sábado, 22 de dezembro de 2012

Para entender a brisa

       Venta à  boro-este no país dos Ivérianos, numa tão distante planície de água tão densa e tão límpida que acaricia as pedras com o lamber de suas ondas, chiando remotamente um adocicado som de voz gorjeante.

       Naquela praia isolada, encrostada nas pedras de um lindo rochedo branco de pedra calcária projetava-se um bolsão sobre a baía com os ciprestes mediterrânico pontuando cada parte daquela falésia ao céu aberto, trazendo alegria ao sol que estava acordando.

       Caminhava sozinho, alegre e contente, cantando um hino desafinado à terra amada; seguia descalço com um chapéu panamá bem surrado e de camisa tão aberta que parecia um pescador:

       "Enche de flores, terra dos jacintos;
        Estenda minha mão sobre a violeta
        Enquanto lírio do campo acorda
        E o botão de rosa floresce"

        Não era um pescador de certo, mas era como se fosse, um pescador de palavras, que inclinara a sua cabeça sobre a brisa e ficava contemplando o céu, tão límpido e tão sedutor, no alto das nuvens distantes uma cotovia voava tão preguiçosamente que o alegre jovem rouxinol, de novo pôs a cantar:

       "Move incansável seus olhos
       Inclina tua cabeça ao sol
       Dispersa a névoa das nuvens sombrias
       Que pairam sobre o seu coração

       Sorri gentil para a terra
       Como faria para amada
       A geleira de acalanto
       A bela musa suave dos céus"

domingo, 16 de dezembro de 2012

Uma síncope vespertina




               Era uma tarde, daquelas meio traiçoeiras nas quais o sol irrompe sobre as nervosas nuvens do céu. Algo tinha de sedutor naquele tom meio acinzentado,quase de asfalto, com o qual o dia havia nascido.

                Tudo era tão estranho, todo mundo estava com roupas de frio, mas tudo o que sentia era calor. Muito calor por sinal. Tentou abrir a janela do comboio, mas nada adiantou, naquele ônibus lotado, sequer podia ouvir a sua respiração.

                Era um calor ardente, ofegante, que vinha do peito e queria sair pela boca junto com o coração. Ninguém notava, ou ninguém queria notar, mas ele transpirava horrores pelas têmporas, fazendo cair o gélido filete de suor pelas magras maçãs do rosto.

               Para piorar, toda hora ele esfregava a língua nos lábios. Sentia uma sede absurda, uma vontade incontrolável por encontrar uma garrafa de água e bebê-la furiosamente. Chegava a ser inexplicável.

                Parecia saudável, embora a palidez do seu rosto fosse algo anormal. O tom opaco de sua pele dava-lhe uma aparência meio póstuma para um jovem. Mesmo assim, parecia ser saudável. Não falava, não sorria, só estava lá, em pé, esperando ansiosamente chegar na estação.

                O ônibus estava lotado; Pessoas no fundo debatiam sobre a última partida de futebol de domingo, mulheres meio obesas fofocavam com gosto a vida alheia, e um casal de namorados se beijava num dos bancos.

                O rapaz viu com palidez tudo isso, parecia sentir algo ruim ao ver os dois se beijando, um pouco de dor, arrependimento e uma pitada de inveja. Quando os dois namorados desceram, sentiu seu ombro relaxar nas costas.

                Um vendedor de doces entrou no ônibus com sua cesta repleta de guloseimas, para deleite das criancinhas e para o desespero das mães: “Olha a paçoca, a paçoquinha bem docinha. 1 real.”

                O vendedor passou por todos os bancos, fustigando os passageiros com o seu grito estridente de vendedor, mas mesmo assim só conseguiu vencer dois dropes e um pacote de chicletes para algumas senhoras. Sendo completamente ignorado pelos outros.

                O cobrador mesmo estava irritado com o jeito meio fanhoso com que o vendedor falava, e deu graças a Deus quando o mascate foi para o fundo do comboio, não antes sem gritar: “Vamos logo, minha gente, que estou descendo”.

                O rapaz fitou meio com agonia a cesta de doces, mas tudo o que conseguiu foi uma olhada grosseira do vendedor com marcas de varíola; Aquele olhar resignava até o mais duro dos homens.

                Logo quando desceu o mascate, uma parada depois, também desceram alguns engravatados com pastas de couro nas mãos próximo ao Banco Central: Era o pessoal do funcionalismo público, arrogante e presunçoso, embora também não tivesse onde cair morto. 

Faltavam umas duas estações para a Rodoviária, e o rapaz se sentia cada vez mais fraco. O coração havia disparado como se tivesse levado uma pancada no meio do peito, o suor escorria pela sua camisa, tomando feições de uma tromba d’água e as pernas já não se aguentavam mais em pé.

Numa das curvas, depois da parada da Galeria dos Estados, no Setor de Autarquias  o braço não segurou, e o jovem se desprendeu na curva, caindo junto ao banco vazio... Felizmente ninguém viu aquilo.

“Vamos, vamos, preciso chegar, preciso chegar LOGO”, pensou consigo o rapaz.


Mas a sinaleira não ajudou em nada e de quebra, o sedutor céu nublado tinha dado seus ares meio perversos naquela proto-selva de pedra. Começou a chover fino no centro da capital, uma chuva tão rala que nem merecia ser chamada de chuva, ainda assim isso não apagara a situação de mal-estar que o rapaz presenciava.

Demorou-se enfadonhos cinco minutos até a sinaleira abrir e o ônibus passar por cima do afamado Buraco de Tatu, chegando assim na plataforma inferior da fedida e suja rodoviária da capital. E isso não era hipérbole alguma, mesmo sendo uma das mais renomadas obras de um famoso arquiteto, a Rodoviária era uma monstruosidade opulenta de pobreza e gente. Nos seus boxes ainda se escondem mendigos e trombadinhas, à espera do último níquel de algum desavisado, e a pedra branca tão suja combinava tão bem com o concreto negro das calçadas mal cuidadas daquela construção.


“Vamos logo, vamos logo”, pensou agora de forma categórica, a ansiedade o corroia por dentro, mais até que a incomoda sensação de queimação que percorria-lhe no peito. De repente ele começou a sentir que estava suando frio.


A lerdeza com que o ônibus se movia só ajudava ainda mais o seu nervosismo, e para piorar, ele começou a ver tudo distorcido, como se tivesse tomado algum psicotrópico que distorcera a sua mente, mas não era nada disso.
Quando o ônibus parou, ele correu para junto da porta que tão rapidamente saiu por ela quando se abriu. Tentou correr, mas tinha muita gente na sua frente, naquelas imundas calçadas, então foi cortar caminho pelo asfalto mesmo.


“Vamos logo, vamos logo, Anda. Anda!”


Sentiu suas pernas ficarem bambas e a garoa fina que caía sobre o seu rosto se afinava cada vez mais até que por fim os seus olhos ficaram turvos e desabou no chão. Sim, ele caiu ali, aos olhos de toda aquela gente que só pensou em seguir em frente, sem que ninguém o ajudasse.

Caiu com o rosto virado para cima, deixando gotejar sobre o seu olho o fino chuvisco do céu de Brasília, um céu escuro e devasso, e olhando para longe, com um pequeno sorriso tentando disfarçar a dor, imaginava ele uma menina, uma linda garota mesmo, até suas vistas apagarem de vez.


“Cidadão! Cidadão! Você está bem?” Gritava uma voz a qual não podia se distinguir, o garoto sequer sentiu ser arrastado pelos policiais até a plataforma da rodoviária.


“Deve ter sido um ataque de glicemia, talvez ele fosse diabético”... Talvez ele fosse.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Niilismo musical

         Pedras rolantes esmagam besouros nas sombras da noite, enquanto a Rainha grita com o arquiduque Francisco Ferdinando nos campos de milho do Kansas colorido meio roseado naquele negro sabá no final do ano.

       Um russo discutia com um Vila Lobbos a problemática que o aborto elétrico causava na sociedade contemporânea ocidental onde no tintilar da ode metálica Justin Bieber é rei e Nirvana é cult.

       Alice sentada nas correntes da vida come o ardente chili de pimenta vermelha enquanto olhava as pérolas se acumularem ao fundo do rio, tão podre, tão sujo, declinado e extorquido por fazendeiros lunáticos munidos de pistolas sexuais.

      Sem entender isso tudo o pequeno cachorrinho Snoop, aos embalos de James Brown, canta ao rei do soul uma música tão estridente que faz até o Clint Eastwood franzir o cenho. E tudo acaba com um Zeppelin luminoso cortando o céu roseado daquele dia enquanto a rainha continua a discutir com Francisco Ferdinando os rumos que toda essa alucinação psicotrópica ser resolvida à base de armas e rosas.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Na mais pesada das chuvas

        O céu se fechou, o vento me abanou... Meu coração gelou.

        Tudo está tão escuro, tão revolto, as nuvens no céu são tão turvas quanto o sedutor traçado do seu cabelo fino. Não, são até mais escuras.

        Turvo também é o pensamento que me consome, sombrio e melancólico, aquele que vem com a chuva e não passa. Arrependimento.

         Mas não é arrependimento do que eu tinha falado, mas de como devia falado, de como devia ter dito palavras melosas ao pé do ouvido, de não ter me calado quando eu tinha voz, de não ter fugido quando devia ter ficado ao seu lado.

         É a chuva que bate na minha janela, gotejando os meus últimos suspiros, os meus últimos choros. É terrível olhar para uma chuva de verão e pensar que não a terei do meu lado, não poderei abraçá-la e sequer poderemos ficar juntos envoltos num cobertor apenas nos aquecendo enquanto eu aninho os seus cabelos e digo que te amo.

        Você sorri, diz alguma besteira, me olha estranho e começa a falar... e eu nem me importo, cada minuto que estou com você me sinto cada vez mais apaixonado.

        Imagino nós dois, velhos e enrugados, com o passar dos anos nas costas, abraçados na mesma cama um olhando pro outro, brincando, sorrindo, sem nos importarmos com a chuva que cai do céu. E que chuva!

        Sim, era na chuva que costumava andar sozinho, no meio da rua, enquanto os carros passam e as pessoas tentam se proteger, é na chuva que posso chorar e ser compreendido sem me mostrar por vencido. É na chuva que deixo meu cabelo molhado tomar formas e abro meu coração apaixonado.

       Naquele frio cortante daquele aguaceiro, é naquele  frio que sinto que tudo se vai, que o vento leva minhas forças e a chuva leva minhas lágrimas.

       Hoje olhei as horas impacientemente, esperando o dia que poderia falar com você de novo, quando bateu 13:13.

        Eu sorri da ideia, não podia ser,ela não podia estar pensando em mim. Eu sorri, mas parte de mim ainda tinha essa esperança. As horas se repetem e quanto mais acredito, acredito que estou perdidamente apaixonado por você.

        O ponteiro do relógio bate, a chuva continua a cair. Eu sozinho nesse quarto escuro, sem uma música de fundo, fico nessa melancolia ridícula de se você me ama ou não. Parte de mim acredita que sim, que um dia ficaremos juntos e seremos felizes, parte de mim acredita que não que você gosta de outro e que não sou adequado pra você. Na verdade, eu não sei o que dizer.

        Nesse dos mais escuros dias, nas mais clara das luas, com a chuva caindo do céu, sinto uma imensa vontade de ficar perto de você.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Uma vida de sonhos

          Todos nós, pelo menos uma parte da vida, sonhamos com alguma coisa. Sonhamos com uma vida que não poderíamos ter, sonhamos com ideias sedutoras, sonhamos até com o prato de comida do outro dia. Nossa vida é guiada por sonhos.

        Hoje sonhei com uma utopia, uma sociedade tecnológica sem pobreza e miséria  com prédios suntuosos, modernos, carros voadores e trens extremamente rápidos. Não havia pobreza ou fome, sequer violência ou preconceito. Era um mundo de tolerância, respeito e justiça.

        Nesse mundo, homens e mulheres tinham os mesmos deveres e direitos. As máquinas trabalhavam para nós e não contra nós e estávamos nesse futuro conquistando o Espaço, com nossas naves velozes percorrendo distâncias longas e explorando novos mundos, conhecendo novas civilizações.

         Tínhamos conseguido resolver a questão da fome e da distribuição de renda. Controlávamos a fusão nuclear e tínhamos segurança e liberdade. As guerras e as falácias tinham ficado para os museus, museus esses tão completos e tão dinâmicos que davam gosto de ver.

        Essa realidade só foi possível com uma revolução de pensamento da humanidade, que após um cataclisma quase colossal em nossa época, aprendeu que era melhor viver em cooperação mútua. Houve uma revolução cultural, sem o uso do ferro e do sangue, e uma democracia representativa instituiu uma sociedade totalmente diferente das demais.

        Esse sonho era inconclusivo em como se alcançar esse futuro ou que rumos ele próprio levaria, mas foi uma ideia sedutora pensar em algo diferente, algo que pudesse ser perfeito e direcionado para todos nós.

       "A gente tem que sonhar; senão as coisas não acontecem". Niemeyer estava bem certo nesse ponto.
       

domingo, 2 de dezembro de 2012

Conclusões sobre a Primavera Árabe

       No  início desse ano nós tínhamos assistido com tamanho entusiasmo a ressurreição de um povo inteiro contra um estado opressor na Arabia  os espíritos mais imbuídos do pensamento de Locke fundamentavam o seu apoio no fato de que Kadaffi, Mubarak e Al-Assad tinham perdido a sua legitimidade a partir do fato que seu domínio se representava pela violência e não pelo bem-estar de sua população, tudo isso está certo.

         A questão é se valeu à pena? Valeram à pena as mortes na Líbia causadas pela total guerra civil, da qual nós ocidentais tivemos tão pouca informação? Vale a pena morrer agora na Síria para por fim um poder ditatorial opressivo como o de Al-Assad? Eu acredito que sim, mas a minha desilusão quanto a isso é profunda.

            A ditadura na concepção romana se baseava no fato de que se a República estivesse em perigo cabia ao Senado nomear um representante para defender a cidade de Roma nos tempos de crise, sendo plenipotenciário por um período curto. Era um cargo respeitado e de prestígio, até ser usurpado por Mario e Sila, e logo depois por César, e entrar na concepção moderna sinônima de tirania.

            A ditadura dita "oriental" é um tipo até mais singular de Ditadura, é uma Ditadura que fundamentalmente não precisa se basear numa ideologia, na prática elas mesmas já desvirtuaram a própria ideologia concreta, vide a aplicação do marxismo no Vietnã por exemplo, ou na Coreia do Norte.

            As ditaduras no Oriente Médio se fundamentaram num misto de interpretação bastante torpe de algum tipo de socialismo com o elemento religioso embutido, não vou aqui dizer que o Irã é um regime socialista, e que o talibã era uma base de fronteira de Moscou (na verdade era dos EUA), mas quando vemos regimes como a Líbia, a Síria e afins, observamos um discurso falho ideológico carregado de um teor religioso.

             Kadaffi caiu e "que suas bolas sejam cortadas e dadas às cabras para comerem", Mubarak estava definhando no seu cubículo até ser declarado morto clinicamente após uma série de AVCs, o Kim Jong Il morreu de tanto por gel no cabelo, entrando o seu filho viciado em Mc'Donalds. Parecia haver uma esperança mesmo de que no mundo não há espaço mais para ditadores.

            Será? A Venezuela reafirmou o desejo de continuar com Chávez que o latino-americanismo mais exacerbado cultua como um supro defensor da causa libertária, o que é uma profunda balela, considerando que Chávez só anda promovendo medidas assistencialistas e vem se mantendo num populismo tão tristonho que se baseia na venda de barris de petróleo aos Estados Unidos, Chávez é a mistura de um revolucionário fracassado, populista desalmado e charlatão desgraçado.

             O Paraguai, tão bom conhecedor de regimes ditatoriais, afinal formou a primeira ditadura da América do Sul que se tem notícia, foi expulso do Mercosul por causa de golpe ao seu antigo presidente, o bispo comedor de criancinhas (literalmente) Fernando Lugo, e o Brasil com sua política diplomática agora tristonha promovida pelo ministro Patriota, vem se submetendo aos anseios ensandecidos da grã-rainha do populismo latino-americano, Cristina Kichner.

              O Brasil, embora duvide que caía num regime ditatorial, vem amargando de um populismo também arrogante que vem mostrando suas mangas com o escândalo do Mensalão que a direita estúpida usa como argumento, demasiado falho, mesmo sabendo que ela também tem os seus podres. Foi em uma época parecida que ascendeu o bêbado lunático do Janio Quadros que indiretamente causou o Regime Militar.

              A esperança ainda perdura na figura de um líder de um pequeno país na América do Sul, entre o Brasil e a Argentina, José Mujica, ex-guerrilheiro que virou presidente do Uruguai, que ao contrário dos outros, mantém uma postura de humildade, estabelecendo para si um diminuto salário correspondente à 10% do piso presidencial normal, e indo para o trabalho no seu pequeno Fusca azul escuro, além de promover reformas sociais e educacionais importantes nesse país platino.

              Enquanto temos esse sopro de esperança na América Latina, o mesmo não se assiste no Oriente Médio, afinal de contas o Irã está nas portas de um regime fascista pautado no fundamentalismo islâmico que de certa forma está desenvolvendo o seu programa nuclear não de maneira inocente, tal como Ahmadinejad tenta nos convencer, mas sim por meio de negócios no mercado negro (porque a espionagem deles deve ser uma coisa tristonha de se pensar).

               A Síria está em plena Guerra Civil, com tropas do governo massacrando crianças a seu bel-prazer, embora  a imprensa tenha perdido um pouco do seu interesse, mas Al-Assad  continua governando um dos regimes mais ditatoriais do mundo, que foi passado como se fosse por herança de seu pai. E hoje mesmo tropas do governo tinham anunciado uma ofensiva contra os rebeldes, que espero que resulte em um fracasso para Damasco.

               A Palestina é a velha vedete desse quadro hostil no Oriente Médio, primeiramente porque o problema se estende desde 1947, com a criação do Estado de Israel, que para muitos foi pautado a partir de um erro (eu também penso assim), mas que tem origens bem mais antigas. O anterior status de não reconhecimento da Autoridade Palestina decretava um obstáculo legal, mas abria um precedente, permitia que qualquer grupo extremado pudesse atacar Israel sem inculpar diretamente a Autoridade em si, tal como aconteceu no lançamento dos misseis promovido pelo Fatah.

             Israel respondeu de sua forma costumeira, hostil, bombardeando casas, passando com os tanques, matando civis inocentes, incluindo mulheres e crianças. Nunca sairá da minha cabeça a cena de um repórter correspondente da BBC na Palestina, em prantos, levando o corpo de seu filho, um garoto de pouco mais de um ano, enrolado num pedaço de pano branco, perguntando-se o porque daquilo. Não tem um porque, realmente não tem, a não ser a sede pelo sangue que os dois lados têm por si.

             Israel e a Palestina parecem literalmente dois irmãos que brigam por que não gostam um do outro, esquecendo-se que têm o mesmo pai, Abraão, e que portanto são povos irmãos, pois também são da casa de Sem. Na minha época esse tipo de coisa se resolvia batendo nos dois, mas não é o que acontece.

             Israel é quase um estado vassalo dos Estados Unidos, e todas as lideranças mais ou menos de esquerda do Mundo parecem ter um fascínio pela figura do estado palestino, tendo em vista que parece ter uma inversão de papéis, agora Israel não é mais a figura do rei Davi, e sim a de Golias, e os Palestinos foram carregados com esse teor de guerreiros armados de fundas contra o gigante "filisteu".

             Devo dizer que me oponho às duas visões, tanto a política internacional estado-unidense está errada quanto essa visão um pouco reducionista também. O problema todo se resolve com o internacionalismo, se suportamos um ou outro nacionalismo, somos injustos. O Fatah não é inocente e o Estado de Israel também não.

             E mais uma coisa, o Estado de Israel não é supro representante do povo judeu, ele é um estado como outro qualquer e tem seus próprios interesses, e os leva muitas vezes à frente dos de seu povo. A guerra atual ajudou a crescer a popularidade do partido de Nethanyahu que havia sido abalada com os efeitos nefastos da crise mundial em Israel (ou você acha que Israel é só apogeu econômico), mas continua ainda incógnito o fato deles terem conseguido dinheiro para uma guerra assim do nada.

            Se a situação da guerra não parecia dar mostras de esperança, a ONU finalmente agiu de uma forma decente, ao reconhecer na Autoridade Palestina o status de nação, embora não membro efetivo da Assembleia, isso sim é um grande passo, embora Israel ainda aja de maneira hostil a tudo isso, como um valentão do Oriente Médio.

            Não adianta, só com o mútuo reconhecimento que podemos estancar essa hemorragia que faz jorrar todo o nosso vestígio de humanidade para o ralo.

            A primavera em si foi um movimento em prol da democracia, foi um suspiro de um povo que foi à rua para destronar ditadores e impor uma nova maneira de pensar, tudo isso fundamentada entre outros fatores de ordem econômica, afinal, todas as revoluções ocorreram pela falta de pão.

           Entretanto, o que vemos no Egito e na Líbia é instabilidade, na Síria nem se fala. Na Líbia, ocorreu há não muito tempo atrás o assassinato de um embaixador norte-americano o que pelas regras diplomáticas sacramentadas pela Convenção de Genebra é uma mostra de falta de controle político, e no Egito, o presidente mesmo tendo limite de mandatos, pela constituição não reconhece por exemplo o direito das mulheres, levando novamente à população à Praça Tahit, onde tudo começou.

            Usurpadores do poder do povo não faltam, principalmente no Egito, mas ainda há um sopro de esperança quando vemos o reconhecimento da Autoridade Palestina como uma nação, e esse sopro de liberdade de um povo é que nos faz pensar, que mesmo com os intemperes a luta do povo está dando largos passos em prol de um novo mundo, melhor que esse antigo, da dita "Nova Ordem".


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Monologo de uma madrugada

    Eram 5: 34 da manhã e eu me peguei pensando em você. Senti saudades da sua voz, de suas risadas, de suas loucuras.

   Senti uma vontade maluca de conversar com você e imediatamente fui pro Facebook, mas novidade: Você estava dormindo.

    Você estava certa, que tipo de pessoa acorda às 5: 34 da manhã pra pensar em alguém e ainda quer conversar no Facebook? Essa pessoa sou eu.

     Na verdade eu não queria conversar no Facebook, eu queria conversar pessoalmente, nós dois, no meio daqueles bancos naquele prédio principal onde costumamos nos reunir, só nós dois, mas nada igual como um encontro, só uma conversa. Trocar conversa fiada, falar coisas impensáveis, falar  com certa liberdade.

       Foi aí que eu percebi que eu sou um bobo de querer me afastar de você, porque acordar às cinco da manhã pra escrever essas coisas é ferro. Enquanto outros dormem você se levanta pra escrever besteiras.

        Besteiras, quantas besteiras eu disse, algumas não eram besteiras é claro, mas a maioria era, de certa forma eu sinto vergonha das barbaridades que já disse perto de você e com você. Idealmente eu não queria fazer essas coisas, mas no fim, eu fiz.

        São 5: 42 da manhã e ainda quero falar com você, mas eu não me emendo mesmo. Vontade chata de querer acordar os outros no meio da madrugada pra no fim ficar contido e não falar nada, é vergonhoso, bastante vergonhoso.
 
          Quando estou com você, conversando, ouvindo, eu sinto que fico mais calmo, mais tranquilo, qualquer coisa que tenha estragado o meu dia é apagada no momento, mas quando ficamos calados é um silêncio constrangedor que me consome e todo um peso caí diante os meus ombros.

          São 5: 46 da manhã e ainda tenho vontade de escrever mais baboseiras, acordá-la no meio da madrugada. Vou caçar alguma coisa pra fazer, sei lá assistir um filme brega na TV ou ver a inutilidade dos canais religiosos, eu tenho que tentar esquecer essa vontade absurda de querer conversar com você.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

X de nexo

       Sinto-me mal.

       Sinto-me mal por ficar calado, sinto-me mal por passar direto, sinto-me mal quando não a olho de modo  singelo. Estou distante, estou frio, muito frio, me sinto mal com isso.

        Eu reclamo da vida, desejo que um simples mês acabe para que outro mês venha, sem saber que é dor que ronda esse dia... Me sinto mal, me sinto terrível, me sinto triste. Triste por não poder abraçá-la, por não ser um bom amigo, não afagar o seu cabelo e dizer que tudo está bem. Não, não está.

       Eu me sinto egoísta, egoísta por fingir não me importar com isso, por fingir fugir de você, mas no final eu não consigo sequer me afastar de você. Aí, hoje eu vejo o quanto você é forte e eu sou fraco, como você é boa e eu sou ruim e percebo que nada pode haver entre nós;

       Eu estou triste com tudo isso, triste por vê-la sofrer, triste mesmo... Nenhuma palavra pode descrever o que estou sentido agora, tampouco o que deve sentir ao lembrar da perda de alguém tão próximo. Eu não sei como deve ser isso, eu realmente não sei, e ainda não quero saber, por mais egoísta que possa parecer.

       Tudo o que eu sei é que não suporto vê-la sofrer, parte de mim desmorona quando vejo você triste e o pior de tudo é não fazer nada, é não falar nada. Será que isso é altruísmo, será isso o amor verdadeiro? Eu não sei e não me importo em não saber, só sei que eu queria ter mais a te oferecer do que singelas palavras.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Uma tarde numa praia



         Olho para o mar, numa praia qualquer em Santa Catarina; encontro as águas revoltas e o céu cinzento, nublado.
         Encontro um banquinho, um banquinho qualquer, e nesse banquinho de concreto está sentado um velhinho. Estranho, o velhinho está de casaco e boina, nunca imaginaria encontrar alguém vestido assim de frente pro mar.

        Tenho vontade de entrar no mar, mas tenho medo da água me levar, tudo o que faço é pisar com os pés descalços na areia fina da praia. Percebo o velhinho, meio corcunda, me fitar com uma amargura no rosto, certamente devia estar pensando em como eu era jovem ou algo parecido; Eu senti pena quando pensei nisso.

         Nas pedras próximas à praia, um casal se aninhava numa toalha de praia, não faziam nada demais, mas mesmo assim me senti mal com aquilo, me senti tão mal que fui andar pela orla da praia. Florianópolis é a ilha da magia, desde que você não esteja triste.

       Caminhei ao lado das ondas revoltas daquele dia e encontrei um turista argentino correndo sem camisa na praia, eu nem sequer dei bola e continuei a andar pela orla da praia... As águas não eram mais tão verdes quanto costumavam ser, agora tinham uma coloração azul tão escura, tão desprovida de vida, que chegava a dar medo.

         O céu não estava melhor, acinzentado, sombrio, cheio de nuvens carregadas,  não ia demorar para chover... e não demorou. Caiu um temporal digno das narrações de Lusíadas e eu fiquei parado na praia. O casal saiu correndo, tentando se proteger debaixo da toalha de praia, o velhinho também desapareceu. Só fiquei eu e as águas revoltas de Santa Catarina.

         Eu gosto de chuva, sempre gostei de chuva. Lava a alma e libera minha mente, nada melhor do que numa praia isolado de todo mundo. É na chuva que posso sentir me libertar, é que posso ver que alguém ao menos "sente pena de mim", mesmo que figurativamente o mundo chorasse da minha infelicidade.

        Infelicidade? Infelicidade maior devia ter o velho com todos os seus anos de vida, ou o casal quando tinha suas brigas, eu infeliz? Sim, eu sou infeliz.

        Fui para perto do banco, me sentei no concreto úmido pela água da chuva... Comecei a pensar, pensar, refletir. Era aquilo o que eu queria? Viver sozinho para sempre, passar o resto dos meus dias como aquele velho, fitando com tristeza a juventude que se foi e que não se regenera.

        Eu queria ser mais do que isso, eu queria ser feliz, encontrar alguém com que eu pudesse repartir meus sentimentos, abraçar numa tarde como aquela, alguém que sorrisse de minhas besteiras e não se importasse com o que eu dissesse. Ah, essa pessoa não existe.

       Sozinho, nesse pedaço de paraíso ainda conseguia me sentir triste... Me sentia tal como o velho, sentado num banco olhando para a vida sem agir, deixando a chuva passar.

        — Senhor, não é seguro. Queira se abrigar! — Gritou um salvavidas de longe.

        Não, não a vida não era mesmo segura, sempre tinha os seus altos e baixos, e esse era um dos baixos. Mesmo assim quando eu vi os relâmpagos no céu, senti vontade de ir para o hotel, antes que o deus do trovão martelasse contra a terra a sua fúria. Como alguém consegue ser infeliz no paraíso?

Um violino


          Eu sempre tive uma admiração sincera por violinos, uma admiração que eu conservava desde criança... Quando criança eu mesmo queria tocar um violino, tal como nos filmes, numa noite gelada enquanto as pessoas pessoas passavam e me ignoravam, eu não estaria só pedindo esmolas, eu estaria tocando para mim.

          Eu sempre quis ser esse garotinho triste, com as roupas esfarrapadas com a aparência frágil meio adoentada. Eu queria ser o rapazinho sujo de lama, que tremia ao frio, e que tinha só um violino; Um lindo violino, vermelho-acastanhado, uma peça estridente de paixão e tristeza.

         Não, eu nunca fui esse garotinho, nunca tive um violino, nunca saí de casa para tocar uma música sequer, nem poderia, mas a paixão ficou.

         Eu ainda hoje me sinto como esse menino, sozinho e desolado tocando um singelo violino num terminal de ônibus, sendo ignorado por todo mundo. Eu me sinto esse doente garotinho que só tem o violino como amigo, que apanha dos outros garotos malvados e tem que enfrentar o pai alcoólatra todos os dias. Eu me sinto como esse garotinho.

        Toda  a vez que passo por uma loja de instrumentos musicais numa decadente rua da cidade, eu não consigo retirar os olhos dos violinos... Coisas tão lindas, tão graciosas, eu realmente não consigo tirar os olhos, até encontrar o preço. 200 reais por um violino vagabundo! Não pagaria nem metade por isso, sem falar que os meus dedos iriam com certeza calejar.

        Violinos são peças tão bonitas que sequer deveriam ter preço, é o que eu acho.

         Eu não sei, a minha paixão por violinos é tão absurda que até com uma violinista já me envolvi, mas não com o seu violino. Foi aí que entendi que um violino não é só um instrumento musical que ao mesmo tempo pode ser romântico e triste, ele é uma extensão da alma, uma falange do coração. Um violino nunca é só um violino.

        O som do violino é seu eterno companheiro nas noites mais tristes, é o seu parceiro nos dias mais difíceis... Toda a vez que vejo agora um violino penso nisso, num pequeno e delicado pedaço de madeira tão fino que quando tocado pode ser tão romântico e tão triste, é como eu me sinto no dia a dia.

        Um homem com o peso de uma vida tocando tristemente um simples violino, é assim que me sinto hoje. Sequer tive chance de ser aquele menino; Hoje as minhas palavras substituem as melodias tristes e estridentes, hoje minha caneta é o meu arco e a minha voz é o meu violino.

        E minha vida é a tragédia a ser contada...


Sopro da Realidade

Agora que você me conhece
Agora que sabe o que sinto
É hora de dizer adeus

Não que não a ame
Não que não a deseje
Mas porque a realidade chegou

Era difícil me abrir assim
Era difícil dizer tudo aquilo
Difícil mais é saber que nada valeu
Que nada teve efeito

Triste? Triste estou
Mas sou um realista
Não haverá nada entre nós
Nem hoje, nem amanhã

Queria mais do que te oferecer
Um abraço, um beijo na testa
Mas tudo o que eu disse na festa
Não está para se perder

Quero que seja feliz
Eu quero mesmo
Não desejo maldades
Apenas felicidades

Vou sumir por um tempo
Queria até sair da cidade
Mas isso não muda nada
Que só terei você na amizade

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...