quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Reznov

"O câncer podre do  Reich fascista devasta a Europa como uma praga. Sua atuação implacável em nossa pátria rouba a vida de homens, mulheres e crianças. A arrogância de seus líderes é apenas igualada pela brutalidade de seus soldados. Estes são os dias mais sombrios da ocupação nazista de Stalingrado ".

     Quantas manhãs e tardes esse russo de ushanka e barba ajudou a alegrar com o seu sotaque engraçado e suas lutas mais difíceis.


      Viktor Reznov pode ser o mais fictício dos russos, mas mesmo assim não há ninguém que não conheça sua história que não o respeite.

      Afinal, não foi em Stalingrado o seu primeiro batismo de fogo? Quando os nazistas entraram em sua casa e mataram covardemente o seu pai durante à noite com uma navalha. Sim, Reznov tem uma história tão dura quanto os seus compatriotas "verdadeiros".

"Meu pai era músico em Stalingrado. Durante a ocupação alemã, o som de seu violino encheu o ar com uma música magnífica - Korsakov, Stasov - muitos dos grandes compositores nacionalistas. Aos meus compatriotas, era um símbolo de esperança. Para os alemães, era um símbolo de desafio. Mesmo agora, sua música ainda me assombra. Numa noite, os nazistas cortaram sua garganta enquanto ele dormia. Colaborar com qualquer nazista é uma traição, uma traição contra todos da Mãe Rússia" Viktor Reznov sobre o seu pai.   

       Reznov pode ser um personagem de um jogo, mas quantos o foram de um jogo imposto, sem reboot e sem vitória? Reznov é a manifestação de um soldado ideal, um soldado que sofreu os horrores de uma guerra, lutou, sobreviveu e trouxe a glória para a sua terra.

        Foi naquela fonte repleta de corpos, no meio da carnificina que tomou aquela cidade, que Reznov conheceu Dimitri Petrenko. Fingiu-se de morto quando a patrulha alemã passou e um soldado da SS solitário descarregava a sua metralhadora nos que ainda se debatiam no chão.

Fonte Barmaley em Stalingrado


       "Shhh! Faça o que eu disser e nós poderemos vingar esse massacre"; Reznov, com a sua mão mutilada, indicou a Petrenko em quem deveria atirar, em quem deveria se vingar. Um general, um mudak, Heirinch Amsel, arquiteto da miséria de Stalingrado.

         Correndo de prédios em prédios, escapando do fogo e dos tiros. Lutando contra cães enraivecidos e soldados miseravelmente malignos do outro lado, Petrenko e Reznov formaram ali uma amizade, uma amizade forjada entre o sangue e o aço.
"Tudo o que pode-se oferecer é ferro e sangue" Bismarck
        No meio da batalha, com tanques correndo, metralhadoras disparando e homens morrendo, foi ali que Petrenko vingou toda a sua terra mãe, vingou para sempre do sangue derramado pelo infeliz da SS que havia planejado a miséria em Stalingrado.

        "Hahaha. Excelente mira, Dimitri". Excelente mira, Dimitri. Era assim que Petrenko ficaria conhecido, como o Herói de Stalingrado. O herói que se arrastava no chão em um prédio em chamas, que corria das metralhadoras e que se afundou nas águas do Volga. Um herói que conheceu outro numa singela fonte em Stalingrado, uma fonte que perfeitamente poderia ser seu túmulo.

         Três anos depois, eles não lutavam mais na Rússia, eles não lutavam por seu sangue, por sobrevivência, agora estavam na cova dos leões. Eles estavam lutando na terra DELES, pelo sangue DELES, dos nazistas. Só assim sua vingança estaria completa.

         E assim foi de Stalingrado a Berlim, de cidade em cidade, casa por casa, cômodo por cômodo, lutando, brigando, correndo. Até chegarem em Seelow, nas portas de Berlim.

De Stalingrado a Berlim

        Nas fazendas, nas florestas, nos campos de batalha. Essa era sua vida, essa era a sua nova vida. Reznov nunca reclamava, Reznov nunca chorava, era um homem forte, um homem que levava consigo uma navalha enquanto outros apenas uma vodka e uma mortalha.

        Perdeu muitos homens, tornou-se frio e vazio. Brigava com um soldado, que "escrevia mais do que lutava" e não tinha o "estômago" de lutar, Chernov, pobre Chernov.

         No metrô de Berlim, Viktor conheceu todas as facetas de um império em decadência, um império em ruínas, com oficiais desesperados, túneis intermináveis e água, sim muita água! "Eles tentaram nos afogar. Eles tentaram nos matar, mais uma vez, eles falharam!"

         Seu humor estava abaixo do esperado, em Stalingrado ele havia perdido camaradas e também amadas, em Berlim ele estava para vingá-los. Quando viu Chernov retirar do bolso um bloquinho, Reznov explodiu:

"O que você acha que vai nos levar para casa? Escrevendo sobre esta guerra ou lutando-a!? Ninguém nunca vai ler isso! Se você não tiver estômago para matar pelo seu país, pelo menos, mostre-me que está disposto a morrer por ele!"

           Pobre Chernov, levou um esporro sem merecer. Viktor sentia-se mal com tudo aquilo, ele só queria a sua vingança, ele só queria ter a honra e o privilégio de acabar com tudo aquilo.

         Não estavam muito longe do Reichstag, a sede decadente desse "câncer que tomou a Europa", e Reznov ficou contente quando o comissário o designou para essa missão. Era mesmo fazer parte da História, era mesmo uma oportunidade de conseguir sua vingança.

         Nas ruas, nos prédios, mais homens morriam, principalmente os alemães, todos moleques. Será que eles ao menos sabiam manejar uma arma? Reznov não se importava, tudo o que queria era a sua vingança, sua tão esperada vingança.

         Agora estavam no coração do Reich e nada os faria parar.

         Nada.

         No meio de todos aqueles livros expostos nas estantes, em chamas num edifício parcialmente destruído, poderia se pensar a que ponto a humanidade havia chegado, a que nível de barbárie chegou. Sim, eram eles mesmos que em 38 estavam queimando livros em praça pública, agora era a sua tão estimada biblioteca do Reich que estava em chamas.

         Foi Petrenko que liderou o ataque semi-suicida em direção ao Reichstag, de peito aberto, destruindo uma por uma as peças de artilharia, enquanto Chernov, um pouco mais atrás, carregava a tal estimada bandeira da Mãe-Pátria. Dimitri queria tal honra, mas foi Reznov que havia decidido de última hora que Chernov iria carregá-la, assim o garoto lutaria com mais amor por seu país.

        Reichstag, o ínício do fim.

File:CoDWWReichstag.jpg













        Não foi fácil, não foi nada fácil, mas depois de tanto tempo, todos agora parecia contentes em chegarem próximo às pilastras que sustentavam aquele edifício.

       Foi ali que tudo começou, para falar a verdade, em 36, quando os nazistas secretamente incendiaram o edifício do Parlamento e colocaram a culpa nos vermelhos, foi assim que essa corja subiu ao poder.

       No meio das explosões e dos tiros, uma pilastra inteira foi ao chão, assustando a todos com o estrondo, Dimitri ficou meio tonto, Reznov também, mas Chernov... Chernov seguiu em disparada, subindo os degraus da escadaria. Reznov estava certo, Chernov lutou mesmo com maior louvor. A bandeira rubra do sangue dos trabalhadores tinha o seu efeito.

         Mas não do jeito esperado. Um SS saiu do seu esconderijo com um lança-chamas e lançou o fogo contra o pobre recruta, o pobre Chernov.

        "Chernov!!! NÃO!" Dimitri descarregou sua arma contra o infeliz, fazendo explodir o tanque de gasolina. Tudo o que Reznov fez foi correr em direção ao "estúpido escritor".

         Chernov estava no chão, se contorcendo de dor, e em vão o sargento tentou confortá-lo e acabou encontrando no bolso de sua farda o pequeno caderninho, um pouco chamuscado. "Alguém devia ler isso"

        Era um dia terrível para Reznov, dez dias depois do seu aniversário, era isso que recebia de presente, um soldado, um amigo, morto aos pés do Reichstag, tão perto do seu objetivo.

        Reznov pegou o pequeno caderninho e entrou no Reichstag junto com os outros.

"30 de abril de 1945: Quando ele falou pela primeira vez de Dimitri, Reznov disse histórias de um herói. Alguém em que todos nós deveríamos aspirar a ser. A sua bravura no campo de batalha está fora de questão, mas ele também tem mostrado misericórdia em meio a brutalidade do Exército Vermelho. Ele é realmente um herói".

          A leitura na voz surda do sargento comoveu a todos, principalmente a Dimitri, que sequer tinha um dia conversado com o rapaz, ouvir o que ele havia a dizer... "Ele é realmente um herói".

          Agora o único objetivo era subir as escadarias e eliminar qualquer infeliz que estivesse na frente. Foi ali que Reznov pôde ver a selvageria com que alguns de seus soldados mostravam ao encontrarem os infelizes indefesos. Reznov sequer se importava, não agora, agora era eliminar de uma vez por todas a tirania  fascista que havia causado tanto mal na Mãe-Russia.

          No saguão do Reichstag, nas escadarias, nos camarotes do plenário. Tudo era decidido sobre o cobre das balas e o ferro do sangue. Não havia mais clemência, esse tempo já tinha acabado há muito tempo.

          A madeira escura que decorava o interior do edifício estava em chamas e o espírito de Reznov também. Sequer lhe importava se aquele edifício tinha sido o mesmo onde Bismarck proferira os seus discursos ou onde os senadores de Weimar debatiam entre si o destino da Alemanha, tudo o que ele via era a sua vingança.

          Na cúpula do Reichstag, destruída pelo bombardeio inglês durante os últimos dias, os soldados do Exército Vermelho e do que restou do Wermarcht disparavam suas últimas balas, até que uma rajada de artilharia das Katyushas, os "orgãos de Stálin", varrer por fim a virtuosa varanda que se projetava sobre o rio Spree.

          Dimitri tomou para si a responsabilidade de erguer o estandarte glorioso sobre a varanda daquele prédio, mas foi alvejado traiçoeiramente por um um SS sobrevivente com uma pistola Walter na mão.

           "Dimitri! Não"

            Reznov sacou sua machadinha de açougueiro e retalhou o quanto pode aquele infeliz até ele soltar um grito tão agudo que Reznov teve usar a perna para retirar a lâmina fria das costas do nazista. O corpo imóvel caiu sobre os degraus da escadaria externa.


          O sargento Reznov correu até a bandeira hasteada no Reichstag, uma bandeira solitária totalmente rasgada, com a suástica tremulando lentamente. Com um golpe, ele cortou a corda que a sustentava e voltou  para o amigo que havia caído no chão.

         "Você pode fazer isso, meu amigo. Você sempre sobrevive!"

        E ajudou Dimitri a ficar de pé, segurando com o braço o peso do corpo moribundo. Sobre gritos eufóricos de "URA" ("Viva!"), Dimitri mancou até o cume do telhado e enfim colocou a bandeira, o rubro bastião dos trabalhadores e camponeses na varanda.

        " A honra será nossa... Enquanto você viver, o coração deste exército jamais poderá ser quebrado. As coisas mudaram, meu amigo. Como heróis vamos voltar aos braços da Rússia ..."

       
          Esse é o tipo do herói fictício que te faz viver com ele, lutar com ele, faz ser amigo dele, mesmo que não exista, mesmo que não seja real. É um herói que luta e você sabe que ele luta, você sabe que tem os seus defeitos, mas ainda assim você gosta dele.

        Não é a toa que Viktor Reznov é com certeza o personagem mais bem trabalhado na série inteira do Call of Duty e ainda assim, tiveram a audácia de matá-lo de uma forma tristonha no Black Ops, o que me deixou revoltado, porque foi o único personagem da série inteira com o qual fiquei realmente apegado e essa postagem foi para mostrar realmente isso.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Nervas escuras

Nervas escuras rondeiam nosso passado e assumem nosso futuro.
Não há nada muito fácil de se pensar, não há nada bom a se falar.
As perspectivas realmente não boas.

Quebrou-se a corrente da máquina
que pulsa a vida.
Quebrou-se o mero significado
desta vil agonia.

Não mais escreve, não mais sente
Os dias lhe arrasam
E contra o tempo luta.

Não adianta, contra o tempo
Não há remédio,
Não há tratamento.

É triste dizer isso,
mas tanto sofrimento
terá esse triste fim
de novo e de novo.

Nervas escuras
Tragam as pessoas boas
E deixam as ruins
Não vale mais dizer o que há o que se falar

Não é uma boa vida, saber que morrerá
E de modo tão matemático, que nem vale chorar
É triste, mas você quase não sente, nem geme de dor.
Imagino com tristeza o que sente o meu avô.

Nervas escuras
Vidas duras
Não faz sentido,
Realmente não faz

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Relíquias

     Desenterrar monstros do passado é uma das maiores atividades que um ser humano pode querer fazer, talvez uma das poucas.

      A verdade é que querendo ou não desenterrar coisas deve ser trabalho de um arqueólogo  por mais que seja tolo dizer isso, parece o mais adequado, pois cada fato é como um artefato na estrada da vida, e todo esse artefato deve ser descoberto com calma e simplicidade, sem movimentos brutos e espasmos, com as mãos delicadas e decididas, com luvas para não se sujar com a podridão do tempo.

        Antes que tome um chicote e um chapéu fedora e vá explorar os sete mundos com essa singela ideia, entenda que as relíquias nem sempre são das melhores, nem mesmo os seus vestígios são os mais belos e sempre poderá haver uma pedra absurdamente grande que irá correr atrás de você, ou mesmo o caminho pode desabar.

        Acho que aconteceu isso comigo, em meio a um esforço filosófico posso ter me excedido demais, mas como bom explorador, não volto para trás, estou atrás de minhas próprias relíquias e todas as grandes amizades, e as pequenas também, são jóias do passado que deixei perder no meio de minha caçada.

        É verdade, ainda odeio aquilo que sempre digo e não me importo com outros, minha única busca são as relíquias de um passado já bastante esquecido, que ótimo não?

        Não há nada mais feliz do que se isolar do mundo por completo, fechar suas velhas amizades sem futuro e no meio da noite desenterrar uma preciosa relíquia esquecida, empoeirada e largada em algum canto. Sopro com força a poeira sobre sua armadura de metal, e abro de forma delicada a portinhola do aparelho, a velha máquina de datilografar ainda funciona.
       
         Pois é, não faz sentido, não faz sentido querer se debruçar em mecanismo tão singelo e duro como é uma máquina de escrever, no qual você não tem autocorretor, nem mesmo como apagar as suas besteiras no próprio papel.

          Não há nada mais agradável do que sentir nas narinas o odor ocre e até um pouco agressivo da tinta que o faz ficar cada vez mais relaxado e compenetrado no seu trabalho, agora sim entendo como era bom escrever à antiga, sem twitter, Msn ou mesmo Facebook da vida. Você não precisa se autoafirmar, não precisa conversar com as pessoas, simplesmente trabalha só para si mesmo.

           É claro que não tem mais graça sem algumas conversas, mas essa velha relíquia é bem mais prazerosa do que ficar em contato com modernidades estranhas e desprovidas de valor simbólico, prefiro agora essa pequena criatura que se chama máquina de escrever.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Algo que me faz sentir alguma coisa

       Vamos esquecer, vamos esquecer tudo aquilo que foi dito. O amor perdido, o coração mordido.

        Vamos esquecer antigos amores, as tristes dores, vamos agora falar de flores.

       Você me ama? Eu não sei dizer. Eu te amo? Acho que sim?

        Que fazemos nós dois nessa vida,fazemos algo bom? Fazemos algo ruim?

       Não sei, só sei que essa é a minha vida, esse copo de vodka vazio... Nem tenho mais coragem de dizer o que eu sinto: Gosto de você, mas sou essa criatura que se machucou de mais.

        Estou destroçado, e nada parece mudar isso, não faz mal, acho que gosto de você. Você gosta de mim?

         Você não me dá chances para dizer isso, talvez não deva mesmo me dá-las. Você gosta de outro? Diga-me com toda a certeza... Acho que sim, você deve gostar de outro e não de mim.

         Quem gostaria de alguém como eu, sem graça e sem qualquer amor próprio, que conversa ao mesmo tempo que fica calado, que não fala coisa com coisa e se dedica a rimar todo dia. Ah,te encontrei hoje, no corredor da vida: Estava com pressa e quase a deixei passar por despercebido, enfim, parei pra conversar um pouco com você, minha querida.

        Não gosto de conversas, mas gosto de ouvir sua voz, de vê-la falando. Não gosto de pessoas, mas gosto de você. Que estranho, não? O amor nos leva a tais loucuras.

         Será que estou amando? Essa vida é tão louca que às vezes me engana, mas o legal que sinto algo estranho, algo bom, quando fico perto de você. Será seu perfume, será o seu cabelo, ou serão suas ações. Sim, você minha cara, sempre toma a iniciativa, é nisso que vejo algo especial em você, talvez.

         Hoje falo isso, amanhã não sei. Essa vida me traz tristezas que deixei de ter certezas em tudo que digo, mas algo no meu peito bate mais forte quando estou com você.

sábado, 29 de setembro de 2012

"Com que Jove aos mortais gradua a fama"

      Numa dessas noites, sem nada para fazer decidi fazer a brincadeira em homenagem à semana mundial do livro. Peguei o livro mais próximo de mim e retirei da terceira frase da página 52 uma citação. Resolvi então ir mais além, peguei alguns livros da minha biblioteca pessoal e comecei a fazer um texto. Ficou bem interessante por assim dizer (cada ' significa uma citação diferente):

          "'Esse motor utilizava ignição elétrica e um sistema de transmissão de engrenagem de cremalheira,  mas 'gabava-se com desprezo, de não ser um funcionário, como se isso lhe conferisse uma autenticidade especial e como se os murros de Hemingway devessem ser a priori mais poéticos que os processos de escritório espalhados por Kafka.

           'Por que o seu primo kaiser estava fazendo isso com ele?:
        '— Sinto-me furiosa, deprimida e violenta
         '— A noite está saindo das portas ocidentais e não podemos atrasar por mais tempo.
          — O que quer dizer?
          'Julgava tanto as perguntas como as considerações impudentes e irritantes;
           '— Por que você está sempre sorrindo, Sol?
           '— Imite a minha voz e diga que vou dormir na sua casa hoje.
            — O que disse?
           "'Nosso esquema de proteção às pesquisas foi o mais perfeito possível", ouvia-se pela televisão, um programa qualquer como outro no fim de noite.
           'Cutucava os bolsos como se ali fosse um armazém de amendoins.
          '— É claro que posso confiar nele, Iara — Dizia a moça ao telefone.
           O osso ressentiu. 'Fomos para a outra sala.
           '— Que pretendo?
           'Decidi não pensar mais no caso, já que não chegaria mesmo a conclusão alguma.. 'Era preciso dar um fim àquilo, por bem ou por mal.
          "'Can we go back to the Safari Lodge now?", o inglês do filme que passava naquela televisão no fim de tarde ecoou bem nítido nos meus ouvidos.
          "'Vamos diga que ama Cristiano", mudou novamente de canal.

          'A narrativa começa perto do fim, 'mas o sol se punha e o homem não vinha. 'Quem pagou o resultado da pena de um e da gratidão da outra foi o toma largura.
          — Onde está o pai desse menino? — Exclamou sem voz Maria.
           — Eu sei lá.
          O garotinho olhou meio assustado para nós, foi penoso vê-lo assim. Mais penoso foi mentir pra ele naquela noite, 'Repetimos sem cessar o que nunca existiu.
           O garotinho ficou com o nosso filho por duas noite, e nós saímos à procura dos pai do garoto nesse meio tempo.

            'No sábado, às seis horas, partimos novamente. Ouvi na ruas dois andarilhos, que gritavam a plenos pulmões pra todo mundo ouvir.

              'Falavam dos comerciantes, dizendo francamente que eles enganavam o povo, que seus filhotes provocavam escândalos e fazem de tudo para obter um "título de nobreza", não preciso dizer que eles foram presos por vadiagem. Foi aí então que nós reconhecemos o pai do menino entre um deles.

              Fomos até a delegacia e conversamos com o delegado:
            — ...'O preso é, por exemplo, consertador de fogões e encarrapita-se em cima de mim.
            — Eu odeio esse lugar! É terrível, escuro, nem imagino o que tenha no resto disso tudo. Lugar fedido.  — Exclamou um prisioneiro.
             — 'E assim verá todo o resto, desde o queira — Exclamou o delegado.
            O prisioneiro se calou e fomos levados a uma ala onde os prisioneiros mais recentes tinham sido levados.
             '—É ele — Exclamou Maria.

           Era o pai do garotinho, todo sujo e fedido, maltrapilho e cheirando a cachaça. Uma coisa não muito boa de se ver. O delegado o encarou e disse:

          — Esses dois dizem que você tem um filho. Pois muito bem, quem sou eu para privar um pai de ver o seu filho na véspera de Natal...
           Fez um sinal para que o soltassem.
          — Mas escute. Escute com atenção, Eu não quero vendo vadiando mais uma vez por aí ouviu?
          — Sim, senhor — Disse cabisbaixo.
          — Pode ir.

         Eu esperava não levar tal presente de Natal ao garotinho, um pai todo sujo e cheirando a cachaça e catinga, mas foi o que eu tive que fazer. Quando reunimos os dois, vi nos olhos do garotinho um olhar de tristeza que me deu dó.
          — Obrigado, senhor e senhora L.. Muito obrigado por encontrarem o meu pai.
          — Vou está bem, Sol? — Perguntou Maria.
          — Sim, estou. Vou ficar.
          E os dois saíram naquela tarde, pai e filho, enquanto a tarde caía. Esse com certeza não é um bom conto de Natal, mas com certeza aquela também não era uma boa história".

          Apenas o final tive que abstrair um pouco, mas o início foi feito a partir de frases de variados livros, às vezes não fazendo o menor sentido. Mas no todo ficou bem interessante, essa é minha singela homenagem à Semana do Livro.
       

Cansaço

        Estou cansado, cansado de tudo, simplesmente cansado.

           Cansado de prosa, poesia, estou cansado até de teoria.

         Estou cansado de toda essa picuinha, queria me isolar, passar um bom tem numa praia deserta ou mesmo no mato; não aguento mais isso, não aguento mais.

          Estou cansado de conversar com pessoas que não gosto, conviver com pessoas que eu odeio, estou cansado das pessoas.

           Mas o que mais me cansa é lembrar do passado, das escolhas que eu fiz e não poder fazer nada para mudar, e agora vendo o futuro, tenho medo de seguir o mesmo caminho.

            Estou cansado de ficar tolo em períodos sazonais do ano por amor, e mais que isso me machucar com isso. Isso sim é que estar cansado.

           Não importam as oito horas todo dias que passo fora de casa, os dias sem dormir, as noites sem escrever, nada disso importa, o que importa é que não aguento mais tudo isso.

            Enfim, o que eu estou mais cansado com certeza é dessa conversa, pode ter certeza.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Meus livros

           Nada é mais triste do que você perceber que aquele livro, de capa tão legal, e nome tão sugestivo,esconde na verdade uma porcaria.

           Você se sente mal por não conseguir terminar de lê-lo, mas se sente mais mal ainda por se sentir enganado ao pagar um valor absurdo para lê-lo. É assim que eu me sinto quando vejo alguns livros na minha estante.

           Você quer se desfazer deles, não quer mais olhar para eles, sente-se envergonhado quando lembra que você queria tanto ler alguma coisa divertida e no final é outra coisa qualquer chata. O que fazer?

          Eu até queria trocá-los com alguém, mas aí eu fico com pena de quem pegá-los para si, pois são livros tão ruins de escrita que não desejaria nem aomaior inimigo.

          Pensei em doá-los. Mas que loucura seria doá-los se ficariam com certeza empoeirados numa estante qualquer em algum canto.

           Pensei em levá-los a um sebo e talvez fazer alguma transação qualquer, mas me sentirei tão mal ao ofertarem valores tão irrisórios pelos livros que até acho melhor não fazer isso.

           Esse é um dilema qualquer de um leitor de livros, que pode não parecer importante, mas assola minha cabeça cada dia que encontro os meus livros largados tomando um pouco de poeira.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Não sabe como me doi

        Não sabe como me dói vê-la triste e sozinha. Não sabe como me dói quando vejo que se sente só quando está em grupo.

       Não sabe como me dói saber que você não pensa em si mesma, enquanto ri das piadas dos outros.

       Não sabe como me dói saber que você acabou de perder um amor.

       Dói-me completamente não poder consolá-la como eu queria, amá-la como desejaria, ficar com você naquele simples dia. Não sabe como dói.

        E pensar que também estou dolorido, e pensar que há algo em mim que precisa ser combatido. Não sabe como dói, não sabe, mas isso não é digno de pena.

         Você, minha querida, com o seu sorriso sincero, com o seu olhar penetrante e seu moletom preto que veste quando sente frio... Você que fala sem cerimônia, dança feito uma louca sem nenhuma vergonha e brinca de pular folhas secas no sol. É você que me seduz com o seu cabelo curto e sorriso engraçado, me lembrando os dias em que eu fora uma boa pessoa. Não sabe como me dói, não tê-la ao meu lado.

Vida sem nexo

        A vida é uma criatura totalmente ilógica, é essa criatura que te bate sem motivo num dia e te acaricia no outro.
       É esse monstro feio e disforme, cheio de pelos, com dentes agudos e olhar agressivo, que com o passar do tempo você se acostuma, e chama de seu docinho.

       A vida tudo lhe cobra e nada lhe dá, mas quando lhe dá, você fica bastante feliz com ela. Você se apaixona, se casa, monta uma família, cria raízes e ri por qualquer besteira.

       A vida é essa criatura maligna que depois de te bater, te dá doce... Ah, vidinha maldita!

       A vida é esse nexo provisório, onde um dia você se sente triste, no outro sente-se feliz por estar ao lado de outra pessoa. Não faz sentido, seu coração bater mais rápido, se dias atrás ele sequer fazia questão de bater de tanta tristeza.

       Ontem chorava por uma, agora ris feito bobo por outra. Qual a lógica disso? Eu não sei, só sei que me sinto assim, me sinto estranho assim, é verdade. Será esse o significado da vida? Eu não sei.

Adeus, camaradas

       Adeus camaradas, pois aqui nosso destino nos alcança. É aqui que desço na longa ferrovia da vida.

     Foi bem aqui que anos atrás saltei para conhecer o Mundo, e agora é aqui que me desapego de tudo que é impuro.

       Eis que na minha jornada vi as mais diferentes pessoas, com os mais diferentes costumes, todas vis e mentirosas, e aprendi desde cedo a confiar em nenhuma delas.

        Quantas coisas fizemos, quantas passeatas lutamos, quanto vinho tomamos... Foram bons tempos.

         E pensar que não foi tanto tempo assim. Como queria eu ser uma andorinha que se assenta em qualquer canto, depois de uma longa viagem e no dia seguinte levanta voo nessa vida bem cigana que é a de uma andorinha.

          Mas não sou,  eu não sou uma andorinha, apego-me a terra e a todos que nela vivem... Sim, sim, conheci uma pessoa, que não espero encontrar nessa estação. Uma pessoa que no íntimo pensei ser boa, e no fim se revelou ser, e eu ruim.

         Ela sequer deve saber que eu existo, sequer olhou para mim naquele dia... Não a culpo, não olharia para mim mesmo se visse a grande desfeita que havia feito naquele local... E pensar que não foi tanto tempo assim, foi numa estação qualquer da vida, há não um mês atrás.

          Hoje me despeço com uma dor no peito, pois saber que agora não os mais verei é tão triste quanto arrancar meio braço lentamente, mas sei que assim é melhor para nós, afinal de contas cada um com o seu caminho. Adeus camaradas.

             Não olho mais para trás, não vejo mais as tolices que cometi e os amores que perdi. Não penso mais no passado, o futuro me guiará, como sempre me guiou. Viva vida.

             Não penso mais nela, não penso mais naquela que destroçou sem cerimonia o meu coração. Por que pensar nisso? Ela nem se lembra de mim.

            Penso que nessa nova estação talvez encontre outra, uma donzela tão linda e tão infeliz quanto eu agora sou... Trarei-lhe flores, consolarei o seu choro... Ficarei abraçado à ela noite e dia, escreverei odes melosas e todas as sortes de harmonias.

           Queria que minha vida fosse assim, no fundo, eu queria. Mas eu sei que ela não é assim, não é um poema qualquer cheio de rosas de um poeta fatalista do fim dos séculos, mas eu gostaria que fosse assim.

            Lá está ela, de cabelos negros, rosto bem feito, e cabelos recentemente cortados... Bonita, serena, comum. Aquela, vês, a de moletom preto, com os cabelos curtos e sorriso tímido do rosto, que tanto fala aos amigos e que brinca no outono de pular nas folhas secas. Será que dará certo?

          Eu não sei, o caminho é pedregoso, cheio de cacos de vidro e não sei se tenho forças para enfrentar meu destino... Será que se eu sair daqui, ela pensará em mim?

          Espero que sim... Pelo menos acredito que sim. Adeus camaradas, deem minhas notícias aos nossos companheiros de luta, aqueles do Partido, pois agora rasgo minhas insignias e vou em direção a outra vida. Adeus, camaradas. Adeus.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Maldita escada





         Subia ao sótão um jovem rapaz, procurando algumas tábuas, algumas peças de madeira, um pouco de tinta e inspiração para consertar uma mobília qualquer.

          Sabia ele que não era fácil descer com tudo aquilo, mas mesmo assim decidiu arriscar, afinal de contas, não queria fazer duas viagens. Atou as peças de madeira com cordas às suas costas, prendeu com fita porções generosas de pregos no peito e levava os baldes de tinta presos aos seus braços pelas argolas.

          Quando descia, calmamente, sentia que não estavam muito seguros os baldes de tinta, e sem querer, desastrou-se e quase deixou a tinta branca cair ao chão num desastre irremediável a casa, já que aquela escada na parede, estava suspensa em outra em caracol.

           Conseguiu segurar aquilo, mas nervoso, esqueceu bem o perigo que a situação impunha e acelerou cada vez mais a sua descida.

         Num dado momento, as tábuas de madeira o fizeram tropeçar em seus próprios pés, e ele não pode fixar os pés nos degraus, ficando suspenso apenas pelos braços...

        Não, o garoto não era forte, era peso pena por excelência, mesmo assim agarrou-se à vida com tudo que podia, se caísse ali, cairia com certeza na escada em caracol e iria na melhor da hipóteses sair rolando como uma bola de futebol, seriamente machucado, na pior, ficaria paralítico.

         Agarrou-se como pôde no corrimão e estava prestes a fincar os pés no degrau. Foi quando algo desastroso ocorreu: A tinta branca, que tanto lhe causara problemas na descida, estava meio destampada e não custou muito para que a lata se abrisse e sujasse o rosto do rapaz.

           Desastrado, o rapaz golfou uma porção absurda de tinta que pintava sua língua e manchava seu paladar... Seus olhos ficaram encobertos pela grossa camada de tinta e ardiam com a reação com o pigmento, foi quando inconscientemente ele passou uma das mãos nos olhos para tentar limpá-los e como a outra não suportou bem o peso, acabou caindo escada abaixo.

            No chão, após um estrondo pavoroso que surgira enquanto ele rolava pela escada em caracol de metal, o infeliz soltara um grito de dor absurdo que pudera ser ouvido até pelos vizinhos e caído, ali no chão, olhava para cima sem acreditar na sorte infeliz que lhe fora reservada:

             "Maldita escada..."

              Estava agora imóvel no chão, rodeado de pregos e taxinhas, numa poça de tinta nas bordas e um punhado de madeira que havia se quebrado na queda... Havia batido as costas no corredor central da escada e não mais sentia as pernas naquele momento, talvez fosse melhor assim.

            Agora não seria um móvel que ele teria que consertar, mas uma coluna inteira por causa de uma maldita escada.

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