Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

domingo, 24 de agosto de 2014

A gérmen do trigo (considerações a partir de uma revolução técnico-científica)

         A construção de uma sociologia política associada à economia só é possível devido ao fenômeno do século XVIII e todo o período que escorre sobre a tinta da pena na primeira metade do século XIX.
A tentativa de construir uma sociedade nova a partir de padrões técnico-científicos apresenta uma virada quando o método científico a partir de desdobramentos do empirismo inglês torna a observação da natureza objeto claro da análise humana.

A sociedade europeia olha com estranhamento para um mundo em evidente transformação, seja as mudanças dos hábitos de corte, seja mas linhas de circulação de riquezas ou mesmo os velhos dogmas teológicos/ científicos. A filosofia se desvencilha da religião com a interpretação de Spinoza, embora o racionalismo cartesiano tenha inicialmente tido maior impacto ao levar o homem a cogitar que sua humanidade só pode existir em sua racionalidade e senso crítico.

O esfacelamento do cógnito religioso do homem científico é relacionado ao sintagma da destruição das  guerras religiosas que abateram o Sacro Império Romano nas lutas da Guerra dos Trinta Anos.  E nesse paradigma a filosofia política de uma arte diplomática se formula a partir das elucubrações de um príncipe maquiavélico (no sentido positivo do termo) que conduziram esquemas arrojados de lidar com a política sem muitos escrúpulos e honra, principalmente na arte da teoria política.

As teorias são a grande arma contra o tempo passado, a teoria newtoniana, os estudos de Nikolas Copernicus e Johannes Kepler sobre as órbitas elípticas dos planetas levaram ao questionamento se a natureza não poderia ser estudada como fenômeno de criação divina. Como contemplação da obra celestial e por fim, o estudo do próprio Deus. “Conhece-te a si mesmo”, diria um filósofo barbudo do século XIX chamado Friedrich Nietzsche.

O questionamento da forma como enxergamos o mundo levou ao desenvolvimento de estudos a partir de cadáveres e animais para observar o funcionamento dos órgãos e assim observar a “máquina mais perfeita da criação divina”, o Homem. E em sentido estreitos, os estudos de medicina quebraram tabus paradigmáticos de uma sociedade baseada numa moral cristã. A cientificização da alquimia levou a uma quebra der supertições e levou ao nascimento da Química tão importante nos dias atuais; A criação divina tornou-se cada vez mais racional;

A criação de mecanismos e aparelhos de medição tornaram o estudo da realidade da realidade concreta da natureza possível, conduzindo que a ideia de perfeição não estava na Humanidade, mas sim no estudo da natureza. A Ciência. Deus veio da máquina; “Deus ex machina”.

Não a toa que a religião e a teologia deixaram de ser o foco dessa sociedade em tentar alcançar Deus a partir dos seus estudos da filosofia da natureza em contraponto à filosofia religiosa; A física correspondia maiores chances de  compreender o sentido do funcionamento do Universo e de Deus, do que a própria filosofia como vinha sendo feita antes. Tanto que física quântica é o máximo que a humanidade conseguiu chegar no campo da filosofia.

A ciência nasceu da fé cristã, mas terminou na fé da matemática. O questionamento cartesiano e de Spinoza levou ao florescimento de uma sociedade técnico-científica. A medicina e a física romperam com o aspecto diletante dos cursos universitários e o conhecimento passou a ser imediatamente para uso prático. O racionalismo de Descartes resultou na revolução com que a sociedade europeia ao criar a Lógica racional e cientifica
A organização de uma metodologia e mais do que isso, uma lei geral e segura como a Lei da Gravidade conduziu numa fé geral nas leis gerais dos estudos acadêmicos. Nisso estão as leis da Química, nas teorias sobre a Arte da Guerra de Clausewitz, na diplomacia, no Direito, nos estudos sobre a Medicina e do homem e mais do que isso na Antropologia. As tribos do Pacífico passaram a ser estudadas de uma forma etnocêntrica e supostamente científica por professores das mais diferentes universidades europeias

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As consequências dessa revolução estão na arte da Economia, o sistema monopolista é primeiramente questionado na Riqueza das Nações, de Adam Smith, que concluíra que a causa da pobreza das nações europeias é a má gestão dos seus recursos e na sua capacidade de explorar os recursos de maneira reduzida, além da intervenção maciça do Estado régio. O nascimento de um liberalismo inglês ainda pautado pela ideia de uma gestão sem intervenção direta da monarquia, mas de milhares de “Josés do Egito” levou a um florescimento do ideário de que o Leviatã é grande demais para saber controlar o dia-a-dia das atividades cosmopolitas e a ciência complicada da arte do dinheiro; A lei da oferta e da procura ou a mão divina conduziriam a autorregulação do mercado em prol do bem comum, e mais do que isso para o bem individual.
A livre iniciativa dos mercadores levou a um completo paradigma para alterações chave doo sistema financeiro, com a tabelação de regras fiscais e o fim da intervenção régia em determinadas atividades econômicas. Quando o governo não se apercebe dessas mudanças, há revoluções. Tanto na América quanto na França.

A Revolução Francesa é talvez marcante, tanto quanto a Americana, por quebrar a velha ordem. A segunda quebrou com o Pacto Colonial enquanto a primeira quebrou a aliança dos Três Estados numa sociedade estamental que se viu questionada pela sua incapacidade em suprir o rombo das contas públicas e a carestia que se abatia sobre o trigo francês; É o início da submissão da política à economia e não o contrário, a política nunca mais terá forças para controlar a economia de maneira convincente (tirando nos regimes de economia planificada).


O nascimento da representatividade do Terceiro Estado surgiu com os ingleses da América, mas se tornou marcado pelo modelo representativo francês, e nos dez anos de Revolução Francesa se ensaiou vários modelos  representativos, seja a Assembleia Geral, seja a democracia direta, seja a tirania de um Partido hegemônico. A Revolução Francesa nasceu a partir do experimentalismo empírico de uma sociedade científica na tentativa de gerir uma sociedade na melhor forma possível, mas se deformou pelo descontrole com que os eventos revolucionários acabaram sendo conduzidos com o passar dos meses.


O controle de uma nova época levou ao nascimento de uma ideologia cientificista de culto ao Estado como garantidor das liberdades individuais que destruiu a “bagunça do Antigo Regime”. A Assembleia Nacional impôs novas normatizações e um conjunto jurídico que se alterava conforme as atividades políticas do período.


A Antropologia do Homem desenvolvida em épocas anteriores sacramentalizou um evolucionismo histórico que propiciou uma amoralidade do homem europeu no trato com seus semelhantes, levando à cientificização do extermínio a possíveis opositores ao Progresso. Seja no fio da guilhotina do Terror jacobino, seja no neocolonialismo, seja os campos de extermínio nazistas; O nascimento da banalidade do Mal.


O conservadorismo ressurgiu após a Revolução da França, mas a roda da História já tinha girado. O nascimento do mundo ideológico está na dialética entre a querela entre os girondinos e jacobinos. Mas o que observamos é que o materialismo francês nascido no circulo intelectual de cortes do dito “iluminismo” levou a um enraizamento do pensamento racional, concreto e científico sobre todas as atividades humanas existentes de 1789 até agora.




E o materialismo francês não só foi base de desenvolvimento no pensamento de Karl Marx na sua interpretação filosófica a partir da filosofia de Hegel, como também fez germinar o desenvolvimento do Positivismo de Auguste Comte, do liberalismo renovado do século XIX, como a gérmen da tecnocracia atual de nossos tempos, o mundo é diferente do de 1789 porque os indivíduos (agora posso usar esse termo) não temem mais a tirania, agora é o medo à liberdade; Pois nesse mundo, milhares de pessoas não sabem o que querem da vida senão pela fé irracional de um progresso material desumanizado da filosofia empírico do estudo do próprio homem.

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