sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Semana de Música Russa (Dia 3)

          Hoje é dia de Modest Mussorgsky, outro músico do grupo dos Cinco, responsável por grandes sinfônias como Boris Godunov, mas que se legitimou fazendo a música erudita tomasse emprestados elementos populares da música russa.
Ficheiro:RepinMussorgsky.jpg
Mussotgsky

         Mussorgsky morreu jovem, aos quarenta e dois anos, em decorrência de seu alcoolismo, em São Petersburgo, no ano de 1881.




Monte Calvo ( Dia 3)

No distante interior do Norte, onde os ventos são tão gélidos que quando batem nos corpos, fazem tremilicar até os ossos... É ali que se encontra um dos mais belos espetáculos da natureza. A Aurora

     Mikhail Kutzenkov, um simples alpinista russo com sede de adrenalina, havia vindo de muito longe para ver aquilo, e não sairia sem sequer avistar a dita Aurora Boreal.

      Kutzenkov ainda era jovem, tinha talvez 30, 35 anos, uma barba em tom de bronze vivo que lhe percorria o rosto das suíças até a ponta de seu calvanhaque, que nesse caso chegava à altura dos ombros... Tinha olhos azulados, um azul escuro e denso, e um nariz aquilino comum aos eslavos;

      Envoltou em torno de um capote de pêlo de carneiro, e vestindo uma ushanka meio surrada, Kutzenkov tentava a todo custo se esconder do Frio, ao qual devia ter se acostumado, mas que sentia repulsa ao sentir os seus ossos tremendo com os calafrios.

      Sua guia, uma jovem garota da Lapônia de vinte poucos anos, de olhar sorridente, e cabelos louros trançados, Helga, parecia bem mais acostumada ao frio do que ele.

      Helga era jovem e bonita, tinha quase um metro e oitenta, olhos de boa moça e um sorriso dos mais envolventes, tinha um rosto bonito e delicado, com maçãs roseadas e lábios sensuais, era filha do Chefe de Polícia daquela pequena cidadezinha no final da Suécia, de nome impronunciável.

     — Estamos perto, senhor  Kutzenkov.
     — Ótimo, que esse frio está me matando — Disse vagamente Kutzenkov, retirando sorrisos do rosto da jovem guia que achara engraçado o jeito aristocrático de Kutzenkov.

       De fato, Kutzenkov era sim um aristocrata russo, um daqueles que se empenham mais em falar francês do que russo,  Kutzenkov passara mais tempo em escolas e academias na França do que passando veraneio na casa de campo de sua família em Pskov. Os Kutzenkov eram uma das famílias mais ricas do Império, e uma das mais antigas, serviram à corte de Ivan, o Terrível, traíram o próprio Czar diversas vezes, mas se mantiveram fiéis à Ordem dos Romanov.

      Agora, restando apela Mikhail Danilovich dessa família, o último herdeiro desse clã, as receitas da família vinham sendo gastas de modo irresponsável pelo jovem herdeiro, em festas, viagens pela Europa, apostas, bebida, alpinismo e por vezes, Danilovich viajava até o Cantão a procura de um pouco de diversão (se é que você me entende).

     Aquela última empreitada lhe custara talvez cem rublos, uma fortuna na época, em que um homem vivia miseravelmente com alguns copeques.

     — Chegamos,senhor, essa é a Montanha do Bico Quebrado.
     — A Montanha do Bico Quebrado.

     Eram quase oito da noite, quando chegaram à Montanha do Bico Quebrado, no meio de uma cadeia de montanhas que se estendia por um vale coberto de neve branca.O céu estava estrelada, cheio de estrelas, límpido e escuro, mas as próprias estrelas davam-se aoa trabalho de iluminar a neve branca, congélida, e um pouco solta  que há tanto dificultara o caminho até ali.

      Não tinha no Céu, grandes espetáculos policromáticos, a Aurora não dera mostras de sua força... E Kutzenkov então sentou no chão e esperou... 

     — Fique traquilo, senhor, ela vai dar as caras.

      Kutzenkov ficou parado, imóvel, enquanto o vento batia em suas costas com um peso indescritível, e em um dado momento, Kutzenkov baixou  a cabeça e começou a refletir, olhando para o Distante.

     — O senhor está bem, senhor Kutzenkov? A neve está lhe agredindo? — Seguiu em assistência Helga.
     — Não. Não é isso.
    — Pois então?
     — Estou pensando no que fiz até hoje... Meu pai estava certo, esse dia ia chegar. Quem diria que estivesse certo?
     — Eu não entendo.
    — Tudo que fiz na minha vida toda foi gastar, gastar e gastar a fortuna da minha família, em viagens, em jogos, em bebida, em prostitutas. Desde quando eu ainda estudava na França, eu sou assim, gastava sem sequer ver a cor do meu dinheiro, não que eu ache isso terrível. O terrível é que aqui,só, sem nenhum amigo, percebo o quanto eu sou só.
     — Mas o senhor não está só, eu estou aqui com o senhor.
     — Bem que queria que fosse verdade, mas nós, nós somos de dois mundos,mundos diferentes, Helga, eu sou um bon vivant, que não hesita em viver no luxo, e você é uma jovem moça que não tem medo da vida.
     — O que procura então, senhor Kutzenkov?
     — Redenção;
    
      Surge no Céu os pequeno indícios da Grande Mãe Terra, e eis que surge um espetáculo policromático de nuvem e intensidade que se abate sobre formas sinuosas no Céu, formas sinuosas, ondas, mechas de cabelo, era a Aurora, a de dedos rosa, aurora.

     Com o seu esplendor que às vezes, todas as cores da aurora boreal aparecem ao mesmo tempo, enfeitando o céu em tons de laranja, lilás, verde e vermelho, a Aurora de vez em maneira mudava de intensidade para que em outras ocasiões formar apenas um véu de luminosidade esverdeada que invade o céu. 
A Gigante e poderosa Aurora


      Cada raio, cada nuvem, tudo era diferente. Não há duas auroras boreais iguais. E sob a luz esverdeada que colore o Céu, Kutzenkov ergue os seus olhos e escuta com atenção a voz da Montanha... O Monte Calvo.

       
        A Montanha, sempre temerosa, sempre rígida, e magistra, toca-lhe o ouvido com sua voz grave e solitária, tenebrosa até...

        "Mikhail... Mikhail... Ouça-me, Mikhail! Você sempre fizera mal a seus semelhantes, a seus amigos e suas amantes! Mikhail... Mikhail..."
        Não!
            
        "Mikhail... Mikhail... Seu pai estava certo, vocêé mesmo um inútil, o que você fizera com o seu dinheiro além de gastá-lo em viagens, bebida e sexo? Nada... Mikhail... Mikhail..."

         — O que quer de mim, montanha tola!

         "Quero humildade para começar! Arrependa-se,ainda há a vida inteira para você! A chance está na sua frente, arrependa-se!"
         — Eu não posso, eu não tenho mais chance.

"Você tem, você tem a chance de ser feliz. Veja, veja a mulher à sua frente, com ela poderá ser feliz meu caro, com ela poderá um dia casar-se e ter filhos com ela"
             — Não! Eu não quero isso! Eu não quero ter uma família


         A Aurora boreal martela ao alto com o vento a se tornar espesso, formulando uma corrente em volta de Kutzenkov, o Monte Calvo trouxera a sua força à frente... O vento cortara-lhe o som, tapara-lhe a boca e agitava a sua roupa, em um dado momento Kutzenkov perdera a sua ushanka que voara para bem longe, revelando assim o seu cabelo marrom-bronze.


        Kutzenkov tentou lutar contra o vento, mas o vento em si era mais forte que ele.

       "Ouça-nos, Ouça-nos, querido. Ouça-nos o mal que nos trouxe querido..." Ouve-se ao vento uma cântiga melódica cantada por um coro feminino. Eram as vozes de todas as amantes que Kutzenkov abandonara na amargura e que agora descansava em paz em outro lugar...


        — Não! Não!


        "Ouça-nos o mal que nos causou e nos causa... Venha, venha com nós!"


        — Não, eu vou mudar, eu prometo, eu vou mudar.


       "Venha até nós, junte-se a nós!"


       — Não, eu vou mudar, eu vou mudar.


      "Venha até nós, junte-se a nós!"


       — Eu vou mudar, eu prometo, eu vou mudar.


        As vozes foram se tornando mais e mais fracas, até que num dado momento, com o vento que enfraquecia, desapareceram junto com a tempestade, num momento inesperado.


       Kutzenkov, que estava de joelhos, nessa altura, exausto e assustado, ficara ali, imóvel, de cabeça baixa, enquanto ouvia pela última vez a montanha dar-lhe o seu recado.

     "Essa é sua última chance, Kutzenkov. Sua última chance de ser feliz e fazer alguém feliz! Não a desperdice!"
      Enfim, a montanha se calou, e Helga, ainda envolvida com as luzes da Aurora Boreal, só em um dado momento percebera que Kutzenkov estava de joelhos, no chão, totalmente cansado e ofegante.
   


     — O que houve, senhor Kutzenkov? O que houve? Está suando!


     — Eu queria que fosse em melhores condições, Helga, eu queria que fosse em um lugar mais confortável, mas eis que estou aqui. Aqui, de joelhos a você... Porque desde o primeiro momento que te vi, não consegui tirar os olhos de você! Estou apaixonado, Helga, eu estou apaixonado por você. Helga, é com você que quero me casar, é com você que quero ter filhos, é com você que quero ter uma vida.


      — Oh! Mikhail, eu também te amo, desde o momento que vi você descer da diligência em minha aldeia! Eu também te amo de todo coração.


       Helga ajudou-lhe a levantar Kutzenkov e com aquele céu, com aquelas cores, com aquele vento... Com aqueles amores, Kutzenkov e Helga enfim se beijaram... Se beijarem em um beijo doce e molhado, um beijo demorado, um beijo de amor


      Ao fundo, ouve-se ao vento o som de violinos estridentes tocar uma canção de amor... Era o Monte Calvo, o grande Monte Calvo.



    

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Semana de Música Russa (Dia 2)

     Hoje é dia de Rimsky Korsakov, um grande compositor nacionalista russo do Grupo dos Cinco que ficou notavelmente conhecido depois da morte de Tchaikovsky.
Korsakov em foto




Dia 2: Noite no Teatro

     Todos estavam ansiosos para ouvir a orquestra afinar os seus instrumentos enquanto no alvoroço, as bailarinas maquiavam-se a todo custo nos seus camarins e os tenores afiavam suas vozes.

     Todos naquela casa de Ópera estavam ansiosos para ouvir outro sucesso do famoso músico Rimsky Korsakov, todos: Aristocratas, industriais, funcionários públicos, membros da família imperial, até mesmo alguns poucos funcionários da casa de Ópera que tiveram a oportunidade de escapar um pouco de seu trabalho para ouvir a orquestra.

     E eis que estava um funcionário do Ministério da Guerra, um tal Stepanov, um camarada alto, de olhos acinzentados de suíças espessas e cabelos escuros como os de um lobo... tinha talvez trinta e poucos anos, não era velho, mas também não era imaturo.

    Ouvia sua esposa, Matriuska Marianova, cocoricar com suas amigas fofoqueiras as mais recentes novidades na alta sociedade, falando da intimidade dos membros da família real, dos desatinos na corte e dos boatos falsos que rondavam as famílias da nobreza.


     — Cale-se, Matriuska, não vê que eu quero ouvir a ópera! — Disse irritado Stepanov, demonstrando a insatisfação de todos ali por aquele grupo de cocotas fofoqueiras que se reunira justamente no teatro para trocar boatos.
     — Mas querido...
     — Cale-se, eu quero ouvir!
     Matriuska era o tipo da cortesã estúpida e iletrada que só se divertia contando e fofocando sobre os outros, não tinha grandes passatempos além disso... Era feia, gorduchona e nariguda, senão fosse da nobreza, talvez Konstantin Stepanov nunca teria se casado com ela.
     Talvez porque fosse afilhada da mãe do Czar, talvez porque seu pai tivesse grandes empreendimentos nos Urais, Stepanov não se lembrava porque se casara com ela, mas lembrava que não era feliz com ela, mas sim com Anastacia.

       Sim, Anastacia, uma das damas mais respeitáveis da Corte, esposa de um rico industrial belga que viera fazer fortuna em Petersburgo. Anastacia sim era bonita e refinada, aquilo sim era uma mulher... Era uma morena de cabelos cacheados, pele branca como a neve, olhos azulados do mais denso azul que se pode imaginar, e um rosto de divine belleze, à la France.

      Era bem mais atraente que Matriuska, o seu porte esbelto e seus traços sedutores, traziam sempre memórias felizes a Stepanov das noites felizes que tivera com ela quando o seu marido seguia Rússia adentro para conferir seus empreendimentos.

     Mas hoje, hoje, ela estava com o marido, um tal Andrey Brel, ou será que era Audrey Brel? Stepanov não se recodava, mas rapidamente lembrava o ódio que sentia por aquele homem; Brel, que estava logo à frente, na segunda bancada, ao lado de sua esposa, era um homem feio, meio gorducho, com marcas de varíola no rosto e uma barba mal cuidada, calvo por completo, era repulsivo até os olhos dos outros ricos, que o chamavam de "Bolota", àquele noveau riche.

      — Pois, então amiga, eu fiquei sabendo, por fontes seguras do Palácio, que a imperatriz  tem se encontrado com aquele cavalheiro, aquele tal de Denikin.
       — Que horror! Será que o Czar sabe disso?
       — Isso eu não sei, mas se souber, teremos com certeza outra coisa para conversar.
       — Calem-se as duas! — Disse com ódio latente, Konstantin Fresenievich.
       Aquilo foi sonoro na acústica do teatro e todos inclusive os Brel viraram-se para ver que havia feito tamanho sacrilégio ao templo da música.
       Stepanov encolheu-se em sua casaca de cavalheiro e fingiu não saber o que havia ter se passado, e todos então ignoraram o ocorrido, mas o ódio de Stepanov ficou cada vez mais forte, mais denso.

       Rimsky Korsakov, Nikolai Andreyevich para os intímos, que não eram poucos, era já um homem de certa idade, quarenta e quatro anos, professor no Conservatório de São Petersburgo em composição e orquestração, Korsakov em muito trocava cartas com o diretor do Conservatório de Moscou, na época, Pyotr Ilyich Tchaikovsky.

       Mas ao contrário de Tchaikovsky, Korsakov era totalmente russo em suas músicas, em todas elas...

      Korsakov, de casaca preta, e luvas de cetim branco, subiu a bancada sob uma nuvem de aplausos e suspiros da arquibancada, enquanto os músicos preparavam-se para o seu concerto... Korsakov era um homem baixinho, de olhos ferozes e barba característica, com um calhanhaque que ia próximo à altura dos ombros.

      Era um homem enérgico e exigia o máximo de perfeição de seus homens em sua óperas, tal como aquela que ia se realizar agora...

      E em fim, em um dado momento, quando as cortesãs enfim calaram a boca, a orquestra começou a tocar sua sinfônia...



          Stepanov acompanhou com atenção o som dos violinos e dos violoncelos transpassar as suas emoções, as suas explosões de ódio que tinha por Brel, o amor que sentia por Anastacia, o alvoroço de sua vida como funcionário do Ministério da Guerra... Stepanov então regojizou-se em sua poltrona, enquanto ouvia o enérgico regente mover sua batuta ferozmente para a orquestra enquanto os dançarinos e principalmente, as bailarinas despendiam com leveza movimentos circulares em torno do palco.

       Aquela fora um noite impagável. Matriuska finalmente ficou calada, Konstantin Fresenievich finalmente podia se confortar, mesmo sabendo que Anastacia, infeliz acompanhava o marido, naquele concerto. Ela baixava de tempos e tempos sua cabeça, alheia aos carinhos de seu marido... Certamente pensava nele, em Konstantin Fresenievich!

     Stepanov soltou um sorriso mudo, ela o amava, não àquele burguês gordo por quem tinha repulsa, mas pelo jovem funcionário, o jovem Konstantin Fresenievich, e tudo, inclusive os comentários infelizes de sua esposa sobre as roupas das bailarinas, tudo pareceu doce, enquanto Stepanov pensava na felicidade que ele e Anastacia conseguiam juntos.


    "Esse foi um dia inesquecível, meu caro Konstantin Fresenievich! Ela me ama, meu caro, ela me ama!"... E assim, Konstantin Fresenievich voltou sorridente para casa, mesmo sendo obrigado  a ouvir sua esposa repetir como um papagaio as fofocas de sua amiga.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Semana de Música Russa

        Em homenagem ao concertista, compositor e pianista russo, Pyotr Ilyich Tchaikovsky, eu, com a autoridade investida em mim, por mim mesmo, promulguei que essa é a semana para se lembrar não só Tchaikovsky, mas todos os músicos russos em geral;

     Primeiro Dia: Jovem Apaixonado

    Estava tarde, tarde da noite, as ruas mal iluminadas daquela cidadela escondiam as sombras dos poucos passantes por ali. Era uma cidade pequena, daquelas de província que pararam no tempo, com suas ruas de paralelepípedos que nos finais de semana realizavam-se rigorosamente e pontualmente procissões à única catedral ortodoxa da cidade...

    Bêbado e cambaleante, um jovem caminha em meio ao frio, envolto em seu casaco surrado, encolhendo seus cabelos desagrelhados na gola de seu sobretudo... Era um escritor, com certeza, tinha cara de escritor, falava como escritor, bebia como um escritor, e enquanto caminhava, o jovem tentava esquecer os tremores em seus ossos pelo vento gorjeante do Norte.

     Fora uma noite longa na taverna, quem diria, ele ganhara finalmente uma partida de truco com o chefe de polícia e o prefeito, é claro que roubando, mas ganhou, ganhou uma grana esperta, meio marota, como os malandros conseguem nas estações de trem roubando velhinhas mundo afora.

     Mas só lhe restava agora alguns copeques, perdera tudo nos goles absurdos de vodka... Em meio ao degustar daquela rígida bebida, de toque de frescor que lhe queimava a garganta enquanto gritava ao coro para tocar uma canção, Riamov, o poeta, lembrava-se de sua amada.

     Sim, Diana, um nome tão belo e forte quanto a moça que o possuía; Era filha de um mercador grego, um dos poucos que se encontra por ali, um mercador tão salafrario, mas tão salafrario que enganava os pobres e roubava dos ricos.

     E pensar que ele queria se casar com ela, o poeta Riamov queria enfim se casar! Vejam só!

     Pois recebera um ruídoso "Não" do pai da moça, outubro passado, enquanto esperava conseguir algum dinheiro da pensão de seu rico pai, o aristocrata Dimitri Riamov, um senhor de terras em Riga; Riamov há tempos contava com a bondade de seu pai, ao qual sequer tinha o trabalho de vê-lo a três anos (quando foi expulso de casa). Ele já não mais escrevia, mesmo tendo recebido um convite para ir a Petersburgo ser redator de uma gazeta burguesa, Riamov recusou-se a prestar tanto tal. Ele era artista, não jornalista.

     Sob a neve branca que agora caia na cidadezinha, Riamov erguera de relance o seu olhar para um casarão no fim de uma ladeira, e pegou uma pequena pedra no chão, que encontrar solta no meio do caminho e a jogou em direção a varanda:


     — Diana! Diana! — Gritou ruidosamente para todo mundo ouvir;
    
     Na sacada do casarão, uma luz ilumina de relance o aposento, e uma moça jovem, uma das belas que já vi, imagino eu, apareceu na varanda; Ela usava uma camisola de cetim branco e deixara soltos os seus rubros cabelos... Era uma beleza grega, uma das ardentes que talvez possa imaginar, tinha olhos azuis, nariz aquilino e um rosto feliz e sorridente. Tal era Diana.

     — Diana! Diana!
     — O que faz aqui, Aleksandr Dimitrich? Meu pai pode nos ouvir.
     — Eu te amo Diana, eu sempre te amei e sempre te amarei, não consigo viver sem você minha querida, venha comigo, casa-se comigo.
     — Eu não posso, eu amo a meu pai, eu não posso abandoná-lo desse jeito.
     — Diana, Diana!
     — Eu também te amo, eu te amo com todo o sangue que percorre as minhas veias, eu te amo, Sacha, eu te amo meu querido; Mas agora vá, siga, antes que o meu pai nos veja; Vá, meu querido.
     — Certo, Diana, estou indo, minha querida. Mas saiba que eu amo de todo o meu coração, eu a amo.
     — Vá, vá, antes que meu pai nos veja.
     — Até mais, Diana.

     E Riamov escondeu-se em meio às sombras da noite, feliz e sorridente enquanto olhava a neve cair do seu e bater no seu rosto; Ela o amava, finalmente ela o amava. Feliz e contente, Riamov escutava de longe o pequeno teatro da cidade tocar uma canção em estridente violino... Uma canção de amor.



   

Dia 1: Tchaikovsky: Romeu e Julieta: Abertura "Fantasia"

O Bilhete Premiado

          Ivan Dmítritch, homem remediado que vivia com a família na base de uns 1200 rublos por ano, muito satisfeito com seu destino, certa noite, depois do jantar, sentou-se no sofá e começou a ler o jornal.

       
      — Esqueci de dar uma olhada no jornal de hoje – disse sua mulher tirando a mesa. – Dê uma espiada para ver se saiu o resultado do sorteio.

      — Saiu – respondeu Ivan Dmítritch -, mas você não penhorou seu bilhete?

      — Não. Paguei os juros na terça.

      — Qual é o número?

      — A série é 9499, bilhete 26.

       — Então… Vejamos… 9499 e 26.

          Ivan Dmítritch não acreditava na sorte da loteria e em outra ocasião jamais se daria ao trabalho de verificar a lista. Agora, porém, que não tinha nada para fazer e o jornal estava bem debaixo de seu nariz, percorreu com o dedo de cima para baixo Os números da série. E não é que logo de cara, corno que para zombar de sua descrença, já no alto da segunda coluna apareceu de repente, diante de seus olhos, o numero 9499! Sem conferir o número do bilhete nem verificar se tinha lido certo, deixou cair rapidamente o jornal no colo e como se alguém lhe tivesse derramado água na barriga, sentiu um friozinho agradável no fundo do estômago. Era urna sensação de coceira terrível e deliciosa ao mesmo tempo.


       —  Macha – disse com voz surda -, o 9499 está aqui. A mulher olhou para seu rosto surpreso, assustado, e compreendeu que o marido não estava brincando.

       — 9499? – perguntou ela, empalidecendo e deixando cair na mesa a toalha dobrada.

       —  Sim, sim… Está, de verdade!

       — E o número do bilhete?

       — É mesmo! Ainda falta o número do bilhete. Mas tenha paciência… espere. Então, que tal? De qualquer modo o número de nossa série está, hem? De qualquer modo, entendeu?…

       Ivan Dmítritch olhou para a mulher e sorriu num sorriso largo e apalermado como uma criança a qual tivessem mostrado alguma coisa brilhante. A mulher também sorria. Sentia o mesmo prazer que o marido por ele ter lido somente a série e não ter tido pressa em saber do número do feliz bilhete. E tão delicioso, tão angustiante consumir-se e espicaçar-se na esperança de uma felicidade possível!


       — A nossa série está – disse Ivan Dmítritch depois de um longo silêncio. – Significa que existe uma possibilidade de termos ganho. Apenas uma possibilidade, mas, apesar de tudo, ela existe!

       — Está bem, mas agora, olhe.

       — Espere. Ainda teremos tempo a vontade para nos desiludir. Se esta na segunda coluna de cima, quer dizer que o prêmio é de 75 mil. Isso não é dinheiro, é uma força, um capital! E se de repente eu olhar para a lista e lá estiver o numero 26? Hem? Escute, e se tivermos ganho de verdade?

        Os cônjuges começaram a dar risada e a olhar demoradamente um para o outro, sem falar nada. A possibilidade da ventura deixara-os obnubilados, e eles não conseguiam sequer sonhar, dizer para que precisavam daqueles 75 mil, o que comprariam, para onde iriam. Imaginavam apenas Os números 9499 e 75 mil, desenhavam-nos em sua imaginação, mas a idéia da felicidade, que estava tão próxima, parecia não lhes passar pela cabeça.

          Ivan Dmítritch andou algumas vezes de um lado para outro com o jornal nas mãos e só quando a primeira impressão se acalmou é que, aos poucos, começou a sonhar.


          — E se tivermos ganho? – disse. – Seria uma vida nova, uma catástrofe! O bilhete é seu, claro, mas se fosse meu, antes de mais nada, naturalmente eu compraria algum imóvel, algo como uma propriedade, no valor de, digamos, 25 mil; deixaria uns 10 mil para despesas extras: mobília nova… uma viagem… pagamento de dívidas e assim por diante. Os 40 mil restantes colocaria no banco, para render juros…

          — Realmente, uma propriedade seria ótimo – disse a mulher sentando-se e deixando cair os braços no colo. – Em algum canto, na região de Tula ou de Orlóv… Em primeiro lugar, não seria preciso alugar nenhuma casa de campo e, em segundo, não deixa de ser uma renda.

            E na imaginação dele começaram a se aglomerar imagens, uma mais poética e aprazível que a outra. E em cada uma delas ele se via satisfeito, tranqüilo, saudável e chegou a sentir um calorzinho agradável, um calorzão, mesmo! Lá está ele, depois de ter comido uma sopa de legumes fria como o gelo, de barriga para cima na areia quente, na beira do rio ou no jardim mesmo, embaixo de uma tília… Faz calor… O filho e a filha rastejam perto dele, rolam na areia ou caçam algum bichinho na relva. Cochila docemente sem pensar em nada e sente com todo o corpo o que significa não ter de ir ao serviço nem hoje, nem amanhã, nem depois. E quando cansar de ficar deitado, pode ir ver cortar o feno, ou ao bosque, colher cogumelos, ou então ficar observando como os camponeses pescam os peixes com o arrastão. Ao pôr-do-sol, pega um pano, um sabonete e esgueira-se na casa de banho, onde se despe devagarzinho, passa um tempão alisando o peito nu com as palmas das mãos e finalmente cai n’água. Na água, Os peixinhos se agitam em volta das bolhas turvas de sabão e as plantas aquáticas balançam na corrente. Depois do banho, um chá com creme e rosquinhas doces… À noite, um passeio ou uma partida de uíste com os vizinhos.


          — Sim, seria bom comprar uma propriedade – diz a mulher, também sonhando. Lê-se em seu rosto que está encantada com os próprios pensamentos.

            Ivan Dmítritch imagina o outono chuvoso, as noites frias, o veranico. Nessa época é preciso andar um tempão pelo jardim, pela horta, pela margem do rio até sentir bem o frio e depois beber um copo cheinho de vodka junto com cogumelos salgados ou um pepino em salmoura e pronto – tomar outro trago. As crianças vêm correndo da horta, trazendo cenoura e nabo. Sente-se o cheiro fresco da terra… Depois, estirar-se no sofá e folhear uma revista qualquer, sem pressa, até que o sono chegue. Cobrir o rosto com a revista, desabotoar o colete e entregar-se…

            Após o veranico o tempo é fechado, ruim. Chove dia e noite. As árvores despidas choram, o vento é úmido e frio. Os cachorros, os cavalos, as galinhas – não há quem não esteja molhado, melancólico, encolhido. Não se tem por onde passear; sair de casa, nem falar! Passa-se o dia inteiro andando de um canto para outro e olhando tristemente pelas janelas embaçadas. Que coisa enfadonha!

          Ivan Dmítritch parou e olhou para a mulher.

           — Sabe de uma coisa, Macha, eu iria é para o estrangeiro.
           E ficou pensando como seria bom viajar para o estrangeiro, cruzar o oceano profundo e ir para algum lugar no sul da França, para a Itália… Para a Índia!


           — Eu também iria para o estrangeiro correndo – disse a mulher. – Mas olhe o número do bilhete!

           — Espere! Daqui a pouco…

           Andou pelo quarto e continuou a pensar. E se a mulher fosse realmente para o estrangeiro? Viajar é bom sozinho, ou em companhia de mulheres despreocupadas, sem compromisso, que vivem o momento presente, e não com aquelas que ficam o tempo todo pensando e falando em crianças, suspirando, tremendo com medo de gastar um copeque que seja. Ivan Dmítritch imaginou sua mulher no vagão, cheia de embrulhos, cestas, pacotes: suspira e queixa-se que a viagem lhe deu dor de cabeça, que gastou muito dinheiro. É preciso correr na estação atrás de água quente, sanduíches, água potável. Almoçar ela não pode, custa caro…

          “Tenho certeza que ela iria controlar cada copeque”, pensou ele, olhando para a mulher. “O bilhete é dela, não é meu! E pra que ela precisa ir para o estrangeiro! O que é que lhe falta ver lá de importante? Já sei. Ficará fechada o tempo todo no hotel e não me deixará desgrudar dela um só momento.”

            E pela primeira vez em sua vida reparou que a mulher tinha envelhecido, ficara feia e cheirava a cozinha, enquanto ele ainda era moço, saudável, viçoso, bom para se casar uma segunda vez.

           “Claro, tudo isso é bobagem, é besteira”, pensou. “Mas… para que iria ela ao estrangeiro? O que ela aproveitaria lá? Mas iria mesmo… Imagino. Para ela Nápoles ou Klin iriam ser a mesma coisa. Ficaria me atormentando e eu dependeria dela. Tenho certeza de que na hora em que recebesse o dinheiro, iria trancá-lo a sete chaves, como faz o mulherio… Iria escondê-lo de mim… Aos parentes dela tudo, mas para mim, contaria cada copeque.

           Ivan Dmítritch ficou pensando na parentela. Logo que todos esses irmãozinhos, irmãzinhas, titias, titios soubessem do ganho, viriam se arrastando, bancando os mendigos, sorrindo untuosamente, bajulando. Eta gentinha sórdida! Se lhe oferecem a mão, pegam o braço. Se não lhe oferecem, amaldiçoam, rogam pragas, desejam todo tipo de desgraça.

            Ivan Dmítritch lembrou-se de seus parentes e seus rostos, que ele sempre olhara com indiferença, pareciam-lhe agora odiosos, repulsivos.

“São uns canalhas”, ele pensou.

         E o rosto da mulher começou também a parecer-lhe odioso, repulsivo. Em seu íntimo começou a ferver um ressentimento contra ela e ele pensou com alegria perversa: “Não entende nada de dinheiro, por isso é avarenta. Se ganhasse, mal me daria cem rublos, e o resto iria direto para o cofre”.

          Já olhava agora para a mulher com ódio e não mais com um sorriso. Ela também olhava para ele com maldade e com ódio. Ela tinha seus próprios sonhos dourados, seus pianos, suas idéias e sabia perfeitamente no que estava pensando o marido. Sabia que seria o primeiro a avançar no que ela teria ganho.

“É bom sonhar por conta dos outros!”, dizia o olhar dela. “Não, você não conseguirá!”.

          O marido compreendeu seu olhar: o ódio ferveu-lhe no peito e para decepcionar sua mulher e fazer-lhe mal olhou rápido na quarta página do jornal e anunciou solene:


          — Série 9499, bilhete 46! Não 26!

           A esperança e o ódio desapareceram ambos de repente e, no mesmo instante, Ivan Dmítritch e sua mulher acharam os aposentos escuros, pequenos e abafados, e o jantar que tinham acabado de comer pesado e insosso, e as noites longas e enfadonhas.


            — Só o diabo sabe – disse Ivan Dmítritch, começando a implicar. – Por todo lado que eu pise, só há papéis, migalhas, casquinhas, sei lá. Será que nunca varreram esses quartos! Terei de ir embora de casa, o diabo que me carregue. Vou sair e me enforcar na primeira árvore.

Haber e o uso da ciência para o "bem" e para o "mal"

A figura mais controversa pra mim na história da Ciência não é Oppenheimer (pai da bomba nuclear), nem Alfred Nobel (criador da di...