Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Novos paradigmas na sociedade brasileira

           A ascensão e emergência de um novo estamento social é um tema novo de estudo para os sociólogos hoje no Brasil. Grandes parcelas da população brasileira que antes estavam abaixo da linha da pobreza se encontraram na maior distribuição de renda não só promovida por um governo onde há um assistencialismo embutido (que querendo ou não utilizou-se das reservas monetárias da agro-exportação para promover a alteração dos padrões de distribuição de renda), como também a economia brasileira assistiu um momento de franca expansão na abertura do Brasil ao mercado das commodites em 2002 até 2010. Essa abertura confere hoje ao Brasil a posição de um dos celeiros do mundo.

        Em um contexto macroeconômico o aumento da democratização da classe média, com o alargamento substancial das fileiras da classe média baixa trouxe mudanças e um substancial aumento do mercado consumidor que atualmente é a fonte com o qual o governo trabalha para o crescimento brasileiro não caía ainda mais do que se espera no mercado internacional.

       A despeito disso, é curioso que esse novo estamento social; diferente da antiga classe média tradicional de profissionais liberais, médio comerciantes e funcionários públicos, esteja cada vez mais sendo foco da atenção não só da mídia, como das empresas e do governo. A "nova classe média" era uma invenção no momento que o IBGE mudou os padrões para avaliar os estamentos sociais, ainda há uma linha de distorção das desigualdades que é bem visível, mas o que caracteriza esse novo estamento social.

      A "nova classe média" é originalmente nascida no caldeirão de pobreza das periferias e do próprio sertão, são funcionários públicos de baixo escalão, ou mesmo autônomos e técnicos que receberam a valorização de seus salários devido a crescente necessidade de pessoas no mercado de trabalho de transição.

      Essas pessoas normalmente são completa conhecedoras de um saber de senso comum, não necessariamente possuem uma educação formal completa, e por essa razão se observa o vício cognitivo para que os seus filhos tenham uma formação intelectual e acadêmica maior que os pais. Uma educação com um retorno bastante prático: Conseguir um emprego como engenheiro, médico ou advogado e trazer um aumento da qualidade de vida familiar. Esse aspecto é bastante positivo, pois as famílias da "nova classe média" não medem esforços para que os seus filhos tenham o melhor tipo de educação possível para que possam passar no vestibular, algo muito semelhante ao que ocorreu na Coreia do Sul.

      Ao contrário do que se acredita, a Revolução Educacional sul-coreana nasceu não do estado (que hoje investe 10% do seu PIB em educação), mas do seio familiar onde a antiga cultura agrária marcada pela guerra tomou um fôlego da parte dos patriarcas para que os filhos tivessem o melhor estudo para que fossem estudar em universidades norte-americanas. Hoje a Coreia do Sul é uma referência no campo da tecnologia devido sua alta capacitação intelectual nos campos da engenharia e robótica.

     O Brasil está caminhando lentamente nesse sentido, mas está caminhando.

      Contudo, o caldeirão cultural desse novo estamento social é algo que merece ser destacado. É um estamento nascido no patriarcalismo do interior, carregado de valores retrógrados como o machismo muitas vezes e às vezes até misógina. A herança cultural desse estamento é de uma sociedade de interior que se urbanizou rapidamente, por isso muitas vezes certas práticas sociais são completamente estranhas.

       A incidência de casos de violência à mulher nesse novo grupo social é mais alta do que em outras parcelas populacionais, bem como os casos relacionados a homofobia e maus tratos à criança.  Não que outras classes não tenham esse comportamento, mas é um comportamento que incidentemente é maior na nova classe em ascensão, por isso as campanhas de conscientização e um maior rigor da legislação para coibir esses casos e destruir a herança cultural de uma sociedade de cabreiro.

       Por falar em cabreiro, esse estamento tenta cada vez mais tomar consciência social ao se informar em notícias, que são vinculadas de forma rápida e facilmente inteligível em jornais diários, folhetins e telejornais. Tal como boa parte da população brasileira, boa parte desse estamento funcional reconhecem as palavras, sabe lê-las, mas tem uma dificuldade de interpretar as notícias de forma crítica. É uma espécie de analfabetismo funcional, isso é comum a muitas culturas americanas, não só as latino-americanas, mas até dentro dos Estados Unidos, onde o cidadão comum norte-americano tem dificuldade de digerir bem todas as notícias que vê no noticiário.

      O que é mais notável nesse grupo social é que a despeito das tentativas de um governo trabalhista em promover a renovação social, esse estamento é incrivelmente reacionário, caracterizando o complexo de pequeno-burguesia de Marx; Ele é contra por exemplo políticas de amparo às minorias, é misógino, homofóbico e marcado por uma mentalidade neopentecostalista, possui um rigor moral claro, mas não se desvencilha em nada dos programas de amparo promovido pelo governo, seja bolsas, cotas ou mesmo simples abatimento fiscal.

      É um estamento que querendo ou não está sendo criado artificialmente pelo governo, mas que também surgiria normalmente conforme o progresso da economia. Esse estamento ainda marcado pela corrente do populismo e coronelismo do interior é bastante grato pelas mudanças sociais promovidas sob decreto de pena do governo federal e constitui a base eleitoral do governo atual. O que não é propriamente errado, só é uma contextualização.

      Eu considero o comportamento dessa nova classe social algo completamente novo para os padrões brasileiros, pois ela tem sede por ter conhecimento, ter emprego e ser integrada na sociedade de igual com outros grupos sociais já existentes, mas ela própria ainda desconhece o real sentido da democracia. Ela condena veemente a corrupção pelo aspecto moral, mas às vezes considera que no âmbito social ela pode ser até aceitável, com relação ao suborno ou o "jeitinho brasileiro".

      Essa "nova classe" nasceu marcada por uma cultura da violência, onde a violência passou a ser uma marca social. Ela sabe muito bem o papel perverso do Estado na ação policial, ela não acredita piamente no papel da polícia como garantidor da justiça ou ordem social (e a análise dela é correta), mas também não é muito conivente com o crime, muitas vezes são pessoas desse estamento que acabam engrossando as fileiras do discurso "bandido bom é bandido morto". Essa mentalidade justifica os autos índices de audiência de programas policiais de baixa qualidade na televisão aberta.

     O que é mais interessante é o carácter heterodoxo de seu puritanismo, a sua ética protestante para usar a análise de Weber, sim, o neopentecostalismo  hoje ameaça as fileiras do catolicismo que demorou muito para se renovar e a sua variação popular conjugada com ritos diferentes dos tradicionais rituais da Igreja seduziu muita gente com promessas de fortunas, dinheiro e ascensão social a partir da fé e do dízimo.  É interessante que essa cultura marcada por uma religiosidade cristã bastante clara admita outras crenças no seu interior, seja a ideia de que existe realmente feitiçaria, macumba, que horóscopo possui um fundo de verdade, assim como mapa astral, e até mesmo se possa fazer trabalhos para conseguir o bem de algum familiar. No pior dos casos, as pessoas são levadas por um amor cego à religião que gera um fanatismo tamanho que se cegam a outras realidades, levando a fazerem cirurgias espirituais, pregarem em prostíbulos e profetizar " a única verdade".

       É curioso pois ao mesmo tempo que isso é feito, esse estamento também gira em torno do "pecado", do desejo lascivo pelo sexo, pela completa sexualização da sociedade, que admira bem o papel do corpo da mulher, que além do fato, ainda crê que a despeito da religião, o carnaval é um ritual sacro e que a festa não  pode ser interrompida em muitos casos, para depois haver a autopunição moral que é se purificar no domingo de manhã na Igreja. É incrível que nesse estamento surja a figura da "piriguete" que apesar de tudo é menina de Igreja.

       A juventude é ainda um tema mais complicado, pois ela não segue o padrão cultural de seus pais, ela está além disso, mas ela ainda não se enquadra no padrão da sociedade de consumo então é uma juventude literalmente à margem do que ela mesmo espera, se tornar uma juventude com poder aquisitivo igual a da classe média alta. O desejo é tamanho que ela busca a sua identidade a partir de manifestações culturais próprias, a música, aí entra o funk. O estilo de se vestir (roupas de funkeiro ou moda Neymar), e o palco de atuação social, o rolezinho.

       O rolezinho é o som dessa juventude da periferia que não é mais dominada pela pobreza, que quer ser encarada de outra forma e ser vista assim como a  juventude da classe média "coxinha". As jornadas de julho inspiraram diretamente os rolezinhos, afinal de contas a manifestação da juventude da classe média tradicional deu o exemplo que pode fazer um barulho e ter aquela mobilização de massa contra uma ordem social que ela mesma já considera diferente de seu projeto político, daí, o rolezinho é uma tentativa de imitar esse espirito de contestação só que tomando atenção não para a classe média tradicional, mas para a inserção social do novo grupo social em ascensão.

       Eu francamente considero esse um momento chave da dinâmica social brasileira nos últimos cinquenta anos, onde as barreiras de segregação social estão se alargando e até mesmo sendo minadas em alguns pontos, não digo propriamente que esse novo comportamento social trará bons resultados no futuro, mas abrirá um aspecto de debate, pois em todo país capitalista que se diz desenvolvido existe uma classe média como meio de regulação das tensões entre as classes sociais, e dentro dela se geram debates da própria sociedade. Cada grupo social possui seu próprio interesse e por isso estabeleci a diferenciação entre a "nova classe média" e "a classe média tradicional", pois são grupos que tem interesses diferentes entre si, projetos sociais mais diferentes ainda e uma rivalidade surda com as questões sociais.

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