Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O vento

       No convento da igreja, onde a cruz vermelha esconde o sofrimento e o medo, dois padres discutem o significado da vida. Um deles responde:

       "A vida é produto de nossa fé, do amor e do perdão ao outro. Sem isso não somos cristãos".

        O outro padre medita, silenciosamente, degusta um pedaço de pão e beberica um pouco de vinho:

        "Não sei se a vida responde aos pecados, mas sei que nossa mocidade e velhice deve-se procurar ser pio e justo antes de tudo"

       Olharam para a estátua de Santo Agostinho. Foi tudo por água abaixo. Na mocidade, o santo não
conseguiu ser pio e desvencilhado do pecado e na velhice respondeu aos seus erros postulando
um conjunto de ideias para Igreja Católica sem no entanto responder o grande significado da vida.

        O manto vermelho do Santo Sepulcro escondia o sofrimento de um pobre carpinteiro, escolhido no meio do deserto, em meio à fome e o frio por quarenta dias, enquanto Yeshua meditava com o diabo.

       "A perdição está no  orgulho. Está  na luxúria e no preconceito".

        O primeiro padre medita  e o sino toca. A missa e a congregação se reúnem e no bastião do concílio do Vaticano, os fiéis sentam-se em seus lugares.

        O convento beneditino se une à cidade, na procissão de almas, o andar lento corresponde à velocidade da vida. Sem ter escolha, a procissão prossegue e encontra as almas perdidas da cracolândia, passa por frente da luz vermelha dos motéis e das prostitutas.

       Os fiéis julgam, insultam com os olhos, silenciosos sob a luz das velas e das orações. aquilo incomoda os dois padres:

        "O pão nosso que nos daí hoje", o primeiro padre corta o pão e entrega a um mendigo.

        O mendigo faminto o abraça com as roupas sujas e o padre não se incomoda. Os fiéis o julgam por sua caridade, os mais fanáticos seguem o seu gesto e dividem o pão aos mais pobres.

          "Esse é o corpo de Cristo. Perdoai nossas ofensas".

          O segundo padre anda com uma vela na mão e  retira da escuridão um cachorro perdido. Ele o abraça e o leva consigo.

          "Seja na Terra como no Céu".

          Quando o cortejo passa na pista, os carros param, não há buzinas nem insultos, são homens santos antes de tudo. Quando caminham descalços pelas vielas, eles se calam sem ter medo nos olhos.Eles são católicos e  seguem a luz das estrelas na metrópole cheia de sombras

           A catedral beneditina está muito longe, mas os dois missionários conduzem aquele rebanho
De velhas senhoras e de fiéis católicos, até onde menos se espera: ao lado mais esquecido da cidade.

         Ali encontram-se homens santos e as mulheres da vida. Um ao seu turno se olham sem se falar. Os padres meditam, os fiéis julgam: O primeiro padre entrega um pouco  de pão à uma prostituta sem falar nada:
         "Perdoai nossas ofensas", diz sem cerimônia. Ninguém repete o que o padre diz.

         O segundo padre, não satisfeito, conversa com uma travesti:

         "Boa noite, minha filha.  Está frio hoje, Você quer um pouco de vinho?"

          A travesti encara o cortejo com estranhamento, mas diante da generosidade do padre, beberica um pouco do vinho, ainda um pouco chocada com os olhares dos fiéis. Os fiéis ficaram horrorizados quando o padre entregou um pouco de vinho santo à travesti.

         "Tenham uma boa noite e tomem cuidado, minhas filhas, a cidade está perigosa".

           Os dois padres andaram mais à frente do cortejo, debatiam, sem dúvida, o que significava aquele cortejo. Seguiram em direção à Nove de Julho para a Arquidiocese beneditina rezar a missa. No caminho, um dos padres falou:

         "Quando Jesus foi castigado na cruz santa, em seu leito de morte ele disse: "Amai uns aos outros como a ti mesmo". Jesus era um pobre carpinteiro de uma família humilde que sofreu para nos mostrar o caminho, nós louvamos o seu nome porque ele trouxe uma mensagem muito importante para nós: Paz."

         "Alguns entre vocês não entenderam o porquê dessa procissão, nem porque eu ter repartido o pão e o vinho com mendigos e prostitutas. Eu fico triste em saber que a sua solidariedade não se estende a todos nossos irmãos e acho isso bastante grave como cristão. Jesus se cercou de leprosos e prostitutas, sem esperar nada em troca, salvou os mais pobres do seu terrível destino."

         "Quando dei o vinho  para aquela travesti e pedi para que perdoasse nossas ofensas é porque eu queria me desculpar por sempre sermos tão perversos com as pessoas mais vulneráveis. Aquela menina está na rua não porque deseja ou porque seja promíscua, ela está porque não tem escolhas, assim como Maria Madalena".


           Um dos fiéis respondeu:


           " Mas ela é um homem vestido de mulher, ela peca contra a natureza humana e a obra de Deus".

            "O pecado não é o que somos e sim o que agimos. Cada um pode procurar a sua própria salvação, mas não é julgando e destilando ódio que seremos melhores. Os seus olhares foram semelhantes às pedras que seriam atiradas em Maria Madalena. Estamos há quase dois mil anos da época de Cristo e agimos iguais aos romanos, com ódio e intolerância. Isso tem que parar."

            O cachorro se soltou do colo do padre e fugiu; "O destino do ser humano é idêntico ao desse cachorro, ser livre  antes de tudo. Thomas de Aquino e tantos outros nos mostraram que a igreja é a fé de que todos podemos ser iguais e semelhantes diante de Deus e que temos a liberdade de escolher o nosso destino, embora sempre arquemos com nossas consequências. Ser cristão não é só rezar o Pai Nosso e a Ave Maria, é ser solidário sempre com nossos semelhantes".

          Depois disso, eu poderia mentir e dizer que a arquidiocese nunca mais foi a mesma, os fiéis passaram a ser mais caridosos e ouviram com mais intenção a palavra do Senhor. Bem seria uma mentira, os dois padres foram denunciados ao bispo e transferidos de arquidiocese e bem, nada mudou naquele convento. Os fiéis continuaram católicos e sem querer continuaram presos na intolerância e no preconceito. 

"O cristianismo é uma religião de pobres cuja sabedoria é se reconhecerem como servos de toda a humanidade"

         A travesti foi morta duas semanas depois pela disputa do ponto pelas ruas, o mendigo passou por fome e privações até ser colocado à força pela Prefeitura no albergue e o  cachorro, esse sim continua livre e feliz nas ruas de São Paulo. Nenhum dos fiéis rezou uma missa para aqueles pobres infelizes que viviam nas ruas.

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