Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

sábado, 26 de agosto de 2017

A navalha

        O corte incisivo do fio de navalha pode proporcionar um barbear rente no rosto de qualquer homem minimamente preocupado com sua aparência, mas curiosamente, a mesma lâmina de aço em contato com a pele pode proporcionar uma das sensações mais desconfortáveis, conforme a pressão que exercemos com as mãos.

       Ontem, contrariamente do que tinha meditado toda essa semana, a navalha que tinha aposentado na gaveta, apareceu em uma das minhas mãos. O sulco da minha carne seguia de forma rubra durante o escaldante banho enquanto meu rosto olhava sem muito entusiasmo para aquela mistura de cores que saía de meus pulsos.

        A água em contato com meu sangue ardia conforme meu coração bombeava sem entusiasmo e o ralo consumia toda a minha energia vital que havia se esvaido. Lembrei-me do quanto havia me prometido não cometer besteiras, mas me pareceu nem um pouco equivocado quando senti o sangue sair do meu corpo e ir ao encontro da água.



         Dois cortes na altura dos pulsos, onde antes eu sentia falta de um relógio, hoje não mais. A mão esquerda sinistramente se estendia pelo esquife enquanto pacientemente a água inundava meus olhos. Cogitei desistir da ideia, pensei se não seria melhor voltar para casa dos meus pais e só ouvir uma dúzia de reprimendas. Pelo contrário, decidi continuar.

        Os últimos dias serão um foco dos meus estudos no futuro, serão o que irei visitar na memória como o ponto mais baixo do meu amor próprio e de minha própria compreensão como ser humano. Ecce homo? Não, não me sinto mais como um ser humano, pelo contrário, me sinto como um objeto depois de sucessivas torturas e sofrimentos pelo que venho passando.


       O fim pareceu-me cada vez mais sedutor justamente pelo seu caráter rígido. O fim é apenas o fim, não há meio termos, não há recomeços, e ninguém realmente lamenta quando o fim acontece. A minha vida passou como um filme, saboreei por um momento a minha infância na casa do meu avô. 

       Ele sorria enquanto eu ia ao seu encontro, eu segurava a sua mão enquanto ele me acolhia nos seus braços quando eu saía daquela caixa d'agua. Hoje me sinto preso de novo naquela caixa d'água. Meu avô, um dia me disse que as coisas iriam melhorar, ele e eu somos muito parecidos de certa forma, mesmo não termos tido muito contato nos seus últimos anos de vida. Foi um erro.

      Eu fui o último neto a vê-lo com vida, e aquele sofrimento que foi o câncer me fez jurar que nunca iria passar por aquilo de novo. Meu avô viveu de forma honesta, trabalhou durante a vida inteira e por uma injustiça, foi maltratado pela quimioterapia, pelos médicos insensíveis e pela doença que se espalhou por todo o seu corpo.

      Eu quase nunca falo disso, e acho que sei o porquê. 

      Enquanto a água caía, me lembrei do sorriso da minha irmã, logo depois do seu nascimento. De seus olhinhos pequenos, de suas mãos delicadas de criança. Me lembrei de quando a ensinei a andar, e com a felicidade dos nossos momentos fraternais na casa dos meus pais. Me senti responsável por ela no momento que a vi no hospital, e me sinto culpado de ter sumido nesse último ano.

      A minha irmã foi provavelmente a única pessoa que me amou sem realmente me cobrar nada.


       Lembrei-me de meu pai, de seu rosto por vezes severo, por vezes gentio. De sua forma bruta de falar, muitas vezes intolerante, me lembrei que ele me amava como filho, às vezes como amigo. Por vezes brigávamos, discutíamos, sempre pensamos de forma diferente, mas às vezes, bem raras vezes, nós concordávamos. Sempre tive orgulho de tê-lo como pai.

      Minha mãe foi a mulher mais bela e mais devotada aos filhos que vocês podem imaginar, ela era uma modelo. Coitada, como ela sofreu, e sempre foi meio calada. Ela tentou me salvar várias vezes, mesmo quando eu realmente intransigente. Não, não que ela soubesse expressar o seu amor, muitas vezes era algo bem subjetivo. Mas hoje eu sei o quanto ela sente por eu ter saído de casa.


       Meus amigos. Gerson, meu irmão mais velho, que me deu vários conselhos enquanto estavámos cercados de dúvidas, olhávamos ao nosso redor, sentados em um banco, e falavamos da vida. Por vezes, aparecia o Tadashi com um litro de chá gelado, outras vezes o Ayub que me pedia para fumar cachimbo (mesmo eu sabendo que ele não devia). Fui feliz naqueles momentos em que ficávamos tarde da noite num banco de cimento na frente da banca de jornal.


       Bruno e Rodolfo. Que grandes amigos! Mesmo nas horas mais difíceis, eles estiveram do meu lado. Bruno sempre com o seu jeito laborioso, com o astral lá no alto, eu não conseguia ficar triste perto dele. Tinha uma completa consideração e lealdade por esse homem que tive orgulho de dizer que era o meu amigo. Sinto-me mal de por vezes ter sobrecarregado nossa amizade, de outras vezes, tê-lo decepcionado. Sinto-me mal por ter sido apenas o Alan.

      Rodolfo, a pessoa que eu devo de forma inestimável. Um eterno amigo, espero que o universo pague por toda a sua bondade e paciência que ele teve comigo. Espero que ele consiga seus sonhos e que ele seja feliz. No pior momento da minha vida, ele me ofereceu um teto e não se negou a me dar um prato de comida. Muitas pessoas podem falar coisas horríveis dele, mas na realidade, Rodolfo é como eu no fundo, tentando fazer o melhor na medida do possível.




       Eu senti minhas forças irem enquanto a água ficava cada vez mais vermelha. Ontem, meus sonhos que já não eram muitos, ficaram cada vez mais confusos. Ontem, desisti de querer lutar, será que eu já não desisti há algum tempo?

       Meus olhos se encheram de lágrimas, a água quente combinava numa orgia sinistra com a água salgada que saía de meus olhos. Eu sabia que eu iria morrer se ficasse mais dois minutos naquela banheira. Olhei para os azulejos e tentei me lembrar da casa dos meus pais. Lembrei-me do quarto onde passei várias noites escrevendo, rodeado de livros (que infelizmente tive que vendê-los), da minha máquina de escrever e dos quadros que eu havia pintado.

       Lembrei-me das roupas, da coleção de chapéus, dos filmes que eu gostava, dos videogames e da cama. Aquela cama de solteiro de madeira, com os lençóis azuis, num quarto completamente azul. Aquela cama que me acolheu nos momentos mais difíceis, que me viu muitas vezes deprimido e chorando durante a noite. Enquanto o guarda-roupa seguia insensível durante as noites frias de inverno.


       Eu fui um privilegiado de ter tido esses momentos....


       Quando Giovana chegou, ela me tirou da banheira e chorou. Cobriu meus pulsos e disse que não queria que eu fizesse isso, que era melhor eu voltar.

       Meu Deus, como eu a amava. Hoje não sei o que mais sinto, passamos por tantas coisas. Foi um estupro, foi um sequestro. Passamos fome juntos, muitas vezes eu tinha minhas crises de depressão, outras vezes era ela que ficava mal. Ela não era uma pessoa ruim, não fazia maldades, e sim, ela lutou o quanto pode.


       Ela ficou pagando sozinha a conta de casa por vários meses quando eu me separei do meu trabalho, por vezes o dinheiro faltava e fazíamos as contas com matemática cartesiana, comer ou pagar o aluguel?

        Eu não me arrependo de ter a conhecido, não me arrependo de ter a amado.


         Ela me deitou na cama e chorou. Me beijou e disse o quanto que me amava, mas que as coisas não estão mais dando certo. Hoje eu não tenho mais o que dizer, o amor não foi suficiente no nosso caso e não sei, com meus pulsos ainda machucados, acho que meu coração bateu o que tinha que ter batido e agora está quebrado no meio. 


        Sinto muito pelo texto longo, e peço desculpas a todas as pessoas que o leram, mas principalmente, às pessoas que ficaram ao meu lado e eu não correspondi às expectativas.