sábado, 28 de fevereiro de 2015

Um homem chamado Leonard Nimoy

      Vivemos uma época tão trágica onde nossos ídolos morrem mais rápido do que os nossos próprios inimigos. Nossos sonhos desaparecem sob a penumbra da noite e sozinhos na escuridão tomamos consciência que o farol que devemos seguir não é a tela branca de um computador.


        Tratar de um ídolo sempre é uma experiência particular, principalmente quando tratamos com familiaridade, Esse é o caso de Leonard Nimoy. Hoje eu choro a morte de um amigo distante, o qual nunca vi pessoalmente. Nunca o olhei de perto e mesmo assim me  ensinou bem mais do que a erudição dos livros ou as pancadas da vida. Jornada nas Estrelas é uma religião e Spock era seu profeta. "I have been and always shall be, your friend... "


        Falar de Leonard Nimoy nos leva inconscientemente a falar do Senhor Spock. Mas Nimoy foi muito além de Jornada nas Estrelas. Ele é um exemplo do desafio de crescer num mundo repleto de medos e incertezas.   


          Leonard Nimoy nasceu numa família judia de Boston numa época em que os judeus começavam a ser perseguidos na Europa. Seu pai era um judeu ucraniano que fugiu da Revolução e se estabeleceu com muita dificuldade nos Estados Unidos, Nimoy vivenciou o preconceito e os anos difíceis da Depressão, até conseguir ser contratado como barbeiro quando adolescente. Serviu o Exército em 1953, e se inseriu no teatro e no cinema a partir da década de 50,


           Isso é a parte preliminar de uma carreira de ouro, quando criança ele ia à sinagoga com os seus pais e via os rituais chassidistas com particular curiosidade, como judeu asquenazim, era comum viver com rabinos de barbas longas e telefins pretos na cabeça.  Aos oito anos viu às escondidas uma benção estranha feita com a mão direita, na qual dois dedos se separavam do outro. Nem imaginava que isso  seria sua marca.

           Nimoy começou a fazer pontas em seriados importantes como Man of UNCLE, Get Smart e o piloto "The Cage", em que contracenou com o astro dos westerns Jeffrey Hunter, onde apareceu pela primeira vez o personagem Spock. The Cage é o piloto de Star Trek, e como disse Gene Roddenberry, era um filme de cowboys no Espaço, só que tinha uma temática muito intelectual para um seriado no início dos anos 60. 


           Foi a primeira vez que Nimoy usou suas orelhas de Metistofeles e a maquiagem verde. Um diretor de maquiagem da MGM foi quem lhe salvou ao fazer um molde de gesso de uma orelha de duende, caso contrário seria o fim prematuro de Spock. Spock era um personagem diferente dos demais, que a despeito de tudo, sorria.

        Mas Spock deixou de sorrir quando a série foi rejeitada. Ele e Gene Roddenberry construíram uma amizade sólida que reverberou quando foi contratado para uma viagem de cinco anos em Star Trek, onde contracenou com William Shatner, Deforrest Kelley e James Dohan. Se tornou um astro da televisão americana, e tentou seguir carreira de cantor com o sucesso da série. Mas a viagem foi cancelada depois de três anos.


             Teve problemas em lidar com o ego de Shatner inicialmente, assim como teve problemas com membros da própria tripulação da Enterprise. Nimoy reclamava do salário que era um "assassino", mas trabalhava num ambiente informal onde o seu filho o visitava no meio das cenas e aparecia para olhar o Senhor Spock na ponte de comando.


              Preso ao papel do vulcano Spock, ele passou a ter uma crise de identidade com o próprio personagem que o levou a escrever dois livros: I am not Spock (um fracasso editorial) e I am Spock. Com os filmes, passou a ter de novo a fama que lhe era merecida, onde fez sucesso com Star Trek: The Motion Picture e o espetacular The Wrath of Khan, com tamanho sucesso ele passou a dirigir o filme Star Trek: The Search for Spock. 



        Com o fim da série dos filmes e envelhecimento dos atores, era natural que Nimoy passasse apenas a fazer parte de convenções de Star Trek e alguns pontas na televisão, como foi no caso de Fringe. Ele estava mais dedicado em sair do cinema e  fazer trabalhos como fotografo, do qual nunca abriu mão. 


          Inovador e desvencilhado de preconceitos com as tecnologias, Leonard fazia desde comerciais até coisas elaboradas, como poemas, Mas o ponto alto de sua adaptabilidade  foi ser convidado para narrar o jogo Civilization IV e desempenhar um papel tão inusitado para os olhos dos fãs, mas crucial para o desenvolvimento de um jogo.


          O trabalho em Fringe lhe deu a chance de participar das refilmagens de Star Trek I e II com JJ Abrams, Deforest Kelley e James Dohan estavam mortos, enquanto Shatner estava envolvido com Boston Legal. Spock estava sozinho. Nimoy saiu de sua aposentadoria e passou a ser a ligação entre a série original e os remakes... 




             Seu envelhecimento e abatimento foram notáveis, principalmente com o passar dos anos. A saúde delicada provinha dos pulmões castigados por tanto tempo de gravações e cigarros tragados. Morou com  a esposa Suzan até os últimos dias e viveu longamente como todos os fãs esperavam. Nimoy era um homem diferente dos demais, assim como Spock. Ele era humano, demasiadamente humano. Humilde, sempre se ofereceu para dar autógrafos aos fãs sem qualquer tipo de cerimônia. Preocupava-se com alguns de seus fãs cuja saúde não estava boa e tentava seguir uma justa e judia. Vegetariano por opção. aberto a ideias, esse era Nimoy.


           Hoje morreu uma parte da minha juventude movida à aventuras, fantasias e emoções num futuro que não existiu, mas num passado que sempre me acompanhou, O exemplo de um ser mais humano que os próprios humanos, que nunca realmente existiu, mas se movia pela honra e a lógica. Nimoy era o verdadeiro Spock, embora ele negasse, porque a despeito da falsa lógica da dramaturgia construiu um personagem tão imortal e tão singelo apenas com a mera interpretação. Mas hoje Spock entra para a eternidade, graças ao gênio de Leonard Nimoy, Leonardo da Vinci da Califórnia.


        Spock é a humanidade dentro da modernidade e do mundo cada vez mais materialista que prossegue enrustida em sua humanidade, mas tem demonstrações diretas de emoções. Lealdade e honra, Spock sabe o valor da amizade o que o mundo contemporâneo destruiu e foi exemplo de construção de cidadãos que buscam um futuro melhor em meio à incerteza. Soluções rápidas, práticas e lógicas. Esse Spock tornou-se a raiz de uma filosofia de vida diferente das demais.


        Não é o culto à Razão Suprema de Robespierre, pelo contrário é o culto ao pacifismo, ao otimismo e ao progresso. Spock como desajustado socialmente representa um mundo de pessoas incapazes de expressar sentimentos, ou simplesmente sorrir, mas suas virtudes sempre foram levadas à sério.



         Nimoy fazendo ponta em Get Smart (Agente 86) https://www.youtube.com/watch?v=r_zowFvPgp8



       
         Nimoy como fotografo:
 



         Leonard Nimoy narrando Sid Meier's Civilization IV https://www.youtube.com/watch?v=XZlWmYe8HM4


Funny joke

         http://trekcore.com/specials/rare/ks_ultimatecomp.jpg


       
Lendo a MAD do outro lado da Galáxia




       
Momento no almoço



         Esse homem não tão distante de nós, que apenas com a representação de um personagem que nunca existiu e talvez nunca existirá no futuro trouxe um tanto mais de esperança num mundo tomado de medos e incertezas. Quando vozes se calam, outras se pronunciam. A ideia de Nimoy como uma pessoa notável na mesma proporção que a imortalidade de Spock. Um homem simples, demasiadamente humano. Esse era Leonard Nimoy.




                                                         Goodbye, mister Nimoy

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Nevoeiro

         A névoa espessa junta-se aos galhos cinzentos das bétulas, os caminhos cortados por roedores que se escondem atrás dos choupos acabam sendo bloqueados pelas árvores secas do inverno. Também pudera, naquele frio que fazia, pouco podia-se fazer senão meditar.


        Com o cachimbo trincado nos dentes, a fumaça do tabaco que aquecia nas brasas da madeira resfriava-se quando chegava à boca. Caminhava sinistro com o seu capote de pele, sujava suas botas de couro na neve e meditava cabisbaixo enquanto caminhava pelo bosque. A nascente congelada corria silenciosamente enquanto o vento batia em suas costas. O quepe pensou em voar, mas preguiçosamente mantinha-se em sua cabeça.


         Resfriado, com um pouco de remela nos olhos. Ele fumava, enquanto o fumo parecia se apagar com mais um sussurro gelado daquela tarde. Seu coração era frio e o rosto era fino. Pálido como Branca de Neve, aquele personagem tão banal nem parecia ser digno de nota... E ele não era.


          De fato, tivesse ele nome ou não. Aquilo em si não era importante. Não estava ali para pescar ou caçar, estava apenas envolvido pela meditação enquanto o tabaco apagava perto da boca. Era um homem diferente dos outros.


          Pensou em beber um pouco de vodka que escondia junto ao coldre, mas lembrou-se que ia conduzir. Aquele homem era estranhamente sinistro e se escondia como uma coruja à noite, seus olhos eram castanhos e oblíquos. Ele tinha um nariz pequeno.


          O coturno amassava os galhos secos nos chão e as botas cortavam a neve sem cerimônia. Ele sacou uma faca e roubou um talo de bétula de uma árvore. Estava tão frio que pensou em fazer lenha, mas era tolice fazer justamente ali. Estava cada vez mais frio, e irresponsável, bebericou um pouco de vodka.


         Estava agora aquecido, da garganta para baixo. Ele não se importava se estava sozinho ou não, no meio do nada esperando ser caçado como uma lebre numa competição. Ele portava apenas dois papéis e um pequeno revólver sem balas no coldre. Seria ele um bandido?

         De fato ele não era, era só um homem. Sem coração nem carisma. Não conquistava o amor das mulheres, nem a simpatia dos homens. Vivia sob ordens num mundo em que a desordem impera.


        Sentiu frio de novo.


        Agora não foi o vento, mas algo mais sinistro. Puxou o revólver junto à mão e o coração junto à garganta. Beijou o medo e saiu calmamente no branco do esquecimento. Uma bala cortou-lhe de frente.

        Sorte que ele não foi atingido e saiu correndo. Estava sozinho e sem qualquer tipo de segurança. Correu, foi com tudo em direção à moto onde tinha estacionado. As ordens eram importantes e quantos anos ele tinha? Vinte? Como são inconsequentes os jovens de vinte anos! Será que eles amam de verdade? Ou apenas enganavam as moças das aldeias do interior.


         Mas Dmitri Sebastopov era um homem pouco maduro para a vida, mas muito maduro para o mundo. Ele sabia quando haveria sol ou não, ou quando ia viver e morrer. Ele sentiu o cheiro de sangue. Correu, disparou e acabou encontrando de frente...

         Era um cervo que caía agonizando na sua frente. Estava deitado sem esperanças, ele sangrava e tinha calafrios tão intensos por causa do frio que parecia estar tendo convulsões. Dmitri sentiu pena pelo animal e até pensou num tiro de misericórdia, mas sua pistola estava sem balas. O do oponente não.


          Correu, mais rápido que seus pés; mais longe do que sua cabeça; E mais ridículo do que o seu corpo. Saltou de uniforme e tudo na trincheira, sua farda ficou branca  e ele se escondeu no frio. Tinha perdido o seu cachimbo e estava sendo caçado. Teria tempo para ter uma morte honrosa e beber vodka? Pensou que não.


        Nunca mais veria Yulia cujos lábios de menina comiam os seus olhos durante a chuva, e seus olhos enganavam sua mente quando estava quente. Ele engasgava algumas palavras enquanto era caçado naquele bosque perdido. O nevoeiro não desaparecia, o coração batia forte e sentiu medo de urinar nas calças. Sem arma e com ordens oficiais. Presa fácil.


       Não sei se ele lembrou do cervo, mas sei que ele caiu. Caiu de costas no chão. Os olhos ainda olhavam para o nada e imaginou ter ouvido coisas. O frio entrou pelo colete e o ferimento fez de tudo para não congelar, o sangue jorrava no chão com extrema cautela. Tossiu.


         Pensou ter visto alguém se aproximar... Não sabia quem. Um casal talvez. Um homem e uma mulher. Tinha certeza mesmo à distância.  Sorriam ao todo, estranho.

         Ele estava morto? Não, era Yulia. E quem era o outro? Piscou os olhos e no próximo segundo seus olhos ficaram sem vida enquanto olhavam o céu. Estava nublado e frio. Como são todos os invernos em Veliky Novgorod.



quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Reflexões

       Não espero encontrar sua foto essa noite, nem fitar o seu sorriso tão mal encaminhado que me perdi no meio dessas palavras. O verso com que escrevo está carregado de tinta e de remorso, não me fite com esses olhos sinceros, a reprovação do tempo será minha maior pena. 

       Hoje é um dia como outro qualquer onde a inspiração não se esconde por trás de meu ouvido, nem minhas mãos conversam direito com a pena da caneta. Já faz tempo que não escrevo, e sem remoço digo isso. Viver de pena é um vida violenta, mas mais violento é esperar bater o meu coração junto ao peito. O meu desaparecimento é causal, mas o seu esquecimento não. Ele é deliberado.

       Deixei meus cabelos crescerem por descaso, a palidez de minha pele se tornar cada vez mais doentia e os tremores da solidão serem boas companhias nas noites cada vez mais frias. Até você deveria saber que não há nada normal em ficar calado por tanto tempo, mas o silêncio é um anúncio da revelação. O futuro sempre me assustou, mas hoje só é uma lacuna triste num caderno ainda vazio.


       O relógio marca ponteiros, troca os minutos a cada instante e sem querer não vejo outra atividade tão carregada de ócio do que escrever palavrinhas pequenas no meio desse caderno esquecido pelo tempo, manchado de lágrimas e gotas de vinho argentino.


        Caminhei procurando respostas que no fim descobri que estavam em mim mesmo, e em minha comedida autopiedade eu esperei em silêncio tornar-me tão capaz de exercer meu suplício com o calvário de um dia após o outro. Não fugi da responsabilidade, nem adulei os caminhos mais fáceis e corrompidos da mediocridade humana; Acaso eu me perdi? Penso que só na minha própria consciência.

       Mas as memórias que guardo hoje me colocam no seguinte pedestal de que as pessoas são meras esculturas de isopor, caricaturas de personagens de livros esquecidos no fundo dos sebos, e de formas tão confusas que não entendem a si mesmas.Só se preocupam com prazeres mundanos, como a luxúria, o desejo, e a ganância quando na verdade tudo o que procuram é uma falsa segurança; Inseguras consigo mesmas, elas tendem a ser cada vez mais medíocres e esquecem que a verdadeira essência das coisas não está simplesmente em promessas mal concebidas, mas em pequenas coisas da vida.

       Não à toa que cada dia mais, elas se tornam cada vez mais estranhas a si mesmas. E na verdade é consequência natural esperar a desumanização das pessoas comuns, tão naufragadas em ilhas de desejo e sofrimento. O resultado é que a insustentável leveza do ser é realmente insustentável pela natureza com que é criada; Somos apenas animais consumidos pelo banal desejo por coisas materiais, e as faculdades mentais e emocionais de cada um de nós são reféns desse pensamento tão carregado de falta de sentido.


         De fato tome como insensível caso não a olhe nos olhos, mas não desejo lembrar o meu passado ridículo e infantil. Fui refém de meus desejos por muito tempo, desejos esses que eram um tanto incomuns. Apenas sonhos de uma vida calma, num lugar afastado, fazendo o que eu gosto. De fato, nem todos temos essa sorte;

           O que é verdade, é que há entrementes uma sexualização cada vez maior dos nossos desejos, uma alienação por nossos impulsos, e quando chegamos a desejar apenas um corpo descaracterizado de sentido, voltamos a face animal dos nossos instintos. A arte não pode viver num mundo tão saturado de projeções carnais, quando na verdade ela se alimentava de emoções. As emoções sinceras estão por certo em extinção bem antes que tenham sido catalogadas como uma espécie realmente existente.

         O medo e o desejo, as duas maiores falhas de nossos novos tempos.

         Eu não queria ensaiar uma filosofia, mas quando vejo fotos esquecidas no tempo, fico desorientado a tal forma que fico refém de meus pensamentos e me ponho a escrever; Escrever e refletir de como mundana é a existência de várias pessoas que não conheceram realmente a si mesmas, perdidas num marasmo de ignorância e impotência. É arrogância minha escrivinhar a essa hora da noite sobre questões tão empiricamente pouco comprováveis? É possível, de fato, é até aceitável a recusa pelo que acabo de pensar, mas como disse todo o esquecimento é deliberado.

         Mas tento esquecer das esculturas de isopor, os cidadãos de papel, que foram o meu referencial por anos a fio, quando na verdade nem eu, nem eles, somos senhores de nós mesmos e sobretudo de nossos sonhos e desejos. O meu maior remorso foi não ter compreendido isso tempos atrás.

A porta

No dia em que os sussurros da madrugada
Forem tão fortes que arrebentem as batentes
Da porta, saberei que bem longe dali
Estarão meus parentes
Muito longe, falando mal de mim


A noite se pronuncia com ventos cada vez mais fortes
A ousadia é tão duvidosa que sozinha
Abre a porta e deixa o vento passar

As cortinas voam, os papeis também
tudo o que espero é sempre
ter cuidado com o vento
Ciumento, às duas da madrugada

sábado, 17 de janeiro de 2015

Batuque

          A agulha da vitrola tocava solitária num canto da sala enquanto o vento entrava pela janela. Chovia;  As pequenas gotículas de água que batiam na telha produziam um ruído que parecia ser um arranhado do vinil. A água começou a entrar no vestíbulo à medida que o vento se tornava cada vez mais impaciente por não ter sido convidado.

        O piso de madeira estava todo molhado e os quadros na parede eram volta e meia iluminados pelo trovão, era assustador ver que o relógio de pêndulo continuava a girar as horas a despeito do clima fantasmagórico que se abria no velho casarão. A casa de cômodos finos e refinados era uma preciosidade, no alto de um morro bem desenhado pela chuva e pela ação da natureza tinha uma arquitetura meio alemã-meio suíça que seduzia a todos pelo o olhar. Era a casa de muitos sonhos e vários pesadelos.

      A escada de madeira tinha apenas um degrau para cada pé, e isso era meio inusitado, mas era logo esquecido por qualquer visitante ao vislumbrar o belo jardim recheado de tulipas, rosas e alguns vasos de violeta. À noite ficava cada vez mais bonito visitar aquele lote quando se iluminavam as flores com aqueles vagalumes elétricos desenhados a muito tempo pelo arquiteto. A vitrola continua tocando o batuque, solitária, num canto da sala.

       O relógio badalava as horas, 11 e meia da noite, os donos não estavam em casa. Ninguém saberia quando iam voltar, mas o mais estranho era que a despeito de a mobília estar coberta de panos e poeira; a vitrola continuava a tocar a sinfonia. Um esganido de um roedor, bem fraco, mas não menos apavorador surgiu na lareira, coberta de fuligem e cinzas. O chapéu panamá depositado no prego junto à porta se desprendeu com a ação do vento e num momento nostálgico voou para cima do piano, onde descansa uma partitura envelhecida pelo tempo; O piano começou a tocar outro batuque.

       De repente a casa virou uma grande sinfonia, a água das telhas tocava ao fundo enquanto o piano acompanhava o doce som do vinil sendo arranhado pela agulha da vitrola, os trovões tão triunfantes serviam de estampidos de percussão e a euforia dos livros adormecidos criou vida. A canção sem melodia tocava sem nenhuma hesitação com a ausência dos donos naquela noite chuvosa de sábado. E a música beijou sob as cortinas o vento forasteiro que adentrava na casa.

      O casaco do dono da casa agora balançava, embora fosse impermeável não impediu que o chão se empapasse de água pela a abertura escancarada da janela. No alto da escada uma vela pendia no quarto que fracamente iluminado escondia a modéstia do passado; Uma cama de ferro com um colchão de penas talhava a aparência espartana de um cômodo sem rádio ou televisão.  Não havia computadores ou internet e o telefone ainda era de fio, os donos eram humildes, mas se davam a um luxo de terem banho quente ao menos;

      A sinfonia dos galanteios da chuva continuava para a alegria de um desavisado, o piano passou a tomar conotações mais caóticas em suas teclas e quando por fim parou de tocar, um rato saiu de dentro de sua armadura, as gotas de chuva continuava a cair sobre o telhado de barro, mas mais fracas. Apenas a vitrola continuava a tocar, solitária, num canto da sala enquanto o vento adentrava pela janela sem ser convidado.

    Uma sinfonia tão leve e tão sublime era a coisa mais bela a se ouvir naquela avançada noite de sábado, quando a caneta tinteiro com a ponta descoberta sobre a escrivaninha apontava para um emaranhado de papéis, projetos esquecidos e já gastos pelo tempo. Sem se dar conta, numa certa altura, a vitrola deixou de tocar sem qualquer cerimônia deixando a noite cada vez mais fria e ignóbil. A casa ficou sozinha de novo e essa ausência se tornou tenebrosa enquanto os relâmpagos continuavam a cair, agora distantes do  casarão na Rua do Encanto.

     As cortinas pararam de se mover e a sinfonia parou de tocar, tudo o que ficou foi o silêncio da ausência. Um retrato triste feito em nanquim sobre o papel amarelado pelo tempo pendia tristemente no chão, ainda ensopado pela água. Esse soberbo gênio de formas atléticas, de grave perfil, que mantém abertas nas amarras dos braços as suas asas, rudemente empunhadas como dois escudos, simboliza nobremente a grande do pequeno grande homem simples, ágil e risonho, que era o dono da casa. Um presente de um amigo distante que o tempo não custou a separá-los.
      

      Na parede em um dos quadros estava o retrato mais filedigno do dono daquele casarão, vestido com um casaco e com uma calça muito curta sempre arregaçada, coberto com chapéu mole cujos bordos estão em contrapartida sempre rebatidos, ele nada tem de monumental. O que o distingue é o gosto pela simplificação, das formas geométricas, e tudo no seu aspecto denota este caráter. Tem paixão pelos instrumentos de precisão. 

      Sobre a sua mesa de trabalho estão instaladas pequenas máquinas de precisão, verdadeiras jóias da mecânica, que não lhe servem para nada e estão lá somente para o prazer de tê-las como bibelôs. Ali se vê, ao lado de um barômetro e de um microscópio do último modelo, um cronômetro de marinha, na sua caixa de mogno. Até mesmo no terraço de sua casa ergue-se um esplêndido telescópio, com o qual ele se dá à fantasia de inspecionar o céu. Tem horror a toda complicação, a toda a cerimônia, a todo fausto. Assim, que rude e deliciosa provação para a sua modéstia, esta inauguração! Esse homem era Santos Dumont.

      Ali estavam o seu piano, o seu barômetro e a sua amada vitrola que não cansava de ouvir nas noite solitárias no alto do altiplano celeste de Petrópolis. A música que ele mais gostava era difícil dizer, mas nesse dia tocava uma obra lindamente arranjada de Alberto Nepomuceno, o  magnífico compositor cearense, Batuque da série a Brasileira, com a assinatura do próprio Nepomuceno no verso. Aquela casa carregada de lembranças não escondia a insatisfação de não ter o retorno de seu ilustre dono, abandonado pelo esquecimento na morada de sua morte amargurada.


       Memórias de anos que já se perderam na memória do esquecimento.


                                                        Batuque, de Alberto Nepomuceno


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Por uma nova economia

       A opção da sociedade brasileira é a consolidação de um padrão de vida inspirado no  modelo social-democrata de desenvolvimento. A consolidação de um estado de bem estar social  exige uma acumulação de capital  respectiva aos gastos de uma democracia social ao estilo nórdico. Para a construção dessa acumulação de riquezas, as apostas no mundo exigem uma especialização do capital humano existente.

        O Brasil está na retaguarda, é um país modernamente arcaico. Onde há disparidades graves entre a periferia e o centro econômico, o acentuamento das dificuldades operacionais do sistema capitalista e de reprodução do capital interno levam a uma concentração da renda em determinados grupos da sociedade nacional. Essa tendência mundial da concentração do capital é cada vez mais abissal no Brasil que ignora a legitimação econômica de seu modelo de desenvolvimento.


       O modelo cepalino é o grande responsável para fracasso assistido de 2013 até hoje, a retração e a estagflação se somam ao alto endividamento da família brasileira. Isso é resultado da aposta do governo em supervalorizar o salário mínimo e a capacidade do mercado interno em superar uma crise endêmica do capital. A questão é que o salário em si não consegue sozinho consolidar a riqueza brasileira, de fato, ele vem sendo corroído pela inflação e os juros que estouraram na virada de 2014.


        O estado interventor é aceitável por um curto período de tempo, quando a UTI econômica que leva a associações econômicas e grandes especuladores atacam a soberania da moeda nacional, ameaçando a estabilidade social de um país. Os altos gastos da União associados aos crescentes apelos irresponsáveis de prefeitos e governadores por mais verbas ameaçaram a estabilidade do futuro  do Tesouro Nacional, agora atolado em dívidas, O BNDES gastou um dinheiro que não foi devidamente devolvido em investimentos nas empresas nacionais, e os grandes conglomerados agro-industriais acabaram sendo a única esperança no meio da bancarrota nacional.  Mas o campo produz riquezas, mas não produz ouro.

        Ficamos dependentes do velho modo produtivo relegado à América Latina, a exportação de matérias-primas e commodites, a instabilidade das bolsas e o aumento da oferta internacional de alimentos acabaram desabando o preço do nosso maior produto de exportação: a soja. O ferro, dependente do aquecimento da economia chinesa, desabou de preço; assim como aconteceu com o minério de cobre chileno. Só que o Chile conseguiu contornar a sua crise tornando-se fiador de austeridades intragáveis ao seu povo.

       Austeridade é uma palavra bonita para apertar o cinto, e fomos obrigados a fazer muito mais do que isso. Vendemos a fivela e o fecho do cinto, agora só falta a tira de couro e a calça. Vivemos um mundo dinâmico, onde não há espaço para lamentações. Mas não temos ações a curto prazo que possamos fazer.

       Nikolai Tikhonov ao escrever os Desafios da Economia da União Soviética em 1988 acreditava que o regime soviético iria se manter com as reformas de Mikhail Gorbachiov e a política de valorização de salários promovida desde Kruschiov em diante, contudo a crise produtiva soviética era bem mais grave, não só por causa da falência produtiva dos soviéticos no campo, que trouxe o fantasma da fome, mas também a falta de qualidade e investimento na industria soviética. O resultado foi grave e a Rússia não se recuperou, tornando-se vulnerável às ações do capitalismo internacional.


      A desindustrialização do parque industrial brasileiro é uma tendência que assistimos desde o governo de Collor de Mello e que se acentuou com o passar dos anos, essa tendência de retirar da indústria o papel transformador de uma sociedade é assisitida em outros lugares do  mundo. Não há mais espaço para a indústria\ pesada senão a China, apenas um país que considera o padrão de vida do trabalhador um fator secundário pode admitir uma indústria de transformação como pilar da economia. Apenas a indústria criativa e tecnológica podem salvar o Brasil de sua desindustrialização,e temos concorrentes bem mais fortes, com tradição forte na informática\, nas ciências de informação, softwares e aeroespacial. 

     O protecionismo cepalino nos atrasou de modo que não confiamos numa indústria de tecnologia nacional, as políticas de incentivo governamentais são uma franca piada política, e o apoio ao desenvolvimento tecnológico não acompanha o desenvolvimento de laboratórios, plantas de produção e tampouco os impostos ajudam somados aos juros altos ao desenvolvimento de novos empreendimentos criativos.


       Apenas o consumo não consegue segurar um país, embora com muito sacrifício tenhamos conseguido uma política de valorização do salário e uma cota reduzida do desemprego, isso será provisório se a crise que enfrentamos se arrastar por mais alguns anos. E a economia fraca desestabiliza novas democracias.

        A inflação, a falta de investimentos dos empresários, a população que utiliza o crédito como uma forma desenfreada de obter renda. Essas são origens de uma catástrofe. E cego somos nós que não agimos como deveríamos, que assistimos a tudo isso insólitos e curiosos como se fosse um descarrilhamento de um trem. A recuperação será dura e temos que  estar preparados para isso.

         Mas como recuperar-nos do tombo galopante desse ano de 2014? Onde a irresponsabilidade e arrogância parecem ter vencido o medo do fracasso. Ao sediarmos uma irresponsável festa no meio de ano, o final foi azedo e bastante ignorante. Ficamos sem dinheiro na carteira e os empregos cada vez mais ameaçados. Os mercados ficaram cada vez mais indecisos e sofremos com a indecisão do mercado no dia a dia.  A Petrobrás sempre teve corrupção, inocente é quem afirma que desde 1952 até hoje uma empresa estatal que produzia tantos dividendos com o monopólio de hidrocarbonetos num país como o Brasil não tivesse sofrido anos de especulação e corrupção. O ataque contra a Petroleo Brasileiro SA é um ataque especulativo, que associado ao desânimo da economia brasileira, um governo economicamente pífio e a instabilidade internacional levou à parcimônia crise da Petrobrás.

        O caso que o óleo do Presal não deverá ser explorado em 2018 como se acreditava, talvez nem em 2022. Será economicamente inviável explorar as profundezas do Campo de Libra considerando à baixa cotação do petróleo. E a baixa cotação do petróleo não se deve por exemplo à exploração do óleo de xisto americano, que está caminhando ainda devagar, mas ao ataque do mercado aos grandes conglomerados industriais fornecedores de óleo: Como Venezuela e Rússia. Eleitos como dois países mal-gratos da economia internacional, o grau de integração dessas duas economias sempre foi ruim, mas piorou por políticas erradas em períodos delicados.

        A instabilidade da crise do bolívar aumentou com a crise sucessória de Hugo Chavez e da inflação absurda que estourou na Venezuela bolivariana, os anos de hostilidade da política venezuelana aos interesses norte-americanos acabaram colocando a Venezuela numa condição frágil no mercado internacional.A sua proatividade em auxiliar o regime cubano a não chegar no caos econômico também levou recursos prioritários para a sua manutenção econômica que deveria ser imposta com a injeção de doláres e renegociação da dívida externa a partir do Banco Central autônomo a interesses políticos. Não foi feito, e a Venezuela virou alvo de ataque internacional e especulativo devido sua própria irresponsabilidade em não honrar compromissos. Capitalismo não é uma profissão honrada, mas valoriza a honra como maior virtude.

         /Quanto à Rússia, o plano geopolítico em estrangular economicamente esse país euroasiano e submetê-lo à vontade ocidental vem sendo aplicado desde a queda da URSS em 1991, quando o país passou por duas recessões graves e uma perda grave de seu padrão de vida e sofreu com uma forte desindustrialização devido à sua falta de renovação durante a época de Brejnev. A industria russa ainda é obsoleta quando comparada à da Europa Ocidental e uma plutocracia tomou o país durante o regime de Yeltsin onde magnatas se empossaram das mais importantes companhias petrolíferas, de exploração de minérios, transportes e gás. Esses magnatas ganharam milhões.

         Aliados com os interesses do governo construíram uma Nova Rússia capitalista e associada com a geopolítica de combate ao terror da Era Bush e a dependência energética do Eurocontinente e sobretudo da Alemanha. Mas conforme os anos passam e a diplomacia americana muda conforme seus designios, os democratas começaram a incentivar a intervenção americana em locais diferentes do globo, sobretudo no Oriente Médio, onde houve um choque de interesses entre russos e americanos na Síria. Os americanos levaram muito a sério essa quebra na aliança tácita desenvolvida entre Washington e Moscou.

          O acordo feito entre Reagan e Gorbachiov para que a OTAN não se aproveitasse da fragilidade do regime soviético e intervisse sobre sua "esfera de influência" acabou erodindo quando houve a crise ucraniana; O povo ucraniano decidiu que o governo instalado constitucionalmente pró-Rússia estava tomando decisões erradas ao impor um atrelamento da economia ucraniana a uma "nova URSS" que de fato não apareceu.

         Os russos apareceram com uma proposta de linha de crédito e de parcelamento da dívida ucraniana mais tentadora do que a da União Europeia, que anunciava um programa de austeridade grave que afetaria os próprios ucranianos. Entretanto, o desejo do povo ucraniano se dividiu, alguns optaram por ter um padrão de vida da União Europeia fossem quaisquer consequências, enquanto outros viam como uma traição se submeter aos desígnios europeus sabendo o choque de realidade. A questão que o país entrou em guerra civil e a Rússia interviu por razões estratégicas na Crimeia.

       Essa intervenção deixou os ocidentais furiosos, e como aprenderam na velha doutrina Thatcher-Reagan, uma guerra com a Rússia é impossível e contraproducente, mas é possível estrangulá-la economicamente conforme sanções econômicas em áreas prioritárias. O ataque internacional contra a Rússia, a ação do capital especulativo e a desvalorização do barril do petróleo levaram à crise do rublo que indiretamente afetou também  outros países em desenvolvimento dependentes de commodites. Caso do Brasil.

      O Brasil sofre hoje de várias coisas, de políticas econômicas equivocadas, da fragilidade econômica do Mercosul e sobretudo da Argentina que está prestes a quebrar em virtude de outras crises fiscais e de irresponsabilidade do governo e do capital externo; Da economia venezuelana enfraquecida que impacta a economia brasileira e da desvalorização do barril de petróleo em virtude das ações contra a Rússia. Sem falar do fim  do milagre econômico através do atrelamento da economia brasileira ao modelo de desenvolvimento chinês e a nossa dependência da economia do Eurocontinente enquanto os Estados Unidos ressurgem de forma milagrosa depois da maior crise desde 1929.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Crônicas de uma velhice prematura

       Meus dedos enrugam, meus olhos se cegam e a chuva caí sobre meu rosto. O rosto envelhecido e sem vontade, tomado de rugas e de falta de consolo. Espero no frio um pouco de acalanto um pouco menos de tristeza, mas quando volto à casa de meu pai tudo que sinto é um misto de saudade envelhecida numa mente bolorenta de ideias. O casarão envelheceu tanto quanto eu e as janelas de ferro enferrujaram como as memórias da minha juventude.


       Nunca trocamos muitas palavras, eu e meu pai passamos anos brigando, mas no fim o que mais conseguíamos era nos respeita. Naquela época eu tinha sonhos, meu pai, a realidade. Um dia apertamos as mãos e começamos a conversar. Antes tarde do que nunca, hoje eu percebo. Na época era tão imaturo que me julgava poderoso em meu pedestal de livros fracos.

     

         Queria ter mais momentos de reflexão como esse, sem que precisasse fumar um tanto de tabaco na madeira de meu cachimbo trincado nos dentes. Meu pai não sabia que fumava escondido e me bateria se soubesse. Ele era uma pessoa risonha que raramente chorava... só o vi chorar uma vez, quando viu que iria me perder. Meu velho pai já de cabeça branca não tinha mais esperanças em suas mãos, não tinha olhos senão para o passado e o coração amargurado de tamanha tristeza.

        Quando arrumei minhas malas, vesti minha jaqueta e calcei os meus sapatos. Ele veio e me abraçou, não disse nada. Não me perguntou como costumava fazer em todo início de mês se eu tinha dinheiro suficiente, ou se andava almoçando. Não, ele sabia que era o nosso último dia. Nossos futuros eram diferentes, o lugar dele era ali, com o seu emprego e ao lado de minha mãe. E meu lugar era justamente o contrário, o mundo e ninguém ao meu lado.

         Ele nunca compreendeu o lado anárquico de minha pessoa e eu nunca quis me justificar tentando explicar. Eu descobri a verdade no mundo sem descobrir a mim mesmo e tomado pelo espírito nômade de meus pés, eu vaguei por onde nunca imaginei até o sangue se transformar em vinho que a terra bebericou com a chuva.

         Foi ao mesmo tempo belo e doloroso saber como tudo acabou. A tristeza com que meu pai esperou os seus últimos dias afundado numa cama esperando pelo filho que não retornava, desejando vê-lo mesmo sabendo que estava no outro lado do mundo. Ele me esperou sem saber que eu tinha desaparecido com a minha força de vontade.

        Vaguei sozinho por anos, levei nas costas os grilhões de vidas passadas e aprendi o que era a humildade. Meu pai que esperou tanto percebeu que seu filho só chegava atrasado e quando descansou, eu estava olhando o céu sozinho sob as montanhas de um lugar desconhecido. Um vento gelado cortou o meu coração e gelei com tudo isso, desci as montanhas corri para onde os meus pés me levavam até que o cansaço tomasse o meu corpo por completo e ainda assim não cheguei em casa.

          Quando cheguei a memória de meu pai tinha partido, ele que nunca usava gravata, estava vestido com uma bastante extravagante em seu paletó de madeira no púlpito em que poucas pessoas pronunciavam o seu nome. Minha mãe e eu não dirigimos uma só palavra, como previsto, nenhum de nós dois se perdoava, enquanto meu pai, cansado por toda uma vida, finalmente descansou. Eu beijei suas mãos e me inclinei para que visse meus olhos.

          O corpo dele estava gelado, suas mãos morenas engasgavam a rosa depositada no caixão. Eu me perguntei se tinha sido ele ou eu que tinha partido. Até hoje não sei qual era a resposta. A minha juventude se foi, o cabelo sempre tão rebelde passou a ser penteado e passei a vestir terno. Com a pasta nas mãos, abandonei meus sonhos e batalhei por dias e dias lembrando da tristeza de meu pai.

           Eu não lembro de ter chorado desde o dia que ele partiu, mas quando encontrei o velho sobrado ainda preservado, desabei. Não tive coragem de vendê-lo, aquele casarão era o maior sonho de meu finado pai e era a mostra de amor que ele tinha conosco. Eu ainda lembro do dia que ele apareceu sorridente com as plantas do escritório de arquitetura e me pediu para escolher um dos desenhos. O desenho que eu escolhi nem era o mais bonito, mas foi o que construíram.

      Todo o suor gasto para lembrar das lágrimas que nunca tive. Meu pai viveu nessa casa, eu nunca. Minha velhice enrugada esperava um sinal de conforto que nunca tive, porque nunca tive nada para ser reconfortado. Nunca me faltou nada, nem amor, nem tristeza. O relógio de meu pulso tomava meus ouvidos enquanto a chuva caía sobre o meu casaco, os velhos fantasmas sorriam para mim sem que me lembrasse dos dias felizes de minha vil juventude.


      Enteado de meu pai, depois de anos de profundo silêncio tudo que consigo dizer é que eu o amava, do meu jeito, frio e calculista. Sem que isso me cortasse a lembrança de tê-lo detestado quando criança. Apenas a velhice nos revela a maldade das coisas mundanas.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Garis

       Há muito tempo que meus dedos não massacram as letras com sua fugacidade, Crisálida envelhece a cada dia, escondida atrás de sua pequena pasta verde de plástico escovado. A velha Olivetti Lettera 82, 1963 está cada dia mais empoeirada sem que seu dono negligente tome nota de sua preciosidade embutida no escritório recém bagunçado. Os livros se acumulam ao seu redor e a poeira também.

        O rádio não toca mais há algum tempo e não há mais whisky debaixo do esconderijo. As ideias fugiram com o passar dos dias e a preguiça associada à inércia levaram o desaparecimento das palavras. O academismo sufocou a livre iniciativa, mas vamos há um conto negligente de dezembro.


        Como podem ver no céu, e no recanto de sua janela, Brasília chove quase a todos os dias. Chove de forma não programada, pegando a todos desprevenidos. Dessa vez fui eu. Atrasado, corria atrás de um ônibus que se tornou um fantasma em meio à mais uma greve de coletivos. Estava vestido como um inglês, mas de inglês não tinha nada, porque tinha esquecido o meu guarda-chuva.

        Fui à banca de jornal, coisa corriqueira e banal. Como comprar chicletes e colocar crédito no celular. Gotejava um pouco lá fora, minha capa me protegia, mas minha mochila me preocupava. Era a segunda vez que enfrentávamos a chuva e a primeira não foi muito animadora. Meu livro do Georges Simenon ficou todo empapado, junto com meu caderno de rascunhos e minha caixa de canetas.

        De fato, mesmo as nuvens estando carregadas. Cinzentas, mais cinzentas do que o concreto e o asfalto. Não dei muita confiança à tempestade; Devia ter me precavido porque "O inferno está deserto e os diabos estão aqui".

       Os ipés vermelhos coloriam os jardins de minha quadra, enquanto os carros corriam de farol alto diante a neblina. Não vi pedestres ou ciclistas e as poucas almas penadas que vi eram feitas de açúcar pois fugiam correndo de algumas gotas de chuva. A garoa estava ligeiramente fria e refrescante, fazia dias de calor, mas começava a engrossar.

       Encontrei um cachorro, meio asno, que correu em minha direção achando que eu era seu dono. Ele reconsiderou quando um trovão caiu bem perto de nós num descampado. A chuva estava cada vez mais forte e meus cabelos, antes desgrenhados, se pentearam pela a água que ensopara toda a minha cabeça e o meu casaco. Apressei o passo e a chuva tratou de se apressar também.

      Na rua as goteiras se somavam e pintavam o asfalto com tons cada vez mais enegrecidos e aquáticos. O reflexo das poças d'água criava pequeno espelhos de ângulos desconhecidos do meu semblante apressado. A mochila, como eu imaginei, já estava ensopada e meu humor também. Encontrei com segurança a parada de ônibus, toda revestida de vidro fumê e plástico que para a desgraça do arquiteto, era profundamente ineficiente e tinha goteiras.

        Duas pessoas se escondiam ali, encolhidas no frio com que o vento violento ceifava as almas mais esperançosas. Um, era um velho que apenas caminhava e foi surpreendido pelo aguaceiro e a outra pessoa era uma doméstica, essa sim estava empenhada em chegar em casa. Eu só queria esperar a chuva passar e ir trabalhar. Eram 15:00 da tarde.

       Numa sexta feira, encontrar um ônibus à tarde é um sacríficio. Imagine quando há greve. Fitei os carros que corriam no vazio do asfalto, enquanto os filetes graúdos de chuva engrosssavam. Ao acompanhá-los com os olhos, encontrei um carrinho de mão com ferramentas de jardinagem. Um aparador de grama, uma foice e uma tesoura de ponta. Um caminhão do Sistema de Limpeza Urbano estava estacionado bem próximo da parada, inaudido à percepção de todos. A chuva era a maior preocupação na hora.


      Um trovão desabou num gramado bem em frente de nós, prenunciando um mal presságio. A chuva violenta vinha do Norte e sua violência correu de uma só vez para os pobres indefesos que estavam na parada de ônibus. Como eu previa, o  vidro daquela instalação vagabunda não foi pensado para uma tempestade e o vento ameaçava retirar o vidro fora. A água começou a entrar no abrigo, e a molhar nossas cabeças debaixo do teto.

      Nós três ficamos reféns da boa vontade celestial. Os ventos me forçaram a sair da parada e me esconder atrás dela, visto que a chuva estava partindo de frente àquela estrutura. Gotejava e a fragilidade daquela estrutura não parecia inspirar conforto. Quem andasse naquele vendaval poderia ser perfeitamente arrastado. Um tufão ou algo parecido.

         Um dos garis gritou de dentro do caminhão-baú, olhando todo nosso sofrimento. Gritou e acenou:

     "EI! VENHAM PARA CÁ!"


      Desconfiados, as duas companhias que tinha entreolharam entre si. Mas num impulso sai correndo tentando me proteger. A chuva estava cada vez mais forte e daqui a pouco era a parada que sairia voando, junto com vacas e casas por aí. Apenas eu tomei coragem e subi no parachoque e depois na caçamba do caminhão.


        Lá dentro, com os cabelos pingando e a capa toda ensopada agradeci ao gari que retrucou olhando em direção à chuva:

       "Eles não quiseram vir, bom, o problema deles. Pode ficar até a chuva passar."

        "Obrigado"

         Eram 3: 23 segundo o meu relógio, que estava igualmente ensopado. Ali dentro percebi que não havia só um , mas vários garis. Sentados em torno de uma roda, eles esperavam a chuva passar. Alguns jogavam dominó, outros apenas jogavam conversa fora. Muitos nem sequer dignaram a me cumprimentar, eu não reclamei, eu era um intruso em seu ninho.

         Aqueles semblantes cansados e simples denotavam a dureza de seu serviço, que era capinar a grama todos os dias e garantir que as arvores e as folhas continuassem impecáveis. Funcionários da NovaCap, provavelmente receberiam tão pouco para operar um trator ou cortar um quilômetro de gramado. Eles discutiam o atraso do serviço:

         "Todo dia chove. A gente começa de manhã, e aí começa a chover. Aí a gente para, quando a chuva dá um tempo. A terra tá tão molhada que chega atrapalha. Quando dá pra cortar a grama, chove de novo"

         E a chuva batia cada vez mais forte na lataria do caminhão. A atmosfera era quente e acolhedora, bem melhor que o frio que fazia lá fora. Úmido e deprimente. Aquele ambiente não chegava a ser confortável. Havia poucas cadeiras e o chão estava sujo de terra que sentia-se o odor campestre dentro do caminhão. Fosse fertilizante ou a terra mesmo. O suor também figurava ali, das roupas e dos rostos. As ferramentas estavam dentro de um armário, junto à uma mesa onde tinha café.

        O gari que me convidou ao abrigo, me ofereceu o café. Eu aceitei. Senti o gosto amargo descer quente por minha garganta, mas era o máximo de cordialidade que poderia esperar. Aqueles semblantes me olhavam desconfiados e eu sabia o porquê. Eu estava bem vestido demais e parecia esnobe aos olhos de muitos. Fiquei olhando para o chão, calado enquanto a chuva corria lá fora. O trovão cortou meus ouvidos e o olhar de censura levou-me um pouco do meu orgulho.

        "Bucha de seis! Você morreu com uma bucha! Seu imbecil" Brandiu um jogador ao parceiro enquanto batia as pedras na mesa.

        Aquele grupo de garis de longe estava mais preocupado em voltar ao trabalho do que eu a sair daquela chuva. Discutiam quanto tempo levaria para fazer todo o serviço estipulado. Vez ou outra comentavam sobre a chuva, ou da família. Mas não demorou muito para que ficassem silenciosos sob minha presença.

        Fiquei ciente disso, e desconfortável, esperava aquela torrente de água passar. Mas não, ela só piorava. Na parada via as pessoas que tinham se recusado a ir no abrigo ficarem tão molhadas que poderia-se fazer uma sopa, era ridícula a ideia de tomarem um segundo banho vestidas, apenas por orgulho. De fato, o céu cinzento não me parecia promissor, mas a imagem de nenhum ônibus passar também não era muito reconfortante.

            Tentei me enxugar com um pano que tinha na mochila e conclui que estava ensopada de novo. Outro livro estragado!"Maldita cidade, passa seis meses sem chuva e quando chove parece que vai cair o dilúvio", disse um dos garis.

           O vento bateu mais forte, movendo a lataria do caminhão de forma preocupante, embora as chances de capotar pelo vento fossem pequenas, o veículo nem por isso deixou de balançar. Foi aí que passou o meu ônibus, não tive tempo de correr para pegá-lo, nem os outros passageiros que agora se acumulavam na parada. Tinha perdido e iria chegar atrasado, já era 3:56.


            O tempo demorou a melhorar. E mesmo olhando de longe a chuva se dissipar e os filetes de chuva se esfarelarem numa garoa fina, ainda demorei a tomar coragem para sair. O olhar curioso e desconfiado de um dos garis me deu forças para me despedir. Foi então que eu percebi, que era uma das raras vezes que não tinha nada a ver com as pessoas ao meu redor. E eu era um estranho na matilha.

           Agradeci com sinceridade o abrigo, e fui tratado com uma educação polida pelos demais. Saltei do caminhão e não ouvi os comentários maldosos que possam ter feito de mim. Na parada, os que ficaram me olharam com censura por estar seco enquanto eles estavam com as roupas completamente coladas no corpo. O tempo passou... A chuva continuava e mesmo assim nada do ônibus. Os desistentes se convenciam que todo aquele esforço fora inútil, e iam a pé para as suas casas.

        Fui o último a ficar na parada. Percebendo que só eu estava ali em pé, porque os bancos estavam molhados, também fui o último a desistir e a voltar para casa. A grama estava verde, as flores estavam vermelhas e o asfalto bem escovado e transparente. Contudo, não me esqueci o modo como aquele gari, na sua simplicidade me acolheu na chuva e me ofereceu um pouco de café, e também não esqueci o olhar desconfiado com que me olhavam os demais naquela cena tão estranha, tanto para eles quanto para mim.


        Esse fosso é bem mais fundo do que a gente imaginava. É bem mais fundo do que o Mar Vermelho.

domingo, 9 de novembro de 2014

"Tudo que é sólido se desmancha pelo ar"

         Nove de novembro, 1989. Após dois dias de intensas manifestações na Alemanha Oriental, o governo socialista da República Democrática Alemã caiu por terra com uma profecia proferida pelo antigo filósofo alemão e  patriarca do socialismo, Karl Marx: "Tudo que é sólido se desmancha pelo ar".


         Marx certamente não sabia que pouco mais de cem anos depois de sua morte esse seria o prenúncio do epitáfio da ditadura do proletariado no regime de socialismo real. De fato, creio que Marx tenha se tomado de intenso arrependimento nos dias mais funesto da DDR. Talvez suas teorias sobre o desenvolvimento do socialismo e da revolução proletária estivessem certas ao destacar que apenas num país ocidental o socialismo poderia ter seu mais pleno desenvolvimento como regime político.

        O problema que a Alemanha Oriental não era um país ocidental nem completamente desenvolvido. Os portões de Brandemburgo escondiam uma Alemanha dividida depois da selvageria da Segunda Guerra Mundial, de fato, os alemães pagaram muito caro por terem se seduzido e aderido (em maior ou menor grau) ao nacional-socialismo de Adolf Hitler e do NSDAP. A Guerra num mundo traumatizado pelo antigo conflito mundial, bem como o rastro do genocídio nos Bálcãs, na União Soviética e nos campos de extermínio na Polônia levaram a um revanchismo e uma onda moralizante intensa nos Julgamentos de Nuremberg.

  
        Para os países ocidentais, vide França e Inglaterra, era completamente inaceitável que um "país civilizado" pudesse fazer uma matança tão indiscriminada sem que a própria moral da sociedade levasse ao questionamento do regime. Mas a hipocrisia com que os ingleses e franceses viam o problema era notável: O massacre da Guerra dos Boêres, pelos ingleses, e a Guerra da Argélia, pelos franceses, são indícios que a violência não era uma novidade para as potências coloniais. A ideia inicial que fomentou a violência do conflito no Leste Europeu foi sem dúvida uma tentativa imperialista da Alemanha, que já era experimentada por outros países muitos anos antes.


        A obsessão foi paga de forma muito cara. A Alemanha novamente ficou com a reputação de vilã (no Tratado de Versalhes ela já tinha sido encarada dessa), sua economia foi arrasada, sua população civil foi posta a inúmeras provações (embora não comparáveis às provações dos poloneses, russos ou judeus) e o seu país foi desmembrado em quatro.

       Sim, a Alemanha foi desmembrada em quatro para que não ressurgisse novamente um "nacionalismo alemão". De fato, essa concepção de divisão dos estados alemães nasceu na política do Cardeu Richelieu de criar um poder imperial francês na Europa em decorrência da fragilidade política dos estados alemães. Mas como tudo na História, os anos certamente são um bom motivo para mudança das coisas. O poder hegemonico não poderia ser alcançado nem pela Inglaterra, nem pela França. E sim pela União Soviética.


       A pátria do socialismo não estava mais só, houveram levantes espontâneos em prol do socialismo em alguns países da Europa, como a Tchecoslováquia, Iugoslávia e Bulgária. Em outros locais, o regime de economia planificada foi realmente imposto, como a Polônia, Romênia, Hungria e Alemanha. O Exército Vermelho, e o próprio Uncle Joe, eram bem populares no Ocidente. A ideologia marxista, dificilmente, teve um grau de tamanha expansão quanto depois da Segunda Guerra.


        A formação de estados socialistas associados à União Soviética é notável. O baluarte do socialismo era conduzido pelo braço forte do Grande Timoneiro, "o grande camarada Stálin, o gênio, herdeiro de Marx, Engels e o insuperável Lênin". Foi o momento em que o país que por vinte e dois anos viveu no mais completo isolamento teve a oportunidade de se mostrar como uma potência. E mais do que isso, um farol de sonhos para a juventude.

         As desconfianças entre os Aliados cresceram. O gabinete conservador de Winston Churchill retomou uma postura francamente anti-russa que já existia bem antes da Primeira Guerra Mundial, e o próprio primeiro ministro passou a ter desconfiança dos reais interesses de Stálin, em especial na Polônia. Lembrando que o Reino Unido entrou no conflito para garantir a soberania do regime polonês (e manter o status quo do Cordon Sanitaire ).

        Os americanos na administração Roosevelt sempre se notabilizaram por uma certa simpatia pelo regime soviético, e isso marca por exemplo o reconhecimento da União Soviética pelos Estados Unidos (tardio) apenas em 1933, com a vinda do diplomata Maksim Litvinov para mostrar suas credenciais ao presidente Roosevelt.

          Contudo, a falta de capacidade diplomática de Harry Truman em lidar com os soviéticos trouxe um objeto de mal estar, que levou até mesmo a trocas de farpas entre o presidente norte-americano e o representante soviético Viatcheslav Molotov. Alguns acreditam que as atitudes de Truman levaram a um enrijecimento do trato entre a diplomacia soviética e americana, o que propiciou o início da Guerra Fria.


           Berlim foi conquistada. Tomada pelo 3° Exército de Choque do 1°Front Bielorruso, o 150° regimento desse Exército ergueu a bandeira soviética no alto do Reichstag, onde anos antes,Adolf Hitler tinha forjado um incêndio, servindo de estopim para o golpe que daria no governo de Weimar.

              Inicialmente era possível a população transitar (ainda com o controle dos guardas armados do NKVD em alguns pontos de saída), posteriormente, à medida que as relações entre aliados pioravam, a repressão começou a se formar. Os alemães orientais passaram a ser prisioneiros em seu próprio país, a Alemanha Oriental passou a ser uma espécie de campo de concentração a céu aberto. 

               A pobreza dos primeiros anos foi notável. Logo mostrou-se inviável dividir a Alemanha em quatro, e os setores de controle inglês, francês e americano vieram posteriormente formar a República Federal Alemã, com sede em Bonn. Berlim Ocidental virou um enclave capitalista no meio do mar comunista. Em 1948, o mundo assistiu o Bloqueio de Berlim, o acesso à cidade foi limitado por tropas soviéticas. Limitando a ajuda humanitária americana à população de Berlim ocidental.
            A crise diplomática foi resolvida apenas um ano depois quando as duas superpotências, URSS e os EUA, sentaram-se para discutir a situação. A questão que a recuperação da Europa ocidental tenha se recuperado bem mais rápido que o bloco soviético (embora a reconstrução soviética tenha sido notável, com taxas de crescimento anual beirando a 20% em alguns setores), só é explicável pelo Plano Marshall.

            O Plano Marshall nasceu como uma tentativa de contenção do comunismo pela a Europa, e não como uma obra de filantropia estadunidense. A injenção de milhões de dólares a fundo perdido era algo impossível a uma economia fragilizada como a União Soviética. Com a melhora substancial do padrão de vida do alemão ocidental, não foi muito difícil compreender porque milhares de berlinenses orientais fugiam da DDR,com sua pobreza e repressão exacerbadas;

            1953 é um ano de mudanças. Stalin morre, a União Soviética é agora uma superpotência que possui não só a bomba atômica, e sim a bomba de hidrogênio. O mundo assistiu o conflito da China com olhos arregalados, e a derrota de Chiang Kai-shek levou o país mais populoso do mundo ao bloco socialista. A Guerra da Coreia ainda não tinha terminado quando Stálin bateu pela a última vez as suas botas de couro no chão.


         A crise de sucessão soviética e  a corrida presidencial após os dois mandatos pífios de Truman levaram a uma trégua parcial das hostilidades dos dois países.  A ascensão de Kruschiov e a denúncia do estalinismo deram esperanças de melhorias nas relações com os países ocidentais. Isso realmente não ocorreu.

            A União Soviética se tornou a ponta do pensamento científico, lançou um satélite no Espaço, o Sputnik. Enviou o primeiro ser vivo para fora da terra, cadelinha Laika. E estourou a maior bomba atômica já lançada na terra, a Tsar Bomba. Em 14 de abril de 1961, Yuri Gagarin conheceu o espaço de perto pela primeira vez. E seria o primeiro cosmonauta a realizar o sonho de Julio Verne.


            O Vietnã estava há quase quinze anos em conflito, a Europa Ocidental estava praticamente reconstruída. E a Europa Oriental caminhava a passos largos em seu crescimento, o padrão de vida soviética chegou ao seu ápice na época de Kruschiov, e o próprio governante soviético falava em dar ao cidadão soviético um padrão de vida similar ao cidadão americano, com todas as seguridades sociais que só eram possíveis num estado francamente socialista.


            Contudo os cidadãos alemães não se sentiam incluídos na “grande família soviética”, o socialismo sempre teve uma penetração modesta na Alemanha, a sua maior ascensão foi no período confuso de conflitos entre os camisas pardas e os comunistas nas ruas. A socialdemocracia de Kautsky sempre foi mais influente entre os segmentos médios alemães.
            O status de vilã da guerra nunca escapou aos alemães, eles viviam num padrão de vida inferior aos seus conterrâneos ocidentais, não partilhavam das mesmas liberdades e para piorar eram observados de forma brutal pelo seu próprio país. A tendência de governos altamente repressivos na Alemanha é uma marca de Bismarck até Honecker.


            A evasão de cidadãos para a Alemanha Ocidental era cada vez maior. Na madrugada do dia 13 de agosto de 1961, a esperança de um mundo melhor desapareceu. O Homem tinha chegado ao Espaço, mas não tinha conseguido sair de sua própria capacidade para a estupidez. Os berlinenses tiveram uma surpresa ao encontrar a sua cidade cortada por guardas armados, arame farpado e juntas de tijolos de concreto e argamassa. Nascia o muro de Berlim, e com ele a Cortina de Ferro física.

            Konrad Adeunaer tentou acalmar a população da Alemanha Ocidental, mas isso foi um tanto inútil. Willy Brandt, na época prefeito de Berlim, reclamou o quanto pode com as autoridades da Stasi e da DDR. Entretanto nada pode ser feito e a declaração de  Walter Ulbricht, líder da Alemanha Oriental passou a ser uma franca mentira:

Vou interpretar a sua pergunta da maneira que na Alemanha Ocidental existem pessoas que desejam que nós mobilizemos os trabalhadores da capital da RDA para construir um muro. Eu não sei nada sobre tais planos, sei que os trabalhadores na capital estão ocupados principalmente com a construção de apartamentos e que suas capacidades são inteiramente utilizadas. Ninguém tem a intenção de construir um muro!


                 O socialismo nasceu como uma ideologia universal, que deveria em tese, ser mostrada para o mundo inteiro para ser uma proposta viável frente ao capitalismo. Essa era a proposta inicial de Karl Marx ao escrever o Manifesto Comunista e recitar a canônica frase: “Trabalhadores do mundo, uni-vos. Pois nada tendes a perder senão os seus próprios grilhões”.

                O que foi o Muro de Berlim senão o sufocamento do ideário socialista? A Alemanha se desentendeu consigo mesma e agora dois povos tinham identidades diferentes. Não digo que viver na Alemanha Oriental fosse uma merda, não era, o padrão de vida de um cidadão alemão oriental era bem melhor que o padrão de vida de um cidadão brasileiro hoje.

              A Alemanha Oriental tinha uma jornada de trabalho de cinco horas, o sistema educacional e de saúde era público e funcionava. Qualquer cidadão da Alemanha Oriental poderia tirar férias, ter licença maternidade e paternidade. A despeito dos comícios, paradas militares estafantes e discursos vazios a vida do cidadão alemão era comum e bastante banal.

              O maior problema era que tinha mais agentes da Stasi, polícia secreta da Alemanha Ocidental, do que cidadãos economicamente ativos. O controle de informações era absurdo e as piadas dessa época são notáveis:

           “Vocês já se perguntaram por que na Alemanha Oriental os policiais sempre andam em três? O primeiro escreve, o outro lê. E o terceiro serve para prender os dois “intelectuais”.”


             De Trabants à comida enlatada. Viver na DDR não era o maior sacrifício na Terra. Mas onde existem Mercedes e apartamentos com calefação, sempre haverá cobiça. A grama do vizinho sempre é mais verde.

              A múmia política de Honecker beijava a outra múmia do Brejnev. A política do Partido Comunista Alemão não representava o grosso da população, no fim a decadência e estagnação corroeram a “sociedade perfeita”, e a Utopia de Thomas Morus se tornou o Admirável Mundo Novo de Huxley.

             Na parada de comemoração da Revolução de Outubro, em 7 de novembro de 1989, milhares de jovens e adolescentes saíram as ruas em busca de liberdade e transparência. Muitos nem sequer acreditavam no fim da Alemanha Oriental. As reformas de Gorbachiov começaram a ter efeito no bloco soviético. A polícia alemã ensaiou uma repressão, que sob os olhos dos ocidentais eram uma nova onda de barbarismo; Todos lembravam o discurso de Ronald Regan: “Mister Gorbachiov, tear down this wall”

            Não foi Gorbachiov que derrubou o Muro, foi a profecia de Marx: “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. O regime sólido da Alemanha Oriental era representado pela pequena imagem de um muro acinzentado de concreto, laminado com uma capa de cimento, água, areia e pedra. Um monte guardas armados com AKs-47, rotweillers e brigadas de tanques. Tudo caiu, como deve cair. Nada é sólido o suficiente para ser imortal.


            A queda do Muro acabou com a União Soviética? Não. A União Soviética acabou porque não conseguia mais vender um sonho para a sua população há um bom tempo, o cidadão soviético vivia a partir da inércia desde a chegada do poder de Brejnev. A crise de abastecimento, a estagnação, a Guerra do Afeganistão, Chernobyl. Corrupção. Gorbachiov. Golpe. Tudo isso levou a demolição do regime criado por Lênin há 97 anos atrás.


         O socialismo morreu? Não. Só se dinamizou. Também se dividiu, do trotskismo ao maoismo. Da socialdemocracia com coloração um tanto liberal até o “socialismo bolivariano”. Marx ainda é lido, não como papa, mas como teórico. E isso é bom.

            Pessoas esquecidas vem sendo resgatadas, felizmente. Nunca se leu tanto Gramsci na esquerda, como agora. Bukharin saiu do seu esquecimento na década de 30, mas ainda não foi completamente recuperado. A socialdemocracia teve maiores avanços, incrivelmente (para quem nunca deu nada, Kautsky incrivelmente conseguiu superar até Lenin). Hoje o debate entre o marxismo é a retomada do debate do século passado, o marxismo deve ou não seguir uma via democrática? Até hoje não há consenso.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Um último conto de novembro

         Meu avô era um homem do interior, nascido e criado no calor dos sertões brasileiros; era um homem de simples. Honesto e trabalhador, não era homem de muitas palavras e quase nunca sorria. A despeito de sua simplicidade como pessoa, era alguém de valor e estima, mais esperto que muitos intelectuais hoje.

         Por algum tempo ele trabalhou com o contrabando de cachaça, saía todas as noites a cavalo carregado de produtos para não ser pego pelo fiscal da prefeitura que sobretaxava as bebidas. Mas de manhã tudo o que fazia era vender sacos de açucar no Recife. Valente, um dos poucos homens de fibra que ainda resistiam em seu tempo, enquanto os homens andavam de brilhantina, meu avô andava de espingarda.

        Bebia cachaça num só gole e fumava mais que uma chaminé. Vivia contando histórias de suas viagens para os amigos quando voltava do interior, mas o que mais se ressentia, a despeito de ser aventureiro. De ter perdido seu pai tão cedo. Meu avô sentia faltava de seu pai às vezes, quando falava de meu bisavô seus olhos enchiam-se de lágrimas.  Nunca soube como meu bisavô morreu, nem tampouco meu avô se esforçou a contá-lo. Vovô não gostava de contar de sua vida pessoa, mas adorava contar várias histórias de suas aventuras.

        Certa vez brigou com ladrões de cavalos no interior, atirou a espingarda, a primeira vez na sua vida e conseguiu salvar um carregamento inteiro de cachaça no caminho. Mas na segunda vez, não teve sorte porém, teve que entregar o cavalo caso contrário seria morto. Desde então passou a subornar os bandidos para que não o atacassem tanto durante a noite. O Brasil que ele vivia era diferente do Brasil atual, os bandidos ainda tinham cordialidade.

       Contudo, mesmo sendo um homem que poderia muito bem ter vivido no século XIX ou no faroeste americano, meu avô ainda era homem de seu tempo. Ficou sabendo pelo rádio a aclamação de Juscelino e mais do que isso notícias da construção de uma nova capital, no interior do Planalto Central. A TV ainda não tinha chegado ao interior, mas imagino o choque que fez meu avô sair de sua vida nos arredores de Recife e decidir enfrentar a estrada até o Goiás. Ele tinha vinte e três anos, pouco mais velho do que eu.

       Imagino o choque que foi encontrar os arranha-céus gigantescos e suntuosos de Oscar Niemeyer na Esplanada dos Ministérios ainda sob a forma de esqueletos de concreto armado. Para quem só era acostumado com casas de alvenaria muito antigas, para ele aquilo devia ter saído de outra realidade. 

       Meu avô nessa época escrevia tão pouco e tampouco lia como as pessoas leem hoje, mas era desnecessário naquela época. Ele era um operário do sertão, um candango, muito mais trabalhador empenhado do que um pobre miserável como eu que fica brincando de poeta-proletário.


        Em Brasília, as barracas de lona montadas na Cidade Livre e na vila IAPI era a evidência que o Brasil de JK ainda era um Brasil feudal a despeito da modernidade aparente. À noite, as crianças morriam no frio do inverno. De dia rolavam mortes e assassinatos por dívidas de jogo ou mesmo só pela bebedeira. Ainda assim Brasília era a primeira vez que ele veria uma cidade moderna.


        Canteiro de obras na terra vermelha. Meu avô trabalhou, seja nas obras no Ministério do Planejamento, Itamaraty, nas quatrocentos ou duzentos. Meu avô trabalhou. Trabalhou como pode no Hospital Militar e nas obras do Aeroporto, mas isso não lhe serviu para que fosse trabalhar na NOVACAP. Trabalhou tanto em Brasília, mas nem chegou a conhecer JK, apertar sua mão , bater no seu ombro e dizer: "Trabalho feito, presidente. Aqui está o novo Brasil". Ele mal conseguiria reconhecer o presidente da época agora, Jânio Quadros, com o seus ternos cheios de caspa e os óculos fundo de garrafa.


        Contudo, meu avô sabia reconhecer a beleza no meio do calor de homens suados correndo de um lado para outro com vergalhões de aço nas costas. E assim conheceu minha avó.

          Olhos azuis, cabelo negro.e o toque lusitano. Minha avó ainda hoje é um poço de inocência, uma criança no corpo de um adulto, ou melhor de uma velha. Suponho que fosse mais inocente na época, e mais bonita. Por isso acho bem provável que meu avô tenha se apaixonado por ela.


         E os dois passaram quarenta anos juntos, se não estou errado. E duvido que tenha partido deslizes do meu avô no meio do caminho (embora eu não possa afirmar categoricamente nada). O problema é que o amor de meu avô era compartilhado com a bebida e o cigarro, todas as vezes que ele voltava de sessões de bebedeira, passava a ser uma pessoa agressiva. Batia na minha avó e nos filhos. Entretanto, nenhum casamento é um mar de flores, e de fato, eles tiveram vários filhos: incluindo minha mãe, que não é exemplo pra nada.

         Meu avô começou a trabalhar num ótica na W3 Sul. E com muito sacrifício conseguiu construir uma casa num terreno muito espaçoso, o qual eu chamava deliciosamente chácara do vovô.   Ali tinha pés de tomate e chuchu, que minha avó usava para fazer suas comidas sem gosto. E também bananas verdes que davam no pé, cana de açucar que era cortada para a gente (os netos) comerem em lascas. 

        A "chácara de Seu Manel", me lembra muito verde e da época que brincava com meus tios de pique-esconde e jogar bola. Como também as brigas que tinha com meus primos e dos dias que saia de casa e ia dormir na casa de meu avô por causa dos conflitos constantes de minha mãe com o meu pai.



         Por muito tempo, meu avô era meu pai. E sim, foi ele que me criou a despeito de tudo. Vovô passou por muitas provações na vida, mas era um homem forte. A maior de todas elas foi não ter conseguido salvar meu tio dos braços das drogas, e isso o marcou profundamente nos últimos anos. O tornou um tanto mais amargo, o fim triste do meu tio, tornou-o outra pessoa.

          Os filhos passaram a ser um engodo para o meu avô. Sazonalmente há brigas de famílias graves e discussões tão banais que tornaram tudo mais difícil para uma pessoa de idade como o meu avô. Entretanto, apesar disso, a vida dele mostrava uma força de vontade alicerçada na fé. Religião pra mim é uma franca alegoria, mas para ele era uma coisa francamente séria.

          De fato, meu avô era um homem diferente de outras pessoas. Um homem corajoso, que depois de muito tempo se submeteu a enfrentar o cigarro e a bebida e tornar-se um indivíduo mais familiar. Era um homem silencioso ao mesmo tempo que sábio, e hoje entendo a razão de seu silêncio e falta de sorrisos. A vida é muito curta para ser desperdiçada com falácias;


          Só sinto pena de meu avô porque nem os seus filhos, nem os seus netos chegaram perto de sua pessoa, principalmente os filhos, que se tornaram tão mesquinhos por suas rixas sem importância através dos anos.  Quando fui vê-lo pela última vez eu pensei justamente nisso e me apiedei de não ter sido o melhor dos netos nos últimos anos.


          Hoje, dia 7 de novembro. Meu avô entrou na UTI, com um quadro de desnutrição e desidratação em decorrência de seu câncer terminal. A despeito de sua fragilidade nos braços, e a dor em seu rosto. Os cabelos caídos e suas rugas cada vez mais profundas. Esse homem que hoje descansa no leito, sem qualquer suporte dos médicos, senão umas poucas palavras reconfortantes (e mentirosas) é um herói para mim. Um herói que nunca será lembrado pela História, porque nunca foi político, ou mesmo cientista ou artista. Mas apenas um cidadão brasileiro.
         
. Correção: Hoje pela manhã, recebi a notícia que ele faleceu em decorrência do câncer. Ao contrário do que ele tanto desejara, não lhe foi ofertada a opção de morrer em casa. Descanse em paz, vovô. Você merecia bem mais

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