Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Por uma nova economia

       A opção da sociedade brasileira é a consolidação de um padrão de vida inspirado no  modelo social-democrata de desenvolvimento. A consolidação de um estado de bem estar social  exige uma acumulação de capital  respectiva aos gastos de uma democracia social ao estilo nórdico. Para a construção dessa acumulação de riquezas, as apostas no mundo exigem uma especialização do capital humano existente.

        O Brasil está na retaguarda, é um país modernamente arcaico. Onde há disparidades graves entre a periferia e o centro econômico, o acentuamento das dificuldades operacionais do sistema capitalista e de reprodução do capital interno levam a uma concentração da renda em determinados grupos da sociedade nacional. Essa tendência mundial da concentração do capital é cada vez mais abissal no Brasil que ignora a legitimação econômica de seu modelo de desenvolvimento.


       O modelo cepalino é o grande responsável para fracasso assistido de 2013 até hoje, a retração e a estagflação se somam ao alto endividamento da família brasileira. Isso é resultado da aposta do governo em supervalorizar o salário mínimo e a capacidade do mercado interno em superar uma crise endêmica do capital. A questão é que o salário em si não consegue sozinho consolidar a riqueza brasileira, de fato, ele vem sendo corroído pela inflação e os juros que estouraram na virada de 2014.


        O estado interventor é aceitável por um curto período de tempo, quando a UTI econômica que leva a associações econômicas e grandes especuladores atacam a soberania da moeda nacional, ameaçando a estabilidade social de um país. Os altos gastos da União associados aos crescentes apelos irresponsáveis de prefeitos e governadores por mais verbas ameaçaram a estabilidade do futuro  do Tesouro Nacional, agora atolado em dívidas, O BNDES gastou um dinheiro que não foi devidamente devolvido em investimentos nas empresas nacionais, e os grandes conglomerados agro-industriais acabaram sendo a única esperança no meio da bancarrota nacional.  Mas o campo produz riquezas, mas não produz ouro.

        Ficamos dependentes do velho modo produtivo relegado à América Latina, a exportação de matérias-primas e commodites, a instabilidade das bolsas e o aumento da oferta internacional de alimentos acabaram desabando o preço do nosso maior produto de exportação: a soja. O ferro, dependente do aquecimento da economia chinesa, desabou de preço; assim como aconteceu com o minério de cobre chileno. Só que o Chile conseguiu contornar a sua crise tornando-se fiador de austeridades intragáveis ao seu povo.

       Austeridade é uma palavra bonita para apertar o cinto, e fomos obrigados a fazer muito mais do que isso. Vendemos a fivela e o fecho do cinto, agora só falta a tira de couro e a calça. Vivemos um mundo dinâmico, onde não há espaço para lamentações. Mas não temos ações a curto prazo que possamos fazer.

       Nikolai Tikhonov ao escrever os Desafios da Economia da União Soviética em 1988 acreditava que o regime soviético iria se manter com as reformas de Mikhail Gorbachiov e a política de valorização de salários promovida desde Kruschiov em diante, contudo a crise produtiva soviética era bem mais grave, não só por causa da falência produtiva dos soviéticos no campo, que trouxe o fantasma da fome, mas também a falta de qualidade e investimento na industria soviética. O resultado foi grave e a Rússia não se recuperou, tornando-se vulnerável às ações do capitalismo internacional.


      A desindustrialização do parque industrial brasileiro é uma tendência que assistimos desde o governo de Collor de Mello e que se acentuou com o passar dos anos, essa tendência de retirar da indústria o papel transformador de uma sociedade é assisitida em outros lugares do  mundo. Não há mais espaço para a indústria\ pesada senão a China, apenas um país que considera o padrão de vida do trabalhador um fator secundário pode admitir uma indústria de transformação como pilar da economia. Apenas a indústria criativa e tecnológica podem salvar o Brasil de sua desindustrialização,e temos concorrentes bem mais fortes, com tradição forte na informática\, nas ciências de informação, softwares e aeroespacial. 

     O protecionismo cepalino nos atrasou de modo que não confiamos numa indústria de tecnologia nacional, as políticas de incentivo governamentais são uma franca piada política, e o apoio ao desenvolvimento tecnológico não acompanha o desenvolvimento de laboratórios, plantas de produção e tampouco os impostos ajudam somados aos juros altos ao desenvolvimento de novos empreendimentos criativos.


       Apenas o consumo não consegue segurar um país, embora com muito sacrifício tenhamos conseguido uma política de valorização do salário e uma cota reduzida do desemprego, isso será provisório se a crise que enfrentamos se arrastar por mais alguns anos. E a economia fraca desestabiliza novas democracias.

        A inflação, a falta de investimentos dos empresários, a população que utiliza o crédito como uma forma desenfreada de obter renda. Essas são origens de uma catástrofe. E cego somos nós que não agimos como deveríamos, que assistimos a tudo isso insólitos e curiosos como se fosse um descarrilhamento de um trem. A recuperação será dura e temos que  estar preparados para isso.

         Mas como recuperar-nos do tombo galopante desse ano de 2014? Onde a irresponsabilidade e arrogância parecem ter vencido o medo do fracasso. Ao sediarmos uma irresponsável festa no meio de ano, o final foi azedo e bastante ignorante. Ficamos sem dinheiro na carteira e os empregos cada vez mais ameaçados. Os mercados ficaram cada vez mais indecisos e sofremos com a indecisão do mercado no dia a dia.  A Petrobrás sempre teve corrupção, inocente é quem afirma que desde 1952 até hoje uma empresa estatal que produzia tantos dividendos com o monopólio de hidrocarbonetos num país como o Brasil não tivesse sofrido anos de especulação e corrupção. O ataque contra a Petroleo Brasileiro SA é um ataque especulativo, que associado ao desânimo da economia brasileira, um governo economicamente pífio e a instabilidade internacional levou à parcimônia crise da Petrobrás.

        O caso que o óleo do Presal não deverá ser explorado em 2018 como se acreditava, talvez nem em 2022. Será economicamente inviável explorar as profundezas do Campo de Libra considerando à baixa cotação do petróleo. E a baixa cotação do petróleo não se deve por exemplo à exploração do óleo de xisto americano, que está caminhando ainda devagar, mas ao ataque do mercado aos grandes conglomerados industriais fornecedores de óleo: Como Venezuela e Rússia. Eleitos como dois países mal-gratos da economia internacional, o grau de integração dessas duas economias sempre foi ruim, mas piorou por políticas erradas em períodos delicados.

        A instabilidade da crise do bolívar aumentou com a crise sucessória de Hugo Chavez e da inflação absurda que estourou na Venezuela bolivariana, os anos de hostilidade da política venezuelana aos interesses norte-americanos acabaram colocando a Venezuela numa condição frágil no mercado internacional.A sua proatividade em auxiliar o regime cubano a não chegar no caos econômico também levou recursos prioritários para a sua manutenção econômica que deveria ser imposta com a injeção de doláres e renegociação da dívida externa a partir do Banco Central autônomo a interesses políticos. Não foi feito, e a Venezuela virou alvo de ataque internacional e especulativo devido sua própria irresponsabilidade em não honrar compromissos. Capitalismo não é uma profissão honrada, mas valoriza a honra como maior virtude.

         /Quanto à Rússia, o plano geopolítico em estrangular economicamente esse país euroasiano e submetê-lo à vontade ocidental vem sendo aplicado desde a queda da URSS em 1991, quando o país passou por duas recessões graves e uma perda grave de seu padrão de vida e sofreu com uma forte desindustrialização devido à sua falta de renovação durante a época de Brejnev. A industria russa ainda é obsoleta quando comparada à da Europa Ocidental e uma plutocracia tomou o país durante o regime de Yeltsin onde magnatas se empossaram das mais importantes companhias petrolíferas, de exploração de minérios, transportes e gás. Esses magnatas ganharam milhões.

         Aliados com os interesses do governo construíram uma Nova Rússia capitalista e associada com a geopolítica de combate ao terror da Era Bush e a dependência energética do Eurocontinente e sobretudo da Alemanha. Mas conforme os anos passam e a diplomacia americana muda conforme seus designios, os democratas começaram a incentivar a intervenção americana em locais diferentes do globo, sobretudo no Oriente Médio, onde houve um choque de interesses entre russos e americanos na Síria. Os americanos levaram muito a sério essa quebra na aliança tácita desenvolvida entre Washington e Moscou.

          O acordo feito entre Reagan e Gorbachiov para que a OTAN não se aproveitasse da fragilidade do regime soviético e intervisse sobre sua "esfera de influência" acabou erodindo quando houve a crise ucraniana; O povo ucraniano decidiu que o governo instalado constitucionalmente pró-Rússia estava tomando decisões erradas ao impor um atrelamento da economia ucraniana a uma "nova URSS" que de fato não apareceu.

         Os russos apareceram com uma proposta de linha de crédito e de parcelamento da dívida ucraniana mais tentadora do que a da União Europeia, que anunciava um programa de austeridade grave que afetaria os próprios ucranianos. Entretanto, o desejo do povo ucraniano se dividiu, alguns optaram por ter um padrão de vida da União Europeia fossem quaisquer consequências, enquanto outros viam como uma traição se submeter aos desígnios europeus sabendo o choque de realidade. A questão que o país entrou em guerra civil e a Rússia interviu por razões estratégicas na Crimeia.

       Essa intervenção deixou os ocidentais furiosos, e como aprenderam na velha doutrina Thatcher-Reagan, uma guerra com a Rússia é impossível e contraproducente, mas é possível estrangulá-la economicamente conforme sanções econômicas em áreas prioritárias. O ataque internacional contra a Rússia, a ação do capital especulativo e a desvalorização do barril do petróleo levaram à crise do rublo que indiretamente afetou também  outros países em desenvolvimento dependentes de commodites. Caso do Brasil.

      O Brasil sofre hoje de várias coisas, de políticas econômicas equivocadas, da fragilidade econômica do Mercosul e sobretudo da Argentina que está prestes a quebrar em virtude de outras crises fiscais e de irresponsabilidade do governo e do capital externo; Da economia venezuelana enfraquecida que impacta a economia brasileira e da desvalorização do barril de petróleo em virtude das ações contra a Rússia. Sem falar do fim  do milagre econômico através do atrelamento da economia brasileira ao modelo de desenvolvimento chinês e a nossa dependência da economia do Eurocontinente enquanto os Estados Unidos ressurgem de forma milagrosa depois da maior crise desde 1929.

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