser cego às falhas dentro do próprio movimento.

     Acho que me esqueci de uma dúzia de trechos importantes.


     Um deles pode ser sobretudo com relação ao individualismo dentro do movimento social. Individualismo nas proposições de determinados grupos, que anseiam apenas mais direitos a setor particulares do que o todo, devemos enfatizar que é obrigatória a igualdade de direitos, a despeito do gênero, credo ou raça. Não podemos fazer distinções simplesmente por divisões históricas, ou dívidas sociais construídas pelo preconceito social, devemos promover é equalidade de qualquer forma. Irrestrita e geral. Direitos iguais para todos.

      A outra é sobre a questão do ódio. Ódio sim, porque muitos não sabem dosar o próprio ímpeto e estão se deixando levar por esse desvio de caráter. A militância não é lugar para ódio pessoal, tenha consciência disso, um revolucionário profissional sabe bem como utilizar o ódio de maneira racional, mas você não é um revolucionário profissional, você é um militante. Ódio por ódio, o mundo terminará cego. Odiar individualmente uma pessoa simplesmente por questões pessoais, de gênero ou socioeconômicas é uma questão de mediocridade inclusive e utilizar-se do suporte da ideologia para deslanchar uma desmoralização pessoal contra uma pessoa em específico é mostra de falha de conduta, afinal de contas, qual o ganho para a causa em trazer transtornos individuais para uma pessoa em particular quando é o todo que importa?

    Muitas vezes novamente é a cegueira que se toma, na postura agressiva de alguns, em deslanchar golpes individuais encarniçados de mediocridade desmedida.  Rotulações, xingamentos, insultos e toda a sorte de admoestações sem fundo prático, simplesmente pelo prazer da rapinagem, alguém que age dessa forma é sem dúvida um desmoralizador do movimento. O ódio é uma arma perigosa e deve ser controlada.


    Toda a ação impõe responsabilidades, toda. O ataque pessoal, o ataque físico, a irresponsabilidade é um dos maiores crimes que ocorrem ultimamente, a própria maldita temperança de agora resulta na tentativa irresponsável de desvencilhar das consequências futuras. Lembro-me de um caso, onde uma militante agrediu gratuitamente um policial simplesmente pelo prazer de desmoralizá-lo em frente aos seus companheiros, após insultá-lo, cuspir em seu rosto e admolestá-lo de inúmeras formas diferentes, durante um protesto em 2013, conta a Copa, ela passou a ser ameaçada fisicamente pelos companheiros de farda do policial. Com o risco de ser morta, a militante desapareceu, se escondendo inclusive dos colegas, sem ter norte de como sobreviver em seus dias. Quando ouvi essa história de um colega automaticamente falei: Irresponsabilidade. 

     Por que irresponsabilidade? Pois não mediu a situação-problema com cautela. O oficial estava ali a serviço, ele é um personagem do aparato repressivo do Estado (nossa, usei um conceito empoeirado do Louis Althusser), que está ali cobrindo um encargo profissional de conter a multidão, à contragosto, vide de passagem, com excesso de adrenalina no sangue e uma arma no coldre. O policial está sob tensão, vive sob tensão, e tem posse de arma. Agora nesses termos, acha sensato atacá-lo de frente dessa forma? Pior, humilhá-lo inclusive? Na frente da imprensa? Uma pessoa com porte de arma, logicamente não. 

     Ele está exercendo um encargo profissional, e segue estatutos da corporação, mas não sejamos levianos, essa ideia de soldado-cidadão nunca deu certo em nenhum lugar do mundo, "à noite, todos somos lobos na escuridão das sombras". É irresponsável agir dessa forma sem esperar consequências. Até eu escrevendo isso eu sofro uma série de riscos, imagina quem se propõe a agir desmedidamente?

    Nisso, tenha consciência de duas coisas: A militância não é um passeio no parque, envolve riscos e uma série de frustrações e perigos. Tem uma questão de autossacríficio que às vezes é bastante inconveniente. Não seja infantil em se envolver numa questão séria sem tem plena consciência de tudo o que está envolvido, não seja cego, em outras palavras, ou usando o próprio Lenin, num conceito escrito em "Como iludir o povo", não seja um "idiota útil".

     A outra, saiba o limite entre a mediação e o enfrentamento. E digo, isso porque é uma coisa que eu levei para a vida, existem questões que não são resolvidas apenas com a baioneta, mas às vezes com a conversa;  Sobretudo no que concerne ao mundo latino, onde sempre teve um histórico sangrento. A mediação, por vezes é muito mais desejosa.

     Mediar não é necessariamente peleguismo, às vezes é jogo de cintura, nisso eu discordo até do próprio Lenin na crítica a Karl Kautsky, mesmo os social-democratas alemães terem sido taxados de colaboracionistas e traidores da classe trabalhadora, não nos esqueçamos que a social-democracia foi vitoriosa em muitos pontos da classe laboral sobretudo na sua análise acertada pela mediação em muitas questões sinceramente espinhosas, sem tanta necessidade de derramamento de sangue como foi o caso do marxismo-leninismo. Pragmatismo de vez em quando é muito apetitoso.

     Vivemos em tempos de autoritarismo disfarçado, de mudanças sociais cada vez mais aceleradas e de questionamentos diretos à sociedade atual. As ideologias do passado vêm sendo repensadas e sabemos que entre a cegueira e a mediunidade o caminho ainda é longo, me preocupa ter desconhecimento do que será o futuro, mesmo conhecendo os erros do presente. A inteligência e a perspicácia podem salvar o pensamento de esquerda hoje se ele não se render a particularidades e praticar uma postura inteligente de compreender as demandas da sociedade atual. A tudo isso, sejamos sinceros, o mundo é progressista e a recepção do horizonte de expectativas sempre se altera e tudo que eu escrevi pode estar obsoleto logo que eu publicar. Paciência, esse é o admirável mundo novo a ser descoberto.

     

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...