Acima do bem e do mal repousa todas as coisas que concernem a natureza humana.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Brasília

Quando penso nos imensos jardins
Carregados de ipês, jatobás e buritis
Lembro-me da grama queimada
de julho, da secura de agosto
E do calor causticante da seca

Os pilotis, os blocos de concreto
Ficam cada vez mais impessoais
Numa anedota modernista
Em plena savana brasileira

A terra vermelha tornar-se um barro duro
Uma madeira porosa que carece d'água
E a despeito da artificialidade dos prédios
Do urbanismo matemático
Sobrevivemos dia após dia

Brasilia das curvas
Brasília dos traçados das tesourinhas
Brasília dos blocos de pilotis da 400
Ou dos prostíbulos da W3

Brasília dos ministérios
Do pastel da Viçosa
Do Conic e Conjunto Nacional

Brasília dos oportunistas
Dos trabalhadores
E dos jovens vagabundos

Brasília dos bares,
das igrejas,
dos protestos
Mas não de praia

Brasília é tão vibrante
Tão quente
E tão parada ao mesmo tempo

Ela é tão inconstante
Tão alucinante
Que só poderia ser mulher

Nunca sei o que Brasília espera
Nunca desejo entender o que ela gera
Os apartamentos funcionais,
O Eixo Monumental,
Os jardins da UnB

Onde está o parque da cidade?
Será um parque ou um parkshopping?
Onde estarão as escolas?
Serão escolas-parque ou será o LaSalle?

O ponteiro do relógio
de Taguatinga
censura o atraso
E o busto do memorial JK
Aponta para um futuro clandestino

A Catedral toca os seus sinos,
A Biblioteca Nacional não tem livros
Um bicicletário dentro da rodoviária
Para um mundo engarrafado de girassóis

Nos arcos delgados do CCBB
Dos anéis dos salões da Câmara
Das sessões noturnas do Cinebrasília
Observado de longe pelo arranha-céu do Banco Central

A grande fazenda de Luziânia
Cresceu e virou capital do Brasil
Na forma do arquiteto descuidado
Brasília nasceu da poeira e do barro

A Torre de Tevê
O Palácio do Itamaraty
O CCBB
A sombra do buriti

Brasília é uma cidade estranha
De grama queimada
e árvores retorcidas

Brasília não tem morro,
também não tem praia
Não tem esquinas
Somente ruas sem nome

Pegue seu camelo
E desbrave esse deserto
No meio do Planalto Central

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