Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Por que Sense8 não foi renovada?


      A Netflix aceitou a ideia das irmãs Wachowsky de iniciar uma série global, tal como tinha sido Marco Polo. Era uma série sobre oito pessoas em diferentes locais do mundo, de diferentes classes sociais e realidades. A proposta é muito boa inclusive, ao criar um panorama de que toda a humanidade é supranacional, que todas as ligações humanas como amor, obstinação e reconhecimento são maiores do que o preconceito,a miséria e a intolerância.

       Sense8 foi o projeto mais inovador e mais ambicioso da Netflix dentre vários sucessos consolidados. A Netflix se firmou como uma plataforma de streaming quando passou a fazer suas próprias séries e patrocinar conteúdo independente.

      Sem dúvida, os 19,90 mensais que você paga todos os meses valeram a pena. Sobretudo quando você acompanhou as maratonas de House of Cards, assistiu Sherlock sem constrangimentos de comerciais e viu o Jogo da Imitação entre um ou outro capítulo de How I meet your mother. Walking Dead, The Americans, 12 anos de escravidão e A viagem. Antes de massacrarmos a Netflix, vamos conversar?









      Sinceramente, eu me apaixonei logo de início com a história da Nomi, a menina transgênero que era obrigada pela mãe a ser internada num hospital e que teria que fazer uma cirurgia  cerebral que poderia causar a sua morte. A história de Nomi foi uma das histórias mais interessantes de Sense8, todo o seu sofrimento e os preconceitos, tornaram essa uma das personagens que moldaram a série sob uma temática LGBT, inclusive sendo associada ao ativismo dos direitos civis.

Nomi, a musa de Sense8




















      Wolfgang foi o segundo personagem com quem eu tive afinidade, não por ser o esteriótipo do machão revoltado que acaba com tudo, nisso existem filmes do Stallone pra isso, pelo contrário, Wolfgang está metido em toda uma geopolítica de intrigas e negociações entre os grupos mafiosos que dominam Berlim, e o mundo do crime, pós-queda do Muro. Wolfgang é produto de uma sociedade alemã oriental que foi inserida num contexto de economia de mercado de forma muito abrupta e sua associação com o mundo do crime foi inevitável com o seu passado familiar, em todo caso ele é um ser humano tentando fazer o máximo possível para fazer as escolhas certas no ambiente errado.
Wolfgang prestes a esfaquear algum executivo da Netflix depois do cancelamento da série


      Sun foi a terceira personagem que me fez interessar pela série, no caso por ser engmática, não por ser uma exímia lutadora de artes marciais. Filha de um grande empresário sul-coreano, ela, uma das diretoras financeiras é obrigada a assumir um escândalo financeiro milionário para salvaguardar a firma, e o nome de seu irmão (nesse caso herdeiro do império), ela assume um crime que não cometeu com um código de honra que só os orientais conhecem,mas eis que seu pai foi assassinado e o seu irmão deu um golpe para assumir a empresa. Ela na cadeia corre com sua vingança.

        Sun é a personagem mais introspectiva de toda a série e acredito que isso faça com que ela seja uma das melhores figuras, todas as suas histórias, junto com as do Wolfgang, são boas e a interpretação dos dois atores é impecável.

        Agora temos três personagens espalhados em países em desenvolvimento, um deles que eu sempre tive simpatia foi Capheus, o motorista de ônibus de Nairobi. Ele perdeu o pai, líder sindical, ainda criança numa intriga política e tribal no Quênia, foi obrigado a imigrar para o interior onde a sua mãe foi estuprada e contraiu HIV, nisso, Capheus cresceu com a convicção de cuidar de sua mãe a qualquer custo. Em Nairobi, o custo de vida realmente alto os obrigou a viver numa favela e ao motorista batalhar todos os dias como "Van Damne" pelo sustento da família.

        Numa dessas lutas, seu ônibus é assaltado e levam os remédios de sua mãe. Capheus inicia sua briga contra as gangues locais de Nairobi e é tomado como herói local, se tornando uma das lideranças políticas de sua comunidade posteriormente. Houve uma troca de atores em Sense8 no papel de Capheus devido a  discordâncias entre o primeiro ator e Lana Wachowsky(com denúncias de homofobia inclusive por parte do ator), posteriormente na segunda temporada ele foi substituído.

       O outro personagem é o Lito, um ator de filmes B mexicano que esconde sua homossexualidade para o mundo em nome de sua carreira, ele tem um parceiro chamado Hernando e os dois dividem um apartamento na parte nobre da cidade do México. Contudo, Lito na sua luta para se afirmar acaba se envolvendo com vários problemas, sendo chantageado e inclusive entrando em crises de consciência. Pessoalmente eu não simpatizei com o personagem em si por achar sua história muitas vezes confusa, e na segunda temporada, quando ele saí do armário, muitos dos seus trechos e cenas pareceram meio forçados.

      De toda forma, o personagem para mim mais sem graça de Sense8 é a Kala, a farmacêutica indiana que é obrigada a se casar num casamento arranjado com um grande empresário de Mumbai, ela no antagonismo do tradicionalismo da sociedade hindu e de sua tentativa em se afirmar como mulher livre e independente acaba reprimindo a sua própria sexualidade, se podando muitas vezes pelo pudor e a personalidade. O fato é que a personalidade de Kala não exprime uma presença tão forte em Sense8 e fico com a sensação de que ela ficou negligenciada apenas a ser o par romântico de Wolfgang.

        O par romântico Will Gorski e Riley Blue  sempre foi para mim o elo mais fraco da narrativa, não só por ser o clássico "mocinha e mocinho" lutando contra o vilão, Sussurros, como a própria história de Gorski é completamente chapa branca, um policial que investiga um crime e acaba se tornando o chefe dos Sensates de vez. Numa relação entre o resquício da corporação da polícia de Chicago e um escândalo de segurança nacional sob um suposto terrorista chamado Jonas, Will é obrigado a fugir quando acaba sendo rotulado como terrorista em sua investigação.

        Nisso entra a trama sense8, de que os sensates fazem parte do ramo evolutivo da humanidade, homo sensorialis, um suposto ramo da humanidade em que a comunicação se da por sentimentos e telepatia em vários locais do mundo, criando uma atmosfera transcendental de experiência, criando um "ubermensch", com o tempo, a trama vai desenrolando e mostra que existem outros grupos de sensates e que eles estão sendo caçados por organismos governamentais à procura do seu controle e eventual extinção (na verdade, Sussurros utilizará  depois Sense8s como armas de guerra).

        O problema é que Sense8 era uma série bastante promissora, mas ao invés de solucionar algumas lacunas criou apenas mais lacunas. Não desenvolveu explicações sobre como surgiram os sense8s, e de como as organizações governamentais instituíram a caça aos homo sensorialis, nem tampouco desenvolveram a história de Sussurros ou mesmo da mãe dos sensates, Angelica.

       Para piorar, a trama da segunda temporada desenvolveu-se de forma bastante devagar, o Especial de Natal ficou aquém das expectativas e a fuga de Sun, bem como sua vingança tiveram um capítulo final decepcionante, sem falar do final em que não se explica o  que acontece com Wolfgang.

This is the end... My only is a friend is the end


      Sense8 perdeu um nexo narrativo e um desenvolvimento da sua própria história ao ficar muito preza ao lado pop da série, de ter se tornado uma série jovem, com uma temática global e lgbt, ao invés de darem desfechos para a narrativa, Sense8 caiu no aspecto Matrix, de deixar ainda mais lacunas a serem resolvidas. As próprias produtoras, Lana e Andy Wachowsky não estavam conseguindo manter a qualidade do roteiro de Sense8 e a interpretação de alguns personagens falhou.

     O orçamento de Sense8 é um dos mais caros de toda Netflix e o retorno financeiro pode não ter acompanhado às ideias dos executivos da firma, já que Sense8 era uma série de um público específico, branco, escolarizado, jovem entre 18-25 anos, provavelmente universitário e que fosse sensível aos dilemas do século XXI. Não foi pelas orgias de Sense8 que deixaram a série se perder, não foi porque a série era particular demais, é porque a proposta é muito recente e a produção de Sense8 demorou demais. Dois anos entre uma temporada e outra.


     Sense8 era uma série do século XXI para pessoas que pensam o século XXI, com todos os seus desafios e dilemas. É uma série jovem e atual, que se perdeu por não ter acompanhado as expectativas de seu próprio público Então, é triste ela ter sido cancelada, mas ela foi cancelada por não dar mais o retorno esperado à Netflix, mas o mínimo que poderiam ter é um episódio final que resolvesse os dilemas, mostrasse o que aconteceu com Wolfgang e uma verdadeira vingança de Sun, porque foi triste o desfecho dos dois últimos episódios da segunda temporada.

2 comentários:

  1. Lá estava eu, um jovem com cerca de 16 anos e assistindo essa série nova, chamada de Sense8. Eu nunca havia assistido, até então, nada igual. 8 personagens espalhados pelo globo - 2 lgbts, aliás - e passando pelos próprios dramas pessoais, enquanto se conectavam uns aos outros e tentavam se ajudar ali e aqui. Fiquei chocado com a narrativa - de vez em quando ousada para o meu eu da época, "ousadas" em cenas como: a primeira orgia, por exemplo ou logo no 1º episódio em que 2 mulheres aparecem tendo relações sexuais - e maravilhado ao mesmo tempo. Quando eu vi, lá se foram 10 ou 9 episódios assistidos quase seguidos (algo raríssimo para mim, mesmo hoje). Então, eu, cheio de problemas internos e o principal deles ligados à minha sexualidade, assistindo uma série dessas. Gamei. Até revi no ano passado a sua primeira temporada e continuei mantendo um sentimento positivo. AÍ, veio essa segunda temporada (anos depois, como você mesmo disse). Mesmo cego pelo carinho que eu criei, eu não consegui continuar fingindo por muito tempo após terminá-la (até tentei prosseguir fingindo que foi perfeito). Só que meu Deus, desde aquela investigação enfadonha feita pelos sensates sobre o passado da Angelica e o seu envolvimento com a organização lá, até aquela cena do casamento em que o FBI aparece e resolve levar a Nomi... Que merda.

    Só que claro, não irei mentir: eu gostei, sim, de várias cenas em especial nessa segunda, mas são poucas. Inclusive, de uma que você disse não ter curtido: a "vingança" da Sun. Pois não vou mentir, achei bem feitinha aquelas sequências de ação. Me senti "A nona sensate", aliás, haha.

    Por fim, de série com potencial para ser "cult", para uma série infantil, diga-se de passagem.

    Prazer, Murilo (ou "Kabuh").

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  2. Eu demorei para ler o seu comentário e peço desculpas pela demora Kabuh, de fato, eu acredito que Sense8 era uma série com uma proposta muito boa que se dedicou a temas muito importantes como racismo, identidade de gênero, sexualidade, machismo e intolerância. A narrativa é realmente coisa que me seduziu, sobretudo a ideia de oito sensates, oito pessoas de diferentes partes do mundo interconectadas e que mostram que as pessoas mesmo em realidades diferentes conseguem estar conectadas e sentir empatia uma pelas outras. Eu sou entusiasta por N motivos pela Nomi, a melhor personagem de Sense 8 na minha opinião.
    A vingança da Sun eu achei que deveria ter sido mais, essa ideia de redenção e dela perdoar o irmão não me agradou, o irmão foi responsável por tudo de ruim na trajetória dela. De toda forma, prazer Kabuh, obrigado por comentar e gostaria de conversar depois sobre isso

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