Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Entre coturnos e fardas


         Quando que o Exército Brasileiro passou a ser uma força política no Brasil?


        Em Maldita Guerra, do professor Francisco Doratioto, a Guerra do Paraguai é a consolidação do que se tornaria o Brasil. O conflito que durou seis anos e consolidou uma aliança entre três países vizinhos contra a ditadura de Solano Lopez auxiliou na formação de um exército profissional e moderno para o país que aos poucos se caminhava para o término da escravidão e para o processo de modernização estrutural e industrial que se observou no início do século XX.

General Osório comandando as tropas brasileiras na Batalha de Tuiuti. Osório era o comandante militar mais popular no período imperial e o seu envolvimento com o Partido Liberal o fazia ser bem-quisto pelos setores urbanos e liberais do Rio de Janeiro.


      O Brasil era um país agrário, com forte ligação religiosa, dependente da exportação de insumos agrícolas e conservava o seu poder na figura do benevolente e popular imperador Dom Pedro II, o Magnânimo. Ao contrário do que se imagina, a monarquia era bastante popular até o último ano do império, mas o que aconteceu foi justamente um desastre do ponto de vista institucional.


      O Brasil foi invadido em 1864, quando as forças paraguaias  tomaram Bonito e Corumbá, no atual Mato Grosso e iniciaram uma segunda coluna em direção ao Rio Grande do Sul. As tropas de Solano Lopez tinham a seu dispor armas modernas e o maior exército moderno da região, o Brasil, embora excedesse a população de todos os países do Cone Sul, era desproporcionalmente habitado, com a população se concentrando no litoral, e tinha forças armadas aquém da sua real necessidade.


      O Exército Brasileiro era pequeno, utilizava armas arcaicas, da época da Guerra da Cisplatina (1824) e tinha problemas sérios na cadeia de comando. Todo o prestígio ficava em torno à Guarda Nacional, tropas formadas normalmente por civis e membros da elite local que basicamente ficavam nas regiões onde eles foram recrutados e não tinham constante treinamento, sendo apenas alistados em situações esporádicas, para conter revoltas e às vezes correr atrás de escravos que fugiam. Hoje, o equivalente da Guarda Nacional é incrivelmente, ironia ou não, a Força Nacional, um braço policial à disposição do poder executivo que pode ser empregado em situações de descontrole em uma ou em algumas unidades da União.


       Enquanto os paraguaios continuavam avançando, passando pelo interior das províncias argentinas de Entre Ríos e Corrientes, em direção ao Rio Grande do Sul, ficou mais do que evidente que a Guarda Nacional era tecnicamente inútil. O Brasil teve que iniciar uma campanha de alistamento de soldados a partir do zero, formar homens, importar armas, e instaurar novos regimentos. Assim nasceram os Voluntários da Pátria, a primeira tentativa de soldados-cidadão do Brasil.

      O imperador Pedro II foi o primeiro Voluntário da Pátria, e muitos dos primeiros alistados realmente foram às fileiras do Exército de livre espontânea vontade. Com o tempo, esse quadro se inverteu, sobretudo quando Uruguaiana foi tomada e os paraguaios impuseram ao Brasil enormes derrotas e a Maldita Guerra parecia não ter fim em conflitos cada vez mais sangrentos. Tendo isso visto, o Império passou a exercer o alistamento compulsório para manter o contingente das tropas imperiais, e para burlarem o alistamento, as elites agrárias obrigavam os escravos a entrarem no Exército no lugar de seus senhores.

Pedro II, o primeiro Voluntário da Pátria da História

     O Exército Brasileiro nasceu racialmente misto e das camadas mais pobres. A guerra foi brutal e os brasileiros tiveram que se modernizar, inclusive para manusear o armamento novo que vinha da França e da Bélgica. Muitos brasileiros foram em direção ao exterior, para serem treinados, inclusive a oficialidade subalterna, onde tiveram contato com as ideias positivistas.
Soldados brasileiros na Guerra do Paraguai


     O positivismo tinha pilares a Ordem como meio de criar uma sociedade progressista e industrial, onde tudo seria construído de maneira orgânica, através de um senso de disciplina de todas as camadas sociais poderia-se obter o progresso, sem espaço de discussões ou manifestações próprias de uma democracia. Por esse sistema, as formas tradicionistas de poder eram tidas como obsoletas, e a monarquia era sobretudo tida como algo arcaico a ser combatido. Nos quartéis surgiu um republicanismo autoritário e profundamente nacionalista.

      As tropas de Pedro II derrotaram Solano Lopez na Batalha de Lomas Valentinas, e do exército paraguaio só restaram frangalhos, o Brasil  estava a um passo de tomar Assunção,capital paraguaia. Quando os militares brasileiros tomaram assunção, eles instituíram um governo militar sob o comando do Duque de Caxias e depois do Conde D'Eu.

      Sob lei marcial, as tropas brasileiras cometeram alguns atos de insubordinação e pilhagens (nada diferente do que os paraguaios fizeram em Uruguaiana), e a guerra ainda não tinha acabado, as tropas de Solano estavam no interior exercendo atividades de guerrilha.

Conde D'Eu e oficiais do Exército Brasileiro no Paraguai


      O Brasil acabou instituindo um novo governo paraguaio, aboliu a escravidão no país, algo  feito quase vinte anos antes que no Brasil, e colocou um aliado no poder, Cirilo Acosta. A caçada à Lopez acabou na Batalha de Cerro Corá, onde as tropas imperiais cercaram as  últimas forças de Solano Lopez e ele,  ferido, no meio da batalha foi abatido pelo cabo Chico Diabo, que acabou o degolando quando o general recusou a se render.


      A Guerra do Paraguai se arrastou muito mais do que deveria, os brasileiros sofreram com várias doenças, fome, gangrena e frio. Foram assolados pela beri-beri, por epidemias sucessivas de febre amarela e disenteria. A recusa do governo imperial em dar a guerra encerrada até a rendição de Solano Lopez foi um dos motivos do conflito ter se prolongado tanto, e com os gastos, o governo imperial entrou em crise financeira.

         Os militares descontentes culpavam o comando do Conde D'Eu, genro do imperador, e exigiam por reformas na cadeia de estrutura do Exército, inclusive pedindo sua modernização como força regular de defesa. E os militares eram a estrela em ascensão depois da Guerra do Paraguai.


        Quando a Monarquia iniciou o ano de 1870, o Império tinha uma dívida externa correspondente a dez anos do seu orçamento público, e nesses dezoito anos finais, o governo ficou pagando os empréstimos com bastante dificuldade, tendo inclusive problemas com o fluxo de caixa. Muitos projetos do Império tiveram que ser abandonados simplesmente porque não havia dinheiro para pagar.


       Nesse meio tempo tinha o problema da escravidão, que o governo imperial, mas sobretudo o Senado Imperial, empurrava com a barriga. O maior obstáculo para o fim da escravidão foi o poder legislativo (conservador até hoje), desde 1831, com a Lei Eusébio de Queiroz se discutia o fim da escravidão e o  abolicionismo ficou cada vez mais forte nas incipientes elites intelectuais e nas  populações da cidade. Era uma vergonha o Brasil ser o último país a abolir a escravidão na América.


      O Governo Imperial teve que tomar atitudes por pressão externa, sobretudo da Inglaterra, as primeiras medidas, a Lei dos Sexagenários e a Lei do Ventre Livre trouxeram muita insatisfação não só no Senado Imperial, mas também na própria Casa Imperial, a própria Princesa Isabel tinha sido inicialmente contra. O republicanismo passou a ser uma teoria política cada vez mais forte nos meios urbanos, sobretudo nas profissões liberais e nos meios intelectuais da época.

      A Terceira República Francesa exercia um certo fascínio como meio de organização política avançada da época e os meios militares ditos "progressistas" desejavam um Estado ordeiro e constitucional aos moldes positivistas.

     A questão é que o Brasil tinha tido flertes com o republicanismo desde a Inconfidência Mineira e a Confederação do Equador, até mesmo  o período regencial por muitos historiadores pode ser encarado como um ensaio de governo republicano, a experiência do  federalismo norte-americano juntamente com a ocorrência de repúblicas oligarcas em toda a América Latina seduziam cada vez mais as elites agrárias descontentes com o governo federal e que desejavam o poder.

      O que foi feito em 15 de novembro de 1889 foi um acordo entre duas vertentes republicanistas que destituíram o poder tradicional  e legítimo de Dom Pedro II, sem qualquer respaldo do povo brasileiro, a República nasceu de um golpe. Os militares assumiram o poder e não seguiram o acordo de partilhá-lo com os cafeicultores de São Paulo e com as elites intelectuais que apoiaram abertamente a deposição de Dom Pedro II. É o início do primeiro período ditatorial do Brasil.

Deodoro da Fonseca e Rui Barbosa sendo consagrados pela República


      O militarismo do Exército Brasileiro instaurou uma Ditadura chamada conveniente de República das Espadas, onde o primeiro governante, Deodoro da Fonseca (que era amigo pessoal de Sua Majestade Pedro II e um usurpador do poder legítimo) inicialmente dava mostras que iria aceitar uma nova Constituição (o Brasil tinha constituição no período imperial e era uma das mais modernas dentre as monarquias), haveria eleições em 1891 e o Congresso teria autonomia.
A República nasceu de um Golpe


     A verdade não foi essa, Deodoro e o Congresso rotineiramente se desentendiam, Deodoro não aceitava se submeter à autoridade das elites locais e para piorar o plano econômico de seu Ministro da Fazenda, Rui Barbosa, foi um desastre (ele não era economista pra início de conversa, só sabia falar bonito). A tentativa de reduzir o rombo das contas públicas e incentivar a industrialização emitindo papel moeda sem ter capital no Tesouro para dar lastro apenas fez nascer uma hiperinflação que se tornou a maior crise financeira do Brasil até 1929.

       O governo de Deodoro, em si, foi um desastre e no ápice dos seus desentendimentos com o Congresso, sobretudo em relação à Constituição de 1891, a qual previa eleições imediatas e Deodoro queria manter o seu mandato como presidente interino. Diante da recusa do Congresso, Deodoro ordena destacamentos de artilharia e cavalaria cercarem o Congresso, os senadores estavam realizando a eleição indireta para decidir o  presidente do Brasil, e diante da evidente ameaça elegeram Deodoro Fonseca e Floriano Peixoto.

     Deodoro, com o fechamento do Congresso, acabou perdendo todo o apoio popular e corria a ameaça de sofrer um golpe do próprio vice.  Sem ter opções, e completamente desacreditado pela opinião pública, ele acabou renunciando em favor do vice, Floriano Peixoto.


      O governo de Floriano Peixoto foi pior ainda, além de ter governado em estado de sítio, o Brasil enfrentou duas revoltas sérias, a Revolta Federalista e a Revolta da Armada, que chegou a ameaçar o Rio de Janeiro inclusive, tendo bombardeio da cidade por causa da recusa de Floriano em liberar os direitos civis.

O governo  de Floriano Peixoto foi um verdadeiro desastre

       O governo militar foi logo substituído pela sucessão oligárquica da República Velha e a consequente política Café com leite, tendo a alternância presidencial entre paulistas e mineiros. Após a República Espada só um militar seria eleito presidente da República, Hermes da Fonseca, sobrinho de ninguém menos que Deodoro da Fonseca.

       Já num panorama diferente, o fluminense Hermes da Fonseca foi eleito em eleições disputadas, das quais, ele conseguiu ser eleito com apoio de personagens políticos de prestígio. O governo Hermes da Fonseca enfrentou problemas, como a Revolta da Chibata e também foi obrigado a renegociar a dívida externa brasileira que tinha se tornado insolvente. Verdade seja dita, foi até certo ponto um governo estável comparado aos outros governos.

      O problema disso tudo é que em todo período da Primeira República, as Forças Armadas interferiram diretamente na política nacional, seja com manifestos, revoltas, e motins, nenhum dos governantes desde Artur Bernades conseguiu governar sem precisar se utilizar do estado de sítio. Em 1922, a Revolta dos 18 do forte exibiu o clamor dos quartéis e da baixa oficialidade por mudanças na conjuntura nacional

      Em 1924, a Força Pública de São Paulo e estacamentos do Exército se amotinaram contra o governo paulista, e juntamente com as forças armadas do Rio Grande do Sul iniciaram o ciclo de revoltas do tenentismo, chegando ao ponto máximo da Coluna Prestes.
Lideranças tenentistas em comboio ferroviário

      O governo brasileiro caminhou na corda bamba de 1922 até 1930, com o crescente temor que os militares pudessem dar um golpe e instaurar uma ditadura. O pleito de 1930 foi o ponto mais delicado desse processo quando a política do café com leite ruiu e a aliança entre São Paulo e Minas desabou.


       Os tenentistas, sedentos por derrubar Washington Luís, juntamente com o Partido Democrático Paulista, as elites mineiras e gaúchas se uniram e deram um golpe, ou melhor a "Revolução de 30", colocando Getúlio Vargas no poder.

Getúlio chega ao poder de coturno e farda, ele só sairia depois de 15 anos da Presidência

       Os militares ficaram por 15 anos como atores principais na política nacional na Era Vargas, com inclusive tendo Góis Monteiro, um notório simpatizante do nazismo, no gabinete do governo de Getúlio. Eles apoiaram o Estado Novo e a cassação dos direitos civis de comunistas e membros de esquerda, e muitas vezes argumentavam com Getúlio se o Brasil devia ou não ficar neutro na Segunda Guerra.

       Verdade seja dita, os anos 30 foram o ápice do militarismo brasileiro e Getúlio entendia isso muito bem, não a toa que seu governo era inspirado no fascismo italiano (por predileções próprias e por pressões também dos líderes tenentistas).


       Entretanto, a entrada do Brasil na Segunda Guerra foi o ponto de ruptura. Pela primeira vez as Forças Armadas se envolviam seriamente num conflito armado na Europa, e pela democracia inclusive, um Exército mal-preparado e mal armado como era a FEB do General Dutra, se tornou uma força profissional democrática de soldados-cidadãos.

Primeira Guerra memeal: A Cobra está fumando


       Esse intercâmbio de ideias entre os soldados brasileiros e americanos moldou um movimento dentro dos coturnos e nas fardas pelo fim da ditadura brasileira e o início da democratização. Getúlio compreendeu isso e anunciou que no final do ano de 1945 ele iria reinstaurar as eleições. Era tarde, Getúlio sofreu um golpe dos mesmos militares que ele mandou pra a Itália.

     Em 1946 foi promulgada uma nova constituição, liberal e democrática, que inclusive legalizava pela primeira vez o PCB. A corrida presidencial estava ocupada por duas figuras militares de prestígio, General Gaspar Dutra, líder da Força Expedicionária Brasileira, herói de guerra e reconhecidamente uma figura de prestígio junto à diplomacia americana, e Brigadeiro Eduardo Gomes (daí vem o nome do doce brigadeiro, o quitute que era feito para financiar a campanha do oficial da Força Aérea).



Eduardo Gomes
      Eduardo Gomes era tenaz opositor de Getúlio Vargas, tendo sido o criador da Força Aérea Brasileira (FAB), ele foi uma das lideranças tenentistas que acabaram se associando com a direita brasileira e levaram à derrocada do governo getulista. Getúlio, mestre da arte política, apoiou tacitamente Dutra, que acabou sendo eleito em 1946.


      O governo Dutra foi um dos piores governos da História do Brasil, sendo apenas comparável ao governo de Floriano Peixoto, Fernando Collor, Sarney e  o governo Dilma-Temer. O Brasil, pela primeira vez na história, tinha um câmbio valorizado e era credor das potências europeias que lutaram na Segunda Guerra Mundial.






    O ufanismo brasileiro estava nas alturas (assim como no final da Era Lula), o Brasil era reconhecido pelos Estados Unidos como um país parceiro e foi membro fundador da ONU. O Brasil iria sediar a próxima Copa do Mundo (1950) e estava evidente que a herança da industrialização de Vargas estava dando frutos.

     Entretanto, Dutra não soube aproveitar o momento-chave, a janela de oportunidade que poderia ter definido o rumo do Brasil, pelo contrário, as reservas cambiais brasileiras acumuladas na época estavam na maior parte indexadas em libras-esterlinas (que se desvalorizaram depois do final da guerra) e em ouro, com a conferência de Bretton Wood, o padrão ouro-dólar seria adotado e todo ouro que circulado no mundo deveria ser convertível em dólares.
Dutra recebendo a medalha do menino de pior governo da História do Brasil


      Como a oferta de dólares era justamente escassa, o dinheiro inteiro acumulado não servia pra nada. Dutra teve a ideia de comprar as ferrovias inglesas com as reservas cambiais restantes, e como abatimento de dívidas. Nem preciso dizer que as ferrovias ficaram inúteis depois que a indústria automobilística chegou ao Brasil na época do JK.

      O Plano SALTE, seu plano de recuperação e desenvolvimentismo econômico, depois que as reservas cambiais brasileiras se exauriram e o câmbio se desvalorizou frente ao dólar, baseou-se na Saúde, Alimentação, Transporte e Energia. Dutra criou a primeira rodovia do Brasil, que hoje é batizada em seu nome, que liga Rio a São Paulo, proibiu os cassinos e construiu hidrelétricas no Rio São Francisco.


       Seu governo só foi isso, desvalorização do cruzeiro, o fim das reservas cambiais, e quando as coisas deram errado, partiu pro desenvolvimentismo e fez a rodovia Dutra. Nem preciso dizer que nas eleições de 1951, Getúlio voltou com uma vitória massacrante contra (de novo) Eduardo Gomes.

       Os militares não engoliram seco a volta do velhinho, o mesmo Getúlio que eles depuseram seis anos antes, principalmente Eduardo Gomes, notório desafeto político de Getúlio. O jornalista Carlos Lacerda conseguia arrebatar os ouvidos de milhares de cidadãos fluminenses e paulistas com os seus discursos na Rádio Nacional e na TV Tupi, denunciando o governo de ser corrupto e inepto, sobretudo de exercer um monte de irregularidades nos processos licitatórios para grande obras.


"Será que dá pra acertar o Lacerda aqui do Catete?"


        Quando houve o atentado contra Lacerda em 1954, na Rua Toneleiros, era justamente um oficial da Força Aérea, a mesma de Eduardo Gomes, que estava fazendo a escolta do jornalista. O oficial foi morto na troca de tiros e Lacerda saiu com o pé machucado (dizem as más línguas que ele atirou de propósito no próprio pé).


"Nunca imaginei que uma unha encravada pudesse doer tanto"

       O caso tomou uma enorme repercussão política na época, com de novo, Carlos Lacerda, querendo a cabeça de Getúlio e exigindo a renúncia do presidente da República na TV Tupi. O fato é que as elites brasileiras já estavam engasgadas com Getúlio por causa da legislação trabalhista, a CLT, o aumento de 100%  do salário mínimo que o Ministro do Trabalho, João Goulart, deu para os trabalhadores para compensar as perdas com a inflação, e sobretudo a estatização do petróleo brasileiro, com a Petrobrás.

     Quando mais se esmiuçava o fato, mais ia se comprovando o envolvimento de gente do Palácio do Catete no atentado, até que uma das denúncias apontavam o mandante como sendo Gregório Fortunado, guarda costas pessoal de Getúlio. Foi merda no ventilador.

     A Força Aérea exigiu a apuração do caso, o Congresso e o Exército exigiram o afastamento definitivo de Getúlio. O  Ministro da Guerra, Zenóbio da Costa, soltou na imprensa um comentário que Getúlio iria se afastar (e em caráter definitivo), tudo isso foi piorando a situação de Getúlio. Em 1954, o fim foi único, Getúlio vagou pelo Palácio do Catete como um morto-vivo, sem responder ninguém.

      Ele vestia um robe de seda listrado e levava no bolso um revólver com cabo de madrepérola, presente de Franklin Roosevelt.  Getúlio se trancou no seu quarto, e deixou na mesa de canto uma cópia do bilhete de suicídio (a outra foi entregue para João Goulart no Rio Grande do Sul), e atirou contra o próprio peito.

      O suicídio de Getúlio evitou um novo golpe militar.



      Mas não deixou as eleições de 1955 calmas. O vice-presidente Café Filho dizia-se incapacitado por problemas de saúde e se ausentou da presidência por uns quatro meses, a presidência exercida por Carlos Luz não admitia a ideia que tivessem eleições em 1955 justamente para não dar a chance de algum associado de Getúlio fosse eleito.

    De fato, o Brasil já passou por uma bagunça institucional antes e ninguém lembra hoje de Café Filho (nem se lembrará de Michel Temer), a questão que o candidato na disputa eleitoral era Juscelino Kubitschek, o então governador de Minas Gerais.


"Vou com meu fusquinha direto pra Brasília. Não, pera"

   As  eleições de 1955 foram boicotadas pelo próprio governo e quando JK foi eleito, o presidente Café Filho milagrosamente apareceu renascido das cinzas e disse que estava apto pra governar (ou seja, iria embaçar toda a eleição). Henrique Teixeira Lott, general do Exército Brasileiro, se levantou contra a insegurança jurídica que circulava em torno da posse de JK e garantiu que o resultado das eleições seria respeitado e garantiu a posse de JK. Colocou as tropas na rua para garantir a manutenção da ordem e JK foi empossado presidente no Catete.

   Lott é uma exceção de um padrão que se observou em todo o período republicano, ele foi o único general que realmente defendeu a legalidade e garantiu o resultado das eleições de forma democrática (outro exemplo foi o general Miguel Costa na década de 30). De toda forma, Lott foi tratado como herói nacional e defensor da legalidade, sendo reconhecido como verdadeiro patriota (e foi justo inclusive).

Lott forçando um sorriso meio sem graça

   Em 1960, Lott concorreu à presidência com ninguém menos que Jânio Quadros. Sem apoio de Juscelino e com uma propaganda sem apelo popular, Lott, o último militar legalista, acabou sendo derrotado. O resultado poderia talvez ter sido diferente, caso Lott tivesse sido eleito, a existência de um militar nacionalista e constitucionalista poderia ter impedido os militares brasileiros terem derrubado um governo democrático em 1964.

    A bagunça foi evidente, em 1961, Jânio Quadros irrita os setores tradicionais brasileiros com a sua política irreverente e acaba renunciando depois de oito meses. Para piorar as coisas, o seu vice-presidente, João Goulart (ex-ministro do Trabalho de Getúlio) realizava na época visita na China maoísta. O resultado foi terrível, os militares não aceitaram Jango assumir a presidência com a suspeita dele ser comunista e querer instaurar uma república sindicalista.

     A solução encontrada pelo PSD e pela UDN foi um acordo, Jango assumiria a presidência, mas o Brasil seria parlamentarista. Isso quer dizer, teve um golpe parlamentar para que Jango não tivesse plenos poderes e o Congresso pudesse legislar sobre ele. Tancredo Neves foi o primeiro primeiro-ministro do Brasil republicano.

      Só que isso não estava dando certo, cada gabinete acabava durando no máximo três meses e o governo entrou em um vazio institucional, o PTB, liderado por Brizola, conseguiu o retorno do presidencialismo a duras penas. Os militares não engoliram bem o fato de Jango ter plenos poderes agora.

    O discurso da Sé foi a gota d'água, Jango com a sua proposta de reforma agrária cutucou a onça com vara curta e o resultado foram os setores militares se associando com o capital industrial, os partidos conservadores, a direita católica e o setor agrário. Com a ajuda da diplomacia americana, aconteceu o golpe, o general Mourão Filho deslocou seus destacamentos de Juiz de Fora até o Rio de Janeiro. Jango saiu da cidade e foi pra Brasília, vendo que não teria apoio parlamentar e que o resultado seria um banho de sangue foi pro Rio Grande do Sul.

    Sem que ninguém soubesse onde estava o presidente, o presidente da  Câmara em sessão especial declarou vaga a presidência da República, e com esse vazio de poder, estava aberto o caminho para os militares.

"Jango, você foi desrespeitoso. Você nem me convidou pra sua casa tomar um café e vem me pedir ajuda"

    Castelo Branco, Costa e Silva, Medici, Geisel e Figueiredo. O Brasil teve cinco ditadores, cada um à sua maneira. Castelo Branco enganou a todos dizendo que iria ter eleições em 1965, mas ele acabou caçando os mandatos políticos e estendendo o seu governo ainda mais que o esperado. Instituiu um ajuste fiscal (igual ao do Temer), congelou os salários mínimos e aumentou a concentração de renda. Costa e Silva caçou todos os direitos políticos e o habeas corpus com o AI-5, iniciou o período linha-dura, consagrado com torturas, prisões arbitrárias e exílio na era Medici.


      A detente só começou quando o governo Carter começou a condenar as violações dos direitos humanos na América Latina e Geisel prometeu a abertura, lenta, gradual e segura. O Brasil amargou 21 anos sem ter direito ao voto, sem ter liberdade de imprensa, tendo prisões arbitrárias e violações aos direitos de índios, lgbts, trabalhadores sindicalizados e artistas.


      Os coturnos e fardas só saíram do Palácio do Planalto numa eleição indireta, e infelizmente, tivemos que amargar ainda outro presidente impopular, José Sarney.


      Desde então, o que vem sendo feito das Forças Armadas?


      Penso que as Forças Armadas retiraram-se do palco político por outras questões. A Ditadura Militar criou atritos e insubordinações dentro da própria tropa, com grupos e facções brigando entre si pelo poder, o que minou até a estabilidade das Forças Armadas brasileiras, os militares continuaram defendendo os seus interesses sim dentro do Congresso, tendo inclusive ex-oficiais seus defendendo o aumento salarial, a renovação do contingente, etc. Um desses é Jair Bolsonaro.


     As tropas militares hoje tem a tarefa de defender a Amazônia legal contra incursões estrangeiras e de grupo narco-traficantes, envolveram-se nas missões de paz do Haiti ( de forma até exemplar), mas o problema é que justamente as Forças Armadas, que tinham se desvencilhado da política, estão retornando.


      Com a Comissão da Verdade, que apurou os excessos e os crimes da Ditadura Militar, inclusive de oficiais da ativa, os militares tiveram um atrito muito grande contra as investigações do Governo Dilma. Com isso, associada a crescente popularidade da direita radical e a extrema-direita, o impeachment do governo Dilma e ação deliberada de setores políticos reconhecidamente corruptos na política, a sensação de vazio institucional está levando à ideia que o retorno da Ditadura iria trazer normalidade ao Brasil.


      Enganam-se porém, os militares foram os atores políticos nos eventos mais conturbados que o país sobreviveu, deram golpes, apoiaram ditaduras e foram responsáveis por eventos autoritários que não devem ser esquecidos. Não estou defendendo o ódio contra as Forças Armadas, mas existem elementos dentro dos quadros militares que querem se aproveitar da insegurança jurídica, de um governo corrupto impopular como o governo Temer, para assumirem de vez o poder e instituir um projeto de governo conservador, autoritário, cristão e contra as minorias.


     O problema que as fardas e os coturnos não são a solução para um país democrático e qualquer iniciativa de intervenção pode terminar em desastre. Observamos estarrecidos o modo como estão desenrolando os conflitos nas ocupações dos morros do Rio, com a morte de cidadãos inocentes num novo capítulo da guerra contra o tráfico.

     Mas o mais grave é a ascensão de um líder da extrema direita, Jair Bolsonaro, jingoísta, contra os direitos das minorias, à favor do porte das armas, de um governo autoritário, fazendo defesa de reconhecidos torturadores do período militar. Bolsonaro representa uma ala existente na sociedade brasileira que vê com bons olhos a destruição da democracia e a perpetuação do poder do totalitarismo.

      A declaração do general Hamilton Mourão é pior ainda, ela atesta que se não forem resolvidas pelo poder judiciário as denúncias de corrupção, as Forças Armadas poderão intervir e consolidar talvez outro governo de exceção. O problema que desde a Constituição de 1988 é proibido que oficiais da ativa emitam opiniões políticas publicamente e o comandante do Exército, general Villas Boas limitou-se apenas a um leve comentário e não puniu o oficial por indisciplina (como seria feito em qualquer lugar do mundo).


    Enquanto o governo afunda num mar de lama, maior a popularidade das Forças Armadas e é cada vez mais crescente o número de brasileiros que querem o retorno dos militares no poder.. Se isso acontecer, entraremos em mais um novo ciclo de autoritarismo e barbaridade. O Brasil realmente não é feito para amadores, um país com enorme potencial sempre será refém de seu próprio passado,




 

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